Pandemia e apagamento

Devo à conjunção da pandemia, algumas “lives” e uns tantos posts nas mídias sociais minhas recentes preocupações com apagamento.

Plagiei Borges, descubram.

TRABALHADORES E BIBLIOTECAS

Durante a pandemia, muito se tem falado sobre a necessidade das bibliotecas “se reinventarem”. E, exaustivamente, sobre os cuidados sanitários, quarentenas de livros e procedimentos para oferecer segurança ao público,.

Mas não vejo a mesma animação para falar dos trabalhadores das bibliotecas, de suas condições de trabalho e dos riscos a que estão expostos, como contaminar-se durante o esforço da tal reinvenção ou perder o emprego em plena pandemia, o que já aconteceu com muitos colegas.

Na Universidade de São Paulo, instituição que eu respeito e admiro, mesmo sabendo não ser correspondida, os funcionários só foram liberados para trabalhar em casa uma semana após a suspensão das aulas presenciais. Prefeitura e governo estadual já haviam dispensado os servidores, a USP não. Nossos museus, curiosamente, fecharam antes das bibliotecas, embora estas acumulem mais pessoas por metro quadrado, e por mais tempo. Por quê? Não sei dizer ao certo o que se passa na cabeça da classe dirigente uspiana, mas sei o que essa classe costuma esquecer: bibliotecas.

Mas, enfim, desde o dia 23 de março estou trabalhando em casa. E trabalhando muito, o tempo todo online, fazendo menos exercício do que fazia antes, quando podia andar pela biblioteca. Mas estou consciente de que, comparada aos milhões de brasileiros que não tiveram a chance de se preservar ou que perderam seus empregos, sou uma privilegiada.

Quase todas as bibliotecas da USP fecharam, com exceção de uma ou outra da área médica, por motivos compreensíveis.

A demanda por empréstimo ou digitalização de material impresso, não parou nem um dia, pelo menos na área onde atuo, que ainda usa muito o bom e velho livro impresso, até porque a oferta de e-books não é lá grande coisa. O discurso “as aulas continuam de forma remota, preciso muito desse material para minha tese, não dá para abrir uma exceção? ” foi recorrente durante o período. Em algumas ocasiões, a resposta às minhas detalhadas explicações sobre pandemia e impossibilidade de acesso ao acervo físico era singela: “mas vocês não poderiam digitalizar e me enviar, estou realmente precisando”. Até certo ponto é compreensível. Os estudantes têm suas necessidades, os professores nem sempre são sensíveis ao momento e o egoísmo, afinal, é humano. Mas não deixo de me espantar com a facilidade que tanta gente instruída apresenta em dissociar o serviço do ser humano que o executa. Tive que explicar para alguns amiguinhos mais insistentes que, para o pdf chegar ao recesso quentinho de seu lar, alguém teria que pegar um ônibus lotado em meio à pandemia e ir até a Universidade para digitalizar o material. Não existe mágica, mas sim força de trabalho de seres humanos.

Lá pelo final de agosto, a USP resolveu liberar o retorno de 20% dos funcionários, caso os diretores das unidades achassem necessário. A maioria não achou prudente arriscar a vida de seus funcionários, mas alguns gostaram muito da ideia. Chegaram ao meu conhecimento relatos sobre dirigentes universitários argumentando que, se bares e lojas podiam abrir, por que não as bibliotecas? Observem que não estou falando de “tios do pavê” que se informam pelo whatsapp, mas de professores universitários no topo da carreira, gente extremamente instruída e que não deveria falar bobagens desse tipo.  Anotem aí:

1 bibliotecas só são lembradas quando estão fechadas
2 a saúde dos seres humanos que trabalham nas bibliotecas vale menos do que o livro na mão do estudante ou do professor.

E não foram apenas diretores e diretoras de faculdades e institutos que acharam indispensável o empréstimo de livros em plena pandemia, com as aulas presenciais suspensas na Universidade. Alguns chefes de bibliotecas colaboraram alegremente, ou, no mínimo, não tiveram forças para dizer não a medidas “flexibilizadoras”, e muitos colegas não viram nisso grande problema. De um lado, a ideia da “colaboração voluntária” para evitar o risco de fazer uma convocação oficial, de outro a convicção que usar transporte próprio, máscara e álcool-gel afastaria o perigo. E isso mesmo depois que a Agência USP de Gestão da Informação Acadêmica, organismo que substituiu nosso extinto Sistema Integrado de Bibliotecas da USP, enviar um comunicado lembrando que o “empréstimo de livros expõe discentes, docentes e servidores das Bibliotecas à contaminação pelo novo coronavírus” e sugerindo a manutenção do atendimento virtual como prioridade, exceto para as bibliotecas envolvidas com a pesquisa sobre SARS-CoV-2.

Num evento recente sobre protocolos de segurança para bibliotecas no pós-COVID – como se a pandemia já fosse parte do passado – bibliotecários de instituições respeitáveis apresentaram medidas que adotaram para reabrir, ainda que parcialmente, os acervos ao público. Trabalhos sérios, claro, baseados em estudos científicos referenciados. Mas, como na maioria dos eventos desse tipo, muito se falou em quarentena de livros, em higienização de espaços, empréstimo com hora marcada e pouco (ou nada) do trabalhador das bibliotecas e suas condições de vida. Menos ainda dos trabalhadores terceirizados que, na maioria dos casos, cuidam da limpeza e da segurança, e do tratamento que recebem das empresas que os contratam.

Fala-se de retorno gradual, mas não se questionam os dados oficiais sobre o contágio e as trapalhadas dos governos no controle da pandemia. Fala-se de caixas de devolução e de digitalização, mas não se menciona o trabalhador – chamado graciosamente de “colaborador” – que vai recolher os livros das caixas e digitalizar os materiais. Mostram-se lindos espaços adaptados, mas não o ônibus lotado que os “colaboradores” tomam para chegar na biblioteca.
Todos falam muito da “reinvenção” das bibliotecas, quase ninguém se lembra do quanto a “reinvenção” deve à eterna exploração do trabalhador.

A impressão que tenho dessas “lives” todas é que bibliotecas são organismos que funcionam sem o trabalho de seres humanos. Para conveniência geral de empregadores, governos e instituições, os trabalhadores são apagados dessa história.

OS INTELECTUAIS E SUAS BIBLIOTECAS

Um conhecido intelectual brasileiro queixava-se, em sua página numa rede social, das dificuldades encontradas para doar sua biblioteca pessoal a uma instituição. Uma amiga bem intencionada marcou meu nome na publicação do professor, pensando que talvez a USP pudesse se interessar.

E lá fui eu esclarecer alguns pontos, por exemplo, que estamos numa pandemia e a maioria das bibliotecas, se não está completamente fechada, suspendeu o recebimento de doações. Achei desnecessário lembrar que as doações não se teletransportam automaticamente da casa do doador até as estantes das bibliotecas. E que os seres humanos que precisam receber e, eventualmente, até ir buscar os livrinhos também estão sujeitos a contágio.  Postei link para um texto no qual explico como é o processo de receber e selecionar doações. O professor, coitado, até mudou o texto de seu post, observando que estava entendendo melhor as dificuldades da coisa toda.

Dei uma espiada nos comentários da postagem e percebi que muita gente está com o mesmo problema: não consegue doar seus livros. E tive que responder, tentando ser delicada, a pelo menos dois comentários: o arrogante que concluiu que bibliotecários não gostam de receber doações porque “dá trabalho” e preferem “comprar um livro por semana” e a inocente que adoraria ter o “trabalho” (assim mesmo, entre aspas) de catalogar livros. Sim, muita gente confunde critérios de seleção e falta de estrutura das bibliotecas com preguiça dos bibliotecários, esses eternos culpados de tudo. E também há os que não têm a mínima ideia do que é, de fato, o trabalho numa biblioteca e de como pode ser árduo – apesar de interessante.

Muitos pesquisadores e professores passam a vida comprando livros, mas nem sempre cuidam bem deles. E como têm recursos para comprar todos os livros que desejam, não costumam frequentar bibliotecas. Mas, em algum momento, percebem que não têm mais espaço em casa, não estão mais usando 95% daqueles livros e não têm para quem deixar seu acervo quando morrerem. Então, sentindo-se generosos, decidem doar tudo a uma biblioteca, e descobrem que a maioria das bibliotecas não precisa, não quer ou não têm condições de receber 1.000 ou 2.000 livros de várias áreas, às vezes empoeirados, fungados, deteriorados e desatualizados, muito menos de ir buscar esses livros na casa do doador. A decepção costuma ser grande.

Por que tantos intelectuais acumulam desnecessariamente centenas de volumes  em suas casas,  em vez de ir doando às bibliotecas, aos poucos, seus livros ainda novos e atuais, para que possam ser aproveitados por pessoas menos privilegiadas? Apego, claro, gente que gosta de ler costuma gostar de ter livros ao seu redor. Mas também pode ser uma questão de poder. Ter muitos livros, emprestar somente a alguns leitores selecionados aquele livro que ninguém mais tem não deixa de ser uma forma de poder. E doar uma enorme biblioteca quando não precisa mais dela é uma forma de atribuir a sua existência um valor adicional. Ou não?

Bem, mas algumas doações são ótimas, e compensam até eventuais despesas com higienização e encadernação. Então, por que é tão difícil encontrar abrigo para bibliotecas pessoais? Creio que a maioria dos bibliotecários sabe a resposta: porque não damos valor a bibliotecas e instituições culturais em geral neste país, não cuidamos delas, não investimos recursos nelas, e até elegemos autoridades que desprezam a cultura, e ignoram a ciência e destroem a educação. Se não fosse assim, o Museu Nacional não teria pegado fogo e a Cinemateca Brasileira não estaria fechada.

Não adianta aliviar a consciência atribuindo a culpa à “preguiça” dos bibliotecários. O problema é bem mais profundo.

Mas temos culpa, me parece, quando não conseguimos lidar de forma amigável com as ofertas que precisamos recusar. É preciso sensibilidade para entender que a quebra das expectativas dos candidatos a doadores tende a ser dolorosa, e que uma recusa pouco diplomática pode ter consequências ruins para nossa imagem profissional.

A TROCA DE PDFs

Por curiosidade, frequento um desses grupos destinados à troca de livros digitalizados que pululam no Facebook. Esse foi criado em maio deste ano, em plena pandemia, e hoje já tem mais de 30.000 integrantes, que pedem e postam links para livros em pdf. Mais pedem do que obtêm, na verdade, pelas minhas contas.

É um fato da vida: leitores e estudantes precisam de livros, sobretudo na área de humanidades. Nem todos têm acesso a bibliotecas e, mesmo que tenham, muitos acham mais simples procurar um pdf na internet. E agora, com tantas bibliotecas fechadas pelo novo maldito coronavírus, esses grupos devem estar sendo a salvação de muita gente. Mas o que chamou minha atenção foi o pessoal que, além de procurar títulos específicos, também faz buscas por assunto. Algumas são bastante específicas e preguiçosas, como essa pessoa que não está com muita vontade de preparar seu próprio trabalho:

… preciso de um plano de aula sobre guerra fria, nono ano de história

Outras são definitivamente muito genéricas:

PDFs sobre educação, alguém? Estou precisando muito.

E há os que solicitam indicações:

Olá pessoal, poderiam me recomendar livros sobre psicanálise?

Muitas dessas questões, que costumam permanecer sem resposta no grupo, poderiam ter sido dirigidas a um serviço de referência de biblioteca. Na maioria dos casos, qualquer bibliotecário de referência razoável teria oferecido orientação ou, ao menos, indicado fontes. Somos treinados e estamos acostumados a ouvir as perguntas mais inusitadas e a responder com paciência até as mais ingênuas.

Então, o que está acontecendo?

Essas pessoas, provavelmente pesquisadores ou estudantes, não pensaram em consultar uma biblioteca de sua área de interesse? A porta física da maioria das bibliotecas ainda está fechada, mas há outras portas abertas para comunicação com os bibliotecários, que continuam trabalhando. Ou pior, talvez não entendam a biblioteca como um “lugar de fazer perguntas”. Imaginam que jogar apelos desesperados num grupo de mais de 30.000 desconhecidos pode ser mais eficiente do que consultar um profissional. Nada surpreendente, na verdade. Já conversei com muitos estudantes que simplesmente ignoravam a existência de uma profissional chamado “bibliotecário de referência” que serve, entre tantas coisas, para responder perguntas. E estou me referindo a estudantes da USP, que têm boas bibliotecas à sua disposição.

Mas não posso, infelizmente, excluir a hipótese do mau atendimento, do atendimento burocrático ou impaciente, do bibliotecário de porta fechada e inacessível, porque isso existe.

RESUMINDO

Somos apagados quando:

Nossa condição de trabalhadores é escamoteada, até pelos colegas em posição de poder ou de destaque.
Nossa condição de seres humanos sujeitos ao adoecimento e à morte é esquecida, em nome de um atendimento que supostamente não pode parar.
Nosso trabalho não é enxergado pela sociedade ou não é entendido como trabalho.

E também quando nos perdemos no doce discurso do amor pela profissão e na cega convicção de nossa importância, sem considerarmos o quadro social, econômico e político no qual vivemos.

Bette Davis como bibliotecária em “Storm center”

E quando não participamos coletivamente, enquanto profissão feminina indissoluvelmente ligada à cultura, educação e ciência, de manifestações de rua carregando faixas que gritem:

Bibliotecárias contra o machismo
Bibliotecárias contra o racismo
Bibliotecárias contra a homofobia
Bibliotecárias contra o desmonte das instituições culturais
Bibliotecárias pela democracia
A Terra é redonda

 

foto destacada (com edições): Gael Varoquaux

O embate

Ela vaga em paz entre as estantes iluminadas apenas pelas luzes dos postes, lá fora. A biblioteca já estava fechada há quase uma hora. O calor e cheiro humanos já estavam totalmente dissipados. Os ruídos dos poucos carros que ainda passavam não interferiam na tranquilidade soturna do ambiente. Esses momentos eram especiais para ela, ainda melhores do que a alegria diurna da biblioteca cheia de leitores. De repente, uma voz áspera interrompe seu passeio.

– Ainda por aqui?

–  Desculpa, já fechamos! Você ficou preso?

–  Não. Eu não fico preso.

Sim, claro. Agora estava entendendo. Sempre soube que um dia isso iria acontecer, apenas não imaginava que seria assim, tão rápido, que a tampa do esgoto se abriria.

– Por que você ainda está aqui, mulher?

– Eu trabalho aqui. E “ainda” é um termo que não se aplica à minha presença.

– Mas essas horas são minhas, não suas.

A voz já se alterava, autoritária, aflita. Um ligeiro odor a apodrecimento se espalhava no ar.

– Todas as horas são minhas.

– Você quer me enfrentar?

– Sim, quero. Mas cara a cara. Onde você está?

– Onde eu estou? Tente descobrir, mulher.

– Neste mundo ou em qualquer outro, não existe nada que eu não possa descobrir. Ou encontrar.

– Vamos ver.

– Entendi, você quer jogar. Numa biblioteca. Com uma bibliotecária! – A mulher riu alto.

– E se eu arrancar seus ossos e jogar pela janela? A bibliotecária vai gostar desse jogo?

– Posso estar enganada, o que raramente me acontece, mas acho que você precisaria aparecer para fazer isso. Não é mesmo?

A voz se cala por alguns instantes, mas logo volta, alterada, com um tom diferente, quase de aflição.

– Esse lugar está cheio de mulheres. Mulheres fracas, sangrando e cacarejando com vozes agudas enquanto mexem nesses livros. Livros podres, livros comunistas que um bando de pretos vagabundos vem fingir que lê!

– Você pode gritar, insultar, mas não pode se mostrar e muito menos tocar em mim. Sim, quase todos que trabalham aqui são mulheres e a maioria sangra ou já sangrou. E muitos, muitos pretos mesmo vêm aqui, todos os dias. E não só pretos, indígenas também. E sabe quem mais? Homossexuais e travestis de salto agulha e meia arrastão.  Queremos todos aqui.  – A mulher sibilava.

– É por isso que eu estou aqui, para acabar com essa pouca vergonha! Eu tive muitos filhos quando andava por aí, todos machos. Se um deles fosse veado, eu matava. Melhor filho morto que veado. E se precisar matar trinta mil, eu mato.

– Não, você não vai matar ninguém porque eu não vou permitir. Aqui mando eu. E vou encontrar o livro desgraçado onde você se esconde, antes que você descubra como começar a matar. E quando eu chegar no seu esconderijo, vou arrancar cada página e tratar todas elas com sal, água e fogo, até você começar a ferver e chiar.

– Eu vou matar trinta mil… trinta mil… – a voz insistia, cada vez mais fraca, até desaparecer.

E então a mulher cujo nome estava na placa de bronze da porta da biblioteca suspira fundo e ergue-se no ar, para contemplar do alto o mar de estantes. Por onde começar? Mein kampf? Malleus maleficarum? Teria que agir rapidamente. O primeiro embate foi fácil. A criatura ainda estava fraca e não parecia muito inteligente, ou saberia com quem estava conversando. Mas essas coisas nascidas do ódio e da ignorância crescem rápido e não devem ser subestimadas. Finalmente a bibliotecária que registrou os primeiros livros da biblioteca, há exatos 218 anos, entendia porque jamais havia conseguido sair de lá. Seu trabalho mais importante começava naquele momento.

imagem: Retrato da atriz francesa Rachel (detalhe), por Edouard Louis Dubufe 

VIII Encontro de Bibliotecários Educacionais

Fala galera,

Retomando um pouco dos eventos na área de biblio, o pessoal da Humus me pediu para divulgar por aqui o evento que acontecerá agora em outubro sobre Biblioteca 4.0.

Para quem tiver interesse vai rolar até um desconto na inscrição para os leitores do BSF. São dois dias de evento com diversas palestras, uma delas é da pessoa que vos escreve!

Segue o release oficial:

O novo conceito sobre as bibliotecas: 4.0

Os bibliotecários vêm se atualizando para acompanhar as tendências e tecnologias, afinal viver em uma era digital faz com que a busca por conhecimento seja constante. As ferramentas de trabalho mudaram, mas o conceito sobre as informações pode ser visto por diversos ângulos. A profissão está voltando à tona e tomando seu devido espaço no mercado.

Pensando em contribuir para fortalecer ainda mais esses profissionais a HUMUS está realizando o VIII Encontro de Bibliotecários Educacionais, que será realizado nos dias 23 e 24 de outubro de 2019, no Hotel Meliã Ibirapuera – São Paulo/SP. O evento contará com palestras de relevância para o mercado, como: Bibliotecas 4.0: Acervos virtuais e serviços em bibliotecas no futuro, por Cristiane Camizão; Como usar as redes sociais para atrair os estudantes para a biblioteca?, por Gabriela Pedrão; Workshop: Design Thinking para Bibliotecas, por Adriana Souza, entre outros assuntos imperdíveis.

As visitações as bibliotecas nas edições passadas foram um sucesso e se mantiveram. Acreditamos que as visitas inspiram e impulsionam, além das palestras com temas de extrema magnitude, você terá a oportunidade de consumar seus conhecimentos no dia seguinte, visitando uma biblioteca de excelência:  Biblioteca Telles, do Insper, conhecendo suas instalações e extraindo o melhor da gestão de Unidades da Informação (a visitação é limitada).

10% de desconto! Inscreva-se já!

Para mais informações e inscrições, acesse o site https://www.humus.com.br/enb

ou entre em contato: 11 5535.1397 | humus@humus.com.br

Perguntas, respostas e suspiros noturnos

Num dia comum na Grande Biblioteca, ou em qualquer outra biblioteca grande ou pequena, muitas perguntas são feitas. Os funcionários nem sempre dão as respostas que gostariam, por educação, prudência ou tédio mas, às vezes, dão.

Dona Teresa está guardando toneladas de livros, usando guarda-pó, máscara para não morrer de tanto espirrar e um enorme crachá onde se lê seu nome e função em letras garrafais. Alguém se aproxima e pergunta:
– Por acaso a senhora trabalha aqui?
– O que você acha? – devolve Dona Teresa, espichando-se toda,  com uma das mãos no quadril e a outra apontando para os sinais de que se trata de uma funcionária trabalhando.

Normalmente a reação é um pedido de desculpas encabulado ou uma cara feia. Ambos divertem igualmente a guardadora de livros, que solta uma gargalhada e oferece seus préstimos com simpatia. A única reação diferente registrada em vários anos de observação foi de uma garota gorduchinha que bateu palmas como se tivesse feito uma grande descoberta e gritou:
– Eu acho que sim! Me ajuda! Me ajuda! Eu não consigo achar o livro!

Lá no balcão de empréstimos um cavalheiro de terno mal cortado folheia distraidamente o livro que alguém devolveu.
– Isso parece coisa de “viado”…

E o bibliotecário, com grande naturalidade, pergunta:
– Eu sou veado, por que você acha isso?

Ninguém entende muito bem a resposta gaguejada, que soa mais ou menos como “nada não, obrigado”.

Mais tarde, dois moleques resolvem matar a curiosidade e perguntam para a moça da portaria:
– Tia, por que você fica desenhando esses quadradinhos aí?
– Tá vendo este pauzinho aqui? – indicando com a ponta da unha pintada de vermelho um dos risquinhos de sua estatística de entrada de usuários – É você. Este outro aqui é o seu amigo. Entendeu?

Depois de mais de vinte minutos tentando decifrar as confusas  anotações de uma jovem universitária, a bibliotecária de referência finalmente descobre que um dos  supostos livros era um artigo  de revista e o outro um filme, nenhum deles disponíveis no acervo.
– Mas o professor disse que eram livros e que eu poderia encontrá-los aqui!

A bibliotecária explica, com a ar de quem revela um grande segredo:
– O professor não sabe nada…

Diante da expressão completamente chocada da moça, Lúcia, que já havia levado umas broncas por causa de sua língua rápida e ferina, volta atrás e conserta um pouco a maldade:
– Quero dizer que seu professor sabe muuuitas coisas, mas disso ele não entende nada – e ajuda a moça a encontrar filme e artigo em fontes alternativas de caráter pirático.

A mesma Lúcia costuma responder, com um bonito sorriso, quando alguém reivindica um privilégio por conta de uma condição que considera única e muito relevante (“eu faço doutorado na UCI -Universidade Chique e Importante”, por exemplo):
– Você e mais uns trezentos – adaptando o número à situação. A vontade mesmo era dizer “ você, a torcida do Corinthians e metade da do Palmeiras”, mas seria um exagero. Lúcia é desbocada, mas não abusa.

A estagiária estudante de Letras detesta quando explica que não pode digitalizar o livro e enviar para o usuário, porque existe uma lei que protege direitos autorais e tal, e a pessoa questiona, como se estivesse explicando um fato da vida no qual ela nunca havia pensado:
– Mas, e se eu pegar o livro emprestado e digitalizar? Quem vai saber?

Para usuários conhecidos, daqueles que estão sempre na biblioteca e com quem os funcionários se permitem certas familiaridades, a estagiária responde, com algumas variantes:
– Tem uns ácaros aí no livro treinados para acionar um alarme telepático que vai soar lá no Departamento Antidigitalização de Livros na Íntegra da Polícia Federal toda vez que alguém faz isso. Aí os fiscais da ABNT vão rastrear o livro até sua casa, confiscar o pdf e aplicar-lhe pesada multa.

Os mesmos ácaros, segundo Lúcia, gritam desesperados quando alguém rabisca o livro: “PARA, PARA, VOCÊ ESTÁ ME MACHUCANDO! ”.

Já os fiscais da ABNT apareceram na biblioteca num belo dia de dezembro para avisar que os festões da decoração natalina estavam fora dos padrões, de acordo com um funcionário gaiato que fez a secretária da chefia, por um breve momento, acreditar na história.

E é quando todos riem com essas outras biblio-fantasias, como a história do movimento migratório dos livros que explicaria obras sobre arte rupestre guardadas na estante de culinária, é que a Fernanda da Aquisição, a melhor contadora de causos da Grande Biblioteca, muito séria, se põe a narrar a história dos suspiros.
– Vocês estão rindo, mas fiquem sabendo que nesta biblioteca, como em quase todas as bibliotecas que têm acervo muito antigo, há diversos livros que suspiram. Durante o dia não se nota, mas quem andar entre as estantes à noite talvez consiga escutá-los. São os livros esquecidos, que ninguém abre há muitos anos e se ressentem disso – nesse momento, Fernanda faz uma pausa e baixa o tom de voz, como se contasse um segredo soturno. Alguns deles, na verdade, jamais deveriam ser abertos mesmo. Nem todos os livros esquecidos são inofensivos. Por isso, se algum dia vocês ouvirem suspiros na Biblioteca, afastem-se imediatamente das estantes.

Alguns ouvintes arregalam os olhos, outros soltam risadas nervosas, mas não há quem não lance um olhar ressabiado em direção às imponentes estantes guardiãs de segredos.

E assim, na Grande Biblioteca e em qualquer outra biblioteca, as perguntas ingênuas, as respostas às vezes tortas, as piadas, as histórias e os suspiram se repetem, dia após dia. E devem continuar, enquanto existirem bibliotecas e pessoas dentro delas.

Agradeço à querida Arlete (em memória),ao José e ao Walber por algumas dessas histórias. Nem todas são inventadas.

fotos: Victoria Pickering, Library; Michael D Beckwith, Chetham´s Library (Flickr)

E quem não quer trabalhar em bibliotecas?

Há algum tempo o pessoal me pede para falar sobre bibliotecários que não querem passar nem perto de uma porta de biblioteca e se há alguma luz no fim do túnel. Então comecei a estudar e esse é o primeiro vídeo de uma série de alternativas para quem foge da mediação de leitura.

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Visitando a Biblioteca Nacional da China

Deixei a Soraia que há em mim aflorar. Normalmente não visito bibliotecas em viagens e deixo isso para alguns amigos meus que já fazem isso no meu lugar. Eu sei, sou um péssimo bibliotecário.

Não é que eu não goste de conhecê-las, gosto, mas é que acabo relacionando esse tipo de visita ao trabalho e fujo disso nas viagens que faço.

Mas Cauê, tu nem em biblioteca trabalha! Eu sei, mas…ah! vocês entenderam.

Enfim. Mês passado viajei pelo Vietnã e China e sem querer (isso mesmo) acabei “esbarrando” na Biblioteca Nacional da China quando estava em Pequim.

Estava a caminho do Parque Olímpico e ao pegar o metrô passei pela estação “National Library”. Opa! Acendeu o foguinho da curiosidade bibliotecária em mim e resolvi descer ali na volta. Dito e feito. Fui no Parque Olímpico, que por sinal é lindíssimo e muito bem conservado, e na volta desci na estação da biblioteca nacional para conhecê-la.

Logo na entrada não tinha quase nada em inglês e as informações do mapinha eram todas em mandarim. O que isso quer dizer? Não vai muito gringo por lá. Mas eu fui. Não esperavam por isso.

Bem fácil de saber o que quero conhecer na Biblioteca.

Deixei minha mochila nos lockers que se encontram no subsolo da biblioteca e entrei.

Grátis. Só apertar o botão, ele dará qual locker. Guarda. Pega o papelzinho e na volta só colocar no leitor e seu locker abre.

De cara você já tem noção de que ela é gigantesca e que o prédio tem uma arquitetura bem arrojada (que palavrinha heim) com enormes janelões de vidro.

Fui ao setor de informações perguntar se estava de boas qualquer um visitar as dependências. A atendente se esforçou no inglês e deu pra entender que em alguns locais só com a carteirinha da biblioteca ou com autorização da direção. Como eu não tinha tanto tempo de sobra assim naquele dia, resolvi visitar só as áreas permitidas, já que dava pra ver quase tudo por lá devido aos janelões.

Lindona. Eu babei legal. Segue fotchênhas.

A danada.

Frente da Biblioteca.

Hall de entrada.

Área de estudos vista de cima. Lindo pra ca…ramba!

Lindeco

Bonito mesmo.

Somente livros sobre robótica. T-1000 vai sair daí.

Igualzinho aqui.

Tudo na China é QR code. TU-DO. Não seria diferente na Biblioteca.

Tudo lindo.

Tudo maravilhoso.

Solicitação de empréstimo.

No subsolo há um salão para exposições.

Livrinhos bem antigos. Não dava pra saber data pois tava tudo em mandarim. =/

Autopromoção.

Não me pergunte que área é essa, tava em mandarim.

Como em toda a China, eles espalham plantas pra tudo quanto é lado.

Só de decoração.

Telas touch para consulta.

Área de estudos.

A entrevista

Lúcia observa as estudantes brigando com o gravador que teima em não  ligar. Meninas trabalhadoras, pensa Lúcia, provavelmente filhas e netas de trabalhadores, como ela mesma, na luta para melhorar de vida pelo estudo e apostando suas fichas no curso de Biblioteconomia. A menina que parece exercer funções de liderança usa camiseta da faculdade, chapinha no cabelo e brinquinhos de imitação de pérola. A mais novinha delas, que olha para Lúcia com o rabo de uns olhos meigos, veste blusa de estampa de florzinhas e babados. A terceira, um tanto mais velha que as outras, tem os braços totalmente tatuados e o cabelo que parece cortado à faca. Sem saber como ajudar, Lúcia limita-se a sorrir tranquilizando suas entrevistadoras, que começam a dar sinais de constrangimento. “Calma, não estou com pressa. Reservei a tarde toda para vocês”.

Desde que Dona Alzirinha morreu, a função de receber estudantes interessados na história da Grande Biblioteca passou para ela, por ser agora “uma das mais antigas aqui depois de mim”, nas palavras da diretora. Na verdade, embora fosse apenas medianamente antiga, Lúcia era a única bibliotecária capaz de se comunicar com os jovens de forma razoável e assumia como trabalho da referência dar entrevistas para trabalhos escolares. A diretora reservava seu tempo precioso para atender as “personalidades” que considerava importantes: jornalistas da grande imprensa e gente indicada pela prefeitura.

Finalmente as garotas assumem o controle do equipamento e Brinquinho dá início às perguntas. O tema do trabalho era Dona Olívia Valadares Gouveia Campos, aquela que emprestou seu vetusto nome à Grande Biblioteca em vão, porque o nome não pegou. O material disponível sobre a importante personagem já estava nas mãos das meninas: uma curta biografia, algumas reproduções de fotos e um folhetinho com uma coletânea de poemas de autoria dela, em edição quase caseira da Secretaria de Cultura, feita por ocasião do batismo da Biblioteca.

Depois das perguntas iniciais de praxe, quanto tempo trabalha na Grande Biblioteca, se considera seu trabalho importante etc, Brinquinho ataca:

– Qual é a importância de Dona Olívia Valadares Gouveia Campos para a Grande Biblioteca? Cite algumas de suas principais realizações.

Típico, pensou Lúcia. A meninada reproduz nas entrevistas os enunciados da questões que caem nas provas. Compondo no rosto a expressão mais tranquila e séria de que era capaz, Lúcia responde escolhendo as palavras:

– Dona Olívia integrou a comissão que organizou a cerimônia de inauguração da Biblioteca. Era uma mulher elegante, uma quatrocentona com muita experiência em organização de eventos beneficentes.

Ela sempre se sentia meio idiota dizendo essa frase, mas não tinha opção. Apenas torcia para que as meninas se contentassem com isso e partissem para outro tipo de pergunta. Mas, não. Dessa vez não seria tão fácil. Senho franzido, Brinquinho esclarece:

– Desculpa, o que a gente precisa saber é o que ela fez por esta Biblioteca, os trabalhos que realizou …

– As marcas que ela deixou, né? – Florzinha tenta ajudar.

– Sim, meninas, eu entendi. Mas é isso. Ela organizou a festa de inauguração e doou alguns livros.

– Mas, como? Peraí, quantos anos Dona Olívia trabalhou aqui?

– Ela nunca trabalhou aqui. Trabalhou alguns anos na biblioteca da Faculdade de Letras, logo depois de se formar, mas parou de trabalhar quando se casou. Foi assessora da Prefeitura por algum tempo, mas essa atividade não estava relacionada à Grande Biblioteca.

Brinquinho, um tanto desnorteada, consulta freneticamente suas anotações.

– Não é possível, eu tenho certeza, li isso em alguma parte das …

Tatuagem vem em seu socorro com uma boa saída:

– E esses livros que ela doou, eram raros? Foi uma doação importante?

– Tem a listinha aí no material que vocês receberam. São bons livros, mas nada de excepcional.

– Ah, tô vendo aqui. Doze livros.

Lúcia entrelaça os dedos e faz um gesto vago com a cabeça, seu equivalente gestual para a expressão “bem…”. Tatuagem esboça um ligeiro sorriso, como se já estivesse adivinhando o que estava por vir, enquanto Florzinha examina as condições de cada uma de suas unhas. Brinquinho, entretanto, mostra que não pretende se entregar tão cedo.

– Deve haver algum engano – o tom de voz é peremptório e o olhar lançado em direção à bibliotecária tem algo de acusador – Se esta biblioteca tem o nome dela, a mulher dever ter alguma importância para a instituição, não?

Lúcia pressente que a menina está prestes a chamá-la de “querida” e suspira ligeiramente. Boas alunas que vestem a camiseta da faculdade e que um dia, provavelmente, terão orgulho de serem bibliotecárias, não gostam de entrevistas que fogem ao roteiro que prepararam, tão caprichado. E agora, como ficaria o trabalho? A bibliotecária, tenta disfarçar a ponta de prazer perverso que sente  ao contar a história famosa entre os funcionários.

– Então, é o seguinte. Esta biblioteca ficou conhecida como “Grande Biblioteca” por oposição à mais antiga, pequena, que ficava logo ali na rua de cima. Aí surgiu um prefeito que gostava de dar nome a tudo, desde que o batismo lhe rendesse lucro político. A esposa dele era bibliotecária e manifestou desejos de dar um nome de bibliotecária à nossa Grande Biblioteca. O marido, que lhe devia alguns favores, se empenhou em satisfazer esse capricho de madame. Mas não poderia ser o nome dela, naturalmente, porque além de primeira dama estava viva.  Para tanto, ele precisava de uma bibliotecária morta. Procura que procura, topou com Dona Olívia, que era bibliotecária e já estava morta. Pronto! Foi assim que a Grande Biblioteca ganhou seu nome oficial – aquele que ninguém usa – e continua sendo a Grande Biblioteca.

– Como?! O quê?! – se espantam, em coro, Brinquinho e Florzinha. Tatuagem ri e abana a cabeça.

Brinquinho achava um absurdo. Não podia ser.

– Não mesmo. O melhor candidato a dar nome à Grande Biblioteca seria, na verdade,  Pyotr Oklopkov, um professor que lutou muitíssimo pela criação desta biblioteca. Organizou campanhas, movimentou a cidade, fez pressão sobre a Prefeitura… Mas, lamentavelmente, o velho, além de ter esse nome impronunciável, era comunista de carteira assinada e um dos adversários mais famosos do partido do prefeito marido de bibliotecária. Já Dona Olívia, senhora da classe dominante nativa com nome elegante, era candidata imbatível.

– Gente… – mia Florzinha, chocada.

– Vocês não vão me perguntar por que o nome não pegou? – provoca Lúcia.

– Tenho até medo de perguntar – Florzinha confessa.

– Porque a biblioteca já tinha um nome conhecido pela comunidade. Todo mundo dizia “Grande Biblioteca” com certo orgulho. Se a gente tentava usar o nome oficial, ninguém entendia. E os próprios funcionários, que também não gostaram do novo nome, não se empenharam muito em vencer a resistência da população. É isso que acontece quando se fazem ações artificiais, sem envolver as pessoas…

A diretora da Biblioteca odiava que ele contasse a história desse jeito, sem ao menos romancear um pouco, Lúcia sabia disso. Mas ela já havia avisado que jamais mentiria para os jovens estudantes. Era seu preço para ser “uma das bibliotecárias mais antigas que pode contar as histórias da Biblioteca”.

– Futuras coleguinhas, até parece que vocês nunca ouviram falar de uma coisa chamada política. Bibliotecas também estão sujeitas às regras da política, vocês deviam saber disso.

Tatuagem sacudia a cabeça em concordância, mas Brinquinho, impávida, voltava às suas anotações e retomava as perguntas:

– Então, para você qual é a importância da Dona Olívia para a biblioteconomia nacional?

Lúcia sentia a paciência chegar ao fim.

– Menina, você não ouviu o que eu falei? Você não leu a biografia dela? Leia novamente, escute a gravação e tire suas próprias conclusões. Pode ser um exercício interessante.

– Mas a gente precisa saber o que VOCÊ acha.

Ah, o roteiro. Não dava pra fugir do roteiro combinado com o professor. Se a pergunta bobinha estava lá, tinha que ser feita, mesmo que a realidade pulasse e gritasse em frente ao gravador.

– Nenhuma, se vocês querem mesmo saber – Lúcia se acomodou na cadeira com as pontinhas dos dedos unidas em posição professoral – Dona Olívia era apenas uma senhora rica que até tentou ser bibliotecária, mas as obrigações de um casamento burguês provavelmente não permitiram que ela continuasse trabalhando. Quem a conheceu dizia que era uma mulher inteligente e generosa, que gostava de livros e escrevia poemas até que bonzinhos, mas nada além disso. Virou nome de biblioteca apenas por uma questão de conveniência política e nome de família. E porque, no momento certo, já estava morta.

Pequeno silêncio. Mais duas ou três perguntas protocolares e a entrevista está encerrada. Despedem-se com beijinhos amistosos, Brinquinho um tanto amuada.

– Espero não ter decepcionado muito vocês… – Lúcia tenta se desculpar.

– De jeito nenhum – Tatuagem abre um sorriso largo – aprendemos muito nessa entrevista.

– Não o que a gente esperava, mas aprendemos – concorda Florzinha.

Brinquinho não faz nenhum comentário, mas ao cruzar a porta de saída, volta-se para Lúcia  e declara, com grande convicção:

– Sabe, o que eu mais quero na vida é ser bibliotecária. Nunca deixaria meu trabalho, por nada neste mundo.

fotos: Microphone, de Adam Fredle; Xylograph librarian, de Monika Bargmann (Flickr).