Bibliotecas como comunidades de aprendizagem e espaços de trabalho coletivo

Uma das tendências na educação que tem despertado muito interesse atualmente é a aprendizagem por projetos. Iniciativas como a famosa Escola da Ponte, em Portugal, ou as brasileiras: Projeto Âncora (Cotia/SP) e a escola municipal Amorim Lima (São Paulo), entre tantas outras, vêm revolucionando o conceito de espaço de aprendizado. São escolas sem paredes, sem aulas, sem currículo, onde os alunos aprendem de acordo com projetos propostos por eles mesmos, com professores convidados para facilitar a aprendizagem. A ausência de séries e de diferenciação por idades, possibilita que alunos mais experientes ensinem os novos, numa constante colaboração, onde a figura do mestre e a participação dos alunos são totalmente ressignificadas.

Paralelamente, as tendências mais avançadas da gestão de pessoas no mercado corporativo têm reconhecido o valor da colaboração e da criatividade, no lugar dos conceitos velhos e batidos de competição e produtividade. Espaços de coworking se espalham pelas cidades, geralmente associados ao empreendedorismo.

E nossas bibliotecas, em especial as públicas e comunitárias? O que estão fazendo com essas novas conjunturas?

Na teoria, poucos discordam do fato de que a biblioteca como santuário do silêncio é um conceito ultrapassado. Mas quantas de nossas instituições realmente projetam espaços apropriados para o encontro, para a troca, para a cooperação?

Nesse aspecto, temos muito o que aprender com os modelos acima. Que tal seria uma biblioteca que funcionasse facilitadora das atividades de aprendizado em suas comunidades? Que, para além da curadoria de conteúdos para usuários específicos, servisse como curadoria e ambiente para experimentações diversas? Que, reunindo as pessoas interessadas em um mesmo tema, possibilitasse os espaços e recursos para que, juntas, elas desenvolvessem seus estudos?

A promoção de grupos de estudos livres, na biblioteca, que envolvesse o planejamento, divulgação, suporte para a realização dos encontros e inclusive o registro desses estudos e o encaminhamento desse material em produtos, como publicações, gravações em áudio ou vídeo, com os resultados práticos dessas pesquisas.

Não é difícil imaginar a miríade de interesses que surgem em qualquer aglomerado humano e as possibilidades de desenvolvimento de quaisquer deles. Talvez seja difícil vencer o preconceito com alguns desses interesses, ou a inércia do profissional, mas as possibilidades são inegáveis, em em todos ambientes.

Uma biblioteca comunitária em uma favela tem uma riqueza tão grande de questões e sonhos para trabalhar como qualquer biblioteca universitária, ou escritório de multinacional (provavelmente muito mais!).

Temas para estudo não faltam: a polêmica da novela pode formar um grupo para a discussão de ética, o hip-hop desperta um interesse natural por música e por poesia, o funk facilmente formaria um grupo de dança. Grupos de culinária poderiam trocar receitas e promover jantares. Professores poderiam ser convidados, trazendo uma nova perspectiva para cada assunto.

No grupo de construção civil, convidados poderiam ensinar técnicas de bioconstrução, como aproveitamento da água da chuva e do calor do sol, geração de energia sustentável, etc. O laboratório poderia ser as próprias moradias dos participantes. O grupo de culinária poderia aprender mais sobre alimentação saudável, autonomia alimentar, hortas coletivas. As possibilidades são infinitas.

Por que a biblioteca seria o espaço ideal para incubar essas iniciativas?

Essa pergunta poderia ser feita de outra forma: Que outro espaço poderia ser melhor que uma biblioteca para essas atividades? Bibliotecas precisam conhecer as comunidades que atendem. Precisam saber de suas preferências, desejos e sonhos. Bibliotecas são centros de informação com profissionais capazes de providenciar os recursos necessários para cada atividade de estudo. Bibliotecas se preocupam com o empoderamento das pessoas, têm por missão a promoção da autonomia e da cidadania.

Colaboração e comunidades de aprendizagem não são conceitos novos em bibliotecas. Algumas há tempos vêm inovando nessa direção, como as bibliotecas parque.  Vamos junto(s)?

Por que leitores brasileiros preferem livrarias a bibliotecas?

Quando criança, eu não tinha o hábito de frequentar bibliotecas. Até porque elas não existiam no meu bairro, ou nas redondezas onde eu morava. Mas eu amava ler! Adorava bancas de jornal e livrarias, que eram os lugares onde eu encontrava livros e revistas e podia saciar minha sede de leitura. Depois descobri a biblioteca da escola e passava alguns recreios lá dentro, já que não podia levar os livros pra casa. Lembro de uma excursão da escola à Biblioteca Pública Municipal do Rio de Janeiro, que era muito longe da minha casa. Só me restava comprar os livros mesmo. Passeios a livrarias eram – e ainda são – os meus favoritos!

Foi só depois que me mudei para o Canadá que passei a frequentar bibliotecas públicas e me apaixonei. Tantos livros, tantos recursos disponíveis gratuitamente para o público! Sou frequentadora assídua e sempre trago pra casa mais livros do que posso ler dentro do prazo de entrega.

Como expatriada, comecei a questionar sobre os hábitos de leitura dos brasileiros, em especial sobre o uso de bibliotecas públicas. Depois de muita pesquisa, vi que há sim várias bibliotecas públicas em todo o Brasil. Sim, são escassas, e talvez o acervo não seja o dos mais atraentes ou relevantes, mas o recurso está lá. A pergunta então era: será que o povo usa?

No ano passado, em março, fui ao Rio de Janeiro visitar a família e fiz questão de conhecer uma biblioteca pública. Era quinta-feira. Fui no Centro Cultural Banco do Brasil, no centro da cidade, onde tem uma biblioteca no quinto andar. Fiquei maravilhada com o espaço! Tudo tão novo, tão arrumado! Tão diferente da minha biblioteca universitária na Escola de Comunicação da Praia Vermelha.

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Tive que deixar bolsas na entrada, mostrar identidade e tudo. Sinceramente? Achei que isso já era a primeira barreira para o uso da biblioteca. Entendo a questão da segurança, mas devia haver outra forma de evitar roubo sem ter que obrigar os usuários a deixar seus pertences na porta. (Não preciso nem dizer que isso não existe aqui no Canadá, né? Com exceção de bibliotecas de coleções especiais e materiais raros, claro).

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Fiquei encantada com a biblioteca infantil! Adorei a parede com lombadas de livros, coisa mais linda! Entrei no espaço infantil e encontrei apenas uma mãe com um menino de uns 7 anos talvez. O menino pedia pra mãe ler pra ele. A mãe estava ocupada no seu celular, sem dar atenção ao menino, ignorando o seu pedido. Aquilo me cortou o coração! Uma criança estava ali, sedenta pela leitura, e justamente a pessoa que deveria mais incentivá-lo estava desperdiçando esta oportunidade. Então foi na biblioteca pra quê, alguém pode me explicar?

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Saí de lá e fui ver as outras estantes, com material de pesquisa. Adorei ver o catálogo de fichas, coisa que não vejo mais por aqui, que só consultamos o acervo digitalmente. Vi algumas pessoas estudando em salas de leitura, mas a biblioteca estava bem vazia. Não contei mais de 20 pessoas por lá.

Bem, numa quinta-feira, de manhã, no centro da cidade, como é que eu poderia esperar uma biblioteca cheia, não é mesmo?

Depois do almoço, no mesmo dia, na mesma quinta-feira, eu passei pela porta da Livraria Cultura, na rua Senador Dantas, também no centro da cidade.

A livraria estava LOTADA!

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Na parte infantil tinham algumas famílias com crianças de várias idades, passando pelas estantes e escolhendo livros. Outras sentavam no chão com seus filhos no colo e folheavam livros juntos. Em todos os andares, muita gente. Os caixas, com fila.

E a pergunta: se tem um lugar onde as pessoas podem ter acesso a livros sem pagar um tostão, por que é que preferem gastar dinheiro com os livros em vez de pegar emprestado nas bibliotecas públicas?

Posso imaginar algumas respostas:

1) O acervo das bibliotecas públicas não é adequado e não atende à necessidade do público
Eu sinceramente não tenho ideia de como é feito o gerenciamento do acervo de bibliotecas públicas no Brasil. Elas compram materiais publicados recentemente? Você pode encontrar os best sellers por exemplo? Pelo que vi na biblioteca do CCBB, pelo menos na parte infantil, o acervo não era muito grande. Vi alguns títulos novos, mas a maioria não era. O estado físico das obras também era ruim, com aspecto velho, folhas amareladas, lombadas machucadas. O leitor tem prazer em ler um livro em bom estado. Se o leitor quer ler Nicholas Sparks e não encontra na biblioteca, claro que tem que comprar na livraria (não procurei por este autor naquela biblioteca, então é só um exemplo mesmo).

2) O público não tem conhecimento das bibliotecas públicas
Voltemos ao início do texto, lá quando eu era criança e não tinha a mínima ideia de que poderia existir um espaço de livre acesso aos livros. Biblioteca pra mim era algo que existia na escola e em lugares bem longe da minha casa. Biblioteca pra mim era um lugar onde não se podia falar alto. Biblioteca pra mim era um lugar onde encontrávamos livros velhos, muito antigos, empoeirados e com cheiro de mofo. A minha geração, que teve a mesma experiência que eu tive, provavelmente não vai pensar na biblioteca como opção cultural para levar seus filhos. Esses vão associar livros à livrarias imediatamente.

3) O acesso a bibliotecas é dificultoso
Essa e a última questão estão ligadas. É a questão da escassez. Provavelmente há mais livrarias do que bibliotecas públicas em cidades grandes do Brasil.

Acredito que o acervo deficiente seja uma das principais razões pelas quais o brasileiro prefere comprar o livro do que pegar emprestado. Porque talvez o livro que ele queira ler não esteja na biblioteca. Ou se está, o acesso não é facilitado ou o livro não está em condições boas de uso. Posso estar totalmente enganada, afinal estou longe e não tenho como avaliar essa questão de perto.

Sei que minha amostragem é muito pequena. Eu só visitei uma biblioteca pública. Mas no meu círculo de amizades vejo que essa hipótese não é tão absurda assim. Pouquíssimas pessoas que eu conheço no Brasil, em várias cidades até, têm o hábito de frequentar bibliotecas. Muito mais gente compra livros em livrarias, das pessoas com que me relaciono.

Mas vocês aí, me digam, por que o povo prefere livrarias a bibliotecas? E como podemos inverter essa situação no nosso papel de bibliotecários?

Biblioteca Parque Estadual – Rio de Janeiro

Mais uma grande biblioteca pública do país reabriu suas portas, depois de longos anos fechadas, e taí. Nada melhor do que um projeto inovador para oxigenar a crença pública nas bibliotecas.

Todas as informações da biblioteca podem ser encontradas no site, que também ficou da hora: bibliotecasparque.org.br

[fotos encontradas livremente na internet, preguiça de conceder créditos]

As mulheres brasileiras e sua literatura gostosa… de ler!

Desculpem o trocadilho, mas o assunto é sério: a literatura produzida pelas mulheres brasileiras atualmente é muito gostosa de ler! Ela é tão, tão, tão gostosa que não queria parar de ler, situação que motivou o atraso desta postagem que deveria ter sido feita no Dia Internacional da Mulher.

Ficou para os últimos minutos do mês da mulher.

A ideia de escrever sobre o tema estava em mente desde o ano passado, mas como havia lido um número pequeno de romances ou livros de contos de “novas” autoras nacionais, nada aconteceu, mas o fato que deu início à saga foi a leitura de um artigo no blog de literatura Posfácio, onde o colunista falou da campanha mundial traduzida aqui com o horroroso #LeiaMulheres2014.

Não estou menosprezando autoras consagradas como Clarice Lispector, Hilda Hilst, Raquel de Queiroz, Maria José Dupré, Ana Maria Machado, Lygia Fagundes Telles, Maria Carolina de Jesus ou autoras com obras já consolidadas e amadas como Martha Medeiros, Cíntia Moscovich e Lya Luft ou mesmo a multimidiática Thalita Rebouças e a Paula Pimenta, estas últimas best-sellers infantojuvenis.

Meu objetivo é tornar mais conhecidas entre os profissionais (torço para que conheçam!) e leitores do blog algumas boas escritoras que podem ser indicadas e lidas, ampliando o leque de leituras para além das autoras internacionais que infestam o mercado literário nacional.

Antes de começar, eu admito, eu sou muito influenciado por aquele maldito discurso do Ortega y Gasset a respeito da Missão do Bibliotecário….

De antemão, informo que as escolhidas escrevem de forma um tanto diferente uma das outras, com estilos bem diferentes e humores idem. Mas vamos a quem interessa: elas e suas obras!

Começo com uma escritora que conheci pessoalmente em meados de 2005, mas cujo primeiro foi lido somente agora.

Ana Paula Maia, nascida no Rio de Janeiro, é autora dos romances O habitante das falhas subterrâneas (7 letras, 2003) e A guerra dos bastardos (Língua geral, 2007). Em 2006 publicou o primeiro folhetim pulp da Internet brasileira em 12 capítulos. Tem contos publicados em diversas antologias, entre elas 25 Mulheres que estão fazendo a nova literatura brasileira (Record, 2004) e Sex´n´Bossa (Mondadori, Itália, 2005).

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De gados e homens (Record, 2013), é seu último romance (é uma novela, pois tem apenas 124 páginas) e é simplesmente devastador. Ana Paula conta o dia-a-dia de trabalhadores em um abatedouro em algum canto do país (o local me lembra muito o interior de Mato Grosso do Sul, lugar onde tenho um primo que trabalha em um abatedouro) sem fazer concessões. É um livro para os fortes e depois de lê-lo você vir a desistir de comer um bom hambúrguer!

[Pô, tive de comprar]

 

Tatiana Salem Levy, é escritora, tradutora e doutora em Estudos de Literatura. Publicou o livro A experiência do fora: Blanchot, Foucault e Deleuze (Relume Dumará) e contos na revista Ficções 11 (7Letras) e nas antologias Paralelos (Agir) e 25 mulheres que estão fazendo a nova literatura brasileira (Record). A chave de casa, seu romance de estréia, foi publicado primeiramente em Portugal, pela editora Cotovia.

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A chave da casa (Record, 2007) foi seu romance de estréia e já chegou provocando. Composto de pequenos capítulos (moda na literatura brasileira atual) em narrativa não linear, este livro de tom autobiográfico consegue ser terno, histórico e radical, pois cada em capítulo um momento da vida da personagem é contado, e ela passeia por Portugal, Turquia, Rio de Janeiro, Estados Unidos e por sua cama…. e por falar em cama há trechos quentes, que podem interessar àqueles que curtem uma pegada mais sensual. Mas também há um trecho de tortura (sim, a mãe da personagem viveu a Ditadura brasileira).

[Disponível em várias Bibliotecas Municipais de São Paulo e Biblioteca de Niterói]

 

Carola Saavedra nasceu em Santiago do Chile, em 1973, e veio com a família para o Brasil três anos depois. Morou na Alemanha, onde concluiu um mestrado em comunicação, e também na Espanha e na França. Hoje vive no Rio de Janeiro e é escritora e tradutora. Em 2005, publicou o livro de contos Do lado de fora (7Letras, 2005). Recebeu o prêmio APCA de melhor romance pelo livro Flores azuis (2009). Está entre os vinte melhores jovens escritores brasileiros escolhidos pela revista Granta.

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Toda terça (Companhia das Letras) é um livro escrito a partir de um Divã, local onde dois personagens, uma mulher e um homem, contam seus encontros e desencontros amorosos. Ou seja, aparentemente um livro simples e tradicional mas muito bem escrito.

[Disponível em várias Bibliotecas Municipais de São Paulo e Biblioteca Parque de Manguinhos]

 

Adriana Lisboa começou oficialmente sua carreira em 1999, com a publicação do romance Os fios da memória, ao qual se seguiram outros quatro: Sinfonia em branco (2001), que a levou a ser apontada pela crítica como uma das mais importantes revelações da nova literatura brasileira, Um beijo de colombina (2003), Rakushisha (2007) e Azul-corvo (2010). Em 2004 lançou uma coletânea de contos curtos e poemas em prosa, Caligrafias, com desenhos originais de Gianguido Bonfanti. Em 2007 publicou a novela O coração às vezes para de bater, adaptada para o cinema por Maria Camargo. Sua obra se completa com três livros infanto-juvenis: Língua de trapos (2005), A sereia e o caçador de borboletas (2009), ambos ilustrados por Rui de Oliveira, e Contos populares japoneses (2008), ilustrado por Janaína Tokitaka.

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Sinfonia em branco (Alfaguara, 2011) se encontra entre os livros mais belos e trágicos que já li. Do ponto de vista de beleza ele me lembrou muito alguns trechos de “Reparação” do Ian McEwan um dos livros que indiquei outro dia como um dos dez melhores que já li. Alguns silêncios parece que gritavam mil palavras enquanto lia. Já o trágico lembrou-me “Os sofrimentos do jovem Werther” do Goethe. Me recuso revelar a história, mas apesar da leveza da escrita o livro é tão pesado quanto o da Ana Paula Maia.

[Disponível na Mário de Andrade e Biblioteca de Niterói]

 

Luisa Geisler nasceu em Canoas (RS), mas passa dois terços de seu tempo em Porto Alegre, estudando Relações Internacionais. Contos de mentira é seu livro de estreia, mas conquistou o prêmio Sesc de literatura. Para alguém que nasceu em 1991, não é pouco o que já fez: ganhou prêmios literários, publicou contos em antologias, revistas e na internet, traduziu, lecionou inglês, arrancou os sisos, tentou fugir de casa, estudou cinco idiomas estrangeiros e somou outros tantos feitos afins.

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Quiçá (Record, 2013) é o segundo livro da jovem autora e nele ela demonstra muita habilidade para misturar vários momentos em um único capítulo do livro, ou seja, ela utiliza a narrativa não linear que cai muito bem nos dois jovens personagens principais, os primos Clarissa, de 11 anos, e Arthur de 18 anos, onde o segundo, após uma tentativa de suicídio, vai morar com a família da garota. Mas o grande problema de convivência não será entre os dois jovens tão diferentes entre si, mas sim com seus pais, família e porque não com a sociedade. Vale muito a pena ser lido!

[Disponível na Mário de Andrade – Circulante, Biblioteca de São Paulo e Biblioteca de Niterói]

 

Vanessa Bárbara nasceu em 1982, é jornalista e escritora. É colunista do International New York Times e da Folha de S.Paulo. Publicou o romance Noites de alface (Alfaguara, 2013), a graphic novel A máquina de Goldberg (Quadrinhos na Cia., 2012, em parceria com Fido Nesti), o livro-reportagem O livro amarelo do terminal (Cosac Naify, 2008, Prêmio Jabuti de Reportagem), o romance O verão do Chibo (Alfaguara, 2008, em parceria com Emilio Fraia) e o infantil Endrigo, o escavador de umbigo (Ed. 34, 2011). É também tradutora e preparadora da Companhia das Letras. Ela contribui para o blog com uma coluna mensal.

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Noites de alface (Alfaguara, 2013) é delicioso. A história dos dois velhinhos do bairro do bairro do Mandaqui em São Paulo (não, o livro não se passa no Mandaqui, mas tudo leva a crer que sim, pois é o bairro onde a autora mora e idolatra) me fez rir à toa em vários momentos. Em seguida, com um deles sozinho após a partida de um deles, certa melancolia toma conta da obra, mas mesmo assim o humor (mesmo que negro) é visível a cada momento até o desfecho inesperado. Recomendo, e dou meu exemplar de presente para quem lembrar de algo que ligue ela aos bibliotecários e bibliotecas…. (risos sarcásticos).

[Pô, tive que comprar] 

 

Beatriz Bracher nasceu em São Paulo, em 1961. Formada em Letras, foi editora da revista 34 Letras, de literatura e filosofia, e uma das fundadoras da Editora 34, onde trabalhou por oito anos. Sua experiência com cinema inclui o argumento do filme Cronicamente inviável (1994), co-autora do roteiro premiado do longa-metragem Os inquilinos (2009), pelo o qual ganhou o prêmio de “Melhor Roteiro do Festival do Rio”, ambos em parceria com Sérgio Bianchi e co-autora do roteiro de O abismo prateado (2011), longa-metragem de Karim Aïnouz, selecionado para a Quinzena dos Realizadores do Festival de Cannes. Sua estréia como escritora de livros foi em 2002, com o romance Azul e dura. Em 2009, lançou seu primeiro livro de contos, Meu amor, vencedor do Prêmio Clarice Lispector, da Biblioteca Nacional.

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Meu amor (34, 2009) é a obra da autora mais experiente da lista, mas não a considero tão conhecida, por isso, entrou na lista. Também a conheço, pois fiz uma visita monitorada especial para ela na Biblioteca Mário de Andrade quando trabalhava lá, e admito que parecia que andava com uma nobre de alguma corte inglesa ao mesmo tempo que ela ria de alguns comentários deste bobo. Mas deixemos minha paixão platônica de lado: a obra traz alguns contos de alguém com severo olhar crítico e ao mesmo tempo amoroso sobre o viver no Brasil hoje. Do ponto de vista privilegiado de alguém ligado a famosa classe média brasileira é incrível a sensibilidade para escrever algo como o trecho abaixo:

Estava parada em um engarrafamento, no final de um dia poluído. O homem surgiu e bateu na janela com uma arma preta. O movimento de sua boca berrava e a voz chegava baixa. Passa o dinheiro, passa o dinheiro ou vai morrer. Agora, abre a janela, agora, agora, ou vai morrer, ou vai morrer. Olhava louco para mim, olhava louco para mim. Ou vai morrer, ou vai morrer. Olhava sua boca, seus olhos, a arma preta, a aflição e a raiva e me convencia que era cinema. Não tentei explicar-lhe, ele entenderia. O vidro blindado transformava sua ação, eu podia olhar, observar os detalhes de sua roupa, a língua escura e o tamanho pequeno das mãos agarrando a arma preta. A arma preta apontada contra meus olhos, o canal oco da arma preta tremendo, argumento claro, abre, sua vaca, eu vou atirar. Minha curiosidade apática minava sua decisão, o argumento oscilava.
O rapaz entendeu sua impossibilidade, titubeou, apoiou as mãos no vidro, uma fechada na arma, aproximou o rosto e cuspiu minha morte mais uma vez. Eram de um animal os olhos, a palma da mão suada e a saliva. Furioso, enjaulado, um fila brasileiro latindo e pulando atrás das grades enquanto caminhamos na calçada. Ele segurou a arma com as duas mãos e mirou meu rosto. Eu mirava calma e hipnotizada, intrigada com o fim.
Um frio monstruoso me sobe do estômago e para meu coração. Hoje é dia de rodízio, eu não estou no blindado. Meus olhos pulam de horror, as mãos crispadas na boca aberta e hirta, sem qualquer possibilidade de voz, pedi piedade. Ele entendeu e riu. Num só golpe, quebrou o vidro com a mão da arma, esmurrou meu rosto e sumiu deixando o revólver de brinquedo no meu colo manchado com o nosso sangue.

[Disponível em várias Bibliotecas Municipais de São Paulo, Biblioteca de São Paulo e Bibliotecas Parque de Manguinhos e Niterói]

 

Natércia Pontes é uma escritora nascida em Fortaleza, filha de Augusto Pontes, ex-secretário da Cultura do Ceará. Estudou Radialismo no Rio de Janeiro. Mudou-se em 2007 para São Paulo.

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Copacabana Dreams (Cosac Naify, 2013) é o primeiro livro oficial da Natércia e é outra daquelas obras que te faz rir sozinho, mas não só, pois há alguns contos, todos ambientados no Rio de Janeiro (de novo!), trágicos ou que demonstram algumas realidades deste lugar emblemático da cidade maravilhosa. Recomendo a leitura de um conto interessante sobre culinária (spoiler: a personagem frita uma parte de seu próprio corpo). O design do livro também se destaca, pois todos os textos são acompanhados por letras e formatação individualizadas! Acompanho a autora no Twitter e suas tuitadas também são bem humoradas, como são muitas das postagens e textos da Vanessa Bárbara que sigo no Facebook.

[Disponível na Mário de Andrade – Circulante]

 

Veronica Stigger, gaúcha radicada em São Paulo desde 2001, é doutora em história da arte, crítica de arte e professora universitária. Defendeu tese sobre a relação entre arte, mito e modernidade, enfatizando as obras de Kurt Schwitters, Marcel Duchamp, Piet Mondrian e Kasimir Malevitch. Em seu pós-doutorado estudou, entre outros, os artistas brasileiros Maria Martins e Flávio de Carvalho. Seu primeiro livro, O trágico e outras comédias, foi publicado pela editora portuguesa Angelus Novus, em 2003 e, no Brasil, pela 7Letras, em 2004. Pela Cosac Naify, publicou Gran cabaret demenzial (2007) e Os anões (2010). Alguns de seus contos foram traduzidos para o catalão, o espanhol, o francês e o italiano.

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Os anões (Cosac Naify, 2010) deve ser o mais radical dos livros indicados até aqui. Os pequenos textos, pequenos como a própria obra, são repletos de violência, como o conto do título que pode ser lido online (aqui). Apesar da forma literária de escrever os textos deixam bem claro como a violência está em todo lugar no mundo contemporâneo.

[Disponível na Biblioteca de São Paulo e Mário de Andrade – Circulante]

 

Helena Terra é jornalista e escritora, ilustradora e artista plástica. Nasceu em Vacaria (RS), mas mora em Porto Alegre. Participou de oficinas literárias e publicou contos.

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A condição indestrutível de ter sido (Dublinense, 2013) é a estréia da autora na narrativa longa. Última obra descoberta e lida em algumas horas de tão instigante e trata de uma blogueira que se apaixona desesperadamente por um comentarista de seu blog. O grande mérito do livro é sua atualidade, pois via literatura nos faz pensar sobre as novas formas de conhecer e amar, mas que mantem os mesmos problemas de sempre: pode dar certo ou pode ser uma grande ilusão. Há trechos de poesia pura, e momento interessantes onde os personagens parecem se transformar em textos, como no último trecho que transcrevo, veja:

Em menos de um mês, de blogueira passei a ser o mais colorido, incomensurável e perfumado vaso humano.

Escapavam-me doses extravagantes e tumultuadas de ciúmes pelos dedos.

Na primeira vez em que ele escreveu Nós vamos nos misturar feito letras em uma palavra, vi os seus dedos, as falanges, as suas unhas em ação.

[tive de comprar o livro eletrônico na Amazon, saiu por R$13,00 contra R$29,90  em papel e mesmo assim teria que trazer de outro Estado]

 

O fato triste na coisa toda é que alguns destes livros não fáceis de encontrar em Bibliotecas Públicas, tanto que não encontrei o livro que queria de outra autora nova, a Carol Bensimon. Isso é um grande problema, principalmente para quem não tem recursos, e infelizmente acredito que esse problema vá continuar, pois ainda não se aprendeu a comprar com diversidade ou não há recursos mesmo nas Bibliotecas. Pode ser que alguns destes títulos venham a ser comprados, mas só chegam depois de meses ou até anos, se chegarem, mais um problema, a lentidão.  E por fim, que falta faz um catálogo nacional de  acervos de Bibliotecas Públicas, facilitaria minha vida e evitaria a impressão de bairrismo meu ao colocar só livros encontrados no Rio de Janeiro e São Paulo (deu preguiça de abrir outros catálogos!).

Enfim, pretendo continuar lendo sempre que possível alguma nova autora brasileira, agora de preferência de fora do eixo sul-sudeste e também das quebradas (ou periferias), e claro, aceito dicas.

Como funciona o empréstimo de e-books e audiolivros digitais?

Os e-books estão ganhando um espaço cada vez maior em bibliotecas do mundo inteiro. Há duas formas de promover o acesso a coleções digitais em bibliotecas públicas: pelo empréstimo de e-readers, ou através de softwares que mediam o empréstimo dos arquivos digitais diretamente nos dispositivos eletrônicos dos usuários.

Eu não estou falando de disponibilizar uma lista de arquivos em PDF que você pode baixar gratuitamente, cujos direitos autorais são livres. Estou falando de conteúdo licenciado.

Software para empréstimo de e-books

Aqui no Canadá, muitas bibliotecas públicas usam o Overdrive como software para empréstimo de e-books e audiolivros em MP3.

No catálogo das bibliotecas, você encontra a obra com um link para baixar pelo Overdrive.

O usuário pode instalar o aplicativo do Overdrive no seu tablet,  celular (smartphone) ou no próprio computador. Uma vez instalado, você faz o login no Overdrive com o cadastro da sua biblioteca local (usando o número do cartão e a senha).

Eu uso duas coleções: a da biblioteca pública de Vancouver, e a do consórcio de bibliotecas de British Columbia (a província). Como o licenciamento dessas coleções é caro, muitas bibliotecas da província se juntaram para fazer um consórcio, onde compartilham recursos e coleções. A coleção digital da biblioteca pública da minha cidade (que fica na região da grande Vancouver) é disponível através do consórcio da província.

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Você pode também navegar pelo próprio Overdrive e pesquisar o livro que quer ler ou ouvir.

A coleção é extensa, com títulos de diversos gêneros e categorias.

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Tem até Harry Potter!

A interface de pesquisa é muito bem organizada, com diversos filtros.

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Se o livro não estiver disponível, você pode fazer a reserva e entrar na fila de espera. Assim que o livro for liberado, você recebe um email notificando da disponibilidade do livro e com um prazo de dias para pegar emprestado.

Os e-books e audiolivros são emprestados por um período de 14 ou 21 dias, sem direito a renovação. Quando expira, o conteúdo simplesmente some do seu dispositivo, como mágica!

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Nessa pesquisa, acabei encontrando um livro que queria ler, em formato áudio: Cadê você, Bernadette?, de Maria Semple. (Note que há livros super novos, lançamentos recentes). O livro estava disponível para empréstimo, então baixei.

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Você clica na opção Download. Apesar do programa baixar o mp3 para o seu dispositivo, você não tem acesso ao arquivo em nenhum momento. Ele só é disponível através do Overdrive.

Uma vez baixado, você pode ouvir/ler offline, sem precisar estar conectado à internet. Não é streaming.

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Os audiolivros são divididos em muitas partes, dependendo da extensão do livro. Esse aqui são 8 partes de 1 hora e pouco cada uma.

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E quem paga essa conta?

As editoras ainda estão meio hesitantes em liberar seus livros para empréstimo por bibliotecas. Até dois anos atrás, algumas das grandes editoras internacionais não liberavam e-books para bibliotecas de jeito nenhum. Mas com a crescente demanda, tiveram que encontrar meios para viabilizar os contratos com bibliotecas públicas.

Uma das alternativas foi cobrar incrivelmente caro por cópias digitais para bibliotecas. Eu fiz um estágio em 2012 numa biblioteca pública da cidade e a gerente de aquisições me falou que, na época, um e-book poderia custar até 80 dólares para bibliotecas, enquanto custavam menos de 15 para leitores comuns.

Outra solução foi limitar o número de downloads por cópia. Uma das editoras (não lembro qual, acho que a Harper Collins, uma das gigantes) permitia apenas 26 leituras de cada e-book. Depois disso, a licença expirava e a biblioteca era obrigada a comprar outra licença.

No Brasil

A Biblioteca de São Paulo empresta e-readers a seus usuários, porém eles devem usar os dispositivos dentro da biblioteca.

Eu fico aqui, torcendo pelo progresso das bibliotecas públicas na nossa terrinha, pra que todo mundo um dia possa ter acesso a tecnologias como o Overdrive.

Demonstração

Editando o post pra inserir finalmente o vídeo de demonstração! (agosto de 2015)

Mapa das bibliotecas públicas do Brasil

Tiago Murakami mais uma vez criou um mapa com todas as bibliotecas públicas brasileiras, agora em formato melhor.

A maior parte do trabalho é conseguir adaptar os registros dos documentos disponibilizados publicamente, mas que são ruins de trabalhar (PDF em vez de CSV, por exemplo).

O Sistema Nacional de Bibliotecas Públicas é o órgão que possui os dados atualizados das bibliotecas cadastradas. Esses dados que aparecem no mapa são referentes ao censo de bibliotecas realizado em 2011, o mais recente que conseguimos.

Para visualizar o mapa, clique na imagem abaixo:

Como identificar os potenciais de sua comunidade

O que a história do jazz e do blues, Violeta Parra e Páez Vilaró podem ensinar aos bibliotecários…

Seguindo com a série sobre o desenvolvimento de atividades editoriais em bibliotecas públicas e comunitárias.

No primeiro post, abordei algumas razões para bibliotecas desenvolverem alguma atividade editorial. Longe de esgotar esse assunto, apenas ressaltei aqueles motivos que considero cruciais para a missão das bibliotecas públicas e comunitárias:

  • o empoderamento da comunidade;
  • o resgate da cultura popular; e
  • o reconhecimento dos talentos escondidos e esquecidos na comunidade.

Agora vou falar sobre a identificação das pessoas que serão a nova “coleção” dessas bibliotecas.

Não há como resolver esse problema apenas abrindo inscrições e esperando interessados. Em geral as pessoas que têm as melhores histórias, aquelas que guardam os registros culturais mais autênticos, sequer sonham que esse material tenha algum valor.

Em nossa sociedade, infelizmente, a cultura popular só ganha valor quando algum grande nome da música, artes plásticas ou cinema resolve resgatá-la (e diluí-la, na maioria das vezes) em suas obras. E nesse ponto deixa o âmbito onde foi criada e, transformada em produto, ganha valor comercial, vira concerto, álbum, mostra em museus, item de leilão, cartaz em cinema… E quantas manifestações genuínas e ricas de nossa cultura se extinguiram aguardando a “descoberta”!!!

Então, como nós bibliotecários poderíamos descobrir esses verdadeiros tesouros e legitimar sua importância para a sociedade e, principalmente para as próprias pessoas que os produzem e transmitem?

Esse não é um papel novo em bibliotecas! As bibliotecas nacionais costumam organizar o acervo cultural de seus países e algumas dedicaram esforço para documentar a cultura popular, com o principal foco no registro e resgate da identidade histórica da nação.

Dessas eu destaco o exemplo mais emblemático, por dois motivos: primeiro pela iniciativa ter partido da maior biblioteca que já existiu, a Biblioteca do Congresso dos EUA (o que diz bastante sobre a importância desse resgate), o segundo motivo é que o projeto envolveu a documentação e o resgate do blues e do jazz, e eu sou fã de blues e jazz!

John Lomax e seu filho Alan, dois antropólogos, dedicaram suas vidas a explorar e documentar a música folclórica nos Estados Unidos e em diversos outros países.  Das inúmeras expedições pelos confins dos EUA, procurando músicos populares e menestréis errantes (documentando o impressionante acervo de gravações folclóricas que compõe o Archive of American Folk Song), talvez o mais importante trabalho dos Lomax tenha sido o registro das canções dos negros do país, feito entre 1933 e 1942, sob encomenda da Biblioteca do Congresso.

Equipamento de gravação no porta malas do carro de John Lomax
Equipamento de gravação no porta malas do carro de John Lomax

Essa coleção permitiu traçar a história da música negros dos EUA, precursora do blues, do jazz, do rock e da música pop, resgatar canções que hoje são conhecidas mundialmente e projetar artistas que, de outra forma, permaneceriam no ostracismo da pobreza, racismo e exclusão social.

Para conseguir esse feito, os Lomax não lançaram editais convocando músicos negros para gravarem suas canções. Não publicaram anúncios no jornal e esperaram. Foram atrás desses artistas nos lugares onde eles estavam, conversaram com cada um deles, entrevistaram, registraram suas duras trajetórias de vida e gravaram pessoalmente suas canções.

E onde encontrariam músicos negros e pobres naquela época? Geralmente nas prisões dos estados do sul do país! Marginalizados, os negros pobres dessa época e especialmente os músicos, eram presos por muito pouco. Nessas prisões, e também em bares, zonas rurais e guetos urbanos, John e Alan Lomax descobriram músicos como Leadbelly, Muddy Waters, Woody Guthrie, Big Bill Broonzy, Bessie Jones, Kelly Pace e muitos outros. Os que estavam presos ganhavam a liberdade com acordos entre Lomax e os diretores das penitenciárias, alguns seguiram carreiras internacionais a partir de então.

Voltando para nossas bibliotecas, você talvez diria: “Mas Derbi, eles tinham a maior biblioteca do mundo financiando essas expedições! Nós, aqui na biblioteca do bairro, mal conseguimos comprar um computador!”. E você tem razão. Por isso tenho outro exemplo para ilustrar como algo parecido pode ser feito, sem um orçamento gigante, ou mesmo sem qualquer orçamento…

Violeta Parra, compositora e cantora, saiu cedo na vida, violão embaixo do braço, percorrendo as bucólicas paisagens rurais e as difíceis cordilheiras do Chile, em busca daqueles músicos que conheciam as canções folclóricas, transmitidas pela tradição oral. Por ter tomado para si essa missão, é considerada a fundadora da música popular chilena. Começou pobre, estudou até o segundo ano do secundário e largou os estudos para poder ganhar a vida. Também é considerada a mãe das canções de protesto e suas músicas foram gravadas por gente como Milton Nascimento e Mercedez Sosa, Elis Regina , Joan Baez e muitos outros (para saber mais sobre essa heroína latino-americana, recomendo o filme Violeta se fue a los cielos).

Cena do filme "Violeta fue a los cielos" sobre a vida de Violeta Parra
Cena do filme “Violeta fue a los cielos” sobre a vida de Violeta Parra

Mas não vamos restringir os exemplos ao resgate da cultura musical, cito aqui uma passagem da história do grande pintor uruguaio Carlos Páez Vilaró, muito conhecido pela Casa Pueblo, a “escultura habitável”, em Punta Ballena, no Uruguai. No começo de sua carreira, nos anos 40, Páez Vilaró viveu em um cortiço de negros chamado Mediomundo, em Montevidéu. Ali se apaixonou profundamente pelo candombe, uma tradição popular de origem africana. Nesse período produziu inúmeras obras retratando o candombe e o cotidiano dos moradores do Mediomundo.

Cortiço Mediomundo, de Páez Vilaró
Cortiço Mediomundo, de Páez Vilaró

Mais tarde, quando convidado para expor essas obras em uma exposição fechada para os europeus, Páez Vilaró recusou o convite, respondendo que, se quisessem conhecer o cortiço, que viessem ao cortiço. Daí surgiu uma exposição única, que trouxe a Europa para o cortiço!

Com telas penduradas nos varais de roupa e nas entradas das casas, o mundo se encantou com a vida dessa comunidade afro-castelhana. Isso trouxe aos protagonistas da cultura do candombe um reconhecimento que até então nunca tiveram, inclusive evitando o despejo planejado pelas autoridades e garantindo o direito a uma moradia digna (embora o prédio histórico tenha sido demolido posteriormente). Hoje o candombe é um patrimônio imaterial uruguaio comparado ao carnaval brasileiro.

O que pretendo demonstrar com os exemplos acima é que, em todos os casos, a ação intensa de convívio possibilitou o resgate e a valorização de um ativo cultural que estava até então escondido, abafado, fadado a desaparecer na crescente alienação provocada pela massificação da cultura. Os próprios artistas e comunidades ganharam uma nova consciência do valor daquilo que faziam cotidianamente, logo, de seus lugares no mundo.

Assim, o menestrel que cantava notícias por onde passava em forma de proto-blues, o peão da fazenda que marcava o ritmo da pesada rotina nos campos de algodão com canções de trabalho ancestrais, ensinadas por seus pais, a senhora que animava as festas da família com melodias de seus antepassados Mapuches nos Andes Chilenos, o povo do cortiço, que viu suas vidas refletidas nas pinturas, todos e cada um imediatamente se identificou com suas raízes e percebeu o quanto aquilo era importante!!!

Da mesma forma podemos fazer isso em nossas bibliotecas, pelas comunidades que atendemos. Estamos preparados para isso? Provavelmente não! Mas Violeta estava? Hoje não precisamos cruzar desertos e cordilheiras para realizar essa proposta, mas ainda temos penhascos de desigualdade e de preconceito para superar. Também temos toda sorte de recursos educativos e apoio de pessoas especializadas para nos ajudar nesse difícil e longo caminho.

Mas onde procurar? Em todos os lugares! Mas certos locais e eventos são mais propícios a revelar talentos e histórias impressionantes.  Alguns passos para iniciar essa aventura:

  • Fortaleça os laços da biblioteca com associações de moradores, participe de reuniões, saiba dos problemas da comunidade;
  • Proponha atividades da biblioteca em eventos das igrejas e terreiros do local. Construa esses eventos junto com as lideranças desses espaços, aceite as propostas, respeite as preferências e decisões sobre essas ações;
  • Desenvolva alguma atividade da biblioteca nas ruas. Pode ser uma biblioteca itinerante no porta malas de um carro, uma feira de trocas, uma bicicloteca…;
  • Crie uma banquinha da biblioteca nas feiras da comunidade. Faça contação de histórias, ofereça empréstimos… frutas e verduras costumam ser mais populares que livros e a feira é um dos lugares mais democráticos dos bairros;
  • Descubra onde as pessoas se reúnem. As praças são sempre um bom ponto de partida, são o lugar onde velhos jogam dominó, jovens andam de skate nas pistas, homens e mulheres caminham ou passam o tempo.
  • Converse muito, sobre todos os assuntos e escute mais do que fala!

O grande desafio é a abordagem, que precisa ser a mais honesta o possível, sem ser invasiva ou artificial. É preciso ter interesse genuíno no que as pessoas fazem, é preciso querer fazer parte.

Para aproximar a discussão de nossa realidade e para ter uma ideia do que fazer com as histórias descobertas, nos próximos posts dessa série (prometo que serão mais curtos!) vou falar sobre alguns coletivos e movimentos sociais, de várias partes do Brasil, que praticam ações culturais desse tipo nas vilas e favelas e vêm obtendo resultados fantásticos! Se alguém souber de ações desse tipo e quiser contribuir, comente por aqui!

* A imagem do post é a pintura “Favela Vila Broncos”, de Bob Dylan, do livro The Brazil Series.

Por que desenvolver atividade editorial na biblioteca

Por que um projeto editorial seria interessante para bibliotecas públicas e comunitárias?  Como poderia contribuir para a relação da biblioteca com a comunidade e dos indivíduos e grupos da própria comunidade entre si?

Poucos duvidam do valor dos livros e da leitura na transformação das vidas das pessoas. Seja através de um programa formal de educação, seja por interesse pessoal autodidata, livros, revistas, bibliotecas, enfim, a leitura ocupa um espaço de destaque no imaginário de como se aprende alguma coisa.

As bibliotecas públicas e comunitárias (as demais também, até certo ponto) têm por missão principal a disseminação dos livros e o estímulo da leitura.

Fazem isso através de suas coleções, formadas a partir do estudo dos interesses, hábitos e outras características que formam os perfis de seus usuários e também por meio do serviço de referência, marketing, cursos de formação de leitores, eventos e outras atividades desenvolvidas, a partir desses estudos, para aproximar a comunidade dos livros e da leitura.

Fazem isso para oferecer aquilo que o usuário quer e precisa, assim respondendo às 3 primeiras leis de Ranganathan e, por esse trabalho, são as instituições culturais mais lembradas quando se fala em leitura. Entretanto, algumas questões podem ser colocadas ao tipo de contato e serviços oferecidos pelas bibliotecas às suas comunidades:

Quem decide o que o usuário ou a comunidade precisa? Até que ponto nossos estudos de comunidades conseguem identificar desejos e necessidades? Com que frequência superamos o questionário e a análise de dados do censo para determinar esses valores? Quanto de contato real com as pessoas das comunidades para aprofundar as informações quantitativas? E com as pessoas que não frequentam a biblioteca?

Mais importante (e com mais potencial revolucionário): Supondo que realmente sabemos os interesses e desejos de nossos usuários, que os estudamos ao nível do convívio, da conversa, será que os livros que selecionamos correspondem a esses interesses e desejos? Será que são o suficiente?

A verdade é que, por mais que nos esforcemos por compreender o que o usuário pensa e o que ele quer, ainda assim seremos pessoas tentando adivinhar o que os outros precisam e oferecendo acervos e serviços baseados nessa presunção.

Uma biblioteca que planeja seus recursos tendo por base apenas os estudos de usuário, por mais fiéis que sejam, e apenas seleciona um acervo entre as opções oferecidas pelo mercado editorial, está fadada a funcionar como o panóptico de Foucault: um centro que exerce controle a partir da informação que irradia para a periferia* .

A cultura assim difundida não leva em conta a visão de mundo, as criações e potenciais existentes em cada comunidade e em cada indivíduo isoladamente. E isso se torna mais verdadeiro conforme nos aproximamos das periferias das cidades, da pobreza e da exclusão social.

Nesses redutos, onde a presença da cidadania, na forma de serviços públicos, de participação nos processos políticos, e mesmo de condições básicas de existência é precária, produz-se muita cultura, a cultura verdadeiramente popular, riquíssima! Mas essa cultura fica restrita aos becos, vilas e favelas, não é conhecida e nem se demonstra interesse em conhecê-la nos círculos menos precarizados da sociedade. É uma cultura que não tem voz na mídia, que não tem vez nos centros culturais. De tão calada, nem mesmo os atores que a protagonizam valorizam o que fazem. E é justamente nesses locais em que as bibliotecas são mais necessárias. Exatamente para resgatar a identidade, a confiança e a autodeterminação desses sujeitos, através da ação cultural.

Para que uma revolução, que possibilite às pessoas a garantia efetiva de seus direitos e condições de igualdade, aconteça, é necessário que todos e cada um tenham consciência de seu lugar no espaço e no tempo. No espaço, sabendo situar-se em todos os níveis, da comunidade local ao contexto global, de forma política cultural e econômica. E no tempo, reconhecendo a história de sua própria vida, das pessoas de sua família, do seu bairro, cidade, estado, país, continente, mundo… Saber reconhecer o contexto em que se está inserido, os eventos que o levaram a tal situação e as relações entre sua comunidade e as outras forças em jogo é condição sine qua non para o exercício pleno da cidadania. E para adquirir essa consciência e tornar-se então governante de seu próprio destino, o indivíduo precisa reconhecer e valorizar sua própria identidade cultural.

Isso implica reverter o processo elitizante da cultura. Nas periferias, onde a cultura popular é efetivamente produzida, a ideologia dominante distorce a visão dos indivíduos sobre sua própria identidade e vivências, fazendo com que considerem seus próprios feitos como desimportantes ou mesmo repudiem completamente a própria cultura, já que essa não é valorizada, não está nas lojas, nem na televisão, nem nos jornais.

O reconhecimento do valor das experiências de cada um é necessário para a existência de um ambiente criativo e estimulante, apto a resgatar a auto-estima da comunidade e capaz de transformar aquilo que hoje é considerado marginal em um ativo cultural complexo e próspero e, final e idealmente, conduzir à libertação cultural dos sujeitos.

A ação cultural nas bibliotecas, geralmente é vista como a promoção de atividades culturais com o intuito de difundir a “cultura”, tornar as pessoas “cultas”, “levar” até o público-“alvo” os prestigiados valores culturais da sociedade. As atividades são cursos, clubes de leitura, palestras, feiras de troca, peças teatrais, espetáculos de música, entre outras. Todas essas atividades são excelentes para atrair público, divulgar os serviços e ampliar a relação da biblioteca com a comunidade. Elas comprovadamente causam impacto nos hábitos de uso da biblioteca e de leitura dos usuários.

Mas não cruzam a linha da cultura estabelecida. Com raras exceções, essas atividades são planejadas e executadas por pessoas de fora da comunidade. São convidados escritores para falar sobre seus livros, artistas para cantar suas músicas, professores para ensinar suas especialidades, mas, muito raramente, essas pessoas vivem e compartilham os valores e a identidade da própria comunidade. Uma biblioteca popular que realmente queira promover a ação cultural não pode se limitar a divulgação do acervo e a “trazer atividades”.

É preciso enxergar os ativos da própria comunidade, enxergar as pessoas como o acervo. Uma vez li sobre uma ação na qual frequentadores de uma biblioteca sentavam diante de uma pessoa, entre algumas que se podia escolher, e essa pessoa contava a sua história (se alguém lembrar do link, posta nos comentários e eu atualizo depois). Um acervo de pessoas! Mas como seria isso?

Numa proposta de biblioteca popular, os livros poderiam ser as cabeças das pessoas e o acervo a comunidade. O catálogo representaria a ação cultural nessa alegoria. Então catalogamos “cabeças”, tornamos “recuperável” o material que surge espontaneamente no cotidiano das pessoas, buscamos as associações entre essas e outras ideias, registramos, preservamos e promovemos o acesso a essa coleção.

Cada vila, cada favela tem sua história, tem seus velhos griôs, contadores de história**, verdadeiros compêndios de sabedoria popular, cheios de causos e lendas de sua juventude (e das múltiplas juventudes anteriores que, pela oralidade, transmitiram a eles o compromisso de contar). Tem seus moradores antigos, que estavam lá na primeira invasão, que têm fotografias e histórias para contar sobre esse processo.

As coleções também podem ser formadas pelo padre; pelo pai de santo; pela benzedeira e pela parteira; pelo clube de mães; pelo presidente da associação de moradores; pelo time de futebol de várzea, que nunca ganhou um campeonato, mas conta com uma torcida fiel; pelo MC e pelo DJ; pelo grafiteiro; pela costureira; pela cozinheira que carrega seu livro de receitas, passadas a ela por sua avó, que foi escrava; pelo filho do carteiro, que desenha bem…

Assim, catalogamos, indexamos e buscamos (um serviço de referência) material que complemente e reviva essas narrativas. No caso dos griôs: a música da época de suas histórias, fotografias antigas dos lugares, a literatura, as roupas, os relatos de outros menestréis, etc.

Essa é a matéria que deve compor as bibliotecas populares. Os livros nas estantes devem ser o espelho dessas vivências, que são o verdadeiro acervo. Assim valorizamos o que surge espontaneamente (a verdadeira cultura) e não empurramos algo que muitas vezes é até antagônico aos interesses das comunidades.

O resultado esperado é a valorização dos indivíduos pelo que já são e não mais como seres que precisam atingir um modelo de realização que está distante (não raro inalcançável) e é indiferente a eles.

Nenhuma dessas ideias é realmente nova. Diversos pensadores e educadores, como Ferrer y Guardia, João Penteado e Paulo Freire já lançaram propostas semelhantes. O conceito de ação cultural, como defendido por Luís Milanesi, compartilha desses ideais de cultura popular e do papel das bibliotecas nesse contexto.

Muitas iniciativas já obtêm resultados impressionantes partilhando essas ideias. Dentre essas, destaco a que considero mais próxima do modelo ideal de biblioteca popular: as bibliotecas parque. O conceito, maravilhoso em múltiplos aspectos, surgiu na Colômbia e coloca a biblioteca no centro do projeto urbanístico dos bairros e, mais importante, posiciona bibliotecas muito bem equipadas no coração de zonas de risco social. O Brasil já tem suas primeiras experiências do conceito, nas favelas do Rio de Janeiro. Na favela de Manguinhos o espaço foi rapidamente apropriado pela população, que utiliza e conserva o prédio, os equipamentos e os livros.

Mas então, como identificar, incentivar, registar, editar e publicar esse acervo riquíssimo? Primeiramente é necessário que o bibliotecário deixe o conforto de suas atividades tradicionais e inicie o flerte com a antropologia e com as relações públicas, que se empenhe em participar das entidades comunitárias: associações de bairro, de mães, paróquias, congregações, terreiros, clubes, escolas, etc, e nesses ambientes identifique os potenciais novos “livros” para o acervo.

A partir desse mapeamento, pode se projetar atividades, entrevistas, apresentações. Convidar artistas (de preferência da própria comunidade) para ilustrar a história de algum morador, registrar em vídeo, transcrever em texto. Muitos escritores, podem se interessar por registrar as narrativas recolhidas, universidades podem incentivar programas de extensão para auxiliar nos projetos.

As eventuais publicações dos materiais coletados podem ser financiadas por meio de leis de incentivo, ou (melhor ainda!) de maneira autônoma, por crowdfunding ou arrecadação com eventos e doações espontâneas. E publicações não precisam ser necessariamente caras, podem ser feitas de forma artesanal, com material reciclável, inclusive envolvendo a própria comunidade no processo de confecção dos livros.

Nas próximas postagens pretendo explorar o universo dessas práticas. Abordar o fenômeno das editoras cartoneras, os fanzines e outras modalidades editoriais que podem inspirar ações culturais efetivas para nossas bibliotecas. Conto com o apoio dos leitores para sugestões e críticas!

 

* Não estou propondo que essa cultura, ou esses livros, não tem valor. Mas não deveriam ser o único valor considerado.
** Preferi aqui o termo “contadores de história” a “contadores de estórias” por acreditar que as possibilidades semânticas do primeiro destaquem a relevância do resgate histórico presente nas narrativas desses menestréis contemporâneos.

A imagem do post é dos livros da Eloísa Cartonera, de Buenos Aires

Por que as bibliotecas estão ressurgindo das cinzas

direto da terra da rainha, texto de Ken Worpole, publicado no The Guardian

Os políticos já perceberam que é melhor para eles gastar dinheiro com bibliotecas, em vez de museus e galerias de arte

Adoradores das biblioteca, entre os quais eu me incluo, não precisam estar muito cheios de tristeza e melancolia. Enquanto cortes e fechamentos estão afetando os serviços das bibliotecas, também é verdade que a última década assistiu a uma reinvenção da biblioteca pública no Reino Unido e em todo o mundo. A Biblioteca de Birmingham reabriu a um custo de 186 milhões de libras, tornando-se a maior biblioteca pública na Europa. Ela espera atrair 10 mil visitantes por dia. A magnífica biblioteca Mitchell de Glasgow, que anteriormente detinha o recorde como a maior biblioteca de referência pública na Europa, foi recentemente remodelada para um enorme efeito. Desde 2000, novos edifícios de bibliotecas abriram em Bournemouth, Brighton, Canada Water, Cardiff, Clapham, Dagenham, Glasgow, Liverpool, Newcastle, Norwich, Peckham, Whitechapel e em outros lugares, todas registrando números altíssimos de usuários.

Por que as bibliotecas estão de volta à agenda urbana? Um número crescente de pessoas está agora envolvido em alguma forma de educação continuada ou ensino superior, e precisam de espaço de estudo e acesso à internet, o que muitos não conseguem encontrar em casa. A ascensão de moradores que vivem sozinhos nos centros urbanos – em algumas capitais europeias se aproxima a 50 % dos domicílios – significa que as bibliotecas cada vez mais atuam como um ponto de encontro ou uma casa fora de casa, como servem para migrantes, refugiados e até mesmo turistas. A ideia da biblioteca como “a sala de estar da cidade” foi promulgada pela primeira vez nos projetos de bibliotecas escandinavas da década 1970, com os arquitetos respondendo aos desejos dos usuários para permanecerem mais tempo no ambiente, tomar um café e desfrutar de sessões de contação de histórias, concertos à hora do almoço ou participar de leituras de livros em grupos. Visitando a biblioteca Örnsköldsvik no norte da Suécia, perto do Círculo Polar Ártico, notei que os usuários trouxeram seus chinelos e um almoço embalado. Esta nova compreensão do espaço da biblioteca é formalizada, por exemplo, na biblioteca Rem Koolhaas de Seattle, onde três dos cinco andares são designados como Sala de Leitura, Sala de Estar e Câmara de Mistura.

O entusiasmo mundial revivido para bibliotecas – do qual Seattle é talvez a mais ambiciosa – teve origem na América do Norte na década de 1990. Tendo supervisionado o fracasso financeiro de museus e galerias icônicas – construídos ostensivamente para colocar as cidades no mapa – os políticos perceberam que recebiam mais atenção quando gastavam o dinheiro em uma biblioteca estado-da-arte. Quando a biblioteca de Nashville foi inaugurada em 2001, inscrita em cima da porta estava a máxima: “Uma cidade com uma grande biblioteca é uma grande cidade.” O historiador Shannon Mattern recentemente dedicou um livro inteiro a representar a ascensão para a proeminência da nova biblioteca urbana na vida cívica americana.

Na Europa, houve um desencanto semelhante com o “Efeito Bilbao”, em homenagem ao sucesso singular do projeto de Frank Gehry para um museu e galeria de arte na cidade. Por um tempo, muitos planejadores acreditavam que somente edifícios de museu icônicos projetados por arquitetos-celebridade poderiam resgatar cidades fracassadas do esquecimento. O amargo livro de Deyan Sudjic “O Complexo de edifícios” discrimina a retórica exagerada e custos crescentes de muitos desses projetos aspirantes ao redor do mundo, juntamente com a sua morte precoce. Na Grã-Bretanha, a mais grandiosa delas, o Millennium Dome, absorveu quase um bilhão de libras de dinheiro público – destinados a fornecer uma vitrine permanente para a ciência e as artes – apenas para ser rapidamente alugado como um local para eventos corporativos e pop. O Parque Olímpico e suas instalações pode muito bem seguir o mesmo caminho.

É quase impossível para as bibliotecas públicas falhar desta maneira. Elas são livres para usar, e, depois de um século e meio de experiência, se entremeou no tecido da vida cotidiana. Em algumas cidades britânicas, quase metade da população possui um cartão de biblioteca, mesmo que ele seja usado com pouca frequência. Nós fazemos piadas sobre os bibliotecários tímidos escondidos atrás das pilhas de livros ou na sala de estoque, mas as pessoas confiam neles como confiam em poucos outros. Os bibliotecários podem agonizar sobre questões de gosto, decência e da adequação dos materiais que estocam, em comparação com a neutralidade moral do mercado comercial, mas nós os admiramos por isso. Mais importante ainda, as bibliotecas são vistas como pertencentes a todos por direito, comparadas à teatros com financiamento público, galerias de arte, museus ou salas de concerto.

A adaptabilidade da biblioteca para responder às novas demandas se reflete no design contemporâneo. O balcão de informações da biblioteca em grande parte desapareceu. Máquinas de auto-atendimento liberam funcionários para passar mais tempo com os usuários da biblioteca, organizar sessões de contação de histórias, de autógrafos e círculos de leitura (havia mais de 100.000 membros de grupos de leitura em bibliotecas na Inglaterra e País de Gales na última contagem). Foyers tendem a ser abertos com poltronas para leitura, e serviços de empréstimo e de referência estão agora misturados. Nem todo mundo usa a internet para pesquisar um ensaio de alto nível de Shakespeare ou acompanhar os eventos na Síria. Outros estarão à procura de um emprego ou verificando sites de namoro, ou podem ter caído no sono em uma réplica da cadeira ovo brilhante de Arne Jacobsen sobre uma cópia do Jornal dos Sports. E daí? Todos os tipos de pessoas descobrem um senso de santuário nas bibliotecas, que não encontram em nenhum outro lugar da cidade. A biblioteca pública é o símbolo supremo da “grande sociedade”.

“Os três documentos mais importantes que uma sociedade livre dá”, o romancista americano EL Doctorow escreveu uma vez, “é uma certidão de nascimento, passaporte e um cartão de biblioteca”. Os jovens estão muito em evidência nas novas bibliotecas – uma mudança cultural inesperada e bem vinda – sem dúvida, atraídos por uma arquitetura arejada brilhante que reflete a cultura do design vivo que eles assimilam em suas vidas. Eles também parecem à vontade em um lugar que os trata com um respeito não concedido em outros locais na vida pública.

Nem todo mundo aprova o novo ethos da biblioteca, resumido como sendo “da coleção para a conexão”. Alguns permanecem horrorizados com o avanço da revolução tecnológica, que não só está a remodelar o mundo, mas reconfigurando a biblioteca pública junto com ela. Se os pioneiros da biblioteca do século 19 reconheceriam estes edifícios do século 21 pode ser questionável – mas uma vez lá dentro eles se sentem em casa. Ainda hoje, o mundo dentro da biblioteca mudou menos do que o mundo lá fora.

Indicadores em Bibliotecas Públicas Municipais

Uma dos grandes desafios que vejo para as bibliotecas públicas é criar indicadores padronizados para a mensuração de nossos serviços. A padronização de indicadores nos dá a oportunidade de compararmos os nossos serviços de modo a permitir o Benchmarking de nossas atividades. A idéia deste post é discutir com você alguns dados que já levantei sobre indicadores e incluir nesses dados os que forem indicados durante a discussão.

Os dados inicialmente levantados foram:

DADOS DEMOGRÁFICOS:

Total da população potencial a ser atendida: Número de habitantes que o município / bairro / comunidade que a biblioteca pretende atender.
Número de estudantes nesta comunidade: Número de estudantes frequentando as escolas da região, se houver.
Área atendida: Em km2
Transporte público

INSTALAÇÕES E ATENDIMENTO:

Área física: Em m2
Composição da área física: Descrição da quantidade de ambientes e de sua finalidade.
Horário de atendimento

EQUIPE:

Quantidade total de funcionários
Distribuição de funcionários por função
Formação dos funcionários

RECURSOS FINANCEIROS:

Orçamento pŕoprio: Caso possua.
Orçamento do orgão responsável pela biblioteca: Preferência por indicar a conta mais próxima dos gastos exclusivos da biblioteca.
Outras formas de captação de recursos: Se houver

ACERVO:

Títulos: Quantidade de títulos únicos no acervo
Exemplares: Quantidade total de exemplares no acervo
Idade média do acervo: Média entre a data de publicação. Considerar a data da edição.
Exemplares por localização:Distribuição dos exemplares por localização (ex. Acervo classificado, referência, acervo infantil, etc.)
Exemplares por classificação: Distribuição dos exemplares por classificação.
Distribuição por tipo de material: Livros, DVS, CDs, Brinquedos, etc.
Assinaturas ativas de periódicos: Quantidades de assinaturas vigentes de periódicos.

FORMAÇÃO E DESENVOLVIMENTO DE COLEÇÕES:

Quantidade de novos títulos e exemplares por ano
Exemplares por forma de aquisição: Doações x Aquisições.
Descarte e desbastamento: Quantidades de livros retirados do acervo.
Total de doações
Doações aproveitadas: Quantidade de doações aproveitadas pela biblioteca ou por outras instituições a ela vinculada.
Investimento financeiro: Valor investido na aquisição do acervo.
Tempo médio de processamento Média em dias entre a data que o livro chega na biblioteca e no qual é disponibizado ao público.

ACESSO

Computadores com acesso à internet: Quantidade de computadores com acesso à internet.

QUANTIDADE E PERFIL DOS USUÁRIOS:

Usuários cadastrados: Quantidade total de usuários cadastrados
Quantidade de usuários cadastrados nos últimos meses
Composição dos usuários: Separados de acordo com a classificação usada em cada biblioteca. (ex. Crianças (até 12 anos), Jovens (13 a 20 anos), Adultos (a partir de 21 anos), Funcionários, Professores, etc…

USO:

Frequência total
Frequência de internet
Frequência cultural
Frequência por tipo de usuário: Adulto / Infantil (de dificil mensuração)
Quantidade máxima de empréstimos por usuaŕio: Estipulada de acordo com o regulamento.
Quantidade de dias permitidos no empréstimo: De acordo com o regulamento.
Forma de punição: Suspensão / Multa
Quantidade total de empréstimos.
Obras mais emprestadas
Obras com a maior quantidade de reservas
Empréstimos por tipo de material.
Empréstimos por classificação.
Média de quantidade de obras por empréstimo.

ATIVIDADES CULTURAIS:

Quantidade de eventos culturais: (anual)
Distribuição das atividades culturais por tipo de evento
Frequência das atividades culturais por tipo de evento
Investimento financeiro nas atividades culturais

INFORMATIZAÇÂO:

Software utilizado: Caso possua
Está disponível online? Sim/Não
Endereço do OPAC na web: Caso possua

Principais referências consultadas:

INSTITUTO NACIONAL DO LIVRO. Dez mandamentos para a Biblioteca Pública ser útil ao Município. Brasília: INL, 1973.

SECRETARIA DE ESTADO DA CULTURA DE SÂO PAULO. Formulário de atualização das informações referêntes às Bibliotecas Públicas do Estado de São Paulo – Dados 2009. São Paulo: Secretaria de Estado da Cultura, 2009.

PS. Se alguém tiver o primeiro formulário usado para o Cadastro Nacional de Bibliotecas Públicas do SNBP será bastante útil.

PS2. Sua contribuição será bem recebida. Contribua nos comentários. Este post será atualizado conforme acontecerem as discussões.