Qual é a finalidade do trabalho bibliotecário?

Durante meus cursos costumo oferecer uma apresentação introdutória contextualizando as mudanças em nossa área traçando uma paralelo com as transformações da economia industrial para a economia da experiência. Um dos objetivos é evidenciar que a miopia de marketing presente em alguns em discursos sobre atuação profissional podem ofuscar reais oportunidades de atuação.

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Quando a formação do bibliotecário era específica para atuação em bibliotecas o marketing da área estava embutido na natureza de cada biblioteca. Ou seja, a finalidade da atuação profissional poderia ser compreendida relacionando o nosso código de ética (preservar o cunho liberal e humanista de sua profissão, fundamentado na liberdade da investigação científica e na dignidade da pessoa humana) que orienta nossas práticas a prestação de serviços para as pessoas, com os tipos de bibliotecas, que as direcionam para comunidades e necessidades pré-definidas. Ou seja, os livros, documentos e as técnicas eram meios utilizados para maximizar o acesso e prover experiências intelectuais positivas em cada tipo de biblioteca.

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No entanto a partir fase da economia de serviços acompanhamos uma mudança da formação na área orientada para o problema da informação. Bibliotecários passaram também a denominar-se gestores de unidades de informação e/ou mediadores da informação. A miopia de marketing esta na perspectiva de que a informação é a finalidade da atuação profissional. O que não deveria ser pois a informação é um dos meios e não a finalidade da atuação em nossa área. Da mesma forma que os livros e documentos eram nossos meios nas bibliotecas tradicionais na fase pré-digital. Mesmo quando atuamos sobrecarregados de trabalho técnico em bibliotecas sem relação direta com os usuários, poderiamos cumprir nossa função de forma indireta, pois o marketing estava vinculado a experiência dos usuários no acesso aos tipos de serviços  intrínsecos ao tipo de cada biblioteca.

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Quando divulga-se que a finalidade da atuação profissional é disseminação da informação em qualquer suporte gera-se o grande problema de formação atualmente: a confusão entre meios e fins. Faz sentido enquanto pesquisador  (cientista da informação) tentar compreender como os fluxos da informação (meios) relacionam-se com a realidade. Mas não faz sentido para atuação profissional acreditar que precisamos disseminar a informação indiscriminadamente. Pois a nossa atuação profissional deve ser centrada em como melhor adequar nossos meios (recursos e serviços de informação) para os fins (pessoas). Com esta distinção entre meios e fins que também é possível diferenciar a responsabilidade de técnicos em biblioteconomia e bibliotecários. Os técnicos podem trabalhar exclusivamente com os meios, mas só os bibliotecários podem planejar novos serviços para converter os meios para os fins.

O discurso que vincula as oportunidades de atuação profissional apenas para os meios é o que costumo chamar de ideologia da informação (ideologia é um sistema de pensamento que não corresponde com a realidade). Um discurso muitas vezes proveniente da importação de tendências de outras áreas – como a de gestão  – tentando vislumbrar novas oportunidades de atuação em diferentes suportes. Um dos exemplos esta em práticas como a de Gestão da Informação e na relação entre Dado – Informação – Conhecimento superada em práticas de gestão mais emergentes. Devido a consumerização da tecnologia da informação  muitas práticas de gestão relacionadas a mediação da informação deram lugar a práticas ligadas a Gestão da Inovação e Colaboração. Ou seja, o que pode fazer sentido teórico durante uma pesquisa e revisão de literatura pode não fazer como objetivo da atuação profissional em um cenário de rupturas tecnológicas. 

Qual é a diferença entre um profissional da informação e um bibliotecário? Durante um período de tempo pude atuar com a aplicação de técnicas de organização da informação para o desenvolvimento de portais corporativos e de plataformas de e-commerce. Estava sendo bibliotecário? Não. Pois a atuação estava centrada nos meios para resolver problemas de processos corporativos. Lembram do código de ética com a liberdade de investigação científica? O que otimizar a recuperação de informação em um portal corporativo tem haver com desenvolvimento intelectual? Existe uma relação muito mais direta da aplicação de nossas técnicas para o desenvolvimento organizacional do que o  desenvolvimento humano e em algumas situações eles podem não ser compatíveis.

No entanto acredito na possibilidade de atualizar o sentido da formação profissional em biblioteconomia para o cenário econômico emergente. De que forma? Partindo do princípio de que as bibliotecas sempre foram parte da economia da experiência. Que tipo de experiência? Experiência Intelectual. Logo o objetivo da atuação profissional não tem relação com a disseminação da informação (meios) mas em prover uma experiência intelectual positiva (fins). É possível disseminar a informação com o uso adequado de técnicas da nossa área para organização e recuperação da informação, mas o valor do nosso trabalho só pode ser medido quando conectamos os meios com os fins. 

Planejar e prover serviços de informação orientados a experiência intelectual dos usuários em diferentes contextos.

Qual seria então a finalidade da atuação profissional do bibliotecário que faz mais sentido em qualquer suporte que tem relação direta com a experiência intelectual? Inteligência. A minha defesa é que o nosso objeto de atuação profissional é a inteligência, mesmo que  o de pesquisa continue sendo a informação. Sempre atuamos através das bibliotecas com alguma modalidade de Democratização da Inteligência. Tanto que o campo da Ciência da Informação surgiu com a expectativa de que técnicas oriundas da nossa área poderiam oferecer suporte aos setores de inteligência na área governamental. Um exemplo pode ser a criação de serviços de informação voltados para os distintos níveis de intelecto profissional ou em pesquisa.

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Compreendendo que a Democratização da Inteligência é a norteadora para o desenvolvimento de serviços de informação centrados nas pessoas existem pelo menos três linhas de atuação profissional possíveis: Curadoria Digital, Colaboração e Capacitação.

Curadoria Digital é o tema do meu próximo curso na ExtraLibris. Trata-se de uma forma de atualização da disciplina de Referência.

Estas três linhas são uma proposta para melhor relacionar nossos meios com os fins e são temas abordei profissionalmente na última década. Quem sabe, em uma próxima publicação para o BSF escreva com exemplos de práticas profissionais possíveis com cada uma das linhas.

NOTAS:

(1) Importante assistir a apresentação do Joseph Pine sobre a Economia da Experiência.

(2) O artigo original traduzido para português sobre a Miopia de Marketing do Theodore Levitt para a Harvard Business Review – jul/ago/1960 pode ser baixado neste link.

(3) Também vale a pena ler sobre a importância da criação de serviços de informação centrados nas pessoas em um cenário de abundância de informação  no artigo A “fadiga da carne”: reflexões sobre a vida da mente na Era da Abundância, publicado originalmente na EDUCAUSE Review, vol. 39, no. 2 (March/April 2004). Durante a leitura deste artigo na graduação que foi possível compreender que o foco da atuação em ambientes digitais não deveria ser direcionado para a criação de repositórios e bibliotecas digitais.

(4) O que escrevi no post é um direcionamento de um trabalho de pesquisa maior que envolve o cruzamento de diversas outras referências. Durante os meus cursos realizo uma apresentação com mais exemplos, referências e estudos de caso de práticas orientadas a democratização da inteligência que podemos realizar com nossas técnicas para organização e disseminação da informação.

Qual a diferença entre um curador do conhecimento e um bibliotecário?

Dia 2/06 aconteceu na Livraria Cultura – Companhia das Letras uma seção do Encontros Criativos, promovido pela jornalista Mariana Castro com os sócios fundadores da Inesplorato, Débora Emm e Roberto Meirelles. Eu e Ana Marysa fomos lá pra conferir um pouco mais sobre o empreendedorismo deles e entender como funciona a empresa e seu processo de curadoria de conhecimento.

Resolvemos escrever este post juntas falando um pouco sobre o que ouvimos e entendemos, deixando nossos comentários, que praticamente coincidiram, [entre chaves e em rosa].

Buscando na internet é possível achar várias entrevistas e referências do trabalho da Inesplorato, mas a nossa intenção foi selecionar o que consideramos insights para a área. Fiquei sabendo da empresa através da Ana – que já participou de um dos meet.ups deles – e achei o trabalho que eles fazem bastante próximo do que fazemos mas com alguns diferenciais.

A empresa

Débora, que é formada em Ciências Sociais e Publicidade e Propaganda, disse que a intenção dela ao criar a Inesplorato era fazer com que essas duas áreas entrassem em diálogo de certo modo: o mundo teórico e o mundo prático, mercadológico. Para ela o conhecimento pode ser considerado uma ferramenta com a qual as pessoas devem se relacionar de uma maneira profunda, de acordo com contexto e o significado de cada um.

Para ela é uma vitória o fato de clientes pessoa jurídica compreenderem o processo da Inesplorato e ao longo do tempo se engajarem com ele.

A empresa é de pequeno porte e, diferente da maioria dos negócios, não existe uma hierarquia pré-estabelecida no organograma. Na empresa, todos são colaboradores. Uma vez que os profissionais tem diferentes habilidades e backgrounds, suas funções não são estáticas, mas variam de acordo com os projetos recebidos, onde cada profissional se relaciona de forma diferente. Isso deve impactar muito na pluralidade, diversidade e singularidade de cada projeto desenvolvido por lá.

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As tão conhecidas caixas de conhecimento da Inesplorato.

Débora entendeu a partir de sua experiência com a empresa que um processo de curadoria é artesanal e não escalável e que apesar de a Inesplorato ser uma startup, não há intenção de aceleração no crescimento da empresa. Ou seja, o crescimento deverá ser natural e não imposto por uma injeção de dinheiro de investidores. A intenção é manter a qualidade do serviço e, por isso, a quantidade de projetos e pessoas atendidas são limitadas.

[Aliás, quem trabalha na área do conhecimento deve se atentar a isso. O processo de curadoria e o próprio processo de adquirir conhecimento exige tempo e reflexão, para que se obtenha um resultado com qualidade.]

As caixas

A empresa é conhecida pelas caixas de conhecimento que produzem, tanto para pessoas físicas quanto jurídicas. A confecção da caixa dura em torno de 45 dias, onde 3 curadores trabalham em um processo de curadoria direcionada (não necessariamente temática, mas às vezes multi-temática). Sempre é feito um diagnóstico, uma entrevista que tem o intuito não só de solucionar uma possível dúvida da pessoa, mas também para ver o contexto como um todo, o background ou a cultura da empresa a qual eles estão atendendo.

Nesta conversa pessoal, o curador pergunta para a pessoa sobre sua história de vida, suas paixões, seus heróis e o que ela espera do futuro. A partir do diagnóstico verificado sobre a necessidade de conhecimento da pessoa, os itens que compõem a caixa não são escolhidos de modo aleatório, mas todos se comunicam e fazem um sentido único, personalizado para o destinatário.

A caixa oferece um conteúdo que pode ser relevante para a pessoa, mas o que conta é toda a experiência: essa caixa é confeccionada e entregue da forma mais atraente e inspiradora possível, com anotações, tudo para fazer com que a pessoa se interesse pelo conteúdo. São entregues diversos materiais como livros, filmes, artigos, músicas, indicações palestras e às vezes até mesmo contatos de pessoas para se conhecer e tomar um café.

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Networking conta como uma parte de construção de repertório e conhecimento.

O diferencial da Inesplorato está na necessidade que eles sentem que as pessoas se envolvam com o que é produzido.

“De nada adianta você ter tido o trabalho de selecionar todo um material, ter envolvido todo um processo para a pessoa levar pra casa e simplesmente não ler, não absorver o que foi feito. Então nós tentamos fazer com que o processo seja o mais atraente e inspirador possível, pra conseguirmos este engajamento. Nós sempre pensamos em como criar uma maneira incrível de conseguir relacionar a pessoa com o conhecimento, como que eu te envolvo de uma forma diferente, como eu te apresento algo de modo diferente e como eu conecto todas as coisas que foram selecionadas de uma forma super engajadora e super inspiradora.”

Débora também diz que algumas pessoas lidam com a caixa de forma pesada, pois às vezes são convidadas a se desconectarem de algo que estavam fazendo no piloto automático e iniciarem um processo de coisas novas para serem exploradas e descobertas. E o desconforto com o convite a pensar fora da própria caixa nem sempre é algo fácil de ser empreendido por qualquer pessoa.

Roberto diz que a intenção das caixas é promover um processo de transformação “levando a cabeça das pessoas pro céu, mas mantendo os pés no chão” e ele vê a necessidade de que o trabalho mostre seu valor com a pessoa aplicando aquele conteúdo na vida pessoal, obtendo impactos práticos. São sugeridas missões para a pessoa realizar com o material recebido e é a partir disto que a empresa recebe seu feedback.

Outros Serviços

Além das caixas feitas para pessoas físicas, Débora falou um pouco sobre empresas que utilizam o serviço da Inesplorato como a Globo, Avon, Ambev e Whirpool Latin America. Os temas são os mais variados possíveis e vai desde amor e causa feminina até utilização de elétrodomésticos pelo mercado brasileiro. A empresa também oferece serviços de coaching e tem estudos contínuos que alimentam sua base de informação com curadorias temáticas, como foi citado o caso do Culturas Brasileiras.

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Inpirar. Criar. Repetir. Aprendizagem e construção de repertório como processos contínuos…

Mas acreditamos que foi necessária uma boa dose de persistência para conquistar o mercado, que é sempre difícil:

“O mercado vê o conhecimento como luxo e não como base. O processo de aprender é doloroso e nem sempre tranquilo. Às vezes pode ser difícil se permitir provocar a pensar de uma forma diferente, às vezes é mesmo mais fácil permanecer na zona de conforto. Acredito que isso mude a partir do relacionamento que cultivamos com o cliente, que quando começa a ser desenvolvido, começa a criar conteúdos próprios e trazer novas propostas. Isso tudo é muito gostoso de perceber e acompanhar”. – Débora Emm

A empresa também está está em processo de beta testing com o Mappa, que vai ser um modo de fazer com que a caixa se torne acessível a todos, também em ambiente digital. Segundo a Débora, esta foi uma forma de racionalizar o processo analógico, lidando também com o mesmo problema que outras empresas que trabalham com informação enfrentam diariamente: o seu excesso. A ideia do Mappa é que as pessoas possam mapear seus conhecimentos para identificarem o que sabem que sabem, o que não sabem que sabem e o que não sabem de fato.

A intenção é fazer com que as pessoas possam ganhar consciência das informações que consomem e os conhecimentos que adquirem e enxergar o que está sendo adicionado ao seu repertório pessoal, a partir de uma busca manipulável e customizada, num universo finito de conteúdo.

[Fiquei com uma questão depois de pensar sobre tudo o que ouvi e não consegui perguntar na hora: em relação aos clientes pessoa jurídica, o que diferencia o trabalho de curadoria da Inesplorato de um trabalho, por exemplo, de gestão do conhecimento, pesquisa de mercado e/ou inteligência competitiva?]

4 Perfil Profissional

Em dado momento, Mariana perguntou sobre o perfil profissional das pessoas que trabalham na Inesplorato, pois ao que tudo indicava, eles teriam talvez “criado uma nova profissão”. [Talvez não. Mas definitivamente eles souberam vender melhor ou ao menos de forma diferenciada o ‘produto’ conhecimento.]

Débora citou três habilidades essenciais para uma pessoa que tem a intenção de trabalhar com curadoria do conhecimento: 

  1. Capacidade de Empatia: é necessário que seja uma pessoa sensível, que consiga se colocar no lugar do outro e pensar pela perspectiva do outro (tanto para pessoas, quanto empresas) e que tenha capacidade analítica, entendendo qual é o nó a ser desatado;
  2. Abertura a multiplicidade de assuntos: a pessoa deve ser pouco afeita a especializações, ou melhor dizendo, um especialista em generalidades.
  3. Postura não preconceituosa: alguém que mantenha a guarda baixa, que seja pouco preconceituoso e tenha coração aberto de interesse para ouvir. Nem sempre o que será pesquisado é divertido.

De acordo com o entendimento dos sócios, não há uma profissão que é definida para ser um curador. A equipe é multidisciplinar e afeita a generalidades e Débora disse se interessar por pessoas que desistiram de faculdades, pois elas detém um pouco de conhecimento sobre cada área. Sobre a pegada que a pessoa precisaria ter, para Roberto é necessário ser gente fina pois “de nada adianta a pessoa ter o maior repertório do mundo se ela não está disposta a colaborar e entender a cultura da empresa”.

Durante a seção de perguntas, Ana mencionou que identifica a profissão de bibliotecário com a do curador e perguntou à Débora e ao Roberto se eles acreditavam que havia afinidade. Roberto falou que eles recebem vários currículos de bibliotecários e a Débora falou que existe sintonia entre o trabalho do bibliotecário e do curador, mas mais no processo inicial de pesquisa. Já para a área do mundo dos negócios e análise de mercado, este processo estaria mais distanciado e entendido como a parte que “o bibliotecário não entra”.

[Entendo que esta é uma visão dela, mas não posso deixar de reconhecer que existem sim vários bibliotecários que trabalham com e se especializam nas áreas de gestão do conhecimento e inteligência competitiva em negócios, trabalhando diretamente com e para o mercado. Não são todos. Não são muitos. Pero que los hay, los hay.]

Lições Aprendidas

Acho que o mais interessante desse encontro foi poder ouvir todas essas coisas, entender o que a Inesplorato faz de diferente e ver o que podemos incorporar ao nosso fazer diário. Ana citou algumas coisas que achou importante aprendermos e algumas características que o profissional da informação precisa refinar para ser um curador do conhecimento:

  • Empatia;
  • Pensar em produtos que “encham os olhos”;
  • Refletir sobre o que está sendo oferecido; [o curador tem o papel de dar uma “mastigada” no conteúdo?]
  • Propôr outras formas de pensar;
  • Capacidade de analisar o mercado/cenário atual;
  • Engajar e inspirar;

Para ela fica a questão: “hoje, o que te faria buscar um profissional da informação?”

Para mim, as palavras-chave foram duas, que inclusive podem responder a pergunta da Ana: relacionamento e engajamento.

Costumo dizer que biblioteconomia é o curso de humanas menos de humanas que conheço. Vindo de um background com jornalismo e biblioteconomia, entendo que essas duas áreas que trabalham diretamente com informação em seu fazer tem duas pretensões em comum: a de imparcialidade e objetividade. Esses dois profissionais tem perfil de pesquisadores, mas estão sempre focados em atingir um objetivo que sempre me pareceu um tanto quanto árido, em pesquisa.

A princípio entendo que esta não é a intenção de um pesquisador que é curador de informação ou de conhecimento (dois termos que também são bem distintos em nossa área e discutidos e delineados ad nauseam).

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Strychnos toxifera, planta de onde se extrai o curare. Ilustração do livro Plantas Medicinais de Köhler, de 1887.

Basicamente, acredito que a diferença entre curadores e bibliotecários seja a seguinte:

Bibliotecários entendem o termo curadoria a partir de sua origem do latim, curare, que significa cuidar, zelar, tratar.

Curadores do Conhecimento – independente de profissão que tenham – compreendem o termo a partir de sua origem no tupi-guarani, onde curare significa um veneno de ação paralisante, com efeito letárgico. Ou seja, o efeito deve ser o de catarse.

A informação organizada é importante e tem seu propósito, muitas vezes. Mas a motivação para a curadoria é diferente no sentido de desburocratizar e desacelerar esse processo de consumo de informação, que poderia não ser tão mecânico e prático mas prazeiroso, intenso.

Há diferença entre ter a certeza de receber um conjunto de informações exatas, corretas e assépticas e arriscar-se a receber informações que contenham beleza, verdade e significado pra você? Algo para pensarmos a respeito e talvez nos inspirarmos…

Revisão por pares em debate: corre que dá tempo (ou não) #peerreview

O Departamento de Biblioteconomia e Documentação da USP/ECA realizou a 5ª edição da série “O Estado da Arte”, com objetivo de propiciar uma visão atualizada de  temas relevantes para os campos da Informação/Comunicação. O instigante assunto discutido no último dia 19 de maio foi “Prostituição Acadêmica: o Modelo Brasileiro de Produção Científica”, fruto da tese de doutorado do Moreno Barros. Quem perdeu pode assistir ao vídeo postado pelo Moreno no seu canal do YouTube.

Dentre as várias discussões estava em cheque o modelo brasileiro de produção e avaliação científica. A avaliação por pares, por exemplo, foi discutida e para os interessados sobre o assunto ficou aquela vontade de questionar mais. Pois bem, ainda ontem cantei “maio, já está no final, o que somos nós afinal, se já não nos vemos mais, estamos longe demais…” e com o alinhamento dos planetas, e o início de junho, hoje um dos assuntos bem discutidos na minha timeline do Twitter era #peerreview e tão logo percebi do que se tratava, fiz um rápido mapeamento “a la mad max” pra ver quem estava falando o que com quem e juntei tudo no NodeXL.

 

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Se você correr ainda dá pra companhar e participar da discussão pela hastahg  #peerreview corre gente! E se não der, veja o que já passou. É uma boa oportunidade para acompanhar uma discussão atual sobre o tema, conhecer sugestão de textos, pesquisas, apresentações bem como passar a seguir perfis institucionais e pessoais que publicam sobre o tema. A Figura abaixo mostra os termos mais frequente na descrição da Bio do perfil dos usuários que estão participando do debate.

Perfil Bios

Depois, sendo possível, faço um update com dados sobre o conteúdo, afinal, todos sabem, “The winter is coming” !

Levantamento de dados de citações recebidas por periódicos da Ciência da Informação utilizando a base do Google Scholar

Dados puros não respondem nada, mas nos ajudam a conseguir fazer perguntas melhores. Certo dia descobri um software que permite com até certa facilidade coletar dados de citações recebidas por autor ou periódico no Google Scholar, este software é o Publish or Perish. Já tinha ficado intrigado com a pergunta do Moreno para saber se podíamos usar o Scholar para levantar dados e esse software caiu bem. O Google Scholar não é uma base completa ou totalmente confiável, como nenhuma é. Então os dados que foram levantados não respondem perguntas, mas apenas demonstram um retrato da base do Google Scholar na período em que coletei os dados. A própria criadora do software levanta algumas questões sobre o uso do Google Scholar como fonte, vale a pena dar uma lida.
A lógica da coleta utilizada foi a seguinte:
1 – Levantamento dos nomes dos periódicos de CI, usando como base o Qualis da CAPES e comparando com listas de periódicos de CI que existem na Internet.
2 – Consulta utilizando o software Publish or Perish usando como parâmetro o nome do periódico e quando tinha, sua variação de nome ou abreviatura.
3 – Copiar e colar os resultados em uma planilha do Google Drive, que está pública para quem quiser verificar esses dados.
4 – Criação de uma sheet consolidando todas as planilhas, filtrando neste consolidado apenas os trabalhos que receberam ao menos uma citação.
5 – Elaboração de consolidados estatísticos utilizando as tabelas dinâmicas do Excel e o Public Tableau, que é uma ferramenta muito interessante.

O resultado está hospedado de maneira dinâmica no Public Tableau (ATENÇÃO para as abas em cima das tabelas), clique na figura abaixo:

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Como iniciei o post, esses dados não trazem respostas, mas ajudam a levantar dúvidas que merecem, ai sim, um estudo detalhado para entender por que os resultados foram esses. Seria interessante levantarem perguntas nos comentários, talvez seja possível nos mobilizarmos para responder algumas delas…

Diga adeus às folksonomias

Houve tempos que eu ia no delicious.com que ainda se chamava del.icio.us e incluía meus links que queria guardar e ainda por cima adicionava Tags para uma organização pessoal. Muitas outras pessoas faziam isso também e com isso era possível estabelecer um mínimo de organização por pessoas da Internet e ainda, estabelecer confiabilidade em um conteúdo, uma vez que esse conteúdo foi guardado por uma quantidade de pessoas, era possível deduzir que era confiável ou bom.
Trocamos as nossas tags pela facilidade do “Like” ou “Curtir” do facebook. Ou sua cópia, o “+1” do Google. Ainda compartilhamos links, que hoje é mais usado para divulgar o que queremos mostrar do que uma forma de organização pessoal. Mesmo as tão faladas tags do twitter estão sendo abandonadas, assim como o twitter.
Demos a oportunidade do Google e do Facebook de conhecer tudo o que fazemos na Internet. Todos os links do Facebook são monitorados, assim como todos os acessos do google também são. As tags foram substituídas pelo uso na organização da informação. E ainda, trocamos a Deep Web pela Internet dos Apps. A Web continuará, assim como a bibliotecas continuam vivas. Mas a Internet e Web deixaram de ser sinônimos.
Ah, mas o mais bacana é que voltaremos a falar de tesauros. Sim, os desacreditados tesauros voltarão com as buscas do google se tornando mais semânticas. É claro que a busca semântica não se restringe ao controle de vocabulário como usamos, mas será uma forma mais pragmática de uso das relações semânticas, como se pode observar na site Knowledge Graph. Ainda estamos longe da Internet das coisas por falta de um padrão e muita manipulação da Internet. Mas o caminho está sendo popularizado.
E ainda é necessário mencionar que começamos a ganhar assistentes pessoais: Siri e S-Voice ganham cada vez mais popularidade e cada vez estarão mais presentes na nossa vida. A tendência é cada vez menos fazermos esforços para pesquisar, pensar… Que venha o futuro…

Representatividade dos trabalhos apresentados no CBBD 2011

Depois do Post bacana da Vivi, e do post 1 e post 2 do Tiago temos uma impressão de como o CBBD 2011 foi bom e dos bons trabalhos e profissionais que o evento reuniu. Mas particularmente senti falta de uma visualização geral dos trabalhos, que pudesse representar tematicamente o que foi apresentado. Sendo assim fiz um experimento no Manyeyes.com inserindo os títulos, palavras-chave e resumo de todos os trabalhos submetidos no evento (mais de 600). Só foi possível obter esses dados com a ajuda do Diego, a quem eu desde já agradeço. Tenho minhas impressões sobre as representações a seguir, mas prefiro me expressar nos comentários para não tendenciar opiniões. Mas claro, deixo com as figuras algumas perguntas: o que você achou das representações? Sentiu falta da ocorrência de quais termos? Quais termos você podia jurar que teria maior representatividade e não teve?

Fig.1: Nuvem de tags dos termos mais recorrentes nos títulos
Fig.2: Conexões entre os termos mais recorrentes nos titulos e resumos
Fig.3: Nuvem de tags dos termos mais recorrentes nos títulos e resumos

Por @ronaldfar

Como popularizar a discussão sobre Internet Aberta e Livre?

Na última sexta tive a oportunidade de participar do Mozilla Drumbeat, evento promovido pela Fundação Mozilla e pela Casa de Cultura Digital. A chamada do evento é a seguinte:

Se você ama a internet, pode um dia ter se perguntado: a web vai permanecer tão interessante, criativa e inventiva quanto é hoje daqui a 100 anos? A Fundação Mozilla, criadora do navegador Firefox, pensa que a internet pode e deve ser assim no futuro – mas, para isso, ela deve permanecer aberta e livre. Para que ninguém tenha que pedir permissão na hora de criar projetos na internet (nem a governos, nem a empresas); para que ninguém tenha seu acesso prejudicado ou bloqueado quando estiver compartilhando cultura e conhecimento; para que haja menos interesses políticos ou de mercado, e mais interesse público na rede.

Sai do primeiro dia com as seguintes questões na cabeça:

  • O que é uma Internet aberta?
  • O que é uma Internet livre?
  • Como popularizar essa discussão?
  • O interessante da forma como foi conduzida a reunião é que não trouxeram nenhuma resposta para as perguntas acima. E sim, nos convidaram a discutir e interagir. E nos trouxeram o desafio de ajudar a popularizar essa discussão. As fotos abaixo representam perguntas que criamos para instigar discussões.

    E aqui representamos o que achamos que tem que ser discutido e juntamos em “clusters” para facilitar as discussões.

    As discussões continuaram no sábado, mas não pude participar. Mas acho que o Blog é um espaço ideal para discutirmos as duas primeiras questões. O que vocês consideram “Internet aberta” e “Internet livre”?

    Vamos manter essa discussão viva!