Como trazer as crianças para biblioteca?

Olá pessoal!

No ‘Fala, Bibliotecária’ dessa semana resolvi falar de um tema bem importante: incentivo à leitura para crianças. Essa nova geração, com todos os meios de informação tão acessíveis, anda complicada para focar a atenção em algo. Então precisamos nos renovar e pensar juntos como melhorar nossa mediação!

 

O futuro da biblioteconomia – o livro

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O perigo de escrever um artigo sobre os impactos da inteligência artificial em bibliotecas é que ele pode ao mesmo tempo celebrar o avanço da robotização em nossa atividade profissional e justificar a eventual extinção do bibliotecário. Seria uma contradição acreditar que a IA é uma ameaça para a força de trabalho em geral, mas individualmente nós permanecermos confiantes de que somos insubstituíveis. Então aqui vou eu.

Nas discussões sobre o futuro da biblioteca e da biblioteconomia (que se tornaram livro, falarei sobre ele mais adiante) meu argumento era que a inteligência artificial torna o bibliotecário descartável, e nesse sentido o movimento de IA e robotização poderia representar uma necessidade de mudança de foco na biblioteconomia.

Em termos gerais, a essência do trabalho do bibliotecário (organização de registros do conhecimento para fins de recuperação, que é o que nos difere de outros profissionais) continua sendo importante, mas a maneira como esse processo é realizado está mudando (eu explico essa mudança no meu capítulo do livro). A oportunidade seria que as bibliotecas podem capitalizar sobre o valor da IA para agilizar alguns processos, liberando recursos, que são limitadíssimos, para se concentrar em enriquecer a experiência dos usuários (em suma, digitalizar tudo o que possui sob sua salvaguarda e deixar que profissionais de outras áreas cuidem do resto).

O discurso do humanismo bibliotecário é que, inerente ao nome da IA, a inteligência é artificial. E a grande missão dos bibliotecários é a conexão humana: as bibliotecas podem conectar pessoas à informação e a outras pessoas. Mesmo com os robôs super sofisticados, ainda haverá muitas coisas que só os humanos conseguem oferecer, como a criatividade, a inovação, exploração, arte, ciência, entretenimento e cuidar de outras pessoas.

Certamente eu tenho um pé atrás com esse discurso, que deseja justificar a permanência dos bibliotecários em um mundo robotizado acreditando que estamos completamente de fora das forças capitalistas que promovem as mudanças reais. Além disso, o ponto mais importante a meu ver, é que defender o retardo da mudança tecnológica para preservar postos de trabalho é em certa medida o mesmo que defender uma punição sobre os usuários e a melhoria da experiência de uso de bibliotecas. Porque como consumidores e usuários, nós quase nunca resistimos à mudança de tecnologia que nos fornece melhores produtos e serviços, mesmo quando isso custa empregos.

Se a nossa área ainda não foi afetada seriamente pela robotização, é porque nós custamos pouco, somos baratos. Embora a sofisticação técnica indique o que pode ser automatizado, no entanto, é o quanto os robôs custam em comparação com o trabalho humano que impulsiona quando eles vão ser adotados. A principal razão para utilizar robôs em vez de pessoas é quando o robô pode tornar o custo da atividade menos caro de ser realizada. Mas o inverso também é verdadeiro. Quando as pessoas podem fazer algo que custa mais barato do que os robôs podem fazer, então não faz sentido econômico usar robôs. Esta é a teoria econômica básica aplicada ao trabalho.

Ou seja, podemos acreditar o quanto quisermos no papel humanista da profissão. Mas não podemos depois reclamar que fomos pegos de surpresa pelos robôs.

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O Murakami resgatou ontem o incrível texto da Lydia Sambaquy, escrito em 1972, sobre a biblioteca do futuro. “Como ela descreve como acha que seria a Biblioteca no ano 2000, seria lindo escrever uma resposta para ela, para falar no que nos tornamos.”

Não pretendo escrever a resposta, especialmente porque não há que o responder, ela acertou rigorosamente tudo. Só destaco alguns pontos:
– a preocupação naquela época com a organização da explosão bibliográfica (ou qualquer outro adjetivo catastófrico). Ninguém mais sofre com isso hoje (not information overload, filter failure);
– o medo da destruição universal dos livros (facilmente resolvido com a digitalização e impressão 3D, mas que cria outros problemas como os monopólios de informação com fins lucrativos);
– compreensão enciclopédica sobre os avanços de outras áreas (pra mim, a melhor definição da missão da biblioteconomia especializada: um conjunto de técnicas aplicadas ao implemento de outras áreas);
– a missão da biblioteca maior (pública, nacional) flutua entre o guardião (limitada) e o divulgador (nobre).

A maior assertiva é “A grande e significativa diferença que prevejo, nas bibliotecas do ano 2000, será encontrada na parte relativa ao controle dos assuntos de que trata a documentação reunida.”

Mas a meu ver, o ponto crucial é que ela diz que “Crescendo o registro dos conhecimentos científicos, tecnológicos, artísticos, literários, cresce, consequentemente a dificuldade e a importância da Biblioteconomia e Documentação como profissão”, que eu concordo ipsis litteris, exceto que a transição de um modelo de organização centrado em registros físicos para um modelo baseado em registros digitais, junto da consolidação do Google, nos levou a acreditar que o problema da recuperação estava finalmente resolvido. Obviamente este problema não está resolvido, mas a ideia de um pequeno grupo de autoridades em representações descritivas e temáticas competindo com um algoritmo incrementável é desoladora.

E exatamente este ponto que eu tento destrinchar no meu capítulo do livro: considerando que já contamos com uma base de organização e classificação estabelecida ao longo de anos, em grande parte graças aos próprios bibliotecários, e do constante acúmulo de dados nascidos digitais ou convertidos em digitais, robôs já fazem o trabalho de recuperação e contextualização de modo semelhante e farão melhor do que nós no futuro.

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O LIVRO

Há muito tempo eu tinha o sonho de ter um livro impresso publicado pelo Briquet mas nunca me esforcei para criar algo que estivesse a altura do seu catálogo (quem sabe um dia eu retome a crítica sobre a trilogia do Nitecki). Mas o tempo foi duro com os pequenos editores e o próprio Briquet já havia deixado claro que não pretendia mais publicar livros impressos, apenas e-books. Como os livros digitais são mais fáceis de distribuir eu tomei a liberdade de propor ao Briquet a publicação de alguns textos que haviam circulado por aqui sobre o futuro da biblioteconomia, a partir de uma provocação do Gustavo Henn.

O Briquet topou, e de comum acordo com os autores dos textos, liberamos o valor de capa para ser repartido entre a editora e a ABRAINFO. É um projeto interessante para todos os autores, porque oferecemos mais um material de consulta para as pessoas da área, consolidando textos que ficariam dispersos; a oportunidade de um grupo de pessoas que não escreveria em caráter de monografia ter seu texto publicado por uma editora de renome; a oportunidade de um grupo de pessoas que representa a transição do impresso pro digital trabalhar em cima de uma plataforma exclusivamente digital; a oportunidade de deixar registrado o discurso que marca a época atual e fazer o exercício de futurologia. Pro Briquet, acredito que a vantagem é expandir o catálogo, que também é uma coisa que eu sei que ele ressente, quando comparamos por exemplo a capacidade de produção intelectual de profissionais de outros países. Os bibliotecários brasileiros simplesmente não escrevem livros, tanto quando poderiam, ou preferem publicar apenas os textos acadêmicos que acabam por refletir e repercutir pouco a área, em sua maioria.

Eu ainda gostaria de propor algumas sugestões ao Briquet quanto à distribuição do livro, ou para os seus livros futuros. No nosso caso, não faria sentido ter um livro versando sobre o futuro que não estivesse na vanguarda das modalidades de publicação. Algumas pessoas reclamaram que o livro só é distribuído em pdf, mas eu vou pedir que tenham paciência e tenho certeza que em breve teremos mais opções de comercialização e distribuição de materiais da nossa área.

O livro está sendo vendido por módicos R$10, o preço de menos de duas cervejas. Lembrando que a grana é revertida em parte para o Briquet (ele tem todo o trabalho de revisar, diagramar, site, etc, suas funções como editor e continuar expandindo seu catálogo) e parte para a ABRAINFO (para que possa tocar suas atividades sem fins lucrativos e promover mais deste tipo de iniciativa).

São 6 capítulos divididos em duas grandes seções: utopias e distopias. O prefácio é assinado pelo grande Briquet de Lemos.

Tem o capítulo “O futuro é agora. Peraí… Chegou”, escrito pelo Gustavo Henn, onde ele lança os questionamentos que desencadearam na proposta do livro: O que nos diferencia de uma máquina? O que diferencia o bibliotecário de uma máquina? Ou melhor, o que faz um bibliotecário que uma máquina não pode fazer melhor? Gustavo indica três linhas de atuaçãos em que as máquinas já fazem melhor que os bibliotecários, então ele reflete sobre as atividades que ainda podem nos manter relevantes.

No capítulo 2, “O futuro da biblioteconomia é hoje” escrito pela Dora Steimer, ela traça uma distinção interessante entre o know how e o mindset dos bibliotecários, sobre como nós possuímos a mentalidade necessária para conversar de igual para igual com profissionais de tecnologia, oferecendo elementos que geralmente não são o foco de quem é de tecnologia da informação. Ela põe em xeque o que acontece hoje nas escolas de biblioteconomia, onde o aluno realiza um duplo esforço: aprender apenas a teoria na graduação, aprender sobre tecnologia apenas no mercado e literalmente se virar para fazer a ponte entre estes dois mundos.

Eu assino o capítulo 3, “Biblioteconomia em tempos de robotização”, já adiantei do que se trata acima.

Fabiano Caruso escreveu o capítulo 4, “Qual é a finalidade do trabalho bibliotecário?”, e discute a possibilidade de atualizar o sentido da formação profissional em biblioteconomia para o cenário digital e econômico emergente, em que o objetivo da atuação não tem relação com a disseminação da informação (meios), mas em prover uma experiência intelectual positiva (fins). Nesse sentido existem pelo menos três linhas de atuação profissional possíveis para o futuro: curadoria digital, colaboração e capacitação.

Na parte de distopias, tem o meu texto “O papel da biblioteca em face do apocalipse zumbi”, o título é auto-explicativo.

E pra fechar o texto sensacional da Marina Macambyra, “O apocalipse zumbitecário”. Em uma determinada noite de inverno em São Paulo, Marina sonhou com o futuro distante, e os bibliotecários há muito tido como extintos começaram a voltar. Os zumbitecários — como logo começaram ser chamados — nada faziam de errado ou realmente perigoso. Não atacavam, não mordiam, não tentavam devorar cérebros, apenas gritavam o quanto eram importantes e não reconhecidos, lembravam a todos da importância da padronização.

Espero que gostem. O livro está disponível na editora Briquet de Lemos.

O mito da neutralidade bibliotecária

Bibliotecas são de diversos tipos, mas podemos pegar algumas das principais bibliotecas públicas do Brasil para perceber que as categorias mais populares entre seus usuários estão no espectro de livros para concurso público, artesanato, quadrinhos, culinária, guia de viagens, autoajuda e saúde. Corrijam-me se eu estiver *profundamente* enganado.

Eu não sei o que isso pode dizer sobre nós enquanto sociedade, mas eu acho que explica alguma coisa sobre a biblioteca, com B maiúsculo. Por mais que a gente goste de vender a glória da biblioteca como uma instituição livre e um componente elementar de uma sociedade democrática, parece que, basicamente, as pessoas veem as bibliotecas como espaços recreativos.

E é desta mesma forma que eu, *pessoalmente*, vejo as inúmeras comunidades e grupos sobre bibliotecas e biblioteconomia na web: espaços recreativos, que eu frequento apenas para manter o capital social e nutrir o “fear of missing out”, mas não *necessariamente* para construir uma mentalidade ou posição crítica em relação a todas as coisas.

Foi um alento enorme ter encontrado ao longo destes últimos anos na nossa web local colegas bibliotecários que destoam da maioria conservadora da classe (me corrijam se eu estiver *profundamente * enganado) e que diariamente me oferecem uma curadoria dos seus interesses pessoais na forma de textos e links, que ajudam a moldar o meu posicionamento diante do mundo. Mas eu ainda sinto que falta muito para chegarmos ao nível de densidade das discussões promovidas pelos bibliotecários, por exemplo, americanos, espanhóis e franceses, publicando essencialmente em blogs. Basta comparar o tipo de conteúdo que costuma gerar repercussão nos blogs e redes de lá, com os daqui.

Fica a dica da leitura de livros como Questioning Library Neutrality: Essays from Progressive Librarian e The anarchist in the library, coisa que a gente não vê por aqui.

Tudo isso pra dizer que as “disputas” que aconteceram recentemente no grupo Bibliotecários do Brasil e na lista da ANCIB, em relação à defesa ou não do posicionamento da classe bibliotecária face ao “golpe” ou não, a mim me parecem meramente um desconhecimento sobre como a web funciona, mais do que uma divergência de posições políticas claras entre partes. Quando se questiona o papel de moderadores nestes grupos, falta entender que os moderados não precisam pedir permissão para ninguém para criar o que criaram, porque estão agindo em conformidade com os preceitos da web livre.

A neutralidade da rede se torna uma tragédia, porque justamente no momento em que celebramos o produto destas duas maravilhas – Facebook e o povão – os esclarecidos delegadinhos estão conspirando para remover as condições onde a comunicação não depende de permissão. É um paradoxo.

A minha máxima aprendida em mais de 10 anos publicando neste singelo blog, que contribuiu esparsamente para a promoção do entretenimento bibliotecário, com raros surtos de engajamento coletivo e discussões pertinentes, é “quem fala o que quer, precisa ouvir o que não quer”. Obviamente que ninguém em sã consciência vai defender o direito de ser genocida impunemente. Mas eu quero atentar exclusivamente para o quão despreparados nós estamos para estabelecer uma etiqueta da web quando a maioria de nós só passou a usá-la pouco tempo atrás e continua a usá-la apenas para fins de entretenimento.

Se posso fazer uma analogia, não ficaram sabendo do episódio da bot da Microsoft que se transformou em defensora do nazismo? Só que o robô foi deliberadamente programado para agir como um papagaio, reforçando o que outros usuários do Twitter a induziam a dizer. Na mesma perspectiva do que eu tento explicar – hermeticamente – acima, Tay o bot racista do twitter, nos faz temer a natureza humana, não a inteligência artificial. Se existe um problema de bolha na internet ou comportamento de manada, isso só diz respeito à um problema de filtragem de informação. E na minha humilde opinião, estão a exigir demais de um grupo extenso de microcéfalos. Quem são esses microcéfalos? Bem, podem começar por mim.

Ademais, no meu entendimento *pessoal* a propaganda de ambos lados (PT, PSDB, direita, esquerda, liberais, republicanos, como queiram) deseja defender o indefensável. O que é bastante diferente do que o grupo de bibliotecários pretendia com o vídeo, defender o óbvio: a crise é justamente quando precisamos defender o óbvio, e nesse sentido o vídeo e os textos abaixo estão cobertos de razão. Defendem apenas o estritamente defensável.

O Cristian (que aliás, eu fico feliz por usar o seu poder de hub para alimentar a discussão e botar a cara tapa, seguido de um grupo grande de bibliotecários em seus para lá de 30 anos marcando espaço em um movimento de mídia que, em tese, deveria partir dos bibliotecários mais novos – onde estão estes?) foi bastante claro em seu questionamento:

E bibliotecário pode se manifestar politicamente? A pergunta é de uma ingenuidade só. Afinal de contas, não se trata de uma questão de escolha. Todo mundo dá pinta, mesmo quando de bico fechado. É que o silêncio nos trai, hermanitos. Portanto, não peco contra a virtude da prudência ao me opor à mídia e ao sr. Moro em relação a Lava-Jato. Afinal de contas, prudência não se confunde com medo, letargia e, muito menos, covardia. “Prudentia”, palavra latina, pode ser traduzida como “sagacidade”. Não por acaso, é o nome atribuído a Craytus, o deus romano da guerra. Afirmo, tranquilamente, e sem medo de errar, que um bibliotecário prudente é aquele que, a partir do esquadrinhamento de um determinado quadro social, toma, corajosamente, partido — na guerra, sempre há dois lados, no mínimo –, convencido de que sua leitura de mundo é a mais adequada, a mais justa ou, no mínimo, a mais plausível. Isso não implica negar valor ao discurso do outro, mas em tomar para si certo protagonismo de uma história coletiva que vai de desenhando, certo de que o seu silêncio, embora pessoalmente vantajoso em certos aspectos, pode produzir dor e perdas na esfera pública.

O mesmo vale para o texto publicado na lista da ANCIB pelo Edmir Perroti,

Estamos vivendo uma guerra informacional (vazamentos, escutas telefônicas, bombardeio midiático…) Se outras existiram no Brasil, eram de teor distinto da atual, em volume e procedimentos. Acredito que uma associação de pesquisadores do campo informacional, por mais diferenças que- felizmente!- acolha, têm alguns entendimentos em comum (não teria?) Compartilhar com a sociedade o que é comum seria de grande valia nesta hora de perplexidade. Acredito que para todos nós, mesmo havendo nuances: a) Democracia é um valor acima de qualquer tipo de particularismo; b) Toda e qualquer divulgação de informação, no país, inscreve-se nos quadros dos valores democráticos afirmados em nossa Constituição e ganha sentido em relação a ele; c) A manipulação de informações por interesses de quaisquer espécies, é ato anti-democrático. Seus efeitos acarretam prejuízos à sociedade.

Ir a público para explicar de forma breve essas relações básicas entre Democracia e Informação, bem como manifestar preocupação com atos informacionais que não respeitam valores afirmados em nossa Constituição, é ato pedagógico e não político-partidário; agrega e não separa ou desconsidera diferenças. A hora pede contribuição, esclarecimento, compartilhamento. Não se espera panfleto, em especial de uma Associação como a ANCIB, cujos membros são especialistas renomados que se ocupam justamente de uma das questões que estão no centro dos problemas- as informacionais. É preciso dizer pouco, mas com clareza e serenidade: a matéria a qual nós, cientistas da informação, nos dedicamos- a Informação- não pode ser manipulada à revelia dos preceitos constitucionais por quem quer que seja. As consequências serão graves para todos, cientistas e não cientistas.

Marina, sempre certeira:

Bibliotecários aprendem – ou deveriam aprender – a selecionar e a analisar informação. Eu aprendi.

Bibliotecários devem ser capazes de de entender um texto a partir de uma leitura rápida e fragmentária e dizer do que se trata em algumas palavras. E precisam desenvolver a capacidade de entender um conteúdo qualquer expresso em palavras ou imagens com profundida suficiente para escrever um resumo objetivo e inteligível. Sim, bibliotecários aprendem isso, ou deveriam aprender.

Bibliotecários têm obrigação de desenvolver tolerância e compreensão com a diversidade humana, porque nas bibliotecas entram todo o tipo de pessoas que têm o direito de ser atendidas da mesma forma, sem discriminação nem preconceito.

Bibliotecários não podem ter dificuldades com interpretação de texto. Não podem, simplesmente.

Bibliotecários não podem ser preconceituosos, nem se recusar a combater o preconceito. NÃO PODEM.

Bibliotecários não podem se calar diante da escalada da intolerância por conveniência política nem marchar ao lado de fascistas.

Bibliotecários não podem espalhar notícias falsas pelas redes sociais e nem deixar de olhar criticamente para uma imagem. E nem acreditar cegamente em tudo o que leem na imprensa ou veem na TV.

Editorial a cinco mãos publicado na Biblioo:

Mas como acabar com a amorfia que existe na profissão se não discutirmos isso em grupos da área? Os bibliotecários não podem ficar à margem desse e de tantos outros acontecimentos vividos em nosso país. Somos seres políticos, toda ação do homem é política. Precisamos discutir política em todas as esferas, seja dentro da sala de aula, em eventos e também nas mídias sociais, sempre respeitando a opinião diferente, pois divergências sempre surgirão. Não podemos tolerar a censura nas mídias sociais ou em qualquer espaço de construção coletiva e democrática. Devemos rechaçar as manipulações, distorções, alienações ou favoritismos. Precisamos ter respeito às ideias contrárias e nos posicionarmos sem agressão às pessoas com opiniões divergentes.

E finalmente o vídeo:

Estamos em 2016 e “neutralidade” não significa imparcialidade e objetividade, mas muitas vezes soa como “indiferença”. Eu sou cético e pessimista, mas quero me enganar mais uma vez e ter a esperança que essas demonstrações públicas vão estimular ainda mais interesse e debate sobre o conceito de neutralidade entre os bibliotecários e quais brigas nós queremos brigar.

Vamos falar de Biblioteconomia e Ciência da Informação?

No dia do bibliotecário resolvi trazer uma discussão que considero importante: as diferenças entre Biblioteconomia e Ciência da Informação. Vejo muita gente rivalizando cursos, brigando por qual é melhor, mas sentar e conversar que é bom não tinha visto nada. Então fiz algumas pesquisas e gravei, humildemente, esse vídeo para começarmos a conversar sobre o assunto.

Acho importante discutir e saber realmente o que diferencia um do outro. É um passo para nos enterdermos melhor e fortalecer nossa imagem profissional, caminhando para o reconhecimento.

A importância das Bibliotecas

Há um tempo ando meio insatisfeita com meu canal no youtube. Sentia que deveria fazer mais com o espaço que tenho, principalmente no que diz respeito à Biblioteconomia e divulgação da área.

Pensando nisso resolvi criar uma tag semanal, a “Fala, Bibliotecária”, e através dela discutir assuntos variados sobre a profissão e sobre bibliotecas. Nesse primeiro vídeo achei que seria importante discurtir um pouco da importância desses espaços, começar pelo começo mesmo.

Os vídeos serão dedicados a leigos e profissionais, porque na verdade esse é um assunto que diz respeito a todos. É uma pequena discussão com leveza e bom humor, quem quiser participar está mais que convidado!

Movers & Shakers 2016! Indico o William Okubo!

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Estão abertas as indicações para o Movers & Shakers 2016, premiação criada pelo Library Journal em 2002­­­­­­­­, nos Estados Unidos que destaca atuações realizadas por profissionais bibliotecários em vários segmentos.

Em 2012 eles passaram a aceitar indicações internacionais e foi assim que muitos de nós bibliotecários tomamos conhecimento. Na verdade, ocorreu quando o  Moreno Barros lançou uma campanha em meu nome, em vista das atividades que estava realizando em prol da reabertura da Biblioteca Pública do Amazonas. Para explicar do que se tratava, Moreno definiu o Movers & Shakers como:

…uma premiação dessas “funcionário do mês”, ou melhor ainda, de bibliotecários escolhidos por seus colegas como os que mais “sacudiram e inovaram” o cenário das bibliotecas e da profissão no último ano.

O Movers & Shakers ocorre da seguinte forma: 50 bibliotecários são escolhidos por indicação de seus colegas e distribuídos por categorias que visam abarcar ações representativas vividas em bibliotecas. Os perfis podem ser identificados como: agentes de mudanças, inovadores, líderes da tecnologia, construtores de comunidades, os profissionais do marketing  e os defensores ou promotores.

Eu tive o privilégio de ser uma Movers & Shakers em 2013

O ano de 2012 havia sido incrível, pois, juntamente como os amigos Evany Nascimento, Thiago Siqueira, Katty Anne Nunes e outros rompemos o silêncio em Manaus e fomos para as ruas. Nossas reivindicações pediam a reabertura da Biblioteca Pública Estadual do Amazonas, fechada há mais de cinco anos para reforma. Após quase dez meses de trabalho intenso nas redes sociais e nas ruas, vimos nossa biblioteca pública finalmente reaberta.

Muito do êxito dessa conquista devemos ao apoio recebido da sociedade em geral, mas também de muitos colegas bibliotecários do Brasil e do exterior que se sensibilizaram com o problema e ajudaram a dar visibilidade à luta. Mas, não teria ganhado esse prêmio sem a indicação do Moreno Barros. Ele não gosta que ressalte esse feito, mas penso que devo externar minha gratidão, pois foi graças  a sua visão sobre a importância do trabalho e sua indicação que chegamos à conquista. Foi com grande orgulho que recebi o comunicado de que figuraria como a primeira brasileira e personalidade da América Latina a estar na lista junto a outros 49 bibliotecários agitadores da profissão naquele ano de 2013.

Indicação para o Movers & Shakers em 2016

Reconhecimento é algo prá lá de significativo e sei de tantas outras experiências de colegas incríveis que realizam com paixão o seu ofício e vão além, inclusive fora de seus horários de trabalho na busca por contribuir para a construção de uma sociedade mais justa e com mais democracia informacional, por isso creio que podemos nos mobilizar para que outros brasileiros possam levar experiências relevantes para serem conhecidas além das nossas fronteiras.

…E pensando em quem sonha, busca e instiga, vêem a mente a figura do William Okubo. William é daqueles bibliotecários apaixonados por tudo que faz, ele realmente se envolve e se integra. Ele, tem seu olhar voltado para as minorias além de ser engajado em tantas ações.  Pedi ao Moreno e ele definiu as frentes em que o William atua e o por que tem tudo para ser um Movers & Shakers 2016:

No último ano William desenvolveu atividades de acompanhamento de projetos culturais financiados pelas leis de fomento à cultura da cidade de São Paulo, em especial do Programa VAI, voltado para jovens da periferia. Também colaborou nas discussões para implantação de novos projetos e editais de fomento na mesma área, além de dar continuidade na organização da informação e conhecimento produzidos nos 10 anos de Programa.

Bibliotecário de referência nos ônibus-bibliotecas de SP, participou ativamente na criação da Associação de Profissionais da Informação (ABRAINFO) e largou a Biblioteca Mario de Andrade (a maior biblioteca pública do país) para acompanhar projetos culturais voltado para jovens carentes.

Uma das figuras mais atuantes do cenário nacional, é hub conecta pessoas, carismático, é leitor voraz, escreve poesias e crônicas.

William é pra lá de atuante e por isso mesmo se encaixa bem no perfil que o pessoal do Library Journal está buscando. Os bibliotecários que serão escolhidos deverão ter os seguintes atributos: Paixão. Visão. Missão. Um texto que trata sobre os 50 bibliotecários escolhidos em 2015 os define da seguinte forma:

[…] Eles são apaixonados pelo que fazem, podem estar advogando para a alfabetização e diversidade, servindo os carentes, divulgando e partilhando tecnologia e muito mais. Eles vêem o futuro e o trazem à vida. Eles estão comprometidos com a missão da biblioteca como a democracia.

Eu creio que o William Okubo é tudo isso…E já que os editores do Library Journal pedem ajuda para identificar esse perfil para a lista de 2016, vejo que nós aqui do Brasil podemos dar uma mãozinha!

É importante atentarmos para os regulamentos e prazos que orientam os trâmites da premiação. Você pode fazer a indicação acessando este formulário!
http://lj.libraryjournal.com/movers-and-shakers/nominations/

Um dia na FELIZS – Feira Literária da Zona Sul de São Paulo

Neste Sábado (19/09), fui no emocionante encerramento da FELIZS – Feira Literária da Zona Sul, uma grande festa literária capitaneada pelo imenso e lindo coletivo que forma o Sarau do Binho.

A festa se realizou na Praça do Campo Limpo, na periferia da zona sul de São Paulo, e destaco abaixo alguns dos momentos que mais curti.

Antes, é preciso dizer que é grande a felicidade de ver que a leitura toma um vulto muito maior que uma atividade ligada apenas ao livro, como por muito tempo ocorreu por aqui, contrariando a citação do mestre Paulo Freire que falava em leitura do mundo, algo muito mais amplo. E esse “povo lindo” (frase ouvida todas as terças-feira no Sarau da Cooperifa) anda lendo de tudo e nessas horas parece que agora, a leitura é educação, é brincadeira, é “evolução para construir uma revolução” (palavras do Binho).

Mas agora vou ao que interessa, algumas das leituras que vi, ouvi e senti:

– na Tenda Conversas Literárias foi ótimo ver a presença das mulheres escritoras da periferia na mesa Palavra de Mulher, com a Jenyffer Nascimento (poeta e articuladora cultural, autora de “Terra fértil” um dos mais belos livros de poesia que li no ano passado), Tula Pilar (poeta), Roberta Estrela D’Alva (atriz, MC e Pesquisadora) mediadas pela poeta organizadora do Sarau da Ademar, Silsil do Brasil. Belo!

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– Ainda na tenda Conversas Literárias, a presença de poetas e organizadores de vários Saraus paulistanos (Perifatividade, Cooperifa, Burro, Elo da Corrento, do Kintal, Preto no Branco, Suburbano Convicto, da Brasa, O que dizem os umbigos e outros) em uma grande roda falando suas melhores poesias foi histórico.

Na mesma tenda, tirando um e outro excesso de blá blá blá a programação foi muito boa, pois o foco a todo momento foi a possibilidade de mudança que a leitura possibilita, e como é importante a apropriação dela por qualquer pessoa e como isso pode modificá-la. O amigo bibliotecário Ricardo Queiroz, que curte um bom debate estava lá e diferente de mim, que admito, tenho certa preguiça em relação à falação e análises mais apuradas, fala muito bem sobre políticas públicas de leitura em seu blog, o KlaxonSBC, e ele acaba de publicar um texto que fala com muita propriedade sobre as Feiras Literárias Periféricas que ocorreram em São Paulo essa semana e o que elas representam. Entrem lá: http://klaxonsbc.com/2015/09/20/muito-mais-do-que-feiras/. 

– as oficinas de xilogravura dos lindos do projeto Xiloidentidade, reuniram tanta gente que em menos de duas horas já não havia mais material para tantos interessados em criar seus próprios textos/mensagens e imagens a partir da gravação em madeira, mantendo viva a chama da cultura nordestina em São Paulo.

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– na Tenda das Crianças, rolaram oficinas de xadrez, de criação de livrinho,  intervenções circenses e uma divertida Oficina de confecção de petecas, orientada pelas meninas-mulheres da Brechoteca – Biblioteca Popular do Jardim Rebouças e do Coletivo Brincantes Urbanos, que além de mostrar como fazer a peteca, contavam as histórias da origem dela e de outros brinquedos criados pelos indígenas.

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Nessa oficina havia a presença maciça de uma molecada de uma escola que veio lá do Guarapiranga até o Campo Limpo trazida pela empolgada professora, uma heroína! 

Enxerido que sou, dei uma aulinha de como brincar de peteca e coordenei um racha de peteca de meninas contra meninos (eu bem que tentei criar times mistos, mas fui vencido pela garotada). O resultado foi tão empolgante que fui chamado pela professora para ir brincar na escola com as crianças outro dia. Pronto, posso pedir demissão da Secretaria de Cultura e virar oficineiro-brincante.

– a Bicicloteca, operada pelo bibliotecário Abraão com apoio de outro bibliotecário, o Tadashi, estava lá e distribuiu muitos livros de graça. 

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Foi sensacional ver algumas crianças saindo com aquele sorriso  e os livros nas mãos. 

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– na Tenda Musical – Jazz na Kombi, rolou muita música, mas a Trupe Lona Preta e seu audaz espetáculo de circo e música “O concerto da lona preta” fez crianças e adultos rirem sem parar, com direito a um trecho onde em menos de dois minutos todos fizeram uma viagem pela história da música no século XX! Um espetáculo daqueles que merecem o prêmio da APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte), aquele onde o juri costuma só ver o que acontece de um dos lados das pontes que ligam o centro à periferia.

Em seguida, outra Trupe entrou por lá, a Benkady, e o coletivo apresentou danças e ritmos do oeste da África, cuja base é a música Malinké e Sussu. A interação com o público foi empolgante e até crianças entraram na dança. Segue foto de três integrantes (eram 9: cinco na percussão e 4 dançarinos) e um breve vídeo do ritmo que botou todo mundo para balançar o esqueleto.

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– Como em uma boa feira de livros, haviam os editores. Mas nesse caso, os editores independentes e periféricos, aí incluídos alguns autores que publicam seus próprios livros.

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Como estava sem dinheiro (e há uma fila enorme de livros nas estantes, mesas e racks) comprei apenas um livro de poesia. E por falar em dinheiro, é fundamental que as bibliotecas arrumem formas de adquirir essa produção e a novidade é que o Sistema de Bibliotecas Municipais da Prefeitura de São Paulo em breve terá um Grupo de Trabalho de Desenvolvimento de Coleções composto por gente da sociedade e profissionais de seus quadros para discutir meios de tornar presente toda bibliodiversidade nas bibliotecas, a fim de dar acesso a quem não tem dinheiro para comprar livros.

– e não poderia deixar de fora o cavaleiro-lampião! Ele cavalgou pela praça levando poesias a todos os presentes. Genial!

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Para finalizar, vou repetir algo que parecido com o que já disse no último Bibliocamp que participei: se analisar apenas essas poucas atividades citadas, vejo que todas elas poderiam se realizar em qualquer biblioteca pública que queira seguir o muito citado por aqui, mas pouco seguido (por várias razões que não há espaço para aqui enumerar) Manifesto da IFLA/UNESCO sobre Bibliotecas Públicas , especificamente nos 12 tópicos das Missões da Biblioteca Pública.

Enfatizo também a presença de vários colegas bibliotecári@s na festa e a participação de algumas bibliotecas municipais do entorno na programação e que mantêm contato com os grupos/coletivos culturais da região.

Por fim, acredito que um caminho a trilhar para chegar a uma biblioteconomia social e sem fronteiras seja a RUA, lugar onde estão as PESSOAS. Vamos nessa!

O apocalipse zumbitecário

Cansada, mas ainda não inteiramente derrotada, a bibliotecária envelhecente sorri ao terminar a leitura dos posts do Bibliotecários Sem Fronteiras que discutem o futuro da profissão. Parte dela, a que se orgulha dos colegas mais jovens e acha que ainda vale a pena estar numa trincheira com gente assim, luta contra a outra parte, a que se distancia cada vez mais do interesse pela profissão. Ela sabe que, no seu caso, o futuro é algo que deve acabar mais cedo e provavelmente mal.

Naquela noite, a bibliotecária envelhecente tem um sonho vívido e rico em detalhes.

Num mundo praticamente sem bibliotecas como hoje as conhecemos, no qual os livros que simplesmente apareciam em lugares inusitados, como centros cirúrgicos e elevadores, eram considerados krönir *, recolhidos rapidamente e vendidos a preços impossíveis para misteriosos colecionadores, os bibliotecários há muito tido como extintos começaram a voltar.

Não, não eram krönir biológicos. Apesar dos insistentes rumores sobre a existência desses seres quase humanos criados pela imaginação de homens e mulheres, os únicos bio-krönir efetivamente documentados eram tigres e outros grandes felinos extintos, um rinoceronte branco e alguns pássaros dodôs, todos ligeiramente diferentes de seus paralelos já extintos no que poucos lunáticos ainda insistiam em chamar de mundo real.

Não, esses bibliotecários em nada lembravam os tigres vermelhos de olhos de chama nem os dodôs com esporões letalmente venenosos. Pareciam antes zumbis pálidos, alguns exibindo sinais de decomposição e marcas dos ferimentos ou doenças que os haviam matado. Surgiam enfurecidos nas imediações das grandes piscinas de leitura que tomaram o lugar de algumas antigas bibliotecas, piscinas azuis onde o leitor podia sonhar as histórias que gostaria de ler e transmiti-las mentalmente em forma de texto, filme ou música para outros que as completavam, modificavam ou apenas usufruíam. Outros foram vistos rondando as casas onde supostamente viveriam colecionadores de livros krönir.

Não eram realmente muitos, mas começaram a despertar o interesse dos fãs de filmes de terror antigos e a preocupar as autoridades. Mas os zumbitecários – como logo começaram ser chamados – nada faziam de errado ou realmente perigoso. Não atacavam, não mordiam, não tentavam devorar cérebros, apenas gritavam o quanto eram importantes e não reconhecidos, lembravam a todos da importância da padronização. Coisas assim que ninguém mais compreendia. Alguns seguravam, com orgulho, pequenos cartazes afirmando que “O Google te oferece 100 mil opções, o bibliotecário te oferece a certa“. Alguns andavam abraçados às regras de catalogação com as quais supostamente teriam sido sepultados. Outros tentaram carregar tabelas de classificação, mas os braços de zumbi não aguentavam tanto peso e se quebravam.

De fato, os zumbitecários não pareciam saber que atitude tomar. Muito comportados para agirem como zumbis normais e mordedores, dividiram-se. Metade queria mudar o paradigma, metade preferia ir para um congresso que oferecesse um bom coffee-break. Uma discussão acalorada começou, mas alguns indivíduos com pose e voz de autoridade aproximaram-se do grupo e pediram silêncio. Obedientes, os zumbitecários se calaram e se dispersaram. Apenas desapareceram quietamente, ninguém soube como. Os últimos foram vistos sentadinhos em frente às piscinas onde não os deixaram entrar, e lá ficaram até se desintegrarem. Um pterodáctilo com asas de prata passou gritando: extinção é para sempre!

A bibliotecária envelhecente acorda com o despertador berrando incoerências e levanta, sacudindo do peito o peso do sonho estranho. No espelho do fundo do corredor, um velho bibliotecário sorri, cego.

* Objetos formados pela duplicação de objetos perdidos originários das “regiões mais antigas de Tlön”, “filhos fortuitos da distração e do esquecimento”. Do conto Tlön, Uqbar, Orbis Tertius, de Jorge Luís Borges.

Qual é a finalidade do trabalho bibliotecário?

Durante meus cursos costumo oferecer uma apresentação introdutória contextualizando as mudanças em nossa área traçando uma paralelo com as transformações da economia industrial para a economia da experiência. Um dos objetivos é evidenciar que a miopia de marketing presente em alguns em discursos sobre atuação profissional podem ofuscar reais oportunidades de atuação.

economiadaexperiencia

Quando a formação do bibliotecário era específica para atuação em bibliotecas o marketing da área estava embutido na natureza de cada biblioteca. Ou seja, a finalidade da atuação profissional poderia ser compreendida relacionando o nosso código de ética (preservar o cunho liberal e humanista de sua profissão, fundamentado na liberdade da investigação científica e na dignidade da pessoa humana) que orienta nossas práticas a prestação de serviços para as pessoas, com os tipos de bibliotecas, que as direcionam para comunidades e necessidades pré-definidas. Ou seja, os livros, documentos e as técnicas eram meios utilizados para maximizar o acesso e prover experiências intelectuais positivas em cada tipo de biblioteca.

ofuturodabiblioteconomia

No entanto a partir fase da economia de serviços acompanhamos uma mudança da formação na área orientada para o problema da informação. Bibliotecários passaram também a denominar-se gestores de unidades de informação e/ou mediadores da informação. A miopia de marketing esta na perspectiva de que a informação é a finalidade da atuação profissional. O que não deveria ser pois a informação é um dos meios e não a finalidade da atuação em nossa área. Da mesma forma que os livros e documentos eram nossos meios nas bibliotecas tradicionais na fase pré-digital. Mesmo quando atuamos sobrecarregados de trabalho técnico em bibliotecas sem relação direta com os usuários, poderiamos cumprir nossa função de forma indireta, pois o marketing estava vinculado a experiência dos usuários no acesso aos tipos de serviços  intrínsecos ao tipo de cada biblioteca.

disseminacaodainformacao

Quando divulga-se que a finalidade da atuação profissional é disseminação da informação em qualquer suporte gera-se o grande problema de formação atualmente: a confusão entre meios e fins. Faz sentido enquanto pesquisador  (cientista da informação) tentar compreender como os fluxos da informação (meios) relacionam-se com a realidade. Mas não faz sentido para atuação profissional acreditar que precisamos disseminar a informação indiscriminadamente. Pois a nossa atuação profissional deve ser centrada em como melhor adequar nossos meios (recursos e serviços de informação) para os fins (pessoas). Com esta distinção entre meios e fins que também é possível diferenciar a responsabilidade de técnicos em biblioteconomia e bibliotecários. Os técnicos podem trabalhar exclusivamente com os meios, mas só os bibliotecários podem planejar novos serviços para converter os meios para os fins.

O discurso que vincula as oportunidades de atuação profissional apenas para os meios é o que costumo chamar de ideologia da informação (ideologia é um sistema de pensamento que não corresponde com a realidade). Um discurso muitas vezes proveniente da importação de tendências de outras áreas – como a de gestão  – tentando vislumbrar novas oportunidades de atuação em diferentes suportes. Um dos exemplos esta em práticas como a de Gestão da Informação e na relação entre Dado – Informação – Conhecimento superada em práticas de gestão mais emergentes. Devido a consumerização da tecnologia da informação  muitas práticas de gestão relacionadas a mediação da informação deram lugar a práticas ligadas a Gestão da Inovação e Colaboração. Ou seja, o que pode fazer sentido teórico durante uma pesquisa e revisão de literatura pode não fazer como objetivo da atuação profissional em um cenário de rupturas tecnológicas. 

Qual é a diferença entre um profissional da informação e um bibliotecário? Durante um período de tempo pude atuar com a aplicação de técnicas de organização da informação para o desenvolvimento de portais corporativos e de plataformas de e-commerce. Estava sendo bibliotecário? Não. Pois a atuação estava centrada nos meios para resolver problemas de processos corporativos. Lembram do código de ética com a liberdade de investigação científica? O que otimizar a recuperação de informação em um portal corporativo tem haver com desenvolvimento intelectual? Existe uma relação muito mais direta da aplicação de nossas técnicas para o desenvolvimento organizacional do que o  desenvolvimento humano e em algumas situações eles podem não ser compatíveis.

No entanto acredito na possibilidade de atualizar o sentido da formação profissional em biblioteconomia para o cenário econômico emergente. De que forma? Partindo do princípio de que as bibliotecas sempre foram parte da economia da experiência. Que tipo de experiência? Experiência Intelectual. Logo o objetivo da atuação profissional não tem relação com a disseminação da informação (meios) mas em prover uma experiência intelectual positiva (fins). É possível disseminar a informação com o uso adequado de técnicas da nossa área para organização e recuperação da informação, mas o valor do nosso trabalho só pode ser medido quando conectamos os meios com os fins. 

Planejar e prover serviços de informação orientados a experiência intelectual dos usuários em diferentes contextos.

Qual seria então a finalidade da atuação profissional do bibliotecário que faz mais sentido em qualquer suporte que tem relação direta com a experiência intelectual? Inteligência. A minha defesa é que o nosso objeto de atuação profissional é a inteligência, mesmo que  o de pesquisa continue sendo a informação. Sempre atuamos através das bibliotecas com alguma modalidade de Democratização da Inteligência. Tanto que o campo da Ciência da Informação surgiu com a expectativa de que técnicas oriundas da nossa área poderiam oferecer suporte aos setores de inteligência na área governamental. Um exemplo pode ser a criação de serviços de informação voltados para os distintos níveis de intelecto profissional ou em pesquisa.

democratizacaodainteligencia

Compreendendo que a Democratização da Inteligência é a norteadora para o desenvolvimento de serviços de informação centrados nas pessoas existem pelo menos três linhas de atuação profissional possíveis: Curadoria Digital, Colaboração e Capacitação.

Curadoria Digital é o tema do meu próximo curso na ExtraLibris. Trata-se de uma forma de atualização da disciplina de Referência.

Estas três linhas são uma proposta para melhor relacionar nossos meios com os fins e são temas abordei profissionalmente na última década. Quem sabe, em uma próxima publicação para o BSF escreva com exemplos de práticas profissionais possíveis com cada uma das linhas.

NOTAS:

(1) Importante assistir a apresentação do Joseph Pine sobre a Economia da Experiência.

(2) O artigo original traduzido para português sobre a Miopia de Marketing do Theodore Levitt para a Harvard Business Review – jul/ago/1960 pode ser baixado neste link.

(3) Também vale a pena ler sobre a importância da criação de serviços de informação centrados nas pessoas em um cenário de abundância de informação  no artigo A “fadiga da carne”: reflexões sobre a vida da mente na Era da Abundância, publicado originalmente na EDUCAUSE Review, vol. 39, no. 2 (March/April 2004). Durante a leitura deste artigo na graduação que foi possível compreender que o foco da atuação em ambientes digitais não deveria ser direcionado para a criação de repositórios e bibliotecas digitais.

(4) O que escrevi no post é um direcionamento de um trabalho de pesquisa maior que envolve o cruzamento de diversas outras referências. Durante os meus cursos realizo uma apresentação com mais exemplos, referências e estudos de caso de práticas orientadas a democratização da inteligência que podemos realizar com nossas técnicas para organização e disseminação da informação.