Visitando a Biblioteca Nacional da China

Deixei a Soraia que há em mim aflorar. Normalmente não visito bibliotecas em viagens e deixo isso para alguns amigos meus que já fazem isso no meu lugar. Eu sei, sou um péssimo bibliotecário.

Não é que eu não goste de conhecê-las, gosto, mas é que acabo relacionando esse tipo de visita ao trabalho e fujo disso nas viagens que faço.

Mas Cauê, tu nem em biblioteca trabalha! Eu sei, mas…ah! vocês entenderam.

Enfim. Mês passado viajei pelo Vietnã e China e sem querer (isso mesmo) acabei “esbarrando” na Biblioteca Nacional da China quando estava em Pequim.

Estava a caminho do Parque Olímpico e ao pegar o metrô passei pela estação “National Library”. Opa! Acendeu o foguinho da curiosidade bibliotecária em mim e resolvi descer ali na volta. Dito e feito. Fui no Parque Olímpico, que por sinal é lindíssimo e muito bem conservado, e na volta desci na estação da biblioteca nacional para conhecê-la.

Logo na entrada não tinha quase nada em inglês e as informações do mapinha eram todas em mandarim. O que isso quer dizer? Não vai muito gringo por lá. Mas eu fui. Não esperavam por isso.

Bem fácil de saber o que quero conhecer na Biblioteca.

Deixei minha mochila nos lockers que se encontram no subsolo da biblioteca e entrei.

Grátis. Só apertar o botão, ele dará qual locker. Guarda. Pega o papelzinho e na volta só colocar no leitor e seu locker abre.

De cara você já tem noção de que ela é gigantesca e que o prédio tem uma arquitetura bem arrojada (que palavrinha heim) com enormes janelões de vidro.

Fui ao setor de informações perguntar se estava de boas qualquer um visitar as dependências. A atendente se esforçou no inglês e deu pra entender que em alguns locais só com a carteirinha da biblioteca ou com autorização da direção. Como eu não tinha tanto tempo de sobra assim naquele dia, resolvi visitar só as áreas permitidas, já que dava pra ver quase tudo por lá devido aos janelões.

Lindona. Eu babei legal. Segue fotchênhas.

A danada.
Frente da Biblioteca.
Hall de entrada.
Área de estudos vista de cima. Lindo pra ca…ramba!
Lindeco
Bonito mesmo.
Somente livros sobre robótica. T-1000 vai sair daí.
Igualzinho aqui.
Tudo na China é QR code. TU-DO. Não seria diferente na Biblioteca.
Tudo lindo.
Tudo maravilhoso.
Solicitação de empréstimo.
No subsolo há um salão para exposições.
Livrinhos bem antigos. Não dava pra saber data pois tava tudo em mandarim. =/
Autopromoção.
Não me pergunte que área é essa, tava em mandarim.
Como em toda a China, eles espalham plantas pra tudo quanto é lado.
Só de decoração.
Telas touch para consulta.
Área de estudos.

A entrevista

Lúcia observa as estudantes brigando com o gravador que teima em não  ligar. Meninas trabalhadoras, pensa Lúcia, provavelmente filhas e netas de trabalhadores, como ela mesma, na luta para melhorar de vida pelo estudo e apostando suas fichas no curso de Biblioteconomia. A menina que parece exercer funções de liderança usa camiseta da faculdade, chapinha no cabelo e brinquinhos de imitação de pérola. A mais novinha delas, que olha para Lúcia com o rabo de uns olhos meigos, veste blusa de estampa de florzinhas e babados. A terceira, um tanto mais velha que as outras, tem os braços totalmente tatuados e o cabelo que parece cortado à faca. Sem saber como ajudar, Lúcia limita-se a sorrir tranquilizando suas entrevistadoras, que começam a dar sinais de constrangimento. “Calma, não estou com pressa. Reservei a tarde toda para vocês”.

Desde que Dona Alzirinha morreu, a função de receber estudantes interessados na história da Grande Biblioteca passou para ela, por ser agora “uma das mais antigas aqui depois de mim”, nas palavras da diretora. Na verdade, embora fosse apenas medianamente antiga, Lúcia era a única bibliotecária capaz de se comunicar com os jovens de forma razoável e assumia como trabalho da referência dar entrevistas para trabalhos escolares. A diretora reservava seu tempo precioso para atender as “personalidades” que considerava importantes: jornalistas da grande imprensa e gente indicada pela prefeitura.

Finalmente as garotas assumem o controle do equipamento e Brinquinho dá início às perguntas. O tema do trabalho era Dona Olívia Valadares Gouveia Campos, aquela que emprestou seu vetusto nome à Grande Biblioteca em vão, porque o nome não pegou. O material disponível sobre a importante personagem já estava nas mãos das meninas: uma curta biografia, algumas reproduções de fotos e um folhetinho com uma coletânea de poemas de autoria dela, em edição quase caseira da Secretaria de Cultura, feita por ocasião do batismo da Biblioteca.

Depois das perguntas iniciais de praxe, quanto tempo trabalha na Grande Biblioteca, se considera seu trabalho importante etc, Brinquinho ataca:

– Qual é a importância de Dona Olívia Valadares Gouveia Campos para a Grande Biblioteca? Cite algumas de suas principais realizações.

Tipico, pensou Lúcia. A meninada reproduz nas entrevistas os enunciados da questões que caem nas provas. Compondo no rosto a expressão mais tranquila e séria de que era capaz, Lúcia responde escolhendo as palavras:

– Dona Olívia integrou a comissão que organizou a cerimônia de inauguração da Biblioteca. Era uma mulher elegante, uma quatrocentona com muita experiência em organização de eventos beneficentes.

Ela sempre se sentia meio idiota dizendo essa frase, mas não tinha opção. Apenas torcia para que as meninas se contentassem com isso e partissem para outro tipo de pergunta. Mas, não. Dessa vez não seria tão fácil. Senho franzido, Brinquinho esclarece:

– Desculpa, o que a gente precisa saber é o que ela fez por esta Biblioteca, os trabalhos que realizou …

– As marcas que ela deixou, né? – Florzinha tenta ajudar.

– Sim, meninas, eu entendi. Mas é isso. Ela organizou a festa de inauguração e doou alguns livros.

– Mas, como? Peraí, quantos anos Dona Olívia trabalhou aqui?

– Ela nunca trabalhou aqui. Trabalhou alguns anos na biblioteca da Faculdade de Letras, logo depois de se formar, mas parou de trabalhar quando se casou. Foi assessora da Prefeitura por algum tempo, mas essa atividade não estava relacionada à Grande Biblioteca.

Brinquinho, um tanto desnorteada, consulta freneticamente suas anotações.

– Não é possível, eu tenho certeza, li isso em alguma parte das …

Tatuagem vem em seu socorro com uma boa saída:

– E esses livros que ela doou, eram raros? Foi uma doação importante?

– Tem a listinha aí no material que vocês receberam. São bons livros, mas nada de excepcional.

– Ah, tô vendo aqui. Doze livros.

Lúcia entrelaça os dedos e faz um gesto vago com a cabeça, seu equivalente gestual para a expressão “bem…”. Tatuagem esboça um ligeiro sorriso, como se já estivesse adivinhando o que estava por vir, enquanto Florzinha examina as condições de cada uma de suas unhas. Brinquinho, entretanto, mostra que não pretende se entregar tão cedo.

– Deve haver algum engano – o tom de voz é peremptório e o olhar lançado em direção à bibliotecária tem algo de acusador – Se esta biblioteca tem o nome dela, a mulher dever ter alguma importância para a instituição, não?

Lúcia pressente que a menina está prestes a chamá-la de “querida” e suspira ligeiramente. Boas alunas que vestem a camiseta da faculdade e que um dia, provavelmente, terão orgulho de serem bibliotecárias, não gostam de entrevistas que fogem ao roteiro que prepararam, tão caprichado. E agora, como ficaria o trabalho? A bibliotecária, tenta disfarçar a ponta de prazer perverso que sente  ao contar a história famosa entre os funcionários.

– Então, é o seguinte. Esta biblioteca ficou conhecida como “Grande Biblioteca” por oposição à mais antiga, pequena, que ficava logo ali na rua de cima. Aí surgiu um prefeito que gostava de dar nome a tudo, desde que o batismo lhe rendesse lucro político. A esposa dele era bibliotecária e manifestou desejos de dar um nome de bibliotecária à nossa Grande Biblioteca. O marido, que lhe devia alguns favores, se empenhou em satisfazer esse capricho de madame. Mas não poderia ser o nome dela, naturalmente, porque além de primeira dama estava viva.  Para tanto, ele precisava de uma bibliotecária morta. Procura que procura, topou com Dona Olívia, que era bibliotecária e já estava morta. Pronto! Foi assim que a Grande Biblioteca ganhou seu nome oficial – aquele que ninguém usa – e continua sendo a Grande Biblioteca.

– Como?! O quê?! – se espantam, em coro, Brinquinho e Florzinha. Tatuagem ri e abana a cabeça.

Brinquinho achava um absurdo. Não podia ser.

– Não mesmo. O melhor candidato a dar nome à Grande Biblioteca seria, na verdade,  Pyotr Oklopkov, um professor que lutou muitíssimo pela criação desta biblioteca. Organizou campanhas, movimentou a cidade, fez pressão sobre a Prefeitura… Mas, lamentavelmente, o velho, além de ter esse nome impronunciável, era comunista de carteira assinada e um dos adversários mais famosos do partido do prefeito marido de bibliotecária. Já Dona Olívia, senhora da classe dominante nativa com nome elegante, era candidata imbatível.

– Gente… – mia Florzinha, chocada.

– Vocês não vão me perguntar por que o nome não pegou? – provoca Lúcia.

– Tenho até medo de perguntar – Florzinha confessa.

– Porque a biblioteca já tinha um nome conhecido pela comunidade. Todo mundo dizia “Grande Biblioteca” com certo orgulho. Se a gente tentava usar o nome oficial, ninguém entendia. E os próprios funcionários, que também não gostaram do novo nome, não se empenharam muito em vencer a resistência da população. É isso que acontece quando se fazem ações artificiais, sem envolver as pessoas…

A diretora da Biblioteca odiava que ele contasse a história desse jeito, sem ao menos romancear um pouco, Lúcia sabia disso. Mas ela já havia avisado que jamais mentiria para os jovens estudantes. Era seu preço para ser “uma das bibliotecárias mais antigas que pode contar as histórias da Biblioteca”.

– Futuras coleguinhas, até parece que vocês nunca ouviram falar de uma coisa chamada política. Bibliotecas também estão sujeitas às regras da política, vocês deviam saber disso.

Tatuagem sacudia a cabeça em concordância, mas Brinquinho, impávida, voltava às suas anotações e retomava as perguntas:

– Então, para você qual é a importância da Dona Olívia para a biblioteconomia nacional?

Lúcia sentia a paciência chegar ao fim.

– Menina, você não ouviu o que eu falei? Você não leu a biografia dela? Leia novamente, escute a gravação e tire suas próprias conclusões. Pode ser um exercício interessante.

– Mas a gente precisa saber o que VOCÊ acha.

Ah, o roteiro. Não dava pra fugir do roteiro combinado com o professor. Se a pergunta bobinha estava lá, tinha que ser feita, mesmo que a realidade pulasse e gritasse em frente ao gravador.

– Nenhuma, se vocês querem mesmo saber – Lúcia se acomodou na cadeira com as pontinhas dos dedos unidas em posição professoral – Dona Olívia era apenas uma senhora rica que até tentou ser bibliotecária, mas as obrigações de um casamento burguês provavelmente não permitiram que ela continuasse trabalhando. Quem a conheceu dizia que era uma mulher inteligente e generosa, que gostava de livros e escrevia poemas até que bonzinhos, mas nada além disso. Virou nome de biblioteca apenas por uma questão de conveniência política e nome de família. E porque, no momento certo, já estava morta.

Pequeno silêncio. Mais duas ou três perguntas protocolares e a entrevista está encerrada. Despedem-se com beijinhos amistosos, Brinquinho um tanto amuada.

– Espero não ter decepcionado muito vocês… – Lúcia tenta se desculpar.

– De jeito nenhum – Tatuagem abre um sorriso largo – aprendemos muito nessa entrevista.

– Não o que a gente esperava, mas aprendemos – concorda Florzinha.

Brinquinho não faz nenhum comentário, mas ao cruzar a porta de saída, volta-se para Lúcia  e declara, com grande convicção:

– Sabe, o que eu mais quero na vida é ser bibliotecária. Nunca deixaria meu trabalho, por nada neste mundo.

fotos: Microphone, de Adam Fredle; Xylograph librarian, de Monika Bargmann (Flickr).

Um filme legal

A questão é recorrente em qualquer acervo de filmes.

Eu queria ver um filme legal , o que você me recomenda?

Admito que essa demanda tão inocente me arrancava suspiros de tédio quando mais jovem e menos tolerante. Como diabos, pensava eu, uma pessoa suficientemente instruída e alimentada para chegar à Universidade não consegue escolher um simples filme sem pedir sugestões a estranhos?

Na Biblioteca da Escola de Comunicações e Artes da USP, onde trabalho, temos um bom acervo de filmes, inicialmente formado para atender a necessidades acadêmicas do curso de cinema da Escola e selecionado de acordo com orientação dos nossos professores. O núcleo mais importante do acervo é formado por filmes de Glauber Rocha, Bergman, Fellini, Antonioni, Hitchcock, Buñuel, Kurosawa, Eisenstein, Renoir e outros nomes que fizeram a história do cinema, mas também temos de gente menos conhecida e como menos prestígio acadêmico.

Nossa base de dados é um velho produto criado no velho MicroIsis por esta velha bibliotecária, mas ainda funciona. A catalogação foi caprichadamente desenvolvida para filmes, com ficha técnica bem completa, resumos, indexação por gênero e assuntos e quase tudo o que nossos usuários especialistas em cinema nos pediram. Dá para localizar, por exemplo, todos os filmes brasileiros do acervo produzidos na década de 60 que tenham “políticos” como personagens, ou filmes ambientados na cidade de Paris.

Aí chega o usuário e pede para o atarefado funcionário um “filme legal”. Depois de anos repetindo variações do velho discurso de que “o meu legal pode ser diferente do seu”, em algum momento as velhas desculpas deixaram de fazer sentido. Nem todos cresceram solitários e ressabiados com a humanidade como eu, as pessoas simplesmente enxergam no indivíduo que trabalha com um acervo alguém que tem um repertório maior que o delas e querem sim, por que não, a opinião pessoal dele ou dela. Se não quisessem opinão pessoal não perguntariam para uma pessoa. Ora, se os meninos das antigas videolocadoras buliçosamente ofereciam suas indicações estereotipadas, se o YouTube e a Netflix hoje fazem isso com automática desfaçatez, por que essas bibliotecárias metidas não podem sugerir a porcaria de um filme legal?

segredo

Então, quando uma de nossas atendentes, uma elegante estudante de música, esgotou seu estoque de sugestões e não aguentava mais indicar O segredo dos seus olhos – aquele filme argentino milimetricamente planejado para agradar a todo mundo – para usuários desejosos de ver um bom filme para matar o tempo, resolvi que já era hora não apenas de sugerir um filme legal, mas de criar uma lista de filmes legais. Já era nosso hábito fazer recortes no acervo por assunto, gênero ou propósito e imprimir uma listinha para o pessoal, atendendo a duas demandas históricas dos nossos usuários:  algo impresso para “pegar com a mão” e sugestões de filmes para quem não tem nenhuma necessidade cinematográfica específica. Filmes dirigidos por mulheres, filmes para o Mês da Consciência Negra, obras de grandes diretores de fotografia, adaptações de peças teatrais e Revoluções são alguns dos temas das listas, que também publicamos no nosso blog.

A lista foi elaborada com critérios e método, claro, porque posso ser maluca mas ainda sou bibliotecária. Três pessoas de formações, interesse e idades diversas fizeram as indicações, para assegurar um mínimo de pluralidade ao “levantamento”: os dois técnicos que atendem os usuários de filmes e eu. Combinados o seguinte:

escolher filmes dos quais gostamos bastante;

evitar obviedades excessivas –  indicar aquele filme que todo mundo já viu é chover no molhado;

deixar de lado extremos de violência, medo, sexo ou qualquer outro exagero – quem pede sugestão de filme legal provavelmente não está querendo nada disso;

nada de linguagens muito complexas ou filmes muito difíceis – esse usuário não deve estar em busca de algo como Stalker, de Tarkovskiy  ou Blue, de Derek Jarman.

nada de filmes muito bobinhos – afinal, a biblioteca de uma escola que tem curso de audiovisual não pode partir para a esculhambação.

tentar escolher filmes de gêneros e épocas variados.

Na condição de pessoa mais velha e mais cinemeira do trio, procurei lembrar de filmes que eram MUITO LEGAIS na minha juventude e que hoje pouca gente conhece. Alguém com menos de 50 anos se lembra, por exemplo, de Malpertuis, um filme que arrastou multidões às salas da Mostra de Cinema de São Paulo na década de 1990?

Lizard

A lista ficou interessante e, ao meu ver, bastante diversa. Os usuários gostaram, os funcionários também mas, para minha surpresa, já ouvi mais de um estudante de biblioteconomia afirmar que esse tipo de trabalho jamais seria feito na biblioteca onde estagiam. Chefes caretas não deixariam… É sério isso, pessoal? E eu que pensava ser uma bibliotecária velha e empoeirada. Bibliotecários não podem acrescentar um pouco de imaginação às suas rotinas?

Um coleção de filmes merece ser corretamente indexada por gênero, forma e assunto em suas várias facetas: ações, eventos, personagens, local e época de ambientação etc. Cada filme deve ser analisado como um todo ou em partes, para que cenas ou sequências específicas possam ser recuperadas. Nosso olhar de indexador deve identificar não apenas o que é mostrado, mas também significados mais profundos e conteúdos menos evidentes, se possível. Mas além da abordagem técnica, a criatividade e um pouco de ousadia não fazem mal a ninguém.

Espectadores de filmes, séries e vídeos de gatinhos, entre os quais se incluem nossos usuários e nós mesmos, enxergam conceitos e delimitam categorias que fogem bastante ao que sonha a vã filosofia dos nossos vocabulários controlados. Sim, todos nós buscamos filmes sobre a Revolução Francesa, sobre relações familiares ou violência contra a mulher, com cenas de batalhas navais ou corridas de cavalos, conceitos relativamente fáceis de serem transformados em civilizados descritores. Mas existem demandas mais difíceis de serem atendidas pelos pouco imaginativos sistemas bibliotecários.

Fiz, há alguns anos, uma pesquisa com usuários da coleção de filmes da ECA/USP, para tentar descobrir o que eles entendem por assunto de um filme. O resultado mostra um pouco do que nos falta. Em nossos vocabulários, bases de dados, conjuntos de metadados ou, pelo menos, nas nossas cabeças, precisamos encontrar espaço para categorias como linguagem, técnica ou narrativa cinematográfica, ou para aqueles temas clássicos do cinema que parecem nunca se encaixar na concepção bibliotecária de assunto, ou  mesmo para conceitos não relacionados ao conteúdo do filme, mas ao contexto de produção, exibição etc.

Se alguém quiser conhecer os detalhes dessa pesquisa, o relato está lá no meu blog, no post Sobre o que é esse filme. Ainda vou voltar mais vezes ao tema (aguardem os próximos capítulos).

 

 

 

Guia do usuário do Koha

O Koha é o primeiro software livre de Gestão de Bibliotecas e para mim o mais completo da atualidade. Ele tem todas as principais funcionalidades de um grande software. O IBICT está auxiliando Bibliotecas no país que queiram utilizar o software e um dos principais caminhos foi a criação de um Guia do Usuário. É parte do projeto do IBICT com a Secretaria Nacional da Juventude, mais especificamente da Coordenação de Articulação, Geração e Aplicação de Tecnologia (COAT), que o grande Milton Shintaku coordena. Foi concebido pela fantática equipe: Ingrid Schiessl, Jaqueline Rodrigues, Diego Macêdo, Priscila Rodrigues. Eu só dei uma pequena contribuição, mas agradeço a parceria.

Aproveitem, e fiquem a vontade para conversar comigo ou com a equipe do IBICT sobre o Koha. Um software livre que possibilita uma melhora nos serviços prestados pelas bibliotecas. Eu pude participar da implementação dele na Prefeitura de São Bernardo do Campo e os resultados foram bastante positivos. Espero que outras instituições, que estejam pensando em mudar de sistema, ou adotar um, possam considerar esta ferramenta.

O Guia do usuário do Koha pode ser baixado em:

http://bibjuventude.ibict.br/jspui/handle/192/170

Ou caso queiram a versão impressa, podem retirar no IBICT, em Brasília.

Quem é quem nos estilos de escrita?

Dando continuidade aos vídeos bibliotecários, mas tentando não conversar só com bibliotecários, resolvi explicar as diferenças entre estilos de escrita literária. Afinal, o que é conto? E qual a diferença com crônica?

Todo mundo já ficou confuso um dia, não é mesmo?

Repensando a Iniciativa de Budapeste pelo Acesso Aberto

A Iniciativa de Budapeste pelo Acesso Aberto (Budapest Open Access Initiative, ou BOAI) completará 15 anos em 14 de fevereiro. Trata-se de um dos marcos iniciais do movimento pelo acesso aberto à informação científica, e seu conceito de “open access” virou padrão mundial:

“Por ‘acesso aberto’ a esta literatura, nos referimos à sua disponibilidade gratuita na internet, permitindo a qualquer usuário a ler, baixar, copiar, distribuir, imprimir, buscar ou usar desta literatura com qualquer propósito legal, sem nenhuma barreira financeira, legal ou técnica que não o simples acesso à internet. A única limitação quanto à reprodução e distribuição, e o único papel do copyright neste domínio sendo o controle por parte dos autores sobre a integridade de seu trabalho e o direito de ser propriamente reconhecido e citado.”

Aniversários são sempre uma oportunidade de avaliar o passado e planejar o futuro. Pensando nisso, a Iniciativa está promovendo uma consulta pública, aberta a todos os interessados no endereço http://budapestopenaccessinitiative.org/boai15-1, até o dia 20 de janeiro 2017.

Com o questionário BOAI15, a Iniciativa de Budapeste chama a comunidade para o diálogo em torno dos valores e das prioridades do movimento pelo acesso aberto. A perspectiva brasileira e latinoamericana é bastante relevante para essa discussão. Fazemos acesso aberto muito antes da BOAI: a rede SciELO nasceu em 1997, está completando 20 anos. Nosso modelo, baseado no financiamento público das revistas, mostra que é possível ir além da dicotomia assinaturas (leitor paga) vs. APCs (autor paga). Mas as editoras tradicionais ainda conseguem manter seu prestígio, e nós continuamos precisando gastar cada vez mais com assinaturas para não perder acesso a periódicos relevantes.

Nossos vizinhos peruanos começaram o ano sem acesso às bases SienceDirect e Scopus, da Elsevier, por falta de recursos para renovar assinaturas. Segundo o jornalista Maurício Tuffani, o Brasil deve gastar em 2017 R$ 402,9 milhões com o Portal de Periódicos da CAPES, um aumento de 16,9% em relação a 2016. Com a perspectiva de cortes de gastos e congelamento de despesas nas próximas décadas, impossível não se perguntar até quando esta situação vai se manter. Sci-hub, #icanhazpdf e outras alternativas para obter acesso a artigos ajudam a contornar a situação, mas não a solucionam.

Se você se preocupa com essas questões, responda ao questionário BOAI15 até 20 de janeiro de 2017, e ajude a divulgá-lo entre seus contatos – a tag para Twitter, Facebook e cia é #BOAI15.