Imagens de arte e a arte de trabalhar com imagens

Comecei a trabalhar com organização de imagens de obras de arte na Biblioteca da Escola de Comunicações e Artes da USP ainda no tempo em que o melhor suporte para esse tipo de acervo eram os slides, no início dos anos 1980. E não me refiro ao power point, mas a fotografias em suporte transparente, montadas em molduras de plástico ou papelão, próprias para serem projetadas. Para quem não lembra, ou só nasceu muito depois:

Antes da internet e dos sites de museus, os professores usavam slides para mostrar e discutir obras de arte em sala de aula, e as bibliotecas de instituições que ofereciam cursos de artes precisavam se virar para formar coleções.

Como praticamente não existiam, no Brasil, esse tipo de material disponível para compra, a solução era obter doações com os próprios artistas e produzir artesanalmente nossos próprios slides. Inicialmente atendíamos às demandas específicas dos professores, que solicitavam imagens de obras de um determinado artista, por exemplo. Com o tempo e a experiência adquirida, chegamos a estabelecer uma política de desenvolvimento de acervo: já sabíamos que material fotografar, quais  slides deveríamos descartar etc.

Não era fácil. Precisamos aprender a  localizar e escolher as ilustrações, fotografar da melhor forma possível, iluminar,  analisar a qualidade das imagens depois de prontas, montar os slides etc. Isso tudo se passou em eras pré-internet e câmeras digitais –  quem nasceu depois disso tudo não tem ideia da pauleira que era montar uma coleção de imagens naquela época. Mas era bem divertido, devo admitir.

Nossa pequena coleção de slides, que não chegou a ultrapassar 25.000 itens, era bastante usada pelos professores da Escola e pelos alunos que davam aula em outras instituições, até ser engolida pela evolução tecnológica.

Quando projetores de slides entraram para a lista de espécies em extinção e os professores se convenceram de que outros brinquedos eram necessários,  começamos a digitalizar os itens da coleção que ainda tinham relevância: slides de obras que não estavam disponíveis na internet, geralmente doados pelos próprios artistas ou reproduzidos de catálogos de exposições brasileiros. Infelizmente, as imagens digitalizadas não chegavam aos usuários, porque o único catálogo disponível era uma base de dados em rede local – praticamente o mesmo que não ter catálogo.

Enquanto a coleção de slides perdia a relevância e o público, outro acervo de imagens crescia e adquiria cada vez mais importância na instituição: os trabalhos acadêmicos dos cursos de graduação e pós-graduação em Artes Visuais que se expressam fundamentalmente em imagens, ou que são trabalhos artísticos originais. Nos cursos da ECA, principalmente na área de concentração em Poéticas Visuais da Pós-Graduação, é possível apresentar  gravuras, desenhos, esculturas, objetos, livros de artista etc como trabalho final do curso.

A escultura monumental Lugar com Arco, por exemplo, que enfeita o jardim da Escola, é resultado da tese de doutorado da escultora Norma Grinberg, docente aposentada da instituição.

Regina Silveira, Ana Tavares, Evandro Carlos Jardim, Carmela Grosz, Dora Longo Bahia, Carlos Fajardo, Geraldo de Souza Dias Filho, Henrique de Souza Oliveira e Leda Catunda são alguns dos artistas brasileiros que deixaram trabalhos acadêmicos no acervo da Biblioteca da ECA. Em alguns casos são obras originais, como o álbum de gravuras Anamorfas, de Regina Silveira, em outros são trabalhos de reflexão  – com muitos registros fotográficos- do artista sobre a própria obra, ou ensaios fotográficos resultantes do processo de pesquisa. Um acervo belíssimo catalogado em sistemas que, por serem concebidos para registrar documentos textuais, não dão a necessária visibilidade à sua dimensão  mais importante: a imagem.

Fotos de alguns trabalhos do acervo

DTEEP: dinâmicas e trocas entre estados de performance, de Yiftha Peled

A pesquisa de mestrado da minha colega Sarah Lorenzon Ferreira constatou que nossos professores e alunos das artes visuais precisam de um catálogo de imagens acessível pela internet, com imagens de alta qualidade técnica, boa resolução e diferentes opções de visualização, e que contenha, prioritariamente: criações artísticas dos professores; obras resultantes de pesquisas de mestrado e doutorado; trabalhos de conclusão de curso de graduação; registros do processo criativo dos artistas da ECA. Ou seja, o mínimo que uma biblioteca de uma escola que forma artistas e pesquisadores da área de artes deveria poder oferecer aos seus usuários.

O projeto começou a se tornar viável quando o Tiago Murakami veio para o Departamento Técnico do nosso Sistema Integrado de Bibliotecas e nos apresentou ao Omeka, software open source desenvolvido para exibir coleções digitais em bibliotecas e museus. O Omeka tem instalado um plugin para os metadados VRA Core, desenvolvidos pela Visual Resources Association para descrição conjunta de obras de artes e suas imagens.

O VRA Core, usado com o Cataloging Cultural Objects – CCO é uma solução muito boa para bases de dados de imagens. Resolve bem a questão de catalogar os dados da obra e de suas imagens em registros diferentes, relacionando os dois tipos de registros, sem misturar e confundir as informações como faz o insuportável formato MARC, por exemplo. Tentei explicar essas  todas paradas neste texto aqui.

Além disso, o Omeka tem plugins para aplicações do International Image Interoperability Framework (IIIF), um conjunto de protocolos para visualização de imagens criado em 2001 por um consórcio internacional de bibliotecas. Eis aí uma ferramenta muito legal que precisa ser urgentemente pesquisada no Brasil, porque permite visualização de imagens em alta resolução com carregamento rápido e possibilidade de fazer anotações, além de ter recursos de edição básica, zoom profundo etc. Tudo isso sem precisar carregar várias imagens de tamanhos diferentes na base de dados, basta uma única em alta resolução. Melhor ainda: o freguês consegue compartilhar, editar  e comparar imagens de bases de dados diferentes numa mesma interface online, sem precisar baixá-las. Vejam 0 que dá pra fazer nesse demo do Projeto Mirador

O IIIF tem um canal no Youtube com apresentações muito interessantes de instituições que fazem parte da comunidade de usuários da coisa. Em breve a Biblioteca da ECA  estará lá, aguardem. Já colocamos o Brasil na comunidade e a Sarah está na equipe do código de conduta .

Falta mais gente no Brasil usando e interessada na discussão. Também falta um jeito brasileiro de pronunciar a sigla IIIF, que os falantes do inglês pronunciam “triple I F“. Em português não temos o hábito de dizer “i triplo”, mas repetir a letra “i” na fala vai ficar estranho por excesso de iiis. Sem contar que pode virar  piada…

O protótipo da nossa Biblioteca Digital da Produção Artística da ECA/USP já existe e está sendo testado. Funciona, mas ainda temos muito o que resolver. Precisamos customizar o Omeka para melhorar a navegação entre registros da obra e suas imagens, criar um tema mais agradável e outras coisinhas.  Com relação ao conteúdo, temos que encontrar um curador entre os docentes de artes visuais, escolher as imagens, digitalizar ou fotografar os trabalhos, entrar em contato com os artistas para obter sua autorização para divulgação das images, catalogar etc. Os “etcs” são muitos, na verdade. Nossa professora Vânia Lima, que voltou de suas andanças por instituições de arte dos Estados Unidos com as primeiras notícias que ouvimos sobre o IIIF (ó, tá todo mundo usando isso aqui, estudem), já está pensando em projetos e tentando contratar bolsistas.  Nossa Biblioteca Digital da Produção Artística da ECA/USP promete ser um laboratório interessante para os alunos de biblioteconomia.

Já apresentamos alguns trabalhos em eventos da área. Vejam aí:

V Seminário de Informação em Arte da Redarte -RJ

https://doity.com.br/anais/seminario-de-informacao-em-arte

Colóquio de Dados, Metadados e Web Semântica

https://cdmws.isci.com.br/ocs/index.php/cdmws/home/paper/view/13

I Seminário de Humanidades Digitais – IV Congresso Internacional em Tecnologia e Organização da Informação

https://prezi.com/h2smfyo-5zl7/biblioteca-digital-da-producao-artistica-da-ecausp/?utm_campaign=share&utm_medium=copy

Assim que os testes estiverem concluídos e a Biblioteca Digital da Produção Artística da ECA/USP tiver seu endereço definitivo, divulgaremos o link.

E-books e audiolivros a um clique

Desde que eu fiz o post sobre o Overdrive eu tinha vontade de fazer uma demonstração em vídeo. Até consegui filmar os vídeos no início do ano, mas só agora consegui editar e finalizar o vídeo pra compartilhar com vocês.

Esse é o serviço que muitas bibliotecas norte-americanas usam para emprestar e-books e audiolivros. Eu uso direto pra ouvir audiolivro quando estou na rua, andando de ônibus ou até mesmo dirigindo. Falando de audiolivro, no início a gente estranha um pouco, mas depois que pega o gosto pela coisa, é uma delícia! E tem audiolivros super bem produzidos, que realmente prendem a atenção do ouvinte.

E não preciso mais escrever muito, porque tudo que quero dizer está aí no vídeo. Aperte o play!

Como funciona o empréstimo de e-books e audiolivros digitais?

Os e-books estão ganhando um espaço cada vez maior em bibliotecas do mundo inteiro. Há duas formas de promover o acesso a coleções digitais em bibliotecas públicas: pelo empréstimo de e-readers, ou através de softwares que mediam o empréstimo dos arquivos digitais diretamente nos dispositivos eletrônicos dos usuários.

Eu não estou falando de disponibilizar uma lista de arquivos em PDF que você pode baixar gratuitamente, cujos direitos autorais são livres. Estou falando de conteúdo licenciado.

Software para empréstimo de e-books

Aqui no Canadá, muitas bibliotecas públicas usam o Overdrive como software para empréstimo de e-books e audiolivros em MP3.

No catálogo das bibliotecas, você encontra a obra com um link para baixar pelo Overdrive.

O usuário pode instalar o aplicativo do Overdrive no seu tablet,  celular (smartphone) ou no próprio computador. Uma vez instalado, você faz o login no Overdrive com o cadastro da sua biblioteca local (usando o número do cartão e a senha).

Eu uso duas coleções: a da biblioteca pública de Vancouver, e a do consórcio de bibliotecas de British Columbia (a província). Como o licenciamento dessas coleções é caro, muitas bibliotecas da província se juntaram para fazer um consórcio, onde compartilham recursos e coleções. A coleção digital da biblioteca pública da minha cidade (que fica na região da grande Vancouver) é disponível através do consórcio da província.

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Você pode também navegar pelo próprio Overdrive e pesquisar o livro que quer ler ou ouvir.

A coleção é extensa, com títulos de diversos gêneros e categorias.

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Tem até Harry Potter!

A interface de pesquisa é muito bem organizada, com diversos filtros.

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Se o livro não estiver disponível, você pode fazer a reserva e entrar na fila de espera. Assim que o livro for liberado, você recebe um email notificando da disponibilidade do livro e com um prazo de dias para pegar emprestado.

Os e-books e audiolivros são emprestados por um período de 14 ou 21 dias, sem direito a renovação. Quando expira, o conteúdo simplesmente some do seu dispositivo, como mágica!

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Nessa pesquisa, acabei encontrando um livro que queria ler, em formato áudio: Cadê você, Bernadette?, de Maria Semple. (Note que há livros super novos, lançamentos recentes). O livro estava disponível para empréstimo, então baixei.

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Você clica na opção Download. Apesar do programa baixar o mp3 para o seu dispositivo, você não tem acesso ao arquivo em nenhum momento. Ele só é disponível através do Overdrive.

Uma vez baixado, você pode ouvir/ler offline, sem precisar estar conectado à internet. Não é streaming.

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Os audiolivros são divididos em muitas partes, dependendo da extensão do livro. Esse aqui são 8 partes de 1 hora e pouco cada uma.

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E quem paga essa conta?

As editoras ainda estão meio hesitantes em liberar seus livros para empréstimo por bibliotecas. Até dois anos atrás, algumas das grandes editoras internacionais não liberavam e-books para bibliotecas de jeito nenhum. Mas com a crescente demanda, tiveram que encontrar meios para viabilizar os contratos com bibliotecas públicas.

Uma das alternativas foi cobrar incrivelmente caro por cópias digitais para bibliotecas. Eu fiz um estágio em 2012 numa biblioteca pública da cidade e a gerente de aquisições me falou que, na época, um e-book poderia custar até 80 dólares para bibliotecas, enquanto custavam menos de 15 para leitores comuns.

Outra solução foi limitar o número de downloads por cópia. Uma das editoras (não lembro qual, acho que a Harper Collins, uma das gigantes) permitia apenas 26 leituras de cada e-book. Depois disso, a licença expirava e a biblioteca era obrigada a comprar outra licença.

No Brasil

A Biblioteca de São Paulo empresta e-readers a seus usuários, porém eles devem usar os dispositivos dentro da biblioteca.

Eu fico aqui, torcendo pelo progresso das bibliotecas públicas na nossa terrinha, pra que todo mundo um dia possa ter acesso a tecnologias como o Overdrive.

Demonstração

Editando o post pra inserir finalmente o vídeo de demonstração! (agosto de 2015)

VI Simpósio Internacional de Bibliotecas Digitais

Começou ontem o VI Simpósio Internacional de Bibliotecas Digitais, organizado pela PUCRS e pelo Consórcio Ibero-americano de Educação em Ciência e Tecnologia (ISTEC).

VI Simpósio Internacional de Bibliotecas Digitais

Confesso que a princípio não esperava muito do evento, pois acho que é complicado sair do discurso “olha como os bibliotecários são importantes na Era Digital”, mas o evento me surpreendeu positivamente.

Não que esse discurso não tenha ocorrido, mas houve palestras e debates que fizeram valer a pena.

Conferência de abertura

No primeiro dia, gostaria de destacar:

– Catherine Sohener reforçou a importância da educação continuada e da leitura para bibliotecários. Claro que à primeira vista parece óbvio, mas se refletirmos melhor, quantos bibliotecários que conhecemos estão parados no tempo? Quantos existem que não gostam de ler?

– A @raquelrecuero na palestra que iniciou a primeira mesa redonda do dia, cujo tema foi cibercultura e pensamento contemporâneo, trouxe à tona o fato de que não há compartilhamento desinteressado. As pessoas compartilham porque estão atrás de valores como reputação, visibilidade, popularidade, etc.

– Já o @trasel em resposta a perguntas ocorridas durante o debate da mesma mesa redonda, trouxe em seu discurso o fato de que muitos professores reclamam quando os alunos levam laptops para a sala de aula e utilizam para ver facebook, email, twitter… Ele lembrou que antigamente os alunos não usavam computadores em sala, mas já existia o jogo da forca…

(O que me lembra que as empresas que bloqueiam determinados sites alegando que eles podem baixar a produtividade, esquecem que sempre existiu o cafezinho. Quem não quer trabalhar vai tomar um café e leva duas horas. E aí?).

Houve também uma palestra com Janet McCue que destacou a importância das bibliotecas atuarem fora das bibliotecas, citando o exemplo da Cornell University Library e a mesa redonda com a participação de César da PUCRS e Maria Carmem Romcy de Carvalho.

Tenho somente duas ressalvas a fazer:

– Não há tradução simultânea, o que gerou reclamação por parte de muitos participantes. Ainda que se parta do princípio que a grande maioria fala inglês, acho que essa informação poderia ter sido divulgada no site do evento.

– Senti falta de tweets da @BibliotecaPUCRS sobre o Simpósio. =D

As atualizações no twitter ficaram por conta da @karolbraun majoritariamente.

Vou aguardar o segundo dia. O @trasel já disponibilizou seus slides. A organização informou que as apresentações estarão disponíveis ao final do evento.

(Foto via @danielbeltran )

reCAPTCHA ajuda a digitalizar milhões de textos antigos


O PROBLEMA: Spammers

Serviços de email grátis como Google, Yahoo! e Microsoft estavam sofrendo ataques de hackers/spammers que haviam criado programas capazes de obter milhões de contas de email todos os dias. Por que os spammers precisavam de tantos emails? Porque os serviços de email permitiam que usuários enviassem somente um número específico de emails por dia (Yahoo permitira 100 envios de email por dia), então para que a tática de spam pudesse funcionar efetivamente, os spammers precisavam de um número gigantesco de endereços de email.

A SOLUÇÃO: CAPTCHA
Desenvolver um programa que protege os websites contra os robôs por meio da aplicação de um teste que os humanos podem passar, mas os robôs não. Por exemplo, humanos podem ler textos distorcidos como estes abaixo, mas os programas de computador não.


um examplo típico de um CAPTCHA

Em 2000, Luis von Ahn e Manuel Blum conceberam o termo ‘CAPTCHA’. Eles inventaram múltiplos exemplos de CAPTCHAS, incluindo os primeiros CAPTCHAs que seriam usados amplamente, os que foram adotados pelo Yahoo.

A REVELAÇÃO
– Aproximadamente 200 milhões de CAPTCHAs são digitados todos os dias ao redor do mundo
– Cada CAPTCHA leva aproximadamente 10 segundos para o preenchimento;
– 500.000 horas de tempo humano perdidas todos os dias digitando CAPTCHAs

O DESAFIO
Existe alguma maneira de este esfoço humano ser utilizado para o bem da humanidade?

A SOLUÇÃO REAVALIADA: reCAPTCHA
– Digitalizar livros uma palavra de cada vez. reCAPTCHA é um serviço grátis do CAPTCHA que ajuda a digitalizar livros, jornais e shows de rádio antigos.

exemplo de recaptcha

Como isso funciona
Digitalizar livros consiste do processo de tirar fotos de páginas do livro e em seguida usar OCR (reconhecimento óptico de caracteres) para descobrir o que as palavras são. Entretanto, em textos antigos, o OCR é bastante impreciso – para os livros escritos antes de 1900, OCR perde cerca de 30% das palavras.

exemplo de problema com OCR

O reCAPTCHA melhora o processo de digitalização de livros enviando para a web palavras que os humanos são capazes de decifrar, mas que não conseguem ser lidas por computadores na forma de CAPTCHAs. Cada palavra que não pode ser lida corretamente por OCR é colocada em uma imagem e usada como CAPTCHA. Isso é possível porque a maioria dos programas emite um alerta quando uma palavra não pôde ser lida corretamente.

Mas se um computador não pode ler tal CAPTCHA, como o sistema é capaz de conhecer a resposta correta?

A resposta: o reCAPTCHA oferece aos usuários duas palavras distorcidas. O sistema sabe o que uma delas é – se você identificá-la corretamente, ele assume que você provavelmente está respondendo a segunda (a ordem é aleatória) usando o melhor da sua capacidade e supõe que a sua resposta seja correta também para a nova palavra. O sistema então oferece essa nova imagem para um grupo de outras pessoas para determinar, com maior precisão, se a resposta original estava correta. Quando este grupo identifica a palavra desconhecida da mesma forma, é muito provável que o reconhecimento seja exato.

As duas palavras do reCAPTCHAs são tão velozes quanto digitar seqüências aleatórias de 6-8 caracteres, de modo que von Ahn não está nos fazer trabalhar mais.

É assim que os textos digitalizados vão sendo corrigidos, palavra por palavra. A maior parte desses textos são provenientes dos arquivos do New York Times e do projeto de digitalização do Google. E o Google gostou da tecnologia que acabou comprando o reCAPTCHA.

A controvérsia do Google Book Search – os bibliotecários deram mole

Pra quem não viu, uma breve passagem sobre a questão do Google Book Search project. Afora as questões jurídicas, que é o que se discute no momento, os bibliotecários deram mole por ter pedido a chance de ter capitaneado o projeto da biblioteca mundial (não-comerical e não-monopolizada). Agora é correr atrás do prejuízo e fazer lobby pro lado que melhor lhe representar.

O samba do bibliotecário doido #2

Recebi hoje do Caruso o link para o post “O samba do bibliotecário doido“, publicado no TodoProsa, blog do Sérgio Rodrigues. A gente já havia tratado do assunto internamente, mas a Teresa Rúbio levantou a bola de novo, então vou chutar.

O texto é esse:

O que os livros “A condição humana”, de André Malraux, “Killer in the rain”, de Raymond Chandler, “Christine”, de Stephen King, e “The complete shorter fiction”, de Virginia Woolf, têm em comum? Foram todos lançados no ano de 1899, segundo o Google Book Search. Onze anos depois de “A fogueira das vaidades”, de Tom Wolfe.

E o pior é que esse tipo de disparate está muito longe de ser raro na Biblioteca Universal do Google, que chega a extremos bibliográficos hilariantes como o de classificar uma edição de “Moby Dick” na rubrica Computação – informa Geoffrey Nunberg em artigo (em inglês) publicado pelo “Chronicle of Higher Education”.

Sim, em breve todo o conhecimento produzido pela humanidade estará online. Resta saber a que preço.

Eu compreendo o texto, é uma reação natural e comum de quem analisa a situação somente pelo seu referencial histórico sem entender mesmo o problema. Esses dias o Gmail ficou for do ar né. E o melhor tweet que eu li a respeito foi: @3df O GMail funciona 10 anos sem parar, falha meia horinha e vc diz que vai trocar??? Ah, vai, olha bem pro seu marido!!!!! @omdt

Eu sei que toda a história do Google Books é bastante complexa. E nenhuma afronta ao Sérgio, ao contrário, acho que se os problemas foram detectados, nada melhor do que expo-los e tentar resolve-los. Não tem nada aqui de #mimimi bibliotecário.

Mas de certo modo, fica mais fácil pegar um problema bem específico e questionar: ahá “em breve todo o conhecimento produzido pela humanidade estará online. Resta saber a que preço.”

Outra coisa que vi quando tava pesquisando twitter é que algum cara publicou um comentário no mashable indicando uma equação matemática que prova que se a produção de tweets é indiscriminada, então o valor tende a zero. Só que um matemático rebateu com a real interpretação da mesma equação, dizendo que o valor médio tende a zero, mas o valor geral é completamente distante de zero. E isso é o que a maioria das pessoas não compreende quando se trata de conteúdo web.

Eu tenho quase certeza que o “release date” (que é diferente de publishing date) 1899 tem a ver com as restrições constitucionais americanas, direitos autorais.

Mas isso tem ligação direta com outras coisas que eu já vinha falando nas internas. Pra que se preocupar com descrição bibliográfica? Who cares? Qual é o futuro dos catálogos, dos catalogadores?

A minha visão simplificada para um catálogo moderno de bibliotecas (qualquer biblioteca que recebe público) é bem simples: google appliance e aqua browser (ou algo tipo encore).

– catalogação: poucos bibliotecários fazendo a catalogação inicial; a catalogação deixa de ser vital já que a recuperação da informação agora é potente (todo a história da biblioteconomia foi baseada na organização para a recuperação. O que o google fez foi de maneira geral inverter a lógica, de melhorar a recuperação independente da organização – “a nova desordem digital“).

Voltando ao texto, qual é a probabilidade de um leitor de ficção querer ler livros publicados somente em um ano determinado? Para o caso das buscas científicas, a datação é importante, mas daí os próprios leitores podem se encarregar das correções necessárias, que comparadas ao volume total, tende a ser muito baixo.

Eu por exemplo sou pesquisador da área de blogs, eu sei que é improvável um artigo sobre blogs ter sido escrito em 1992, por exemplo, e conheço perfeitamente a história do advento das técnicas para reconhecer falhas. Bastaria eu entrar em contato ou ter a possibilidade de editar o conteúdo.

O acesso facilitado é uma ameaça para aqueles que gostam de se sentir privilegiados. Além disso, esse pensar sobre o conhecimento faz sentido na perspectiva de empilhador de livros. “Ohhhh meu deus, em qual prateleira esse aqui fica? 1800? 1900?”

Grande parcela das minhas citações em artigos de cunho científico não mudam NADA em seu significado caso as datas dos trabalhos estejam equivocadas. Ou seja, este erro afeta um número ínfimo de pesquisas.

Na dá pra subestimar a inteligência das máquinas e pior, das pesssoas.

Buscador de bibliotecas

A Sony lançou por esses dias um novo leitor de e-books e como promoção do produto lançou também um hotsite que permite a busca por e-books na biblioteca mais próxima do interessado. Basta entrar com um CEP e os resultados mostram uma lista de bibliotecas da região que oferecem empréstimo/download de e-books.

No Brasil…dentro de 67 anos.

Além de toda aquela história que as pessoas agora estão mais propensas a utilizar os leitores de livros eletrônicos, de um número de usuários interessados nas coleções digitais vir aumentando gradativamente nos últimos anos, acho que conforme as bibliotecas e os bibliotecários cada vez mais se preocupam em atender essa demanda da melhor forma possível, mais e mais pessoas passarão a fazer uso dessas tecnologias. Qualquer coisa que promova a leitura e o uso dos recursos de uma biblioteca me parece atraente.

As bibliotecas (americanas) que oferecem coleções digitais (aqui tem uma lista grande de bibliotecas que oferecem empréstimo de ebooks) tem políticas bem estabelicidades sobre a distribuição e uso do acervo digital. Algumas permitem o download para os usuários cadastrados, e eles podem ficar com os arquivos pra sempre. Outras usam DRM, ou algumas variações de restições digitais, onde o arquivo precisa ser devolvido para a biblioteca ou o próprio software reconhece que o período de empréstimo acabou e o arquivo é deletado do software do usuário. Existem outras políticas, mais simples e mais complexas.

O Google anunciou ontem também a liberação de download de livros no Google Books no formato EPUB, que é compatível com a maioria dos leitores de ebooks e alguns outros aparelhos, como o iPhone. É uma espécie de pdf mais leve.

Eu já uso o Adobe Digital Editions há bastante tempo, não só pra gerenciar toda minha coleção de artigos e documentos em pdf, como pra ter uma leitura mais agradável na tela do computador.

O que me chama atenção é que nesse caso específico da Sony, os caras nada fizeram além de criar um mecanismo de busca que faz o rastreio dos sites das bibliotecas que oferecem empréstimo das suas coleções digitais, através da inclusão de um CEP. Ou seja, algo que seria perfeitamente possível de se fazer no Brasil, já que eles não estão fazendo a busca no catálogo interno das bibliotecas, o que tornaria o procedimento bem mais complicado. Eles apenas criaram uma lista de links e associaram os links a uma outra lista de CEPs.

Algo que uma biblioteca maior como a Biblioteca Nacional ou a Biblioteca do Senado, poderiam fazer para as bibliotecas públicas e as universidades maiores como a USP, UFRJ e Unicamp poderiam fazer para as bibliotecas universitárias. Um serviço prestado aos cidadãos.

O problema por enquanto talvez seja que as coleções digitais ainda sejam muito pequenas ou “despreparadas”. Por exemplo, eu vejo que a maioria das universidades possum um canal, uma webtv, uma assessoria de imprensa que grava os eventos que acontecem, algumas palestras, algumas aulas. Por que não tornar esse conteúdo disponível para download, por meio de serviços decentes, compatíveis com ferramentas que os usuário interessados nesse tipo de materiais utilizam, como ipods, iphones, leitores de ebook, psp, etc ?

A conferir.

O futuro das bibliotecas e livrarias

Máquina de impressão sob demanda Espresso. Não precisa entender o que se fala no vídeo, apenas assista. E acompanhe o relógio.

Essa é a solução conveniente para o mundo de bits em que vivemos, em contraposição ao mundo de átomos em que Dewey vivia. Não precisamos mais de acervo físico. Isso vale tanto para livrarias como para bibliotecas. Livrarias podem oferecer impressão sob demanda. Bibliotecas podem emprestar Kindles. Hoje parece impossível, mas quando um leitor digital de livros custar o mesmo preço de um livro impresso comum (e isso é bem possível dentro de 5-10 anos), pode-se eliminar acervos físicos e investir pesadamente em coleções digitais. A biblioteca passaria a ser apenas um espaço vazio de interação de pessoas com outras pessoas (e eventualmente, autores), mais do que a interação entre pessoas e livros.

Pensem em como nós comprávamos discos no passado e hoje em dia simplesmente baixamos discografias completas em mp3. Meu ipod é capaz de armazenar mais de 25 mil músicas. Não caberiam tantos discos no meu quarto. E talvez eu nem tenha mesmo tempo de ouvir todas as músicas. Mas a minha experiência com a música e com os músicos e outros amantes de música não se alterou. Na verdade ela só se ampliou.

Isso reflete uma economia de abundância, não uma economia de escassez. As bibliotecas ainda vivem na mentalidade da escassez.

Argumentos mais detalhados sobre o assunto estão em:

A nova desordem digital
Cauda Longa e Free
Reflexões sobre a vida da mente na era da abundância