Altmetria para bibliotecários

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Saiu o aguardado livro da Andréa Gonçalves sobre altmetrics. O livro é resultado da pesquisa dela no mestrado e é ótimo porque mostra vários exemplos de aplicação de altmetria na prática, diferente da maioria dos artigos acadêmicos que apresenta somente o conceito.

O livro não foi escrito somente para bibliotecários, mas acho que nós temos aqui uma chance enorme de aprofundar ainda mais nessa coisa de métricas acadêmicas alternativas.

A gente acaba atuando mais ou menos como consultores dentro das discussões institucionais sobre a comunicação científica e a definição do impacto da pesquisa, os professores estão sempre tirando dúvidas com a gente sobre os indicadores de impacto, não é verdade? Quem também lida diretamente com assinaturas de periódicos e hospedagem de conteúdo em repositórios, por exemplo, vai começar a pautar as decisões de aquisição e renovações de assinaturas a partir do volume de conteúdo compartilhado e reverberado na web. Além disso, nós normalmente somos os responsáveis pelas atividades de mediação e treinamento dos usuários em gestão de informação científica e sobre mídias sociais e ferramentas como Mendeley, Google Scholar, YouTube, Slideshare e blogs. Por isso que a Altmetria pode e deve tornar-se uma parte mais comum do ferramental das bibliotecas acadêmicas e especializadas.

O ebook está disponível nas principais lojas online. Vejam aqui o release completo: Altmetria para bibliotecários Guia prático de métricas alternativas para avaliação da produção científica

Aplicativos mobile em bibliotecas brasileiras – parte 2

Eu quis dar uma atualizada neste post de 2012 depois de constatar duas coisas. A primeira é que cerca de 20% dos acessos ao catálogo da UFRJ são via mobile (smartphones ou tablets). A segunda é que as buscas por “biblioteca” nas lojas de aplicativos (appstore e google play) trazem quase nada relacionado à bibliotecas propriamente.

Ou seja, a primeira preocupação é saber quantos de nossos sistemas (pergamum, aleph, sophia, etc) foram atualizados nos últimos anos para oferecer aos usuários pelo menos um design responsivo do catálogo. A maioria desses OPACs já conta com a possibilidade de fazer reservas e renovação online, o que é ótimo, mas poucos ainda são otimizados para mobile.

Não sei qual é a impressão de vocês, mas a mim, 20% de acessos, 1 a cada 5 usuários acessando o catálogo, é bastante. Essa estatística é proveninente de um grande sistema de bibliotecas universitárias, talvez não seja a realidade de vocês, mas aqui está se tornando cada vez mais comum os usuários chegarem com os números de chamada a partir de telas ou prints que eles tiram acessando o catálogo direto no celular, mesmo quando a biblioteca oferece computadores dedicados para isso. Acabou aquela história de anotar número de chamada no papelzinho.

Pois bem, a solução para o primeiro problema (um número cada vez maior de usuários acessando o catálogo da biblioteca via mobile) seria oferecer um aplicativo da biblioteca, algo simplificado que permitisse a consulta ao acervo, ou algo mais elaborado que permitisse o login a partir do app, para fazer reservas e renovações. Se desenvolver apps é complicado, então que pelo menos o design do catálogo seja responsivo.

Vejam a diferença entre um site responsivo e outro não. A tela de USP aparece limitada, o site é visto exatamente como na tela do desktop, você precisa usar o scroll horizontal. Não é o fim do mundo, mas é chato.

USP

Já a tela do MIT é responsiva, o conteúdo do site se adequa ao espaço da tela do celular. Bem melhor.

mit

O catálogo da USP em si não é responsivo, utilizei apenas como exemplo. Mas o problema foi resolvido com a criação de um app. Conversando com o Murakami sobre o aplicativo deles, que é um dos poucos na app store que contêm essas especificações elaboradas que mencionei acima, ele explicou que o app utiliza uma parte do X-Services no Aleph, uma parte do Restfull do Primo, mais uma parte da autenticação na USP. Ou seja, é uma adaptação, mas inteiramente funcional. Se as estatísticas servem de estímulo, o aplicativo das bibliotecas da USP é bastante usado, com mais de 5000 instalações em cada plataforma (android e ios).

Sobre o segundo problema (buscas por “biblioteca” nas lojas oferecem resultados de diferentes aplicativos, mas poucos diretamente vinculados à bibliotecas), acho que seja um reflexo do primeiro (baixa oferta de apps). Então fica a expectativa de que nós bibliotecários podemos fazer melhor no futuro.

Dentre os aplicativos de biblioteca que podem servir de exemplo estão o da USP, Unesp, Unicamp, Uenf, UCS e Univates.

Home da Unicamp

unicamp

App da UFRGS que inclui a biblioteca dentre todos os serviços da universidade

UFRGS

App da Univates que mostra a localização do livro nas estantes

univates

App da USP que mostra a geolocalização das setoriais

USP

Pokémon Go em bibliotecas – uma péssima ideia?

Essa é a parte 2 sobre Pokémon Go em bibliotecas. A parte 1 está aqui.

Pokémon Go já causou várias tretas e episódios policiais bizarros, como isso aqui:

Departamentos de polícia ao redor do mundo e funcionários de diversos locais públicos foram obrigados a publicar avisos, lembrando os usuários #pokemongo a fazer coisas simples como olhar para os dois lados antes de atravessar a rua e não passear em áreas escuras e desconhecidas à noite. Já teve caso de gente tendo seus celulares roubados e até mesmo quem levou tiro por ter entrado sorrateiramente na casa dos outros.

Na maioria das cidades os jogadores de Pokémon Go estão aparecendo nas bibliotecas, mas segundo alguns bibliotecários isso só levou a um aumento no lixo nas cercanias. Como era de se esperar, nem todo mundo está impressionado com o cruzamento improvável entre livros e jogos de smartphones.

Embora a gente ache importante ter pessoas entrando e frequentando a biblioteca, a maioria dos que vão até lá em busca de Pokemon não se envolveram com atividades das bibliotecas em nenhum momento. Essa é uma das principais frustrações dos bibliotecários quando tentam realizar iniciativas que fogem das atividades tradicionais da biblioteca. Afinal, onde está a linha que separa aquilo que é conveniente dentro dos preceitos de uma biblioteca (pública ou escolar, especialmente) e algo que pode ser entendido como uma “forçação de barra” no desejo dos bibliotecários de ter mais gente frequentando as bibliotecas?

No caso do Pokémon Go, ele pode ser uma grande distração para aquelas pessoas que não são jogadoras. Imagine que um usuário, daqueles que tá sempre na biblioteca, está sentado fazendo sua pesquisa ou leitura sossegado, e de repente ele sente uma pessoa, que ninguém nunca viu frequentando a biblioteca, de pé a seu lado, os olhos fixos na tela do celular (psico). Ele pode até ignorá-la, mas daí ouve gritinhos, perturbando sua paz mesmo através dos fones de ouvido. É meio chato mesmo. No final das contas, o que deveria ser bom para a abertura das bibliotecas, pode terminar sendo prejudicial se os espaços são preenchidos com jogadores de Pikachu que estão lá mais para atrapalhar do que curtir.

Um outro problema é que o aplicativo tem o potencial para ser um pesadelo da privacidade. Além do acesso completo à conta do Google, o aplicativo pode rastrear e armazenar dados de localização e GPS do telefone dos usuários, permitindo que os desenvolvedores vejam fisicamente onde cada um dos jogadores esteve. A empresa de desenvolvimento de aplicativo comentou sobre as preocupações dos usuários e afirmou que a solicitação de acesso total à conta foi um descuido. Recentemente, eles lançaram uma atualização para reduzir as permissões dos pedidos do aplicativo.

Algumas bibliotecas podem não ficar muito satisfeitas em ter um bando de jogadores de Pokémon no caminho da sua clientela habitual, mas o lance é, pelo menos, alguns desses jogadores entrariam na biblioteca de qualquer maneira. Vamos acreditar que a maioria dos jogadores de Pokémon Go são relativamente tranquilos e educados, e querem fazer nada mais do que sentar ou ficar em um lugar seguro por um tempo e olhar atentamente para os seus telefones. Fazê-los sentir-se em casa pode levá-los a retribuir de algum modo e fazer o seu melhor para ficar fora do caminho dos outros usuários. Além disso, eles não vão jogar Pokémon o todo o tempo, especialmente depois que a moda passar, mas eles poderão se lembrar que as bibliotecas foram legais e fez senti-los bem-vindos naquele momento.

Ou seja, muitas bibliotecas e outras instituições estão tentando lucrar com a mania. Será que a sua biblioteca deve fazer o mesmo? Há um equilíbrio a ser alcançado, mas se conseguirmos atrair mais visitantes sem quebrar muito a nossa rotina, pode ser uma boa iniciativa. As bibliotecas devem decidir se têm os espaços e recursos adequados para gerenciar o tráfego de pessoas que pode vir com a permissão ao jogo.

A gente pode até ficar meio puto com a zueira, o barulho, o lixo, mas também não devemos nos importar com os viciados congregando por pouco tempo dentro ou fora da biblioteca. Certamente é um grupo que não tem má intenção, eles estão apenas perseguindo Pokémons, ora bolas.

A Niantic deu a entender que o aplicativo continuará a ser desenvolvido para oferecer possibilidade de negociação entre os jogadores e mais modalidades de competições, o que pode ser benéfico para as bibliotecas.

Cafés e livrarias se enchem de jogadores do Pokémon Go, e isso pode atrapalhar a dinâmica das lojas junto aos seus clientes consumidores. Mas, para lugares como as bibliotecas, que tem mais dificuldade em atrair os clientes normalmente, Pokemon Go pode ser uma janela de oportunidade.

Pokémon Go em bibliotecas – sugestões de atividades

Com o lançamento do Pokémon Go, o mundo oficialmente perdeu o senso do ridículo. #pokemongo. Vou pular a parte que explica o que são os pokemon ( “pocket monsters”, “monstros de bolso”) e tentar, de alguma forma, pensar como o Pokémon Go pode ser importante para as bibliotecas. Essa é a parte 1 dessa empreitada.

Vamos ter em mente que o foco do Pokémon sempre foi o trabalho em equipe, a amizade, a dedicação e a determinação. Coisa [infantilizada que japonês] que crianças e jovens adoram. E que o jogo original foi seguido por uma franquia que inclui graphic novels, filmes, cards e outros vídeo-games, conteúdo que se encaixa em qualquer biblioteca moderna.

A mais recente adição à marca Pokémon, o Pokémon Go, é um aplicativo gratuito que utiliza mapas em tempo real para criar um “mundo” onde os jogadores podem explorar e capturar os Pokemon. O jogo foi lançado nos Estados Unidos e outros países, mas ainda não no Brasil. A expectativa é que o nosso país entre na lista em breve, abraçando a febre #pokemongo e trazendo sentido de existência a este singelo post.

COMO #pokemongo FUNCIONA

Pokémon são criaturas com vários poderes especiais e ataques, e no jogo, você é seu treinador. O objetivo é coletar o máximo de bichinhos (usando um dispositivo chamado Pokéball), treiná-los para ser mais fortes e vencer as batalhas contra outros treinadores em troca de pontos, emblemas e dinheiro.

Na versão Go você tem que caminhar fisicamente pelo bairro/cidade para encontrar os Pokémon e suprimentos, a fim de se manter no jogo. Para reunir suprimentos, você tem que andar até os PokeStops. Isto é o que está acontecendo quando você vê no youtube um monte de gente vagando em conjunto com os olhos fixos no telefone.

Depois de atingir certo nível os usuários podem escolher equipes, lutar pelo controle dos “gyms” e definir a localização de “iscas” específicas, que servem também para atrair os Pokémon que beneficiam os usuários próximos daquele local. Essa é uma tática que as bibliotecas podem usar para chamar jogadores.

Atualmente, os usuários têm pouco controle sobre como são designados os PokeStops e os gyms. No entanto, mesmo que sua biblioteca não tenha sido designada ou não está localizada próxima de um Pokestop, você pode colocar essa “isca” para atrair outros Pokemon durante um período de tempo (custam mais ou menos R$5 nas lojas de aplicativos).

Nem todas as bibliotecas vão ter a sorte de ter essa parada/stop na sua vizinhança, e a empresa que criou o jogo ainda não tem uma maneira 100% efetiva para que as empresas solicitem se tornar um Pokéstop. Mas é aqui que as bibliotecas têm uma vantagem fundamental, porque o banco de dados de localizações de objetos Pokémon foi importado a partir de locais que concentram um grande número de transeuntes, e que estão abertos a maior parte do tempo, como por exemplo praças, monumentos, parques e edifícios públicos.

Como posso fazer minha biblioteca se tornar uma parada ou usar iscas no Pokémon GO? Isso ainda não é possível porque o jogo não foi lançado no Brasil. Mas queremos estar prontos, e quando chegar o momento, você pode enviar um pedido através do site do criador do jogo, Niantic – embora a lista de pedidos seja bastante longa a essa altura.

VANTAGENS PRA BIBLIOTECA

A franquia do Pokémon inclui livros, mangás, séries. O componente de alfabetização e leitura está lá. Mas acima de tudo, é nada menos do que uma forma divertida de se relacionar com alguns dos nossos usuários.

Pokémon Go pode ser uma boa estratégia para promover a sua biblioteca, mas principalmente, uma oportunidade para a socialização e minimizar o choque de gerações, promovendo os conceitos de espaços físicos de interação e mobilidade, tanto humana quanto digital. Os jogos baseados em localização representam um grande potencial para locais como bibliotecas e museus, e devemos olhar com carinho para essas tecnologias digitais interativas que podem dar vida às nossas coleções e espaços.

É também a chance de ter pessoas que normalmente não frequentam bibliotecas entrar e olhar por cima de seus smartphones por um momento e perceber que as bibliotecas mudaram muito nos últimos dez anos, pra melhor.

E a gente gosta de ficar por dentro do que está acontecendo e é novidade, não é verdade?

Provavelmente dentro de poucas semanas #pokemongo já vai estar saindo de moda, mas se a gente conseguir entrar no fenômeno cultural na hora certa, quem sabe conseguiremos melhorar a credibilidade da biblioteca na praça, por assim dizer.

SUGESTÕES DE ATIVIDADES

Qualquer biblioteca que queira transformar essa moda em vantagem pode elaborar as seguintes atividades:

+ Sinalização de boas-vindas

+ Postagens sobre Pokémon Go no Facebook da biblioteca

+ Fazer uma exposição de livros e/ou lista de leitura sobre Pokemon

+ Solicitar um stop/gym para a biblioteca

+ Oferecer uma isca

+ Programas pokemon, tais como encontros na biblioteca e caminhadas no bairro

+ Decoração Pokémon, com banners e folders

+ Criar um time da biblioteca

Os bibliotecários são bons em encontrar respostas para perguntas difíceis. Se os usuários da biblioteca precisam de conselhos sobre como jogar, como encontrar PokéStops e ginásios na área, como definir iscas, como se engajar na conversa de mídia social sobre Pokémon Go e como sugerir uma localização de Pokéstop ou gym, o pessoal da biblioteca pode ajudá-los.

Já existe um grupo no facebook só para trocar informações de Pokémon Go em bibliotecas. Vocês podem acompanhar lá as novidades e sugestões de atividades: facebook.com/groups/pokelibrary

Por que bibliotecário?

– Todos os bibliotecários possuem formação universitária em Biblioteconomia, com algumas variações em nível de graduação para Documentação, Gestão da Informação e Gestão de Unidades de Informação. Outros podem ser considerados, ainda, cientistas da informação, já que além da graduação em biblioteconomia, fizeram mestrado ou doutorado em Ciência da Informação.

– Há um milhão de bibliotecários no mundo. Um milhão de especialistas em informação não podem ser deixados de lado.

– Os bibliotecários são uma parte essencial da gestão de ativos digitais, da arquitetura de informação e da recuperação do conhecimento estratégico para aqueles que disso necessitam.

– Os bibliotecários leem e analisam mais livros do que qualquer outro grupo no planeta. Os bibliotecários são uma fonte confiável de recomendações de livros e treinados para assessorar o leitor.

– Para os autores, os bibliotecários são um recurso indispensável para a divulgação e venda de seus livros.

– Os bibliotecários têm trabalhado durante décadas na estruturação da informação e do conhecimento, e identificado tudo através de metadados.

– Os bibliotecários são especialistas na recuperação de informação e podem recomendar informação personalizada adequada para o usuário.

– Os bibliotecários fazem a conexão entre as pessoas e as informações que elas estão procurando, e as informações que elas nem sequer sabem que estão procurando.

– Os bibliotecários são treinados para pensar na relação entre um leitor e qualquer pesquisa que ela ou ele esteja fazendo, seja uma busca inconsciente ou algo objetivo, e direcionar tanto a pessoa para a informação como a informação para o leitor.

– A consciência das bibliotecas por justiça social e a atenção para com os carentes só faz aumentar o seu valor. Os bibliotecários são defensores da redução da exclusão digital.

Sempre haverá fontes de informação para organizar. Sempre haverá pessoas que precisam de informações. Sempre haverá a necessidade de bibliotecários digitais. Sempre haverá a necessidade de bibliotecários.

[tradução de Why Librarians? de Michelle Zaffino]

Conselhos a um jovem bibliotecário

Dentro de algumas semanas eu completo 10 anos de formado. Já estou em uma descendente profissional no sentido de que não preciso mais de uma conta no linkedin. E o mais importante, é reconhecer as limitações que a constante atualização da área exige e abrir espaço para os bibliotecários mais jovens, torcer que façam coisas novas e boas.

Olhando em retrospecto, muita coisa interessante aconteceu, muitas experiências. Mas o melhor que eu poderia oferecer para a área já fiz, o melhor que eu poderia dizer, já disse. Daqui pra frente, será apenas o trivial. Eu só quero continuar fazendo minhas coisas decentemente na minha bibliotequinha, compartilhar meus tweets e gifs de gatinhos no facebook.

Talvez outros colegas da minha geração despontem como representantes de importantes setores na área: um diretor de uma grande biblioteca aqui, um gestor de sistema ali, uma defensora de uma política importante para a área e assim por diante. Eu sempre falei que a responsabilidade da nossa geração, desses bibliotecários formados entre o final de 90 até 2010, era a transição da biblioteca em papel para a biblioteca plenamente digital. O fim dos catálogos de ficha. E salvo pequenos percalços, cumprimos bem esse papel.

Passados esses anos e olhando para trás, pensando no meu eu calouro de faculdade, será que existe uma fórmula para uma carreira decente? Profissionalmente falando, que conselhos você daria a si mesmo aos 18, 20 anos? Foi essa pergunta que fiz aos colegas no facebook e acho que é importante dividir aqui, não só pra servir aos futuros bibliotecários, mas também como nossa chance de fazer a avaliação e auto-crítica profissional.

Particularmente, além de mantras óbvios como trabalhar duro e assumir riscos, eu acredito muito em sorte. Não a sorte no estilo auto-ajuda, mas ei, várias cagadas aconteceram comigo, e não dá pra desconsiderar. Uma das mais importantes foi ter me formado justamente em um período que o país estava fervendo economicamente. Várias bibliotecas estavam sendo construídas do zero. Carreiras de internet com nomenclaturas que dois anos antes nem existiam, estavam explodindo. Estar no lugar certo, na hora certa é mais sorte do que preparação. Cagadas acontecem. Saiba tirar proveito.

Bem, muitas dicas poderiam ser dadas aos jovens bibliotecários. O post do facebook está lá para sua apreciação, com diversos conselhos, muitos que escritos de diferente formas, transmitem a mesma ideia. Separei aqui aqueles com que mais concordo:

Suzana Huguenin: Faça amizades na faculdade, você poderá precisar delas profissionalmente depois

Louise Arruda: aproveite o máximo que a faculdade te oferecer, matérias de outras áreas que te interessem, cursos de extensão, projetos de pesquisa, cursos de línguas mais baratos, possibilidades de intercâmbio, enfim, não tenha pressa pra terminar o curso – absorva o máximo que puder da universidade.

Amanda Moura: 1)Estude inglês. 2) Você não precisa ser um programador, mas precisa aprender pelo menos a usar bem a tecnologia. 3) Faça estágios em empresas da área que você gostaria ou pretende trabalhar. 4) O estágio só existe porque vc faz faculdade. Portanto, não falte aula ou deixe de estudar pelo estágio. 5) Se achar o curso chato, achar que poderia fazer outra coisa na vida, tranque o curso. 6) Se tiver intenção de continuar na área acadêmica, seja bolsista de iniciação científica. 7) Aproveite a faculdade, beba com os amigos, tenha conversas de corredor, interaja com pessoas de outros cursos, participe de ENEBDS E EREBDS. Essas coisas ajudam mais a se colocar no mercado que puxar saco de professor.

Gustavo Henn: Leia todos os livros que puder

Angelina Pereira: Não encare o estágio como um emprego único e eterno. Vivencie essa experiência rica em outras instituições

Ana Maranhão: Em pouco tempo tudo que aprenderam estara ultrapassado ou parcialmente ultrapassado. Estejam conectados, mantenham-se atualizados, leiam blogs, estejam permanentemente abertos a novas tecnologias.

Heres Emerich: Não ligue para notas, elas não ligam pra você. Ser aprovado é importante. Faça contatos na área na sua cidade e no resto do Brasil e do mundo se puder. Faça mais contatos ainda com a galera das outras áreas. Não subestime a importância do bar. Não subestime a importância da estrada. Esforce-se para entender como sua instituição funciona (burocrática e culturalmente), lute pra mudar o que achar errado. Depois esforce-se para entender como seu país funciona (burocrática e culturalmente), lute com todas as forças para mudar o que achar errado.

Anelise Duarte: Seja bolsista, faça dos seus professores não só seus mestres, mas seus futuros colegas, amigos de profissão. Escreva. Sempre anote as suas ideias, elas podem ser muito úteis num futuro próximo. Participe dos eventos estudantis. Eles abrem portas e abrem as mentes tb. Seja membro ativo do diretório acadêmico, saiba quem te representa. Estude, leia, ouça música e acredite que você vai aprender muito mais do que guardar livros.

Carla Rech: encare o interior do país como possibilidade de trabalho (tem muitas boas vagas no interior que são pouco disputadas); se tiver a oportunidade faça intercâmbio, com o tempo suas obrigações aumentam e a chance de viver essa experiência diminui

Carla Castilhos: pensa bem antes de pegar qualquer estágio, conversa com os colegas pq tem uns vários que são furada; faça cursos e mais cursos e aproveite os descontos para estudantes. e o mais importante: a faculdade passa, a profissão é o que fica. se o curso é xarope não necessariamente o emprego depois vai ser

Zé Estorniolo: Troca de curso!! rss

Dora Steimer: Os conselhos nunca mudam. As pessoas mudam.

Com certeza dá pra destrinchar mais esses conselhos. Eu ainda tenho o projeto, trivial, de escrever o “tudo que você sempre quis saber sobre biblioteconomia mas tinha vergonha de perguntar”. Estes conselhos farão parte de um dos capítulos finais.

Dar conselho é mole, se todos fossem bons, ninguém daria de graça. Mas talvez essa seja a coisa mais importante da nossa pequena classe profissional: dá pra conhecer as pessoas de verdade, estreitar laços, estabelecer redes, fazer amizades, confiar nos seus conselhos. Eu não posso dizer o nome de todas as pessoas que me ensinaram, me apoiaram, trabalharam comigo e me aturaram. Mas eu gostaria de agradecer a todos elas. A profissão tem os seus dias de merda, repletos de gente acéfala. Mas tem também outros dias de glória, feitos por pessoas do bem, bibliotecários e usuários, que fazem valer a pena.

Work hard, play hard. Get lucky.

O futuro da biblioteconomia – o livro

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O perigo de escrever um artigo sobre os impactos da inteligência artificial em bibliotecas é que ele pode ao mesmo tempo celebrar o avanço da robotização em nossa atividade profissional e justificar a eventual extinção do bibliotecário. Seria uma contradição acreditar que a IA é uma ameaça para a força de trabalho em geral, mas individualmente nós permanecermos confiantes de que somos insubstituíveis. Então aqui vou eu.

Nas discussões sobre o futuro da biblioteca e da biblioteconomia (que se tornaram livro, falarei sobre ele mais adiante) meu argumento era que a inteligência artificial torna o bibliotecário descartável, e nesse sentido o movimento de IA e robotização poderia representar uma necessidade de mudança de foco na biblioteconomia.

Em termos gerais, a essência do trabalho do bibliotecário (organização de registros do conhecimento para fins de recuperação, que é o que nos difere de outros profissionais) continua sendo importante, mas a maneira como esse processo é realizado está mudando (eu explico essa mudança no meu capítulo do livro). A oportunidade seria que as bibliotecas podem capitalizar sobre o valor da IA para agilizar alguns processos, liberando recursos, que são limitadíssimos, para se concentrar em enriquecer a experiência dos usuários (em suma, digitalizar tudo o que possui sob sua salvaguarda e deixar que profissionais de outras áreas cuidem do resto).

O discurso do humanismo bibliotecário é que, inerente ao nome da IA, a inteligência é artificial. E a grande missão dos bibliotecários é a conexão humana: as bibliotecas podem conectar pessoas à informação e a outras pessoas. Mesmo com os robôs super sofisticados, ainda haverá muitas coisas que só os humanos conseguem oferecer, como a criatividade, a inovação, exploração, arte, ciência, entretenimento e cuidar de outras pessoas.

Certamente eu tenho um pé atrás com esse discurso, que deseja justificar a permanência dos bibliotecários em um mundo robotizado acreditando que estamos completamente de fora das forças capitalistas que promovem as mudanças reais. Além disso, o ponto mais importante a meu ver, é que defender o retardo da mudança tecnológica para preservar postos de trabalho é em certa medida o mesmo que defender uma punição sobre os usuários e a melhoria da experiência de uso de bibliotecas. Porque como consumidores e usuários, nós quase nunca resistimos à mudança de tecnologia que nos fornece melhores produtos e serviços, mesmo quando isso custa empregos.

Se a nossa área ainda não foi afetada seriamente pela robotização, é porque nós custamos pouco, somos baratos. Embora a sofisticação técnica indique o que pode ser automatizado, no entanto, é o quanto os robôs custam em comparação com o trabalho humano que impulsiona quando eles vão ser adotados. A principal razão para utilizar robôs em vez de pessoas é quando o robô pode tornar o custo da atividade menos caro de ser realizada. Mas o inverso também é verdadeiro. Quando as pessoas podem fazer algo que custa mais barato do que os robôs podem fazer, então não faz sentido econômico usar robôs. Esta é a teoria econômica básica aplicada ao trabalho.

Ou seja, podemos acreditar o quanto quisermos no papel humanista da profissão. Mas não podemos depois reclamar que fomos pegos de surpresa pelos robôs.

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O Murakami resgatou ontem o incrível texto da Lydia Sambaquy, escrito em 1972, sobre a biblioteca do futuro. “Como ela descreve como acha que seria a Biblioteca no ano 2000, seria lindo escrever uma resposta para ela, para falar no que nos tornamos.”

Não pretendo escrever a resposta, especialmente porque não há que o responder, ela acertou rigorosamente tudo. Só destaco alguns pontos:
– a preocupação naquela época com a organização da explosão bibliográfica (ou qualquer outro adjetivo catastófrico). Ninguém mais sofre com isso hoje (not information overload, filter failure);
– o medo da destruição universal dos livros (facilmente resolvido com a digitalização e impressão 3D, mas que cria outros problemas como os monopólios de informação com fins lucrativos);
– compreensão enciclopédica sobre os avanços de outras áreas (pra mim, a melhor definição da missão da biblioteconomia especializada: um conjunto de técnicas aplicadas ao implemento de outras áreas);
– a missão da biblioteca maior (pública, nacional) flutua entre o guardião (limitada) e o divulgador (nobre).

A maior assertiva é “A grande e significativa diferença que prevejo, nas bibliotecas do ano 2000, será encontrada na parte relativa ao controle dos assuntos de que trata a documentação reunida.”

Mas a meu ver, o ponto crucial é que ela diz que “Crescendo o registro dos conhecimentos científicos, tecnológicos, artísticos, literários, cresce, consequentemente a dificuldade e a importância da Biblioteconomia e Documentação como profissão”, que eu concordo ipsis litteris, exceto que a transição de um modelo de organização centrado em registros físicos para um modelo baseado em registros digitais, junto da consolidação do Google, nos levou a acreditar que o problema da recuperação estava finalmente resolvido. Obviamente este problema não está resolvido, mas a ideia de um pequeno grupo de autoridades em representações descritivas e temáticas competindo com um algoritmo incrementável é desoladora.

E exatamente este ponto que eu tento destrinchar no meu capítulo do livro: considerando que já contamos com uma base de organização e classificação estabelecida ao longo de anos, em grande parte graças aos próprios bibliotecários, e do constante acúmulo de dados nascidos digitais ou convertidos em digitais, robôs já fazem o trabalho de recuperação e contextualização de modo semelhante e farão melhor do que nós no futuro.

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O LIVRO

Há muito tempo eu tinha o sonho de ter um livro impresso publicado pelo Briquet mas nunca me esforcei para criar algo que estivesse a altura do seu catálogo (quem sabe um dia eu retome a crítica sobre a trilogia do Nitecki). Mas o tempo foi duro com os pequenos editores e o próprio Briquet já havia deixado claro que não pretendia mais publicar livros impressos, apenas e-books. Como os livros digitais são mais fáceis de distribuir eu tomei a liberdade de propor ao Briquet a publicação de alguns textos que haviam circulado por aqui sobre o futuro da biblioteconomia, a partir de uma provocação do Gustavo Henn.

O Briquet topou, e de comum acordo com os autores dos textos, liberamos o valor de capa para ser repartido entre a editora e a ABRAINFO. É um projeto interessante para todos os autores, porque oferecemos mais um material de consulta para as pessoas da área, consolidando textos que ficariam dispersos; a oportunidade de um grupo de pessoas que não escreveria em caráter de monografia ter seu texto publicado por uma editora de renome; a oportunidade de um grupo de pessoas que representa a transição do impresso pro digital trabalhar em cima de uma plataforma exclusivamente digital; a oportunidade de deixar registrado o discurso que marca a época atual e fazer o exercício de futurologia. Pro Briquet, acredito que a vantagem é expandir o catálogo, que também é uma coisa que eu sei que ele ressente, quando comparamos por exemplo a capacidade de produção intelectual de profissionais de outros países. Os bibliotecários brasileiros simplesmente não escrevem livros, tanto quando poderiam, ou preferem publicar apenas os textos acadêmicos que acabam por refletir e repercutir pouco a área, em sua maioria.

Eu ainda gostaria de propor algumas sugestões ao Briquet quanto à distribuição do livro, ou para os seus livros futuros. No nosso caso, não faria sentido ter um livro versando sobre o futuro que não estivesse na vanguarda das modalidades de publicação. Algumas pessoas reclamaram que o livro só é distribuído em pdf, mas eu vou pedir que tenham paciência e tenho certeza que em breve teremos mais opções de comercialização e distribuição de materiais da nossa área.

O livro está sendo vendido por módicos R$10, o preço de menos de duas cervejas. Lembrando que a grana é revertida em parte para o Briquet (ele tem todo o trabalho de revisar, diagramar, site, etc, suas funções como editor e continuar expandindo seu catálogo) e parte para a ABRAINFO (para que possa tocar suas atividades sem fins lucrativos e promover mais deste tipo de iniciativa).

São 6 capítulos divididos em duas grandes seções: utopias e distopias. O prefácio é assinado pelo grande Briquet de Lemos.

Tem o capítulo “O futuro é agora. Peraí… Chegou”, escrito pelo Gustavo Henn, onde ele lança os questionamentos que desencadearam na proposta do livro: O que nos diferencia de uma máquina? O que diferencia o bibliotecário de uma máquina? Ou melhor, o que faz um bibliotecário que uma máquina não pode fazer melhor? Gustavo indica três linhas de atuaçãos em que as máquinas já fazem melhor que os bibliotecários, então ele reflete sobre as atividades que ainda podem nos manter relevantes.

No capítulo 2, “O futuro da biblioteconomia é hoje” escrito pela Dora Steimer, ela traça uma distinção interessante entre o know how e o mindset dos bibliotecários, sobre como nós possuímos a mentalidade necessária para conversar de igual para igual com profissionais de tecnologia, oferecendo elementos que geralmente não são o foco de quem é de tecnologia da informação. Ela põe em xeque o que acontece hoje nas escolas de biblioteconomia, onde o aluno realiza um duplo esforço: aprender apenas a teoria na graduação, aprender sobre tecnologia apenas no mercado e literalmente se virar para fazer a ponte entre estes dois mundos.

Eu assino o capítulo 3, “Biblioteconomia em tempos de robotização”, já adiantei do que se trata acima.

Fabiano Caruso escreveu o capítulo 4, “Qual é a finalidade do trabalho bibliotecário?”, e discute a possibilidade de atualizar o sentido da formação profissional em biblioteconomia para o cenário digital e econômico emergente, em que o objetivo da atuação não tem relação com a disseminação da informação (meios), mas em prover uma experiência intelectual positiva (fins). Nesse sentido existem pelo menos três linhas de atuação profissional possíveis para o futuro: curadoria digital, colaboração e capacitação.

Na parte de distopias, tem o meu texto “O papel da biblioteca em face do apocalipse zumbi”, o título é auto-explicativo.

E pra fechar o texto sensacional da Marina Macambyra, “O apocalipse zumbitecário”. Em uma determinada noite de inverno em São Paulo, Marina sonhou com o futuro distante, e os bibliotecários há muito tido como extintos começaram a voltar. Os zumbitecários — como logo começaram ser chamados — nada faziam de errado ou realmente perigoso. Não atacavam, não mordiam, não tentavam devorar cérebros, apenas gritavam o quanto eram importantes e não reconhecidos, lembravam a todos da importância da padronização.

Espero que gostem. O livro está disponível na editora Briquet de Lemos.

O mito da neutralidade bibliotecária

Bibliotecas são de diversos tipos, mas podemos pegar algumas das principais bibliotecas públicas do Brasil para perceber que as categorias mais populares entre seus usuários estão no espectro de livros para concurso público, artesanato, quadrinhos, culinária, guia de viagens, autoajuda e saúde. Corrijam-me se eu estiver *profundamente* enganado.

Eu não sei o que isso pode dizer sobre nós enquanto sociedade, mas eu acho que explica alguma coisa sobre a biblioteca, com B maiúsculo. Por mais que a gente goste de vender a glória da biblioteca como uma instituição livre e um componente elementar de uma sociedade democrática, parece que, basicamente, as pessoas veem as bibliotecas como espaços recreativos.

E é desta mesma forma que eu, *pessoalmente*, vejo as inúmeras comunidades e grupos sobre bibliotecas e biblioteconomia na web: espaços recreativos, que eu frequento apenas para manter o capital social e nutrir o “fear of missing out”, mas não *necessariamente* para construir uma mentalidade ou posição crítica em relação a todas as coisas.

Foi um alento enorme ter encontrado ao longo destes últimos anos na nossa web local colegas bibliotecários que destoam da maioria conservadora da classe (me corrijam se eu estiver *profundamente * enganado) e que diariamente me oferecem uma curadoria dos seus interesses pessoais na forma de textos e links, que ajudam a moldar o meu posicionamento diante do mundo. Mas eu ainda sinto que falta muito para chegarmos ao nível de densidade das discussões promovidas pelos bibliotecários, por exemplo, americanos, espanhóis e franceses, publicando essencialmente em blogs. Basta comparar o tipo de conteúdo que costuma gerar repercussão nos blogs e redes de lá, com os daqui.

Fica a dica da leitura de livros como Questioning Library Neutrality: Essays from Progressive Librarian e The anarchist in the library, coisa que a gente não vê por aqui.

Tudo isso pra dizer que as “disputas” que aconteceram recentemente no grupo Bibliotecários do Brasil e na lista da ANCIB, em relação à defesa ou não do posicionamento da classe bibliotecária face ao “golpe” ou não, a mim me parecem meramente um desconhecimento sobre como a web funciona, mais do que uma divergência de posições políticas claras entre partes. Quando se questiona o papel de moderadores nestes grupos, falta entender que os moderados não precisam pedir permissão para ninguém para criar o que criaram, porque estão agindo em conformidade com os preceitos da web livre.

A neutralidade da rede se torna uma tragédia, porque justamente no momento em que celebramos o produto destas duas maravilhas – Facebook e o povão – os esclarecidos delegadinhos estão conspirando para remover as condições onde a comunicação não depende de permissão. É um paradoxo.

A minha máxima aprendida em mais de 10 anos publicando neste singelo blog, que contribuiu esparsamente para a promoção do entretenimento bibliotecário, com raros surtos de engajamento coletivo e discussões pertinentes, é “quem fala o que quer, precisa ouvir o que não quer”. Obviamente que ninguém em sã consciência vai defender o direito de ser genocida impunemente. Mas eu quero atentar exclusivamente para o quão despreparados nós estamos para estabelecer uma etiqueta da web quando a maioria de nós só passou a usá-la pouco tempo atrás e continua a usá-la apenas para fins de entretenimento.

Se posso fazer uma analogia, não ficaram sabendo do episódio da bot da Microsoft que se transformou em defensora do nazismo? Só que o robô foi deliberadamente programado para agir como um papagaio, reforçando o que outros usuários do Twitter a induziam a dizer. Na mesma perspectiva do que eu tento explicar – hermeticamente – acima, Tay o bot racista do twitter, nos faz temer a natureza humana, não a inteligência artificial. Se existe um problema de bolha na internet ou comportamento de manada, isso só diz respeito à um problema de filtragem de informação. E na minha humilde opinião, estão a exigir demais de um grupo extenso de microcéfalos. Quem são esses microcéfalos? Bem, podem começar por mim.

Ademais, no meu entendimento *pessoal* a propaganda de ambos lados (PT, PSDB, direita, esquerda, liberais, republicanos, como queiram) deseja defender o indefensável. O que é bastante diferente do que o grupo de bibliotecários pretendia com o vídeo, defender o óbvio: a crise é justamente quando precisamos defender o óbvio, e nesse sentido o vídeo e os textos abaixo estão cobertos de razão. Defendem apenas o estritamente defensável.

O Cristian (que aliás, eu fico feliz por usar o seu poder de hub para alimentar a discussão e botar a cara tapa, seguido de um grupo grande de bibliotecários em seus para lá de 30 anos marcando espaço em um movimento de mídia que, em tese, deveria partir dos bibliotecários mais novos – onde estão estes?) foi bastante claro em seu questionamento:

E bibliotecário pode se manifestar politicamente? A pergunta é de uma ingenuidade só. Afinal de contas, não se trata de uma questão de escolha. Todo mundo dá pinta, mesmo quando de bico fechado. É que o silêncio nos trai, hermanitos. Portanto, não peco contra a virtude da prudência ao me opor à mídia e ao sr. Moro em relação a Lava-Jato. Afinal de contas, prudência não se confunde com medo, letargia e, muito menos, covardia. “Prudentia”, palavra latina, pode ser traduzida como “sagacidade”. Não por acaso, é o nome atribuído a Craytus, o deus romano da guerra. Afirmo, tranquilamente, e sem medo de errar, que um bibliotecário prudente é aquele que, a partir do esquadrinhamento de um determinado quadro social, toma, corajosamente, partido — na guerra, sempre há dois lados, no mínimo –, convencido de que sua leitura de mundo é a mais adequada, a mais justa ou, no mínimo, a mais plausível. Isso não implica negar valor ao discurso do outro, mas em tomar para si certo protagonismo de uma história coletiva que vai de desenhando, certo de que o seu silêncio, embora pessoalmente vantajoso em certos aspectos, pode produzir dor e perdas na esfera pública.

O mesmo vale para o texto publicado na lista da ANCIB pelo Edmir Perroti,

Estamos vivendo uma guerra informacional (vazamentos, escutas telefônicas, bombardeio midiático…) Se outras existiram no Brasil, eram de teor distinto da atual, em volume e procedimentos. Acredito que uma associação de pesquisadores do campo informacional, por mais diferenças que- felizmente!- acolha, têm alguns entendimentos em comum (não teria?) Compartilhar com a sociedade o que é comum seria de grande valia nesta hora de perplexidade. Acredito que para todos nós, mesmo havendo nuances: a) Democracia é um valor acima de qualquer tipo de particularismo; b) Toda e qualquer divulgação de informação, no país, inscreve-se nos quadros dos valores democráticos afirmados em nossa Constituição e ganha sentido em relação a ele; c) A manipulação de informações por interesses de quaisquer espécies, é ato anti-democrático. Seus efeitos acarretam prejuízos à sociedade.

Ir a público para explicar de forma breve essas relações básicas entre Democracia e Informação, bem como manifestar preocupação com atos informacionais que não respeitam valores afirmados em nossa Constituição, é ato pedagógico e não político-partidário; agrega e não separa ou desconsidera diferenças. A hora pede contribuição, esclarecimento, compartilhamento. Não se espera panfleto, em especial de uma Associação como a ANCIB, cujos membros são especialistas renomados que se ocupam justamente de uma das questões que estão no centro dos problemas- as informacionais. É preciso dizer pouco, mas com clareza e serenidade: a matéria a qual nós, cientistas da informação, nos dedicamos- a Informação- não pode ser manipulada à revelia dos preceitos constitucionais por quem quer que seja. As consequências serão graves para todos, cientistas e não cientistas.

Marina, sempre certeira:

Bibliotecários aprendem – ou deveriam aprender – a selecionar e a analisar informação. Eu aprendi.

Bibliotecários devem ser capazes de de entender um texto a partir de uma leitura rápida e fragmentária e dizer do que se trata em algumas palavras. E precisam desenvolver a capacidade de entender um conteúdo qualquer expresso em palavras ou imagens com profundida suficiente para escrever um resumo objetivo e inteligível. Sim, bibliotecários aprendem isso, ou deveriam aprender.

Bibliotecários têm obrigação de desenvolver tolerância e compreensão com a diversidade humana, porque nas bibliotecas entram todo o tipo de pessoas que têm o direito de ser atendidas da mesma forma, sem discriminação nem preconceito.

Bibliotecários não podem ter dificuldades com interpretação de texto. Não podem, simplesmente.

Bibliotecários não podem ser preconceituosos, nem se recusar a combater o preconceito. NÃO PODEM.

Bibliotecários não podem se calar diante da escalada da intolerância por conveniência política nem marchar ao lado de fascistas.

Bibliotecários não podem espalhar notícias falsas pelas redes sociais e nem deixar de olhar criticamente para uma imagem. E nem acreditar cegamente em tudo o que leem na imprensa ou veem na TV.

Editorial a cinco mãos publicado na Biblioo:

Mas como acabar com a amorfia que existe na profissão se não discutirmos isso em grupos da área? Os bibliotecários não podem ficar à margem desse e de tantos outros acontecimentos vividos em nosso país. Somos seres políticos, toda ação do homem é política. Precisamos discutir política em todas as esferas, seja dentro da sala de aula, em eventos e também nas mídias sociais, sempre respeitando a opinião diferente, pois divergências sempre surgirão. Não podemos tolerar a censura nas mídias sociais ou em qualquer espaço de construção coletiva e democrática. Devemos rechaçar as manipulações, distorções, alienações ou favoritismos. Precisamos ter respeito às ideias contrárias e nos posicionarmos sem agressão às pessoas com opiniões divergentes.

E finalmente o vídeo:

Estamos em 2016 e “neutralidade” não significa imparcialidade e objetividade, mas muitas vezes soa como “indiferença”. Eu sou cético e pessimista, mas quero me enganar mais uma vez e ter a esperança que essas demonstrações públicas vão estimular ainda mais interesse e debate sobre o conceito de neutralidade entre os bibliotecários e quais brigas nós queremos brigar.

Lista com todas as revistas científicas de biblioteconomia e ciência da informação – atualização 2016

Atualizando a lista do Murilo, da Dora e tentando acompanhar a profusão de periódicos vinculados aos programas de pós-graduação em ciência da informação e correlatas. Serve pra quem quer seguir as publicações na área e pra quem deseja submeter artigos. Ao lado do nome está a classificação conforme webqualis/sucupira.

Analisando em Ciência da Informação (RACin) B5
AtoZ B5
Biblionline B1
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