10 coisas que aprendi depois de 40 congressos

Acabei de dar uma olhada na programação do SNBU, que vai acontecer na próxima semana, em Manaus. Gostaria muito de ir, mas por motivo de força maior não irei. De qualquer forma, estive presente em várias outras conferências e congresssos nos últimos anos. Fossem elas em nível local, estadual, nacional, internacional, especializada, estudantil, não importa, eu estive lá. Até conseguei montar um “kit de sobrevivência para congressos”, que inclui as roupas certas para cada evento e cidade, os materiais de divulgação ou de apresentação (caso eu fosse dar uma palestra ou curso) e o controle da programação dos grandes congressos, que normalmente colocam apresentações interessantes acontecendo simultaneamente ou em intervalos de tempo muito curtos (o que exige um planejamento para maximizar a grade de horários).

Por mais que a gente às vezes fique irritado com a profissão, no fundo no fundo sempre que participei de um evento da área foi pra ver se eu conseguia recapturar a emoção e crença nas bibliotecas que me fez permanecer na profissão depois desses anos todos. Foi por essa mesma razão que eu resolvi organizar o primeiro bibliocamp, uma conferência para me fazer acreditar de novo, naquilo que eu realizo todos os dias e no que eu dediquei minha vida a concretizar profissionalmente. Spoiler alert: deu certo.

então…o que eu aprendi depois de ter participado de tantos SNBUs, CBBDs, ENEBDs, colóquios, encontros, palestras, etc?

Lição 1: Uma paixão sincera pelo trabalho permeia tudo que os bibliotecários fazem

As principais apresentações e conversas nos eventos levam a esse ponto. Os colegam falam sobre seus projetos bem sucedidos (ou não), discutem entre si o que estão fazendo naquele momento, os esforços em grande parte centrados em seus usuários, com um entusiasmo geralmente reservado a shows do Wesley Safadão. A gente passa horas ou dias rodeados por pessoas sorridentes e orgulhosas sobre o trabalho que elas fazem diariamente. Soraia foi a primeira a dizer que a biblioteconomia é uma profissão de apaixonados. Quem sou eu pra discordar?

Lição 2: Os bibliotecários formam um grupo forte

Mesmo que o número de participantes oscile entre um evento e outro, não deixa de ser surpreendente pensar que todas aquelas pessoas que estão ali, andando pelos corredores, pegando seus brindes nos stands, sentadas assistindo uma palestra, é uma pessoa que trabalha ou trabalhou com bibliotecas. Há tantos de nós e todos nós estamos, em nosso próprio caminho, trabalhando pra caramba para tornar nossas bibliotecas melhores e mais relevantes pros nossos usuários. Falamos muito sobre nosso sentimento marginalizado, como nossas instituições não ligam pra gente, ou como não somos reconhecidos como classe profissional. Pode não parecer na primeira impressão, mas existem muitos de nós, muitos mesmo. Com os esforços de grupos como a ABRAINFO e dos próprios CRBs e associações, podemos continuar a melhorar nossos números, a nossa paixão e nossa ética, para realizar uma mudança positiva em níveis locais e nacional.

Lição 3: Pessoas incríveis fazem coisas incríveis todos os dias e não recebem prêmios por isso

Para cada mil pessoas que trabalham em bibliotecas fazendo coisas inovadoras, oferecendo soluções criativas, além de todo o resto, talvez uma só receba algum tipo de reconhecimento. Prêmios são bons, mas eles não representam todos, nem necessariamente o melhor, dentre todos os bibliotecários que estão dando seu sangue nas bibliotecas. Por favor, lembre-se de dizer obrigado para as pessoas com quem trabalha. Diga obrigado também às pessoas aleatórias em outros lugares que você vê fazendo coisas boas. Não existem certificados suficientes, troféus, medalhas para reconhecer o bom e necessário trabalho por tudo o que fazemos.

Lição 4: O trabalho dos bibliotecários é muitas vezes difícil devido a fatores fora do nosso controle

Nenhum trabalho em biblioteca, orçamento, chefe, estrutura política institucional, estrutura, população, apoio ou prédio vai ser perfeito para todos. Há muita coisa que tem o potencial de causar enormes quantidades de estresse. A realidade é que esses elementos são parte do trabalho, parte do serviço público. Há trabalhos que se encaixam melhor ou pior com uma pessoa e comunidades que se encaixam melhor ou pior com um bibliotecário. É nosso trabalho descobrir onde podemos encaixar para que possamos continuar fazendo um bom trabalho.

Lição 5: O trabalho dos bibliotecários é muitas vezes difícil devido a fatores completamente fora do nosso controle

Há algumas coisas que podemos controlar. Podemos optar por não trabalhar horas insanas e dar o nosso sangue de graça. Podemos cuidar de nós mesmos simplesmente aproveitando nossos intervalos (*suspiro*) e dar uma caminhada fora da biblioteca durante o almoço. Podemos dar prioridade ao desenvolvimento profissional. Podemos optar por não permitir que os pequenos dramas (e vamos ser honestos, eles são pequenos dramas) no local de trabalho tornem-se crises completas que nos levam ladeira a baixo. Podemos optar por gastar o nosso tempo e energia com os membros da equipe que trabalham como nós e que compartilham conosco os objetivos e a ética, e que são agradáveis de estar ao redor, minimizando assim o impacto e a influência das poucas maçãs podres que podem existir em qualquer organização.

Lição 6: Dinheiro, tipo de biblioteca e tipo de posição afetam significativamente a realidade de um bibliotecário

Um bom número de comentários que ouvi, tanto em sessões formais e conversas informais, refletia um viés pessoal e experiência limitada do palestrante. Nem todo mundo tem um smartphone. Talvez na sua comunidade, mas não na minha. Nem toda biblioteca pode ter um espaço “makerspace”. Nem todo bibliotecário pode pagar um hotel de luxo. Nem todos os usuários da biblioteca podem ler. Nem todo usuário da biblioteca se sente seguro na biblioteca. Nem todo bibliotecário tem suporte para publicar ou buscar o desenvolvimento profissional. Não toda escola possui um bibliotecário. Lembre-se que sua própria situação é apenas isso: a sua própria. Ouça as histórias dos outros e amplie sua compreensão do grande fluxo de nosso trabalho, bibliotecas e comunidades que servimos.

Lição 7: Existe um grupo de bibliotecários mais jovens que estão deixando os mais antigos orgulhosos

Percebi um tempo atrás que eu não faço mais parte da geração dos mais novos. Eu já sou bibliotecário por mais de 10 anos e trabalho em bibliotecas há mais de 15. Muitos novos bibliotecários, e, definitivamente, não apenas os bibliotecários, mas pessoas que trabalham diretamente com bibliotecas, estão fazendo coisas ótimas. A energia, inovação e perspectiva que eles trazem para os seus postos de trabalho me traz esperança de que nossas bibliotecas têm um futuro decente.

Lição 8: Questões de justiça social importam muito para os bibliotecários

Tenho visto exemplos lindos de pessoas que se juntam para aprender, mostrar solidariedade para com, e promover várias questões de justiça social. A localização de algumas conferências nas principais capitais, por exemplo, ampliou muito a consciência sobre a violência urbana, da população de rua, racismo e questões LGBT. A desigualdade social, o racismo, o sexismo, a disparidade de renda, intolerância e ódio de todas as formas não são tolerados nas bibliotecas ou pelas bibliotecas. As resoluções dos conselhoes e associações, que apelam para bibliotecas mais inclusivas, é um bom exemplo deste trabalho. Precisamos nos comprometer a fazer mais em nossas próprias bibliotecas e carreiras daqui para frente para defender estes valores essenciais. É muito fácil ter medo de tomar uma posição política e colocar a sua organização ou seu emprego em risco, em detrimento dos interesses da comunidade. É muito mais fácil ter medo e seguir as políticas e procedimentos e seguir a linha da sua instituição, esquecendo quem você é e qual é a sua ética profissional. Sou grato aos meus colegas por me lembrar a todos nós deste importante elemento do nosso trabalho.

Lição 9: As nossas histórias são mais importantes do que as nossas estatísticas

Você pode contar os seus livros, o número de visitantes, os seguidores no facebook. Ou você pode contar histórias, pode causar um impacto em outras vidas, e compartilhar essas histórias com as pessoas que tomam decisões orçamentais e políticas sobre a sua biblioteca. Tudo o que eu ouvi nas principais conferências tinha mais ênfase na segunda ação do que na primeira.

Lição 10: Ajudar as pessoas ainda me traz mais alegria do que qualquer outra coisa

Este último ponto pode parecer óbvio, mas não é. Os momentos nos congressos que me fizeram sorrir, que me energizaram e me animaram, todos tinham a ver com alguém ajudando alguém ou eu ajudando outra pessoa. Eu fico completamente entusiasmado pela profissão ao ver um impacto positivo a partir do intercâmbio de conhecimentos, uma mão amiga, uma dica simples ou uma experiência compartilhada.

Portanto, todos vocês vão ter que me aturar por mais um tempinho. Esta coisa de “ser bibliotecário” parece estar incorporada profundamente no meu ser para me levar a continuar a trilhar este caminho. Eu prometo fazer o meu melhor e sei que vocês vão prometer fazer os seus. Obrigado a todos por serem da minha tribo.

[artigo original Who We Are: Lessons from ALA Annual Conference 2016]

19 segredos que os bibliotecários nunca revelam

1. A gente não enjoa dos livros

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A maioria de nós têm sido sempre, e provavelmente sempre será, leitor. Nós adoramos discutir todas as coisas relacionadas a livros dentro e fora da biblioteca.

2. Mas nós ficamos irritados quando as pessoas dizem coisas como: “Então o seu trabalho é só ler livros o dia inteiro, deve ser bom!”

Nós coletamos materiais (livros, revistas, filmes, bases de dados, etc), oferecemos programação para todas as idades e grupos demográficos, vamos até as nossas comunidades para mostrar como a biblioteca pode beneficiá-las, oferecemos aulas, etc.

3. Não é incomum encontrarmos “surpresas” dentro dos livros devolvidos – alimentos, mofo e alguns livros encharcados

Cuide das suas coisas! A gente também vê livros com páginas arrancadas, manchas estranhas em algumas páginas e livros completamente arruinados.

4. Pegar no flagra pessoas tentando cumprir a fantasia sexual da bibliotecária sexy

Muitos de nós já empatamos alguns amassos entre as estantes. Isso acontece graças ao nosso terreno, especialmente se a biblioteca tiver cantos escondidos e mobiliário confortável. Ouve-se falar que acontece mais frequentemente em bibliotecas de universidades.

5. A gente não liga muito se os livros estão um pouco atrasados

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A vida é dura, e a gente sabe que às vezes você precisa de um pouco mais de tempo com um livro.

6. No entanto, é irritante quando um livro fica muito atrasado

Nós bibliotecários não gostamos quando um livro está extremamente atrasado, até o ponto onde os outros leitores ficam esperando um longo tempo para obtê-lo, ou pior, se o livro nunca mais for devolvido.

7. O pior é quando os usuários negam de pé juntos que não estão com o livro

Pô, cara, faz isso não. Apenas devolva o livro secretamente na queda da noite e ninguém vai dizer nada.

8. Diferente do que a mídia retrata, nós não passamos o dia fazendo shiii para as pessoas

Nós apenas monitoramos o nível de ruído em zonas de silêncio. Nesses locais, a gente têm de fazer calar algumas pessoas às vezes, o que não é divertido. As bibliotecas são espaços incrivelmente multifacetados que refletem as suas comunidades e não são mais lugares onde todos precisam ficar calados.

9. Nós não ficamos irritados quando os usuários fazem barulho nas áreas não-silenciosas

As bibliotecas públicas tem um monte de programas barulhentos (por ex: atividades infantis são quase sempre barulhentas). As bibliotecas são mais do que as pessoas costumavam pensar delas. Há experiências científicas e filmes e música e muitas outras coisas incríveis acontecendo nelas!

10. Mas nós não gostamos de ter que chamar a atenção dos outros

Só siga as regras, por favor.

11. A gente adora dar recomendações de livros, por isso não tenha medo de perguntar

Nós adoramos dar recomendações de leituras. É sinceramente uma das partes favoritas do trabalho. Se você está procurando um novo livro pra ler, pergunte ao seu bibliotecário!

12. Um grande desafio para os bibliotecários em bibliotecas públicas é proporcionar diversão e coisas engenhosas com um orçamento apertado

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Ter um orçamento limitado ou pequeno e querer fornecer TODAS AS COISAS é difícil. Felizmente, os bibliotecários são engenhosos, e muito sagazes em seu desejo de promover o conhecimento e acesso à informação para todos.

13. Nada é melhor que descobrir que nós ajudamos alguém a ter sucesso

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Certa vez uma bibliotecária tinha um usuário frequente que passou em um concurso importante depois de meses estudando para a prova. Daí o usuário pediu pra ela ler a tela do computador, mostrando que ele passou. Foi muito emocionante para a bibliotecária fazer parte daquilo, embora a uma certa distância, apenas fornecendo um lugar seguro e confortável e a tecnologia e ferramentas para que ele pudesse estudar.

14. Se o livro que você quer não está lá, nós podemos obtê-lo em outro lugar para você

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Nós podemos tentar pedir emprestado o livro de uma biblioteca diferente (pergunte ao seu bibliotecário sobre empréstimos entre bibliotecas!), ou, se o orçamento e a demanda permitirem, vamos considerar a compra do livro para adicionar à coleção.

15. Nós realmente gostamos de ajudar as pessoas

Isso poder ser tanto ajudar uma criança a encontrar livros que irão incentivar o seu amor pela leitura, mostrar a alguém como usar computadores para conseguir um emprego, fornecer ferramentas para ajudar alguém a voltar para a escola, ou indicar qual abrigo público um morador de rua pode utilizar naquela noite.

16. A gente também *ama* organizar eventos para a comunidade

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Ver a comunidade se envolver e desfrutar dos programas é um êxtase para muitos de nós. Além disso, nós costumamos criar atividades que nós queremos participar, então é um duplo benefício!

17. Nós não ficamos ofendidos com o estereótipo nerd

A photo posted by Allison (@howifeelaboutbooks) on

Na maioria dos casos, nós bibliotecários somos rebeldes e guerreiros da justiça com muito boas habilidades de pesquisa e organização.

18. A gente não se importa em tentar nosso melhor para ajudar a encontrar um livro baseado apenas na capa, mas ajuda muito se você tiver mais informações

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Não é fácil, mas a gente tenta.

19. Nós gostamos quando os usuários fazem coisas boas pra gente, mas a principal forma de manter sua biblioteca preferida é deixar o governo local saber que ela é importante pra você

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Nós já recebemos notas de agradecimento, flores, etc., e sempre aprecimos o carinho, mas também tentamos dizer às pessoas para apoiar seus bibliotecários usando a biblioteca e deixando o governo local saber que você ama a biblioteca e deseja ver mais dinheiro investido na compra de livros e novos recursos.

[post original publicado no BuzzFeed: 19 Secrets Librarians Will Never Tell You]

Falando de carreira

Aproveitando os conselhos do Moreno e os erros da Marina, como não sou tão jovem, nem errei muito (ainda), vim falar sobre o ‘está sendo’. Muita gente me pede para falar sobre pós-graduação, como foi, como é, como organizo minha vida, então aí está! Não é do ‘Fala, Bibliotecária!’, mas é, rs.

Confissões de uma bibliotecária errada

Inspirada pelos Conselhos a um jovem bibliotecário, do Moreno Barros, resolvi contar tudo o que fiz de errado nesta minha longa carreira de bibliotecária. Ou quase tudo, porque em 35 anos a gente comete tantos erros que acaba esquecendo a metade.

Sinceramente, não sei se teria feito menos bobagens “se soubesse o que sei agora” ou se tivesse dado dois segundos de atenção a bons conselhos. Provavelmente não, porque boa parte dos erros eu cometi deliberadamente, sabendo muito bem no que iriam dar, outros simplesmente não pude evitar porque são parte da minha natureza. Como o escorpião da fábula, aquele que matou a rã que o levava nas costas enquanto atravessava um lago.

E observem que estou tratando aqui de carreira não de princípios éticos nem de convicções políticas, universos completamente diferentes que poucas vezes se encontram.

Dito isso, vamos às principais burradas, mais ou menos por ordem de lembrança.

1. Permaneci numa profissão da qual não gosto. É erro primordial, claro, que não inviabiliza uma carreira, mas também não ajuda em nada. Escolhi o curso de biblioteconomia porque era menina e não sabia que droga fazer da vida, como tantos outros jovens. Não pulei fora quando descobri onde me havia metido porque pobre não pode ter essas frescuras de trocar de faculdade. E por aqui acabam as desculpas, já que todo ser humano adulto deve ser capaz de mudar de profissão em algum momento de sua vidinha besta. Eu poderia ter ido fazer outra coisa, sei lá o quê. O problema é sempre o tal “sei lá”.

2. Descuidei um pouco da formação. Um erro inicial costuma provocar reações em cadeia difíceis de controlar, por exemplo, o aperfeiçoamento profissional pode ser um fardo chato para quem não morre de amores pela biblioteconomia. Não estou dizendo que fiquei parada e bocejando esses anos todos, eu estudei, fiz cursos, acompanhei a literatura da área e até participei, com enorme esforço, de congressos e seminários chatíssimos. Mas, como só me interesso por documentação audiovisual, área um tanto carente no Brasil, deveria ter procurado algo interessante para fazer em outro país. Mas não fui. Tive preguiça, medo, pensava que “essas coisas não são para mim” e, bem, talvez não fossem mesmo.

3. Fui um desastre no marketing pessoal. Numa profissão tão cheia de moças boazinhas, ser uma ursa antissocial e desbocada e nem se dar ao trabalho de disfarçar não é bom negócio. Entretanto, apesar do meu jeito inóspito de ser, sempre fiz questão de dividir conhecimentos e experiências com colegas e estudantes que procuram minha ajuda. Por ter estudado a vida toda em escolas públicas e trabalhar numa universidade pública, entendo isso praticamente como uma obrigação moral. Mas, como expliquei no início, estou tratando aqui de carreira. Embora essa minha postura tenha me rendido grande satisfação pessoal e muitas amizades, para fins carreirísticos teria sido mais útil vender consultoria, porque pouca gente dá valor ao que é de graça. A bibliotecária passou um dia todo com você explicando o trabalho dela? Deve ser uma coitada. A bibliotecária cobra uma grana para fazer uma palestra? Puxa, deve ser fera.

4. Confundi as coisas e deixei que minha decepção com a universidade e com a profissão me paralisasse por muito tempo. Amuada, enfiei a cara no trabalho e não fiz mais nada além de trabalhar no meu canto. Quem perdeu com isso, a USP e a biblioteconomia? Não, quem perdeu fui eu, claro.

5. Participei de greves, horror dos horrores! O movimento dos trabalhadores da USP ajudou a melhorar o nível salarial dos funcionários e contribuiu para deter algumas medidas nocivas à Universidade, mas esses são ganhos coletivos. Para a carreira do indivíduo, lamento informar, ser visto como “grevista” ou “gente ligada ao sindicato” é algo bastante ruim. Numa sociedade autoritária e escravocrata como a nossa, o trabalhador que ousa defender seus direitos é considerado como um bandido. Minto: até os traficantes e líderes de facções criminosas são mais admirados entre nós.

6. Fui otária. Defendi gente de caráter fraco, respeitei gente incompetente, fiz favores sem pensar em cobrança, aceitei cargos e responsabilidades que não queria e pior, que me afastaram de tudo o que me interessava de verdade.

7. Fui dura e cruel em alguns momentos. E não pensem que vou dizer que deveria ter sido mais legal. Meu erro foi não ter sido MAIS dura e MAIS cruel em muitos momentos.

Sete erros, que bonito. Sinto que poderia continuar nesta brincadeira por muito tempo, mas dá pena estragar esse número.