Pokémon Go em bibliotecas – uma péssima ideia?

Essa é a parte 2 sobre Pokémon Go em bibliotecas. A parte 1 está aqui.

Pokémon Go já causou várias tretas e episódios policiais bizarros, como isso aqui:

Departamentos de polícia ao redor do mundo e funcionários de diversos locais públicos foram obrigados a publicar avisos, lembrando os usuários #pokemongo a fazer coisas simples como olhar para os dois lados antes de atravessar a rua e não passear em áreas escuras e desconhecidas à noite. Já teve caso de gente tendo seus celulares roubados e até mesmo quem levou tiro por ter entrado sorrateiramente na casa dos outros.

Na maioria das cidades os jogadores de Pokémon Go estão aparecendo nas bibliotecas, mas segundo alguns bibliotecários isso só levou a um aumento no lixo nas cercanias. Como era de se esperar, nem todo mundo está impressionado com o cruzamento improvável entre livros e jogos de smartphones.

Embora a gente ache importante ter pessoas entrando e frequentando a biblioteca, a maioria dos que vão até lá em busca de Pokemon não se envolveram com atividades das bibliotecas em nenhum momento. Essa é uma das principais frustrações dos bibliotecários quando tentam realizar iniciativas que fogem das atividades tradicionais da biblioteca. Afinal, onde está a linha que separa aquilo que é conveniente dentro dos preceitos de uma biblioteca (pública ou escolar, especialmente) e algo que pode ser entendido como uma “forçação de barra” no desejo dos bibliotecários de ter mais gente frequentando as bibliotecas?

No caso do Pokémon Go, ele pode ser uma grande distração para aquelas pessoas que não são jogadoras. Imagine que um usuário, daqueles que tá sempre na biblioteca, está sentado fazendo sua pesquisa ou leitura sossegado, e de repente ele sente uma pessoa, que ninguém nunca viu frequentando a biblioteca, de pé a seu lado, os olhos fixos na tela do celular (psico). Ele pode até ignorá-la, mas daí ouve gritinhos, perturbando sua paz mesmo através dos fones de ouvido. É meio chato mesmo. No final das contas, o que deveria ser bom para a abertura das bibliotecas, pode terminar sendo prejudicial se os espaços são preenchidos com jogadores de Pikachu que estão lá mais para atrapalhar do que curtir.

Um outro problema é que o aplicativo tem o potencial para ser um pesadelo da privacidade. Além do acesso completo à conta do Google, o aplicativo pode rastrear e armazenar dados de localização e GPS do telefone dos usuários, permitindo que os desenvolvedores vejam fisicamente onde cada um dos jogadores esteve. A empresa de desenvolvimento de aplicativo comentou sobre as preocupações dos usuários e afirmou que a solicitação de acesso total à conta foi um descuido. Recentemente, eles lançaram uma atualização para reduzir as permissões dos pedidos do aplicativo.

Algumas bibliotecas podem não ficar muito satisfeitas em ter um bando de jogadores de Pokémon no caminho da sua clientela habitual, mas o lance é, pelo menos, alguns desses jogadores entrariam na biblioteca de qualquer maneira. Vamos acreditar que a maioria dos jogadores de Pokémon Go são relativamente tranquilos e educados, e querem fazer nada mais do que sentar ou ficar em um lugar seguro por um tempo e olhar atentamente para os seus telefones. Fazê-los sentir-se em casa pode levá-los a retribuir de algum modo e fazer o seu melhor para ficar fora do caminho dos outros usuários. Além disso, eles não vão jogar Pokémon o todo o tempo, especialmente depois que a moda passar, mas eles poderão se lembrar que as bibliotecas foram legais e fez senti-los bem-vindos naquele momento.

Ou seja, muitas bibliotecas e outras instituições estão tentando lucrar com a mania. Será que a sua biblioteca deve fazer o mesmo? Há um equilíbrio a ser alcançado, mas se conseguirmos atrair mais visitantes sem quebrar muito a nossa rotina, pode ser uma boa iniciativa. As bibliotecas devem decidir se têm os espaços e recursos adequados para gerenciar o tráfego de pessoas que pode vir com a permissão ao jogo.

A gente pode até ficar meio puto com a zueira, o barulho, o lixo, mas também não devemos nos importar com os viciados congregando por pouco tempo dentro ou fora da biblioteca. Certamente é um grupo que não tem má intenção, eles estão apenas perseguindo Pokémons, ora bolas.

A Niantic deu a entender que o aplicativo continuará a ser desenvolvido para oferecer possibilidade de negociação entre os jogadores e mais modalidades de competições, o que pode ser benéfico para as bibliotecas.

Cafés e livrarias se enchem de jogadores do Pokémon Go, e isso pode atrapalhar a dinâmica das lojas junto aos seus clientes consumidores. Mas, para lugares como as bibliotecas, que tem mais dificuldade em atrair os clientes normalmente, Pokemon Go pode ser uma janela de oportunidade.

Pokémon Go em bibliotecas – sugestões de atividades

Com o lançamento do Pokémon Go, o mundo oficialmente perdeu o senso do ridículo. #pokemongo. Vou pular a parte que explica o que são os pokemon ( “pocket monsters”, “monstros de bolso”) e tentar, de alguma forma, pensar como o Pokémon Go pode ser importante para as bibliotecas. Essa é a parte 1 dessa empreitada.

Vamos ter em mente que o foco do Pokémon sempre foi o trabalho em equipe, a amizade, a dedicação e a determinação. Coisa [infantilizada que japonês] que crianças e jovens adoram. E que o jogo original foi seguido por uma franquia que inclui graphic novels, filmes, cards e outros vídeo-games, conteúdo que se encaixa em qualquer biblioteca moderna.

A mais recente adição à marca Pokémon, o Pokémon Go, é um aplicativo gratuito que utiliza mapas em tempo real para criar um “mundo” onde os jogadores podem explorar e capturar os Pokemon. O jogo foi lançado nos Estados Unidos e outros países, mas ainda não no Brasil. A expectativa é que o nosso país entre na lista em breve, abraçando a febre #pokemongo e trazendo sentido de existência a este singelo post.

COMO #pokemongo FUNCIONA

Pokémon são criaturas com vários poderes especiais e ataques, e no jogo, você é seu treinador. O objetivo é coletar o máximo de bichinhos (usando um dispositivo chamado Pokéball), treiná-los para ser mais fortes e vencer as batalhas contra outros treinadores em troca de pontos, emblemas e dinheiro.

Na versão Go você tem que caminhar fisicamente pelo bairro/cidade para encontrar os Pokémon e suprimentos, a fim de se manter no jogo. Para reunir suprimentos, você tem que andar até os PokeStops. Isto é o que está acontecendo quando você vê no youtube um monte de gente vagando em conjunto com os olhos fixos no telefone.

Depois de atingir certo nível os usuários podem escolher equipes, lutar pelo controle dos “gyms” e definir a localização de “iscas” específicas, que servem também para atrair os Pokémon que beneficiam os usuários próximos daquele local. Essa é uma tática que as bibliotecas podem usar para chamar jogadores.

Atualmente, os usuários têm pouco controle sobre como são designados os PokeStops e os gyms. No entanto, mesmo que sua biblioteca não tenha sido designada ou não está localizada próxima de um Pokestop, você pode colocar essa “isca” para atrair outros Pokemon durante um período de tempo (custam mais ou menos R$5 nas lojas de aplicativos).

Nem todas as bibliotecas vão ter a sorte de ter essa parada/stop na sua vizinhança, e a empresa que criou o jogo ainda não tem uma maneira 100% efetiva para que as empresas solicitem se tornar um Pokéstop. Mas é aqui que as bibliotecas têm uma vantagem fundamental, porque o banco de dados de localizações de objetos Pokémon foi importado a partir de locais que concentram um grande número de transeuntes, e que estão abertos a maior parte do tempo, como por exemplo praças, monumentos, parques e edifícios públicos.

Como posso fazer minha biblioteca se tornar uma parada ou usar iscas no Pokémon GO? Isso ainda não é possível porque o jogo não foi lançado no Brasil. Mas queremos estar prontos, e quando chegar o momento, você pode enviar um pedido através do site do criador do jogo, Niantic – embora a lista de pedidos seja bastante longa a essa altura.

VANTAGENS PRA BIBLIOTECA

A franquia do Pokémon inclui livros, mangás, séries. O componente de alfabetização e leitura está lá. Mas acima de tudo, é nada menos do que uma forma divertida de se relacionar com alguns dos nossos usuários.

Pokémon Go pode ser uma boa estratégia para promover a sua biblioteca, mas principalmente, uma oportunidade para a socialização e minimizar o choque de gerações, promovendo os conceitos de espaços físicos de interação e mobilidade, tanto humana quanto digital. Os jogos baseados em localização representam um grande potencial para locais como bibliotecas e museus, e devemos olhar com carinho para essas tecnologias digitais interativas que podem dar vida às nossas coleções e espaços.

É também a chance de ter pessoas que normalmente não frequentam bibliotecas entrar e olhar por cima de seus smartphones por um momento e perceber que as bibliotecas mudaram muito nos últimos dez anos, pra melhor.

E a gente gosta de ficar por dentro do que está acontecendo e é novidade, não é verdade?

Provavelmente dentro de poucas semanas #pokemongo já vai estar saindo de moda, mas se a gente conseguir entrar no fenômeno cultural na hora certa, quem sabe conseguiremos melhorar a credibilidade da biblioteca na praça, por assim dizer.

SUGESTÕES DE ATIVIDADES

Qualquer biblioteca que queira transformar essa moda em vantagem pode elaborar as seguintes atividades:

+ Sinalização de boas-vindas

+ Postagens sobre Pokémon Go no Facebook da biblioteca

+ Fazer uma exposição de livros e/ou lista de leitura sobre Pokemon

+ Solicitar um stop/gym para a biblioteca

+ Oferecer uma isca

+ Programas pokemon, tais como encontros na biblioteca e caminhadas no bairro

+ Decoração Pokémon, com banners e folders

+ Criar um time da biblioteca

Os bibliotecários são bons em encontrar respostas para perguntas difíceis. Se os usuários da biblioteca precisam de conselhos sobre como jogar, como encontrar PokéStops e ginásios na área, como definir iscas, como se engajar na conversa de mídia social sobre Pokémon Go e como sugerir uma localização de Pokéstop ou gym, o pessoal da biblioteca pode ajudá-los.

Já existe um grupo no facebook só para trocar informações de Pokémon Go em bibliotecas. Vocês podem acompanhar lá as novidades e sugestões de atividades: facebook.com/groups/pokelibrary

Um dia na FELIZS – Feira Literária da Zona Sul de São Paulo

Neste Sábado (19/09), fui no emocionante encerramento da FELIZS – Feira Literária da Zona Sul, uma grande festa literária capitaneada pelo imenso e lindo coletivo que forma o Sarau do Binho.

A festa se realizou na Praça do Campo Limpo, na periferia da zona sul de São Paulo, e destaco abaixo alguns dos momentos que mais curti.

Antes, é preciso dizer que é grande a felicidade de ver que a leitura toma um vulto muito maior que uma atividade ligada apenas ao livro, como por muito tempo ocorreu por aqui, contrariando a citação do mestre Paulo Freire que falava em leitura do mundo, algo muito mais amplo. E esse “povo lindo” (frase ouvida todas as terças-feira no Sarau da Cooperifa) anda lendo de tudo e nessas horas parece que agora, a leitura é educação, é brincadeira, é “evolução para construir uma revolução” (palavras do Binho).

Mas agora vou ao que interessa, algumas das leituras que vi, ouvi e senti:

– na Tenda Conversas Literárias foi ótimo ver a presença das mulheres escritoras da periferia na mesa Palavra de Mulher, com a Jenyffer Nascimento (poeta e articuladora cultural, autora de “Terra fértil” um dos mais belos livros de poesia que li no ano passado), Tula Pilar (poeta), Roberta Estrela D’Alva (atriz, MC e Pesquisadora) mediadas pela poeta organizadora do Sarau da Ademar, Silsil do Brasil. Belo!

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– Ainda na tenda Conversas Literárias, a presença de poetas e organizadores de vários Saraus paulistanos (Perifatividade, Cooperifa, Burro, Elo da Corrento, do Kintal, Preto no Branco, Suburbano Convicto, da Brasa, O que dizem os umbigos e outros) em uma grande roda falando suas melhores poesias foi histórico.

Na mesma tenda, tirando um e outro excesso de blá blá blá a programação foi muito boa, pois o foco a todo momento foi a possibilidade de mudança que a leitura possibilita, e como é importante a apropriação dela por qualquer pessoa e como isso pode modificá-la. O amigo bibliotecário Ricardo Queiroz, que curte um bom debate estava lá e diferente de mim, que admito, tenho certa preguiça em relação à falação e análises mais apuradas, fala muito bem sobre políticas públicas de leitura em seu blog, o KlaxonSBC, e ele acaba de publicar um texto que fala com muita propriedade sobre as Feiras Literárias Periféricas que ocorreram em São Paulo essa semana e o que elas representam. Entrem lá: http://klaxonsbc.com/2015/09/20/muito-mais-do-que-feiras/. 

– as oficinas de xilogravura dos lindos do projeto Xiloidentidade, reuniram tanta gente que em menos de duas horas já não havia mais material para tantos interessados em criar seus próprios textos/mensagens e imagens a partir da gravação em madeira, mantendo viva a chama da cultura nordestina em São Paulo.

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– na Tenda das Crianças, rolaram oficinas de xadrez, de criação de livrinho,  intervenções circenses e uma divertida Oficina de confecção de petecas, orientada pelas meninas-mulheres da Brechoteca – Biblioteca Popular do Jardim Rebouças e do Coletivo Brincantes Urbanos, que além de mostrar como fazer a peteca, contavam as histórias da origem dela e de outros brinquedos criados pelos indígenas.

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Nessa oficina havia a presença maciça de uma molecada de uma escola que veio lá do Guarapiranga até o Campo Limpo trazida pela empolgada professora, uma heroína! 

Enxerido que sou, dei uma aulinha de como brincar de peteca e coordenei um racha de peteca de meninas contra meninos (eu bem que tentei criar times mistos, mas fui vencido pela garotada). O resultado foi tão empolgante que fui chamado pela professora para ir brincar na escola com as crianças outro dia. Pronto, posso pedir demissão da Secretaria de Cultura e virar oficineiro-brincante.

– a Bicicloteca, operada pelo bibliotecário Abraão com apoio de outro bibliotecário, o Tadashi, estava lá e distribuiu muitos livros de graça. 

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Foi sensacional ver algumas crianças saindo com aquele sorriso  e os livros nas mãos. 

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– na Tenda Musical – Jazz na Kombi, rolou muita música, mas a Trupe Lona Preta e seu audaz espetáculo de circo e música “O concerto da lona preta” fez crianças e adultos rirem sem parar, com direito a um trecho onde em menos de dois minutos todos fizeram uma viagem pela história da música no século XX! Um espetáculo daqueles que merecem o prêmio da APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte), aquele onde o juri costuma só ver o que acontece de um dos lados das pontes que ligam o centro à periferia.

Em seguida, outra Trupe entrou por lá, a Benkady, e o coletivo apresentou danças e ritmos do oeste da África, cuja base é a música Malinké e Sussu. A interação com o público foi empolgante e até crianças entraram na dança. Segue foto de três integrantes (eram 9: cinco na percussão e 4 dançarinos) e um breve vídeo do ritmo que botou todo mundo para balançar o esqueleto.

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– Como em uma boa feira de livros, haviam os editores. Mas nesse caso, os editores independentes e periféricos, aí incluídos alguns autores que publicam seus próprios livros.

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Como estava sem dinheiro (e há uma fila enorme de livros nas estantes, mesas e racks) comprei apenas um livro de poesia. E por falar em dinheiro, é fundamental que as bibliotecas arrumem formas de adquirir essa produção e a novidade é que o Sistema de Bibliotecas Municipais da Prefeitura de São Paulo em breve terá um Grupo de Trabalho de Desenvolvimento de Coleções composto por gente da sociedade e profissionais de seus quadros para discutir meios de tornar presente toda bibliodiversidade nas bibliotecas, a fim de dar acesso a quem não tem dinheiro para comprar livros.

– e não poderia deixar de fora o cavaleiro-lampião! Ele cavalgou pela praça levando poesias a todos os presentes. Genial!

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Para finalizar, vou repetir algo que parecido com o que já disse no último Bibliocamp que participei: se analisar apenas essas poucas atividades citadas, vejo que todas elas poderiam se realizar em qualquer biblioteca pública que queira seguir o muito citado por aqui, mas pouco seguido (por várias razões que não há espaço para aqui enumerar) Manifesto da IFLA/UNESCO sobre Bibliotecas Públicas , especificamente nos 12 tópicos das Missões da Biblioteca Pública.

Enfatizo também a presença de vários colegas bibliotecári@s na festa e a participação de algumas bibliotecas municipais do entorno na programação e que mantêm contato com os grupos/coletivos culturais da região.

Por fim, acredito que um caminho a trilhar para chegar a uma biblioteconomia social e sem fronteiras seja a RUA, lugar onde estão as PESSOAS. Vamos nessa!

12 coisas que você pode fazer na biblioteca e nem sabia

por Julián Marquina

Se você acha que uma biblioteca serve apenas para estudar e adquirir os livros para que você realize empréstimos, está muito enganado. As bibliotecas servem para muito mais do que isso… E não, eu não estou falando sobre poder acessar a Internet numa sala de computadores ou por wi-fi, não estou falando sobre os clubes do livro que são organizados ao longo do tempo. Não, não estou falando de nada disso. Estou falando de outra coisa… Algo como assistir filmes, dança, beber vinho, dormir, pegar videogames emprestado… Vamos lá, há todo um repertório que devemos levar em conta e aprender para sabermos que a biblioteca é muito mais do que a leitura e estudo. A biblioteca é conhecimento, lazer e criação.

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Aqui segue uma lista de 12 coisas que você pode fazer em bibliotecas e que você nem sabia que poderia fazer. Agradeço aos colegas Facebook para me ajudar a fazer esta lista, mostrando boas práticas e exemplos de coisas que são feitas em bibliotecas.

Assistir a filmes e cinema

Há poucas bibliotecas que programam em suas atividades a de projetar filmes em suas instalações. O objetivo final desta atividade é fazer com que os usuários da biblioteca possam desfrutar de uma boa seleção de filmes (clássicos e contemporâneos). Além disso, em alguns casos, após a exibição é possível iniciar um debade acerca de impressões e comentários pelo público. Tudo é compartilhado.

Entre a seleção de filmes exibidos nas bibliotecas podemos ver títulos como The Machinist Geral, Os Goonies e Ocho Apellidos Bascos.

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Dança, Tai Chi, meditação…

Você decide se deseja um pouco mais de movimentação na biblioteca ou se prefere um pouco mais de relaxamento. As bibliotecas programam oficinas e atividades dedicadas a todos os tipos de bailes e para todos, desde dança até flamenco. Também dedicam oficinas conscientes da mente e do corpo com Tai Chi e atividades de meditação.

Pegue emprestado mais do que apenas livros, CDs e DVDs

Em bibliotecas você pode não apenas emprestar livros, DVDs ou CDs… também podem emprestar outros tipos de materiais que certamente irão te ajudar ou te quebrarão algum galho. Tais materiais vão desde lupas, laptops, eReaders, jogos de vídeo, câmeras, calculadoras, pen drives, ferramentas, instrumentos…

Jogar e criar jogo

Porque em bibliotecas também há espaço para jogos… E existem muitas maneiras de interpretar isso. Há jogos com os quais é possível passar um tempo e ter entretenimento, tais como jogos de tabuleiro ou cartas ou xadrez que visam divertimento em grupo, e há jogos em que você coloca em execução sua capacidade de criação, através de laboratórios de criação de bibliotecas, bibliolabs ou laboratórios nos quais é possível aprender, investigar, inventar e construir compartilhamento de conhecimentos, habilidades e materiais. São muito interessantes as iniciativas YOUmedia ou a Library Test Kitchen.

Imprimir em papel ou plástico

Vale a pena o serviço de impressão em bibliotecas… mais ainda, mas acho que é imprescindível e que deveria estar em todas as bibliotecas. Agora, existem diferentes tipos de impressão: é papel de impressão (fornecido) e vai nos permitir retirar nossos trabalhos ou notas no mesmo suporte, além de cópia, digitalização e até mesmo encadernação e também a impressão em plástico através de impressoras 3D com as quais algumas (não muitas) bibliotecas contam.

Reservar salas de todos os tipos de (acordo com as) atividades

As bibliotecas também disponibilizam aos seus usuários uma série de salas nas quais é possível trabalhar em grupos. Alguns destes quartos têm quadros brancos, ecrãs, computadores, scanners e acesso à Internet. Algumas bibliotecas ainda têm salas especiais para tocar instrumentos e acessar o arquivo de som da mesma.

Assistir a concertos

Biblioteca é cultura… e música também. E que melhor do que juntar as duas para celebrar  concertos e levar música para as pessoas através de bibliotecas. Certamente que é uma atividade muito boa.

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Fazer vídeo conferências

As bibliotecas universitárias, principalmente, oferecem salas em que é possível fazer chamadas de vídeo conferência para os usuários. Este tipo de serviço geralmente é dirigido aos professores docentes para que possam dar aulas, embora este serviço não esteje fechado (como biblioteca) a ser utilizado para reuniões e sessões técnicas. A capacidade dessas salas de videoconferência podem variar de acordo com a biblioteca e o objetivo prosseguido com a atividade.

Aprender idiomas

Em bibliotecas você pode adquirir todos os tipos de conhecimento e não apenas pelo que você lê ou consulta, mas também pelo que você pratica. Em um tempo algumas bibliotecas estão montando oficinas ou grupos de idiomas  nos quais a maioria quer aprender Inglês ou Francês (embora não descarte fazê-lo em qualquer outro idioma, desde que haja demanda) por meio conversação e trabalho em grupo.

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Bibliotecas com a designação de origem: vinho e leituras

Bibliotecas Catalãs criaram há alguns anos o projeto “Bibliotecas com DO” no sentido de aumentar o espaço da biblioteca com atividades e propostas que combinem a literatura com vinho: encontros literários com vinhos, clubesde leitura, música, degustação de vinhos, leitura em voz alta , exposições, etc.

Dê um mergulho entre as leituras

Mais e mais bibliotecas fora de suas paredes (e não falo desta vez através da Internet) para alcançar usuários nas estações mais quentes do ano. Eu estou falando sobre os bibliopiscinas e biblioplayas. As iniciativas destinadas a ir para onde os usuários estão, além de oferecer uma boa leitura e atenção às suas necessidades em seus momentos de evasão por pessoal especializado.

Dormir. Sim, você leu certo.

Você sabia que 6% dos usuários de bibliotecas universitárias usar bibliotecas para dormir? Sim, sim. Não estou inventando isso: os quatro maiores motivos que os estudantes usam a biblioteca. A Biblioteca da Universidade de Michigan criou um projeto piloto de estação cochilo para que estudantes possam descansar de  10 a 30 minutos em épocas de prova e onde as bibliotecas estão abertas 24 horas por dia.

Censura: o dia que o MinC brigou com o Facebook

Escrevo este post para relatar e registrar uma bela novidade e uma bela polêmica, ambas ocorridas nesta semana de meados de abril.

A novidade veio do lançamento oficial do Portal Brasiliana Fotográfica http://brasilianafotografica.bn.br/ resultado de uma parceria entre a Fundação Biblioteca Nacional e o Instituto Moreira Salles. Em seu acervo, além de uma bela curadoria, imagens históricas dos séculos XIX e XX.

A polêmica envolve o Ministério da Cultura, que decidiu adotar as providências legais cabíveis contra o Facebook – às vésperas do Dia do Índio, que será comemorado domingo (19/4), pois a rede social censurou uma foto publicada num post do MinC, que continha uma foto de 1909, feita por Walter Garbe, de um casal de Índios Botocudos, em que aparece uma indígena com o dorso nu. Horas depois da publicação, o Facebook apagou a imagem.

A foto censurada é essa do post e pode ser conferida na íntegra no link

Segundo página do Ministério, este solicitou o desbloqueio, mas a empresa manteve a decisão de censurá-la alegando que não se submete a legislação local e que tem regras próprias, que aplica globalmente.

Diante do fato, o Ministério da Cultura protestou declarando que o Facebook, ao aplicar termos de uso abusivos e sem transparência, tenta impor ao Brasil, e às demais nações do mundo onde a empresa opera, seus próprios padrões morais, agindo de forma ilegal e arbitrária. E mais… que tal postura fere a Constituição da República; o Marco Civil da Internet; o Estatuto do Índio e a Convenção da Unesco sobre Proteção e Promoção da Diversidade e das Expressões culturais. Também desrespeita a cultura, a história e a dignidade do povo brasileiro.

O final desta história é… ao anunciar que acionaria judicialmente o Facebook contra censura na rede, a foto do casal de Índios Botocudos que havia sido retirada voltou a ser incluída na fanpage do Ministério.

Finalizando, compartilhei o assunto, com o intuito de apontar que o tema não encerra por aqui. Na execução de nossas atividades profissionais e mesmo individuais, não estamos livres da tarefa de pensar, discutir e mesmo agir em relação à questões desta natureza. Também é nosso papel discutir ampla e democraticamente o direito autoral, a governança da internet, ou ainda iniciativas como a #‎HumanizaRedes, que pretende conciliar liberdade de expressão e de informação com garantia dos direitos, respeito à diversidade e combate ao discurso de ódio e à discriminação em todas as suas formas.

Leia Mulheres!

No início de 2014, a escritora Joanna Walsh propôs o projeto #readwomen2014 (#leiamulheres2014), que consistia em incentivar a leitura de mais escritoras. Há algum tempo atrás, o colega William Okubo escreveu aqui no BSF um post sobre literatura de escritoras brasileiras, selecionando alguns livros.

Entendendo que o mercado editorial ainda é muito restrito e as mulheres não possuem a mesma visibilidade que os autores homens, Juliana Leuenroth e Michelle Henriques decidiram trazer a ideia da Joanna para a Blooks livraria, criando um clube do livro chamado #leiamulheres.

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Encontro do dia 24 de março, na Blooks Livraria.

O encontro é aberto à todos e a intenção é realizar mediações mensais, acompanhando leituras de obras escritas por mulheres, de clássicas a contemporâneas. Acredito que este é o tipo de ação cultural que centros de leitura podem replicar ou ainda facilitar, sempre que possível.

O próximo encontro será na Blooks da Frei Caneca novamente dia 22 de abril e o próximo livro será Reze pelas mulheres roubadas, de Jennifer Clement. Esse clube do livro já possui uma página no facebook, que será atualizada com mais informações sobre os próximos encontros.

Desde a primeira vez que li o título do projeto jamais entendi como imperativo, mas como um convite mesmo a uma forma mais consciente de leitura. Enfim, acessem a página no FB, sejam bem vindos aos encontros e inspirem-se.

Metendo a cara nos livros #bookfacefriday

Toda sexta-feira é dia do hashtag #bookfacefriday que foi criado pela NYPL e se espalhou por muitas e muitas bibliotecas. Quem quer entrar na brincadeira? Amanhã é dia, convidem os usuários e publiquem suas fotos.

Santa Clara City librarian or Johnny Cash. You decide. #BookFaceFriday

A photo posted by The New York Public Library (@nypl) on

"Shhhhhhh," he whispered. "Use your library voice." #magazine #bookface #BookFaceFriday

A photo posted by The New York Public Library (@nypl) on

Por uma pedagogia da descoberta

A escola mata a descoberta. Ela entrega o conhecimento pronto em um currículo, definido de acordo com aquilo que é considerado por autoridades como conhecimento válido, todo o resto é excluído.

O que há nesse “resto”?  Toda  a experimentação, o conhecimento informal, aprendido nas vivências, os saberes tradicionais, transmitidos pelos mais velhos e a descoberta.

A serendipidade (o princípio da descoberta) só existe quando há liberdade de escolha por caminhos diferentes e aleatórios. A descoberta se dá, principalmente, quando não estamos procurando exatamente aquilo. Esse processo, que não pode ser controlado, é inexistente na grade escolar. Na escola somos todos considerados incompetentes para adquirir nosso próprio conhecimento. E nunca somos estimulados à fazê-lo.

A palavra serendipidade surgiu em referência a um antigo conto persa sobre os três príncipes de Serendip. Em suas aventuras eles viviam se deparando com situações inusitadas e fazendo descobertas ao acaso, encontrando respostas para questões que eles sequer haviam feito. Tinha um pouco de sorte envolvida, mas era a sagacidade dos meninos, um toque genial de mentes abertas para a descoberta, que realmente operava a magia.

Essa qualidade da descoberta não é de forma alguma privilégio de mentes superiores. É uma habilidade e um posicionamento, uma forma de ver o mundo, disponível para qualquer pessoa.

Bibliotecas são um excelente lugar para o exercício de serendipidade e nas escolas elas ficam isoladas das pessoas, que mal as frequentam nos intervalos das aulas. Temos alguma contação de história, mas livros previamente escolhidos. Mesmo quando eles não são previamente escolhidos, raramente é o acervo todo ofertado à escolha e, mesmo que fosse, ainda assim seria apenas uma atividade controlada, algum livro teria de ser “o escolhido”, os outros permanecerão inertes nas estantes.

Em geral é proibido (ou vigiado) andar entre as estantes a procura de livros que não se sabe ainda quais são. Isso é feito em nome da “ordem” que sempre vem de cima, e está sempre acima da vivência, pairando sobre ela, limitando suas possibilidades libertadoras.

Há um tipo de acesso à biblioteca, que é transversal, não linear, baseado quase que puramente na serendipidade. Ao conduzir uma leitura, indo de um texto à outro, colecionando trechos diferentes de cada livro sobre determinado assunto, eu estou praticando a descoberta. Aliás foi essa prática que desenvolveu a ciência como hoje a conhecemos e o acesso não linear a uma coleção de livros foi o embrião do hipertexto.

Essa forma de utilizar acervos surgiu lá na antiguidade e se tornou evidente na Biblioteca de Alexandria. Foi responsável pelo desenvolvimento da filologia, da geografia, da matemática, da astronomia, da medicina, da poesia, da filosofia, da história e de muitas outras ciências e saberes.

A serendipidade foi a maior consequência de se acumular livros em uma sala. Isso desenvolveu toda uma economia e ergonomia do saber: o surgimento da paginação, da referência, da citação, da glosa, do colofão, dos sumários, dos resumos, das bibliografias, dos catálogos, das resenhas… Todas essas formas de diálogo entre livros, escritores e leitores.

Uma biblioteca nunca é a mesma para duas pessoas praticando a descoberta. As escolhas, mais ou menos aleatórias, de livros formam caminhos, percursos diagonais, transversais, paralelos, pela coleção toda. O prazer de percorrê-los é como o prazer do desconhecido, é desbravar os universos não domesticados do saber. E é possível reiniciar muitas vezes o processo, sempre com resultados inusitados.

A autonomia de percorrer estantes, pegar livros, ler um trecho, procurar outro livro, compará-lo com um terceiro, pegar uma enciclopédia e, partindo de um verbete qualquer, buscar outras fontes, é o principio do amor pela pesquisa e do autodidatismo. São qualidades fundamentais para o pensamento livre e crítico.

Não provoca nenhum espanto a pouca valorização das bibliotecas e da leitura nos dias de hoje. É um reflexo do que a educação faz com a descoberta. Em tempos em que a homogeneidade de ideias, comportamentos e atividades e a obediência a regras, controles e currículos é o que está nas bases da educação, é bastante esperado que as capacidades revolucionárias e libertadoras das bibliotecas sejam caladas.

A busca por uma forma de educação livre passa pelo resgate da descoberta como veículo da potência humana. A serendipidade em substituição à rigidez curricular. É aí que está a importância esquecida das bibliotecas!

Em uma pedagogia da serendipidade, a descoberta é o centro do aprendizado e  a biblioteca é o coração da escola.

Bibliotecas como comunidades de aprendizagem e espaços de trabalho coletivo

Uma das tendências na educação que tem despertado muito interesse atualmente é a aprendizagem por projetos. Iniciativas como a famosa Escola da Ponte, em Portugal, ou as brasileiras: Projeto Âncora (Cotia/SP) e a escola municipal Amorim Lima (São Paulo), entre tantas outras, vêm revolucionando o conceito de espaço de aprendizado. São escolas sem paredes, sem aulas, sem currículo, onde os alunos aprendem de acordo com projetos propostos por eles mesmos, com professores convidados para facilitar a aprendizagem. A ausência de séries e de diferenciação por idades, possibilita que alunos mais experientes ensinem os novos, numa constante colaboração, onde a figura do mestre e a participação dos alunos são totalmente ressignificadas.

Paralelamente, as tendências mais avançadas da gestão de pessoas no mercado corporativo têm reconhecido o valor da colaboração e da criatividade, no lugar dos conceitos velhos e batidos de competição e produtividade. Espaços de coworking se espalham pelas cidades, geralmente associados ao empreendedorismo.

E nossas bibliotecas, em especial as públicas e comunitárias? O que estão fazendo com essas novas conjunturas?

Na teoria, poucos discordam do fato de que a biblioteca como santuário do silêncio é um conceito ultrapassado. Mas quantas de nossas instituições realmente projetam espaços apropriados para o encontro, para a troca, para a cooperação?

Nesse aspecto, temos muito o que aprender com os modelos acima. Que tal seria uma biblioteca que funcionasse facilitadora das atividades de aprendizado em suas comunidades? Que, para além da curadoria de conteúdos para usuários específicos, servisse como curadoria e ambiente para experimentações diversas? Que, reunindo as pessoas interessadas em um mesmo tema, possibilitasse os espaços e recursos para que, juntas, elas desenvolvessem seus estudos?

A promoção de grupos de estudos livres, na biblioteca, que envolvesse o planejamento, divulgação, suporte para a realização dos encontros e inclusive o registro desses estudos e o encaminhamento desse material em produtos, como publicações, gravações em áudio ou vídeo, com os resultados práticos dessas pesquisas.

Não é difícil imaginar a miríade de interesses que surgem em qualquer aglomerado humano e as possibilidades de desenvolvimento de quaisquer deles. Talvez seja difícil vencer o preconceito com alguns desses interesses, ou a inércia do profissional, mas as possibilidades são inegáveis, em em todos ambientes.

Uma biblioteca comunitária em uma favela tem uma riqueza tão grande de questões e sonhos para trabalhar como qualquer biblioteca universitária, ou escritório de multinacional (provavelmente muito mais!).

Temas para estudo não faltam: a polêmica da novela pode formar um grupo para a discussão de ética, o hip-hop desperta um interesse natural por música e por poesia, o funk facilmente formaria um grupo de dança. Grupos de culinária poderiam trocar receitas e promover jantares. Professores poderiam ser convidados, trazendo uma nova perspectiva para cada assunto.

No grupo de construção civil, convidados poderiam ensinar técnicas de bioconstrução, como aproveitamento da água da chuva e do calor do sol, geração de energia sustentável, etc. O laboratório poderia ser as próprias moradias dos participantes. O grupo de culinária poderia aprender mais sobre alimentação saudável, autonomia alimentar, hortas coletivas. As possibilidades são infinitas.

Por que a biblioteca seria o espaço ideal para incubar essas iniciativas?

Essa pergunta poderia ser feita de outra forma: Que outro espaço poderia ser melhor que uma biblioteca para essas atividades? Bibliotecas precisam conhecer as comunidades que atendem. Precisam saber de suas preferências, desejos e sonhos. Bibliotecas são centros de informação com profissionais capazes de providenciar os recursos necessários para cada atividade de estudo. Bibliotecas se preocupam com o empoderamento das pessoas, têm por missão a promoção da autonomia e da cidadania.

Colaboração e comunidades de aprendizagem não são conceitos novos em bibliotecas. Algumas há tempos vêm inovando nessa direção, como as bibliotecas parque.  Vamos junto(s)?

Os caminhos do mercado editorial

O mercado editorial tem suas peculiaridades, que o transformam num negócio lucrativo para poucos. Poucos editores, poucos escritores. Mas há formas muito criativas de publicar livros fora do sistema fechado das grandes editoras e com pouco, ou até nenhum, recurso.

De saída, uma editora precisa ter capital suficiente para segurar um possível fracasso de vendas. São muitos os gastos do processo editorial, inúmeras revisões, provas, projetos gráficos de editoração, estudos de capa, plano de marketing, reuniões, impressão, distribuição, eventos de lançamento… E, no processo tradicional, todas essas etapas ocorrem antes de qualquer exemplar ser vendido.

Só isso já limita muito as escolhas das editoras: publicar apenas textos que tenham um bom prognóstico de vendas. E o maior indicador desse prospecto é, via de regra, a fama e aceitação do autor. Há outras variáveis, como o assunto do livro, uma boa campanha publicitária, mas o principal medidor do sucesso são os sucessos pregressos do autor. Isso gera um sistema fechado, onde editoras tem suas “carteiras” de autores, mais ou menos respeitados, que seguram as vendas, com pouco ou nenhum espaço para novos talentos.

Quem publica Paulo Coelho, até pode se arriscar a publicar alguns autores menos conhecidos, com as vendas de um best-seller segurando uma possível jogada errada. Mas, em geral, quem já tentou submeter originais para análise de grandes editoras já está bastante acostumado com as respostas pouco pontuais e evasivas: “no momento não estamos aceitando novos projetos”, ou “o texto não se encaixa em nossa política editorial”, e coisas do gênero. Se o assunto abordado no livro for polêmico então, a rejeição é quase certa.

Mesmo com o desenvolvimento das técnicas gráficas, que barateou o custo para pequenas tiragens, possibilitando inclusive a impressão sob demanda, os critérios de seleção de originais das grandes editoras continuam os mesmos.

Essa rigidez do mercado tradicional de livros estimulou a dinâmica das editoras independentes. Pequenas editoras, em geral sem parque gráfico ou com processos artesanais de impressão, encadernação e acabamento, ganharam terreno publicando textos de autores desconhecidos e de assuntos pouco explorados pelo mercado.

A Deriva é uma editora anarquista de Porto Alegre, que publica livros com temática libertária e anarquista.
A Deriva é uma editora anarquista de Porto Alegre, que publica livros com temática libertária e anarquista.

Há uma grande profusão dessas editoras, desde aquelas que publicam o que aparecer, oferecendo serviços e vendendo a possibilidade do autor de primeira viagem ter um livro publicado, para vender ou presentear parentes, amigos e colegas de trabalho, até editoras altamente especializadas em algum nicho, que selecionam publicações com critérios bem definidos.

A Escândalo é de Sampa e publica literatura homoafetiva.
A Escândalo é de Sampa e publica literatura homoafetiva.

Para resolver em parte o problema de financiamento dos projetos (mesmo com tiragens pequenas, os custos pré-impressão do livro são os mesmos), muitas editoras independentes recorrem a leis de incentivo cultural, como a lei rouanet, ou participam de editais diversos de fomento cultural, lançados normalmente pelo governo.

Uma das saídas mais criativas e que tem apresentado os melhores resultados  é o crowdfunding. Nessa estratégia, a editora (ou o próprio autor) lança uma campanha publicitária, principalmente nas redes sociais, para levantamento de fundos para seus projetos editoriais, algo como uma “compra antecipada”. Quem tiver interesse, “ajuda” o projeto e depois de atingida a meta, começa o processo de publicação. Após a publicação são enviados exemplares e outros prêmios (conforme as cotas de contribuição) para aqueles que contribuíram. É um bom método também para sondar o interesse que o livro desperta nos leitores e para vender outros produtos associados (posteres, botons, camisetas, edições de luxo). Há previsões de que, em breve, essa será uma forma determinante de publicar livros.

A Fantagraphics, uma importante editora de HQs, saiu do vermelho através de uma grande campanha de crowdfunding.
A Fantagraphics, uma importante editora de HQs, saiu do vermelho através de uma grande campanha de crowdfunding.

Na ponta extrema do mercado editorial, estão as minúsculas editoras artesanais, cujo grande diferencial está no acabamento quase personalizado dos livros, com encadernações feitas à mão, tiragens bem pequenas (50 exemplares é um número grande) e muitas vezes numeradas. O conteúdo geralmente é produzido por escritores locais, geralmente literatura e poesia, e a distribuição pula as livrarias, normalmente sendo feita em contato direto com o leitor, em eventos ou através da internet, utilizando as redes sociais para divulgação.

Ainda mais ao sul do espectro editorial (quase fora dele), encontramos os fanzines (zines, para os íntimos) e as editoras cartoneras (papeleiras). Essas são as formas mais alternativas de publicação. E também são aquelas que mais se encontram abertas para autores, assuntos e expressões que raramente têm espaço em outros processos editoriais.

Alguns fanzines no Festival Faça Você Mesmx - Zine Festival, em Porto Alegre.
Alguns fanzines no Festival Faça Você Mesmx – Zine Festival, em Porto Alegre.

O custo de produção de um zine é quase nenhum e seu alcance de distribuição é bastante reduzido. Geralmente se limita à região geográfica onde foi produzido. Existem diversas formas de produzir zines, muito facilitadas pelos softwares de editoração, mas a clássica é a colagem de imagens recortadas de revistas ou desenhadas pelos próprios autores, aliadas a textos, geralmente com intenção política, mas também poética, em folhas A4 dobradas ao meio e depois reproduzidas em fotocópias. Em geral têm poucas páginas (de 4, até 20, 30, páginas, quando muito).

Zines foram muito associados ao movimento punk e ao anarquismo, com a ideologia do “faça você mesmo” (do it yourself, ou DIY) e servem para passar um recado rápido, comentar acontecimentos políticos, convocar protestos, indicar bandas de rock, listar cooperativas de consumo solidário, satirizar autoridades e outras questões bem locais. Também são um canal aberto para expressões artísticas pouco convencionais em poesia e artes visuais. Diversos desenhistas e roteiristas de história em quadrinhos, hoje famosos, começaram como zineiros.

A troca de zines sempre foi a principal forma de distribuição e circulação. Muitos zines viajavam entre cidades, estados, países e continentes através dos correios. Atualmente a web e as redes sociais facilitam muito esse intercâmbio, por meio das muitas redes de distribuição de zines. Na cultura dos zines, dinheiro e direitos autorais normalmente não são uma preocupação, então, zines são impressos diretamente por qualquer um, distribuídos de graça ou a preço de custo, tendo como objetivo apenas a disseminação dessa forma de expressão.

Livros da editora Olga Cartonera, de Santiago, Chile.
Livros da editora Olga Cartonera, de Santiago, Chile.

Já as editoras cartoneras são editoras artesanais que trabalham com papel reciclado, capas de papelão, e outros materiais coletados do lixo. Em geral elas tem um projeto social e se envolvem diretamente com as comunidades de catadores de papel, desde a compra do papel, até a participação da comunidade na feitura dos livros, com capas pintadas à mão pelas crianças da comunidade e encadernações artesanais costuradas por senhoras idosas em oficinas abertas. Os livros produzidos assim tem baixíssimo custo e alto valor social agregado. Os conteúdos geralmente são de autores locais de poesia e literatura. São livros muito bonitos, feitos de forma rústica, com tiragens muito pequenas.

As editoras cartoneras, que começaram na Argentina há poucos anos, estão se disseminando rapidamente pelo mundo todo, com o objetivo de produzir livros baratos, com os excedentes da sociedade de consumo e incluindo comunidades vulneráveis nos processos de produção e fruição de bens culturais.

Esse foi um panorama bem simplificado do leque de opções editoriais que temos atualmente. Existem outras opções, como a contratação de agentes editorias e  profissionais específicos para cada etapa do processo.

Voltarei à esse assunto em breve, com o histórico das editoras cartoneras e suas aspirações e com as possibilidades de empregar uma ou mais dessas modalidades editoriais como ação cultural nas bibliotecas públicas e comunitárias.