10 coisas que aprendi depois de 40 congressos

Acabei de dar uma olhada na programação do SNBU, que vai acontecer na próxima semana, em Manaus. Gostaria muito de ir, mas por motivo de força maior não irei. De qualquer forma, estive presente em várias outras conferências e congresssos nos últimos anos. Fossem elas em nível local, estadual, nacional, internacional, especializada, estudantil, não importa, eu estive lá. Até conseguei montar um “kit de sobrevivência para congressos”, que inclui as roupas certas para cada evento e cidade, os materiais de divulgação ou de apresentação (caso eu fosse dar uma palestra ou curso) e o controle da programação dos grandes congressos, que normalmente colocam apresentações interessantes acontecendo simultaneamente ou em intervalos de tempo muito curtos (o que exige um planejamento para maximizar a grade de horários).

Por mais que a gente às vezes fique irritado com a profissão, no fundo no fundo sempre que participei de um evento da área foi pra ver se eu conseguia recapturar a emoção e crença nas bibliotecas que me fez permanecer na profissão depois desses anos todos. Foi por essa mesma razão que eu resolvi organizar o primeiro bibliocamp, uma conferência para me fazer acreditar de novo, naquilo que eu realizo todos os dias e no que eu dediquei minha vida a concretizar profissionalmente. Spoiler alert: deu certo.

então…o que eu aprendi depois de ter participado de tantos SNBUs, CBBDs, ENEBDs, colóquios, encontros, palestras, etc?

Lição 1: Uma paixão sincera pelo trabalho permeia tudo que os bibliotecários fazem

As principais apresentações e conversas nos eventos levam a esse ponto. Os colegam falam sobre seus projetos bem sucedidos (ou não), discutem entre si o que estão fazendo naquele momento, os esforços em grande parte centrados em seus usuários, com um entusiasmo geralmente reservado a shows do Wesley Safadão. A gente passa horas ou dias rodeados por pessoas sorridentes e orgulhosas sobre o trabalho que elas fazem diariamente. Soraia foi a primeira a dizer que a biblioteconomia é uma profissão de apaixonados. Quem sou eu pra discordar?

Lição 2: Os bibliotecários formam um grupo forte

Mesmo que o número de participantes oscile entre um evento e outro, não deixa de ser surpreendente pensar que todas aquelas pessoas que estão ali, andando pelos corredores, pegando seus brindes nos stands, sentadas assistindo uma palestra, é uma pessoa que trabalha ou trabalhou com bibliotecas. Há tantos de nós e todos nós estamos, em nosso próprio caminho, trabalhando pra caramba para tornar nossas bibliotecas melhores e mais relevantes pros nossos usuários. Falamos muito sobre nosso sentimento marginalizado, como nossas instituições não ligam pra gente, ou como não somos reconhecidos como classe profissional. Pode não parecer na primeira impressão, mas existem muitos de nós, muitos mesmo. Com os esforços de grupos como a ABRAINFO e dos próprios CRBs e associações, podemos continuar a melhorar nossos números, a nossa paixão e nossa ética, para realizar uma mudança positiva em níveis locais e nacional.

Lição 3: Pessoas incríveis fazem coisas incríveis todos os dias e não recebem prêmios por isso

Para cada mil pessoas que trabalham em bibliotecas fazendo coisas inovadoras, oferecendo soluções criativas, além de todo o resto, talvez uma só receba algum tipo de reconhecimento. Prêmios são bons, mas eles não representam todos, nem necessariamente o melhor, dentre todos os bibliotecários que estão dando seu sangue nas bibliotecas. Por favor, lembre-se de dizer obrigado para as pessoas com quem trabalha. Diga obrigado também às pessoas aleatórias em outros lugares que você vê fazendo coisas boas. Não existem certificados suficientes, troféus, medalhas para reconhecer o bom e necessário trabalho por tudo o que fazemos.

Lição 4: O trabalho dos bibliotecários é muitas vezes difícil devido a fatores fora do nosso controle

Nenhum trabalho em biblioteca, orçamento, chefe, estrutura política institucional, estrutura, população, apoio ou prédio vai ser perfeito para todos. Há muita coisa que tem o potencial de causar enormes quantidades de estresse. A realidade é que esses elementos são parte do trabalho, parte do serviço público. Há trabalhos que se encaixam melhor ou pior com uma pessoa e comunidades que se encaixam melhor ou pior com um bibliotecário. É nosso trabalho descobrir onde podemos encaixar para que possamos continuar fazendo um bom trabalho.

Lição 5: O trabalho dos bibliotecários é muitas vezes difícil devido a fatores completamente fora do nosso controle

Há algumas coisas que podemos controlar. Podemos optar por não trabalhar horas insanas e dar o nosso sangue de graça. Podemos cuidar de nós mesmos simplesmente aproveitando nossos intervalos (*suspiro*) e dar uma caminhada fora da biblioteca durante o almoço. Podemos dar prioridade ao desenvolvimento profissional. Podemos optar por não permitir que os pequenos dramas (e vamos ser honestos, eles são pequenos dramas) no local de trabalho tornem-se crises completas que nos levam ladeira a baixo. Podemos optar por gastar o nosso tempo e energia com os membros da equipe que trabalham como nós e que compartilham conosco os objetivos e a ética, e que são agradáveis de estar ao redor, minimizando assim o impacto e a influência das poucas maçãs podres que podem existir em qualquer organização.

Lição 6: Dinheiro, tipo de biblioteca e tipo de posição afetam significativamente a realidade de um bibliotecário

Um bom número de comentários que ouvi, tanto em sessões formais e conversas informais, refletia um viés pessoal e experiência limitada do palestrante. Nem todo mundo tem um smartphone. Talvez na sua comunidade, mas não na minha. Nem toda biblioteca pode ter um espaço “makerspace”. Nem todo bibliotecário pode pagar um hotel de luxo. Nem todos os usuários da biblioteca podem ler. Nem todo usuário da biblioteca se sente seguro na biblioteca. Nem todo bibliotecário tem suporte para publicar ou buscar o desenvolvimento profissional. Não toda escola possui um bibliotecário. Lembre-se que sua própria situação é apenas isso: a sua própria. Ouça as histórias dos outros e amplie sua compreensão do grande fluxo de nosso trabalho, bibliotecas e comunidades que servimos.

Lição 7: Existe um grupo de bibliotecários mais jovens que estão deixando os mais antigos orgulhosos

Percebi um tempo atrás que eu não faço mais parte da geração dos mais novos. Eu já sou bibliotecário por mais de 10 anos e trabalho em bibliotecas há mais de 15. Muitos novos bibliotecários, e, definitivamente, não apenas os bibliotecários, mas pessoas que trabalham diretamente com bibliotecas, estão fazendo coisas ótimas. A energia, inovação e perspectiva que eles trazem para os seus postos de trabalho me traz esperança de que nossas bibliotecas têm um futuro decente.

Lição 8: Questões de justiça social importam muito para os bibliotecários

Tenho visto exemplos lindos de pessoas que se juntam para aprender, mostrar solidariedade para com, e promover várias questões de justiça social. A localização de algumas conferências nas principais capitais, por exemplo, ampliou muito a consciência sobre a violência urbana, da população de rua, racismo e questões LGBT. A desigualdade social, o racismo, o sexismo, a disparidade de renda, intolerância e ódio de todas as formas não são tolerados nas bibliotecas ou pelas bibliotecas. As resoluções dos conselhoes e associações, que apelam para bibliotecas mais inclusivas, é um bom exemplo deste trabalho. Precisamos nos comprometer a fazer mais em nossas próprias bibliotecas e carreiras daqui para frente para defender estes valores essenciais. É muito fácil ter medo de tomar uma posição política e colocar a sua organização ou seu emprego em risco, em detrimento dos interesses da comunidade. É muito mais fácil ter medo e seguir as políticas e procedimentos e seguir a linha da sua instituição, esquecendo quem você é e qual é a sua ética profissional. Sou grato aos meus colegas por me lembrar a todos nós deste importante elemento do nosso trabalho.

Lição 9: As nossas histórias são mais importantes do que as nossas estatísticas

Você pode contar os seus livros, o número de visitantes, os seguidores no facebook. Ou você pode contar histórias, pode causar um impacto em outras vidas, e compartilhar essas histórias com as pessoas que tomam decisões orçamentais e políticas sobre a sua biblioteca. Tudo o que eu ouvi nas principais conferências tinha mais ênfase na segunda ação do que na primeira.

Lição 10: Ajudar as pessoas ainda me traz mais alegria do que qualquer outra coisa

Este último ponto pode parecer óbvio, mas não é. Os momentos nos congressos que me fizeram sorrir, que me energizaram e me animaram, todos tinham a ver com alguém ajudando alguém ou eu ajudando outra pessoa. Eu fico completamente entusiasmado pela profissão ao ver um impacto positivo a partir do intercâmbio de conhecimentos, uma mão amiga, uma dica simples ou uma experiência compartilhada.

Portanto, todos vocês vão ter que me aturar por mais um tempinho. Esta coisa de “ser bibliotecário” parece estar incorporada profundamente no meu ser para me levar a continuar a trilhar este caminho. Eu prometo fazer o meu melhor e sei que vocês vão prometer fazer os seus. Obrigado a todos por serem da minha tribo.

[artigo original Who We Are: Lessons from ALA Annual Conference 2016]

Qual é a finalidade do trabalho bibliotecário?

Durante meus cursos costumo oferecer uma apresentação introdutória contextualizando as mudanças em nossa área traçando uma paralelo com as transformações da economia industrial para a economia da experiência. Um dos objetivos é evidenciar que a miopia de marketing presente em alguns em discursos sobre atuação profissional podem ofuscar reais oportunidades de atuação.

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Quando a formação do bibliotecário era específica para atuação em bibliotecas o marketing da área estava embutido na natureza de cada biblioteca. Ou seja, a finalidade da atuação profissional poderia ser compreendida relacionando o nosso código de ética (preservar o cunho liberal e humanista de sua profissão, fundamentado na liberdade da investigação científica e na dignidade da pessoa humana) que orienta nossas práticas a prestação de serviços para as pessoas, com os tipos de bibliotecas, que as direcionam para comunidades e necessidades pré-definidas. Ou seja, os livros, documentos e as técnicas eram meios utilizados para maximizar o acesso e prover experiências intelectuais positivas em cada tipo de biblioteca.

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No entanto a partir fase da economia de serviços acompanhamos uma mudança da formação na área orientada para o problema da informação. Bibliotecários passaram também a denominar-se gestores de unidades de informação e/ou mediadores da informação. A miopia de marketing esta na perspectiva de que a informação é a finalidade da atuação profissional. O que não deveria ser pois a informação é um dos meios e não a finalidade da atuação em nossa área. Da mesma forma que os livros e documentos eram nossos meios nas bibliotecas tradicionais na fase pré-digital. Mesmo quando atuamos sobrecarregados de trabalho técnico em bibliotecas sem relação direta com os usuários, poderiamos cumprir nossa função de forma indireta, pois o marketing estava vinculado a experiência dos usuários no acesso aos tipos de serviços  intrínsecos ao tipo de cada biblioteca.

disseminacaodainformacao

Quando divulga-se que a finalidade da atuação profissional é disseminação da informação em qualquer suporte gera-se o grande problema de formação atualmente: a confusão entre meios e fins. Faz sentido enquanto pesquisador  (cientista da informação) tentar compreender como os fluxos da informação (meios) relacionam-se com a realidade. Mas não faz sentido para atuação profissional acreditar que precisamos disseminar a informação indiscriminadamente. Pois a nossa atuação profissional deve ser centrada em como melhor adequar nossos meios (recursos e serviços de informação) para os fins (pessoas). Com esta distinção entre meios e fins que também é possível diferenciar a responsabilidade de técnicos em biblioteconomia e bibliotecários. Os técnicos podem trabalhar exclusivamente com os meios, mas só os bibliotecários podem planejar novos serviços para converter os meios para os fins.

O discurso que vincula as oportunidades de atuação profissional apenas para os meios é o que costumo chamar de ideologia da informação (ideologia é um sistema de pensamento que não corresponde com a realidade). Um discurso muitas vezes proveniente da importação de tendências de outras áreas – como a de gestão  – tentando vislumbrar novas oportunidades de atuação em diferentes suportes. Um dos exemplos esta em práticas como a de Gestão da Informação e na relação entre Dado – Informação – Conhecimento superada em práticas de gestão mais emergentes. Devido a consumerização da tecnologia da informação  muitas práticas de gestão relacionadas a mediação da informação deram lugar a práticas ligadas a Gestão da Inovação e Colaboração. Ou seja, o que pode fazer sentido teórico durante uma pesquisa e revisão de literatura pode não fazer como objetivo da atuação profissional em um cenário de rupturas tecnológicas. 

Qual é a diferença entre um profissional da informação e um bibliotecário? Durante um período de tempo pude atuar com a aplicação de técnicas de organização da informação para o desenvolvimento de portais corporativos e de plataformas de e-commerce. Estava sendo bibliotecário? Não. Pois a atuação estava centrada nos meios para resolver problemas de processos corporativos. Lembram do código de ética com a liberdade de investigação científica? O que otimizar a recuperação de informação em um portal corporativo tem haver com desenvolvimento intelectual? Existe uma relação muito mais direta da aplicação de nossas técnicas para o desenvolvimento organizacional do que o  desenvolvimento humano e em algumas situações eles podem não ser compatíveis.

No entanto acredito na possibilidade de atualizar o sentido da formação profissional em biblioteconomia para o cenário econômico emergente. De que forma? Partindo do princípio de que as bibliotecas sempre foram parte da economia da experiência. Que tipo de experiência? Experiência Intelectual. Logo o objetivo da atuação profissional não tem relação com a disseminação da informação (meios) mas em prover uma experiência intelectual positiva (fins). É possível disseminar a informação com o uso adequado de técnicas da nossa área para organização e recuperação da informação, mas o valor do nosso trabalho só pode ser medido quando conectamos os meios com os fins. 

Planejar e prover serviços de informação orientados a experiência intelectual dos usuários em diferentes contextos.

Qual seria então a finalidade da atuação profissional do bibliotecário que faz mais sentido em qualquer suporte que tem relação direta com a experiência intelectual? Inteligência. A minha defesa é que o nosso objeto de atuação profissional é a inteligência, mesmo que  o de pesquisa continue sendo a informação. Sempre atuamos através das bibliotecas com alguma modalidade de Democratização da Inteligência. Tanto que o campo da Ciência da Informação surgiu com a expectativa de que técnicas oriundas da nossa área poderiam oferecer suporte aos setores de inteligência na área governamental. Um exemplo pode ser a criação de serviços de informação voltados para os distintos níveis de intelecto profissional ou em pesquisa.

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Compreendendo que a Democratização da Inteligência é a norteadora para o desenvolvimento de serviços de informação centrados nas pessoas existem pelo menos três linhas de atuação profissional possíveis: Curadoria Digital, Colaboração e Capacitação.

Curadoria Digital é o tema do meu próximo curso na ExtraLibris. Trata-se de uma forma de atualização da disciplina de Referência.

Estas três linhas são uma proposta para melhor relacionar nossos meios com os fins e são temas abordei profissionalmente na última década. Quem sabe, em uma próxima publicação para o BSF escreva com exemplos de práticas profissionais possíveis com cada uma das linhas.

NOTAS:

(1) Importante assistir a apresentação do Joseph Pine sobre a Economia da Experiência.

(2) O artigo original traduzido para português sobre a Miopia de Marketing do Theodore Levitt para a Harvard Business Review – jul/ago/1960 pode ser baixado neste link.

(3) Também vale a pena ler sobre a importância da criação de serviços de informação centrados nas pessoas em um cenário de abundância de informação  no artigo A “fadiga da carne”: reflexões sobre a vida da mente na Era da Abundância, publicado originalmente na EDUCAUSE Review, vol. 39, no. 2 (March/April 2004). Durante a leitura deste artigo na graduação que foi possível compreender que o foco da atuação em ambientes digitais não deveria ser direcionado para a criação de repositórios e bibliotecas digitais.

(4) O que escrevi no post é um direcionamento de um trabalho de pesquisa maior que envolve o cruzamento de diversas outras referências. Durante os meus cursos realizo uma apresentação com mais exemplos, referências e estudos de caso de práticas orientadas a democratização da inteligência que podemos realizar com nossas técnicas para organização e disseminação da informação.

Censura: o dia que o MinC brigou com o Facebook

Escrevo este post para relatar e registrar uma bela novidade e uma bela polêmica, ambas ocorridas nesta semana de meados de abril.

A novidade veio do lançamento oficial do Portal Brasiliana Fotográfica http://brasilianafotografica.bn.br/ resultado de uma parceria entre a Fundação Biblioteca Nacional e o Instituto Moreira Salles. Em seu acervo, além de uma bela curadoria, imagens históricas dos séculos XIX e XX.

A polêmica envolve o Ministério da Cultura, que decidiu adotar as providências legais cabíveis contra o Facebook – às vésperas do Dia do Índio, que será comemorado domingo (19/4), pois a rede social censurou uma foto publicada num post do MinC, que continha uma foto de 1909, feita por Walter Garbe, de um casal de Índios Botocudos, em que aparece uma indígena com o dorso nu. Horas depois da publicação, o Facebook apagou a imagem.

A foto censurada é essa do post e pode ser conferida na íntegra no link

Segundo página do Ministério, este solicitou o desbloqueio, mas a empresa manteve a decisão de censurá-la alegando que não se submete a legislação local e que tem regras próprias, que aplica globalmente.

Diante do fato, o Ministério da Cultura protestou declarando que o Facebook, ao aplicar termos de uso abusivos e sem transparência, tenta impor ao Brasil, e às demais nações do mundo onde a empresa opera, seus próprios padrões morais, agindo de forma ilegal e arbitrária. E mais… que tal postura fere a Constituição da República; o Marco Civil da Internet; o Estatuto do Índio e a Convenção da Unesco sobre Proteção e Promoção da Diversidade e das Expressões culturais. Também desrespeita a cultura, a história e a dignidade do povo brasileiro.

O final desta história é… ao anunciar que acionaria judicialmente o Facebook contra censura na rede, a foto do casal de Índios Botocudos que havia sido retirada voltou a ser incluída na fanpage do Ministério.

Finalizando, compartilhei o assunto, com o intuito de apontar que o tema não encerra por aqui. Na execução de nossas atividades profissionais e mesmo individuais, não estamos livres da tarefa de pensar, discutir e mesmo agir em relação à questões desta natureza. Também é nosso papel discutir ampla e democraticamente o direito autoral, a governança da internet, ou ainda iniciativas como a #‎HumanizaRedes, que pretende conciliar liberdade de expressão e de informação com garantia dos direitos, respeito à diversidade e combate ao discurso de ódio e à discriminação em todas as suas formas.

Leituras fundamentais para um bibliotecário

Edson Nery da Fonseca foi o segundo que veio a falecer dentre aqueles que considero como os fundamentais da crítica BBBB (bibliografia básica bibliotecária brasileira). Antes dele, Rubens Borba de Moraes. Isso significa que o legado está aí e permanecerá, mas todos os demais grandes autores brasileiros da área estão vivos e produtivos.

Como a biblioteconomia nacional é relativamente jovem, não produz em larga escala e as opiniões dificilmente mudam, é fácil identificar os grandes textos que constituem o núcleo duro da área, e seria perfeitamente possível para um bibliotecário aplicado ler essa produção ao longo de seu período formativo.

Quando ministrei a disciplina introdução à biblioteconomia (em algumas escolas chamada fundamentos da biblioteconomia) um dos objetivos era fazer com que os alunos, a maior parte deles sem saber ainda o que estavam fazendo no curso, reconhecessem os discursos prevalecentes da área e identificar essas correntes por intermédio de seus locutores, os grandes autores vivos.

Esse mapeamento da bibliografia fundamental bibliotecária já foi feito aqui anteriormente pelo Tiago, em duas ocasiões, Livros que influenciaram a biblioteconomia e Livros importantes para um bibiotecário.

Listei então os livros e textos que, para mim, constituem a bibliografia básica ou introdutória da biblioteconomia brasileira (incluído alguns poucos autores estrangeiros que foram bem traduzidos ao português). A maior parte dos livros está esgotada em suas tiragens, encontráveis apenas em bibliotecas e sebos. Algumas obras monumentais certamente ficaram de fora por descuido ou desconhecimento meu. Segue:

LIVROS FUNDAMENTAIS DA BIBLIOTECONOMIA BRASILEIRA

ALMEIDA JÚNIOR, Oswaldo. Sociedade e Biblioteconomia. São Paulo: Polis, 1997.
BUTLER, Pierce. Introdução à ciência da Biblioteconomia. Rio de Janeiro: Lidador, 1971.
CASTRO, Augusto Cesar. História da biblioteconomia brasileira: perspectiva histórica. Brasília: Thesaurus, 2000.
CYSNE, Fátima Portela. Biblioteconomia: dimensão social e educativa. Fortaleza: EUFC, 1993.
FONSECA, Edson Nery da. A biblioteconomia brasileira no contexto mundial. Rio de Janeiro : Tempo Brasileiro , 1979
FONSECA, Edson Nery da. Introdução à Biblioteconomia. Brasília: Briquet de Lemos, 2007.
LE COADIC, Yves-François. A Ciência da Informação. Brasília: Briquet de Lemos/Livros, 2004.
MCGARRY, Kevin. O contexto dinâmico da informação: uma análise introdutória. Brasília: Briquet de lemos, 1999.
MILANESI, Luis. Biblioteca. São Paulo : Ateliê, 2002.
MILANESI, Luis. O que é biblioteca. São Paulo : Brasiliense, 1984. [Coleção Primeiros Passos]
MORAES, Rubens Borba de. O problema das bibliotecas brasileiras
ORTEGA Y GASSET, J. Missão do bibliotecário. Brasília: Briquet de Lemos, 2005.
RANGANATHAN, Shiyali Ramamrita. As cinco leis da Biblioteconomia. Brasília: Briquet de Lemos, 2009.
SILVA, Waldeck Carneiro da. A miséria da biblioteca escolar. São Paulo : Cortez, 2003.
SOUZA, Francisco das Chagas. Biblioteconomia, educação e sociedade. Florianópolis UFSC, 1993. 104 p.

TEXTOS FUNDAMENTAIS DA BIBLIOTECONOMIA BRASILEIRA

+ Biblioquê?

BARBARA, Vanessa. Leitor de livraria
FONSECA, Edson Nery. Tudo o que no mundo existe começa e acaba em livro
GARRIDO, Isadora. Por que escolhi biblioteconomia?
LEMOS, Briquet de. Cinquenta anos de sonhos e esperanças
MEY, Eliane Serrão Alves. A biblioteconomia envergonhada
SOUZA, Francisco das Chagas de. A escola de biblioteconomia e a ancoragem da profissão de bibliotecário
CUNHA, Murilo Bastos da. O bibliotecário brasileiro na atualidade

+ Práxis bibliotecária

CASTRO, César. Profissional da informação: perfil e atitudes desejadas
FONSECA, Edson Nery. Receita de bibliotecário
GARRIDO, Isadora. Tipos de Bibliotecários – O que faz um bibliotecário?
JAMBEIRO, Othon. A informação e suas profissões: a sobrevivência ao alcance de todos
MILANESI, Luis. A formação do informador
MEY, Eliane. O que fazem os bibliotecários?
ROBREDO, Jaime. Documentação de hoje e de amanhã (Livro)
TARGINO, Maria das Graças. Praxis bibliotecária

+ Epistemologia da biblioteconomia

ANDRADE, METCHKO, SOLLA. Algumas considerações acerca da situação epistemológica da Biblioteconomia
ARAÚJO, Eliany Alvarenga. A subjetividade enclausurada: o discurso científico na Biblioteconomia
VIEIRA, Anna de Soledade. Repensando a biblioteconomia

+ Elementos histórico-sociais das bibliotecas e da biblioteconomia

SERRAI, Alfredo. História da biblioteca como evolução de uma idéia e de um sistema
BURKE, Peter. Problemas causados por Gutenberg: a explosão da informação nos primórdios da Europa moderna
LIVRO: BATTLE, Mathew. A conturbada história das bibliotecas.
LIVRO: BAÉZ, Fernando. História universal da destruição dos livros

+ Legislação e Instituições biblioteconômicas

DIAS, Eduardo Ense. Ensino e pesquisa em ciência da informação
JOB, Ivone. Marcos históricos e legais do desenvolvimento da profissão de bibliotecário no Brasil
MUELLER, Suzana. O ensino de biblioteconomia no Brasil
SANTOS, Jussara. A Estrutura da Carreira em Biblioteconomia: contribuição à Classificação Brasileira de Ocupações
SILVA, Jonathas Carvalho. Perspectivas históricas da biblioteca escolar no Brasil e análise da lei 12.244/10
SOUZA, Victor Roberto Corrêa de. O acesso à informação na legislação brasileira
SPUDEIT, Daniela. Sindicatos de bibliotecários: história e atuação

+ Bibliotecas públicas

LEMOS, Briquet de. A biblioteca pública em face da demanda social brasileira
MIRANDA, Antonio. A missão da biblioteca pública no Brasil
PINHEIRO, Ricardo Queiróz. Biblioteca Pública: teimosia ou prioridade?
SOUZA, Francisco das Chagas de. Biblioteca serve para que? Bibliotecário faz o que?

+ As 5 Leis de Ranganathan

CAMPOS, Maria Luiza de Almeida. As cinco leis da biblioteconomia e o exercício profissional
CARUSO, Fabino. Reescrevendo as Leis de Ranganathan
FIGUEIREDO, Nice Menezes de. A modernidade das cinco leis de Ranganathan
TARGINO, Maria das Graças. Ranganathan continua em cena

+ Relações biblio x bibliografia x documentação x ci

DIAS, Eduardo Wense. Biblioteconomia e ciência da informação:natureza e relações
FONSECA, Edson Nery da. Ciência da Informação e prática bibliotecária
LOUREIRO, JANNUZZI. Profissional da informação: um conceito em construção
ORTEGA, Cristina. Relações históricas entre Biblioteconomia, Documentação e Ciência da Informação
SAMBAQUY, Lydia. Da Biblioteconomia à lnformática
ZAHER, Celia, GOMES, Hagar Espanha. Da Bibliografia à Ciência da Informação: um histórico e uma posição

Fora da biblioteca

Passadas as comemorações do Dia do Bibliotecário, acredito que se fizermos um levantamentos dos temas mais abordados nesses eventos, entre os três mais recorrentes vamos encontrar “a atuação do bibliotecário fora da biblioteca” (os outros dois vocês já sabem quais são).

Não é um tema novo. Eu mesma já participei de paineis e projetos sobre o assunto em outros anos. Mas a popularidade desse tema me faz pensar se isso, na verdade, não é um reflexo do temor de estarmos nos tornando obsoletos e termos que encontrar novos espaços e atribuições onde todo esse nosso precioso conhecimento adquirido na graduação possa ser útil e relevante.

Desde que escolhi o curso de Biblioteconomia, nunca tive a pretensão de trabalhar em uma biblioteca. Lembro-me perfeitamente de que quando ainda estava indecisa entre prestar vestibular para Enfermagem, Arquitetura ou Matemática, li a descrição do curso de Biblioteconomia no Guia do Estudante e achei fantástica a ideia de uma profissão criada para organizar informações, e a promessa de que poderia atuar em empresas, escritórios, grupos de pesquisa, etc.

De fato, em mais de dez anos de carreira, nunca cataloguei um livro profissionalmente, só trabalhei no setor de referência por duas semanas (ou cobrindo o horário de almoço de algum colega), e tive uns seis meses de experiência na indexação, mas ainda assim fiquei conhecida como “a bibliotecária que trabalhou na ONU”. Só que o restante do tempo lá, eu estava fazendo outras coisas.

Como bibliotecária, já fui coordenadora de publicação eletrônica, diretora de tecnologia, gerente de marketing, gerente-geral de vendas de publicações, gerente de relacionamento, e especialista em treinamento, entre outras funções. Em algumas delas, a formação em Biblioteconomia foi determinante para conseguir a vaga, em outras foi um diferencial importante, e em todas, os conhecimentos de organização e gestão de informação foram fundamentais para ser bem sucedida.

Aos que pretendem seguir esse caminho fora das bibliotecas, tenho duas recomendações:

Primeira: Cultive habilidades e competências adicionais aos seus conhecimentos básicos. Pode ser em áreas instrumentais, como idiomas ou tecnologia; em áreas afins, como arquitetura da informação ou publicação eletrônica; ou ainda em tópicos totalmente diversos, como economia, finanças, políticas públicas, sustentabilidade, que lhe trarão uma nova perspectiva e podem abrir caminhos para atuar nesses contextos.

Segunda: Não tenha medo de se desapegar da nossa eterna bandeira da informação como bem social. Todos nós temos em nosso cerne bibliotecário o ideal do compartilhamento, da disseminação, da democratização da informação. Mas o mercado não está nem aí para isso. Empresas querem vender produtos, outros grupos querem vender ideias. E você vai ser pago para isso. Mas não se preocupe, pois no meio do caminho, você vai acabar descobrindo maneiras de socializar a informação sem entrar em conflitos com seu empregador.

Sorteio de inscrições para cursos a distância da ExtraLibris. Participe!

Para comemorar o dia do bibliotecário, a ExtraLibris e o Bibliotecários Sem Fronteiras irão sortear quatro inscrições para os cursos online de março.

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Como funciona a promoção?

1º Curta as Fan Pages da ExtraLibris Cursos e do Bibliotecários Sem Fonteiras:

https://www.facebook.com/ExtralibrisCursos
https://www.facebook.com/biblioteconomia

2º Compartilhe (de forma pública) em seu mural no Facebook esta imagem.

3º Clique em “quero participar” em https://www.sorteiefb.com.br/tab/promocao/311763

Feito isso, você estará concorrendo a uma inscrição em um dos quatro cursos. São eles:

– Arquitetura da Informação: conceitos e métodos
– BIBLIVRE: Software livre para automação de bibliotecas
– Gestão de Projetos para Bibliotecários
– Biblioteca Universitária: qualidade e avaliações do MEC

Quatro inscrições serão sorteadas.

Boa sorte!

Obs.: Você pode pagar o valor da matricula em qualquer um dos quatro cursos, e caso seja sorteado, o valor é devolvido integralmente e você participa do curso sem custo algum.