Repensando a Iniciativa de Budapeste pelo Acesso Aberto

A Iniciativa de Budapeste pelo Acesso Aberto (Budapest Open Access Initiative, ou BOAI) completará 15 anos em 14 de fevereiro. Trata-se de um dos marcos iniciais do movimento pelo acesso aberto à informação científica, e seu conceito de “open access” virou padrão mundial:

“Por ‘acesso aberto’ a esta literatura, nos referimos à sua disponibilidade gratuita na internet, permitindo a qualquer usuário a ler, baixar, copiar, distribuir, imprimir, buscar ou usar desta literatura com qualquer propósito legal, sem nenhuma barreira financeira, legal ou técnica que não o simples acesso à internet. A única limitação quanto à reprodução e distribuição, e o único papel do copyright neste domínio sendo o controle por parte dos autores sobre a integridade de seu trabalho e o direito de ser propriamente reconhecido e citado.”

Aniversários são sempre uma oportunidade de avaliar o passado e planejar o futuro. Pensando nisso, a Iniciativa está promovendo uma consulta pública, aberta a todos os interessados no endereço http://budapestopenaccessinitiative.org/boai15-1, até o dia 20 de janeiro 2017.

Com o questionário BOAI15, a Iniciativa de Budapeste chama a comunidade para o diálogo em torno dos valores e das prioridades do movimento pelo acesso aberto. A perspectiva brasileira e latinoamericana é bastante relevante para essa discussão. Fazemos acesso aberto muito antes da BOAI: a rede SciELO nasceu em 1997, está completando 20 anos. Nosso modelo, baseado no financiamento público das revistas, mostra que é possível ir além da dicotomia assinaturas (leitor paga) vs. APCs (autor paga). Mas as editoras tradicionais ainda conseguem manter seu prestígio, e nós continuamos precisando gastar cada vez mais com assinaturas para não perder acesso a periódicos relevantes.

Nossos vizinhos peruanos começaram o ano sem acesso às bases SienceDirect e Scopus, da Elsevier, por falta de recursos para renovar assinaturas. Segundo o jornalista Maurício Tuffani, o Brasil deve gastar em 2017 R$ 402,9 milhões com o Portal de Periódicos da CAPES, um aumento de 16,9% em relação a 2016. Com a perspectiva de cortes de gastos e congelamento de despesas nas próximas décadas, impossível não se perguntar até quando esta situação vai se manter. Sci-hub, #icanhazpdf e outras alternativas para obter acesso a artigos ajudam a contornar a situação, mas não a solucionam.

Se você se preocupa com essas questões, responda ao questionário BOAI15 até 20 de janeiro de 2017, e ajude a divulgá-lo entre seus contatos – a tag para Twitter, Facebook e cia é #BOAI15.

Ano novo, organização nova

Então as festas já passaram e agora é hora de fazer aquele monte de listas e promessas para realizar (ou não) durante 2017. Para dar aquela ajudinha fiz um vídeo explicando um pouco do que é um Bullet Journal, um método de organização pessoal e planejamento. Sem desculpas para as metas agora!

Estou apaixonado pelo Toppi

Arte é algo que penso ser um entendimento muito pessoal de um produto que procura te tocar os sentidos, seja para o deleite ou mesmo para o asco, mas só se torna, só é, quando te toca de alguma maneira.

Sou um apreciador, um entusiasta da arte, não importa em que pacote me entreguem. Música? tô dentro! Pintura? é nóis! Escultura? manda um Strazza aí e tamo conversados. Teatro? enfim, cês já entenderam. Mas como disse, sou um entusiasta, não consigo produzir nada. Sou aquele crítico frustrado que só restou sorrir com as belezuras.

E dia desses me deparei com uma belezura dessas. Aliás, chamar esta obra de belezura chega a ser uma afronta, um disparate! Peço perdão. Pois bem, esbarrei com uma obra do Sergio Toppi, a magnífica “Sharaz-De: conto de as mil e uma noites”, que acabou de ser publicada aqui no Brasil pela editora Figura. Esta é a primeira publicação da editora, sua estreia. A Figura é uma editora que, como ela mesmo diz, irá se dedicar fundamentalmente à imagem (fotos, quadrinhos, ilustrações e pinturas).

E olha, parabéns pra editora. Chegaram com os dois pés juntos bem no meio dos peito.

Mas vamos falar sobre a obra, né?

Sharaz-De foi publicada por Toppi (estou íntimo) a partir de 1979. É uma novela gráfica que abarca vários contos dentro da narrativa de um rei cheio de cólera devido a traição de sua esposa. Após o chifre, ele decide que vai dormir com uma mulher diferente todas as noites e esta deverá ser morta ao amanhecer. Gente boa, não? Nessas que surge Sharaz-De, que deveria ser um das mulheres que só se deitariam por uma noite com o rei e seria assassinada ao raiar do dia. E ela que de boba não tem nada, entretém o rei com seus contos e vai adiando sua morte na curiosidade que ele tem em ouvir novas e singulares histórias. Ela é boa de papo, vá por mim.

Toppi não economiza genialidade. Cada página é uma obra de arte cheia de textura e profundidade, com personagens que ganham corpo logo ao serem apresentados. O uso do espaço negativo (quando o ilustrador compõem o desenho sem tracejar no espaço), o cuidado documental com suas indumentárias e o surrealismo que, neste caso, nos aproxima mais ainda da narrativa em vez de nos distanciar dela, só mostra que você está diante de uma das obras mais belas já criadas dentro dos quadrinhos (e fora dele). É pra chorar de tanta emoção quando você folheia cada página.

Demorei muitas horas para terminar de ler, não cabia só a leitura, ficava vidrado em cada ilustração, em cada toque genial que Toppi deu para esmiuçar o universo que era apresentado e ir além de ser só o palpável aos olhos. O quadrinho é quase todo em preto e branco, só na meioca ele tem um conto todo colorido. E cara…assim…véi! Quando ele usa as cores, ele esculacha geral. Dá vontade de trazer o cara dos mortos só pra agradecer. Sim, esqueci, ele morreu em 2012. So sad =(. Sorte nossa que antes de morrer ele criou essa obra pra gente babar.

Walt Simonson – criou o desenho clássico do Thor – quando se deparou com uma obra do Toppi  disse “acabei de achar a coisa mais bonita já desenhada pelo homem”. Tem noção? Então, é nesse nível.

No meu caso, digo o mesmo. Foi a minha melhor compra do ano e recomendo a quem gosta de arte e quadrinhos.

Sendo assim, resolvi escrever sobre essa lindeza, pois sei que muitos bibliotecários buscam preencher a sessão de quadrinhos em suas bibliotecas somente com as editoras maiores e que acabam chegando até eles por ter uma maior divulgação. Existem diversas publicações pipocando por aqui que fogem do convencional. Por isso, amiguinhos, corre atrás disso, coloca em destaque na biblioteca, mostra isso pro mundo e chora junto comigo.

Xero no cangote!

Chora

sdr

Chora mais

dav

Me abraça

dav

Eu sei, eu sei

dav

O espaço negativo que falei

dav

Lindo, não?

dav

Não é jaba.
A Figura está com uma promoção de 20% na obra. =)

COMPRE AQUI: https://pag.ae/bhfJnKv

SHARAZ-DE: CONTOS DE AS MIL E UMA NOITES (vol. 1)

Autor: Sergio Toppi

(Capa dura/ formato 21 x 29,7cm/ 160 pgs./ Tradução de Maria Clara Carneiro)

A caixinha verde de Pandora

Aparecido, o porteiro, bate na mulher.

O assessor do secretário de cultura também rouba livros.

A ex-diretora ganhava viagens para Miami da empresa de software.

Gabriela não lava as mãos depois de ir ao banheiro.

A diretora não responde e-mail porque não consegue escrever uma frase que faça sentido.

Os colegas da Grande Biblioteca só conseguiram descobrir o que Dona Alzirinha realmente guardava naquela caixinha forrada com papel verde depois que ela morreu dentro do táxi, a caminho do trabalho. Oficialmente eram “modelos de fichas“, mas também podia ser “nada que você seja capaz de entender” ou “receitas de pudim” , dependendo de quem perguntasse e do humor do momento. Nos piores dias era “o cadastro de pessoas que eu pretendo matar“.

Na caixinha se aninhavam, em pacífica ordem, fichas catalográficas contendo pequenos segredos de funcionários e usuários da biblioteca, descritos de acordo com as regras do AACR2. Alguns eram bem escabrosos:

fichinha

Eram todas fichas de assunto com cabeçalhos bem escolhidos como Violência doméstica – Brasil – Século 21;  Corrupção; Higiene etc. Para o José Carlos homofóbico e pai desnaturado, o assunto era Infâmia, sem mais.

Dona Alzirinha, idade incerta mas avançada, era quase um mito na Grande Biblioteca, admirada pela grande capacidade de trabalho e temida pela selvageria de sua sinceridade. Frases como “seu conhecimento de regras de catalogação não desculpa sua ignorância em todos os demais campos do conhecimento” eram famosas entre os funcionários mais jovens, que adoravam a velhinha boca-dura. Acredita-se que passara uns tempos presa durante a ditadura, mas ela jamais confirmou. “Arrume umas lutas para você e pare de se preocupar com o passado alheio”, costumava dizer aos curiosos que a incomodavam com perguntas sobre o tema.

Ninguém poderia imaginar que aquela senhora que pouco interagia com a fauna local tivesse tantos podres catalogados em sua caixinha verde. “Ela inventou isso tudo”, defendia-se um dos catalogados, enquanto outros ponderavam que as fichinhas continham informações quentes e fáceis de apurar. Helena, uma das bibliotecárias da seção de catalogação observou, pensativa, que a caixa estava muito vazia. “Gente, eu via a Dona Alzirinha mexendo nesta caixa quase todos os dias, estava lotada de fichas. E agora está pela metade”.

– E alguém sabe o que ela estava fazendo no fichário nesses últimos dias? – perguntou a diretora.
– Acho que acabamos de descobrir – responde a catalogadora, coçando o queixo para disfarçar o sorriso.

O velho fichário da Grande Biblioteca tinha em Dona Alzirinha sua mais feroz inimiga. Desde que “a porcaria nova”, como ela chamava o sistema informatizado, provou que funcionava de forma minimamente aceitável, a velha catalogadora declarou que já era hora de jogar fora “a porcaria velha”. Para Dona Alzirinha, nada prestava.

– Como, Dona Alzirinha?! Nem terminamos ainda de inserir tudo no sistema … – escandalizou-se a diretora.
– E daí? Só faltam aqueles livros que ninguém mais procura. Joga fora logo, senão a velharada não aprende a consultar a porcaria nova.
– Não, não podemos fazer isso! Esse fichário é nossa história, Dona Alzirinha, muito me admira a senhora, tão …
– História, minha filha – interrompeu – é uma coisa que você vai precisar ler muito para começar a entender o que é.

E saiu virando as costas para a indignada diretora.

Um silêncio preocupado instalou-se entre os presentes, que avaliavam as consequência potenciais do biblio-terrorismo da falecida. A diretora, que ruminava intermináveis discussões passadas sobre o vetusto equipamento com uma cada vez mais teimosa Dona Alzirinha e seus seguidores adeptos do crime de lesa-fichário, bateu o martelo.

– Vamos fazer um mutirão e tirar todas essas fofocas indecentes do nosso catálogo.

Protestos se fizeram ouvir. Que absurdo perder tempo com isso, não vamos conseguir encontrar as drogas dessas fichas, deixa pra lá, ninguém consulta mais aquilo. Esconder no porão o “nosso catálogo” ou descartá-lo, como queria a velhota, era a melhor coisa a fazer. Mas não teve mais nem meio-mais, a diretora estava irredutível. Não seria agora, depois da morte da adversária mais implacável, que ela iria perder a parada.

E lá se foram todos caçar fichinhas malditas, em turnos de 45 minutos cada dupla. Os cabeçalhos de assunto eram uma boa pista, mas logo descobriram que a velhinha não era besta. Havia várias fichas cujos assuntos não eram tão óbvios, como “Cultura de cana” para a revelação de que alguém bebia regularmente cachaça em horário de expediente. Depois de algumas horas de busca, uma das estagiárias anunciou, abanando uma fichinha:

– Pessoal, esta aqui não é da Dona Alzirinha. As delas são todas datilografadas em fichas no estoque antigo, aquelas boas, grossinhas … Esta aqui foi impressa e a gramatura é outra.

Todos foram examinar a descoberta e mais dois funcionários disseram também ter encontrado fichas diferentes. Rapidamente constataram que havia, pelo menos, três outros tipos diferentes de fichas. Algumas continham erros gramaticais que Dona Alzirinha jamais cometeria.

Ao receber a notícia, a diretora simplesmente agarrou sua bolsa, arrumou rapidamente o cabelo e foi saindo.

– Amanhã eu vejo isso. Agora tenho que ir, estou atrasada para minha terapia.

A secretária olhou na agenda e tentou avisar que a consulta era no dia seguinte, mas recebeu um olhar fulminante e se calou. No dia seguinte, a diretora não tirou os óculos de sol para trabalhar, sinal inequívoco de insônia seguida de enxaqueca. Foi a secretária que mandou parar o mutirão caça-fichas. À tarde, chegaram os moços da manutenção e carregaram o fichário para o porão, de onde viria a desaparecer discretamente meses depois.

No boteco onde a galera foi comemorar a vitória póstuma da terrível Alzirinha, a catalogadora Helena mostrou uma das fichinhas que resgatou salvou.

– Esta eu vou guardar.

Era uma das autênticas, caprichosamente datilografada na Olivetti 32 usada pela agora saudosa velhinha, com o título:

O pai da diretora é um ex-torturador do DOI-CODI.

foto: Toby Oxborrow, Surprised box face.

Como funciona o mercado editorial no Brasil

peço perdão ao Rodrigo por reproduzir aqui na íntegra o conteúdo que foi publicado na newsletter do Grifo Negro. Mas era muito bom pra deixar passar e certamente vai ajudar a desmistificar muito aos bibliotecários, que são grandes compradores de livros no Brasil.

PRODUZIR UM LIVRO SAI MAIS CARO DO QUE PENSAMOS – Vários elementos compõem os custos de um livro: adiantamento e outros acordos de direitos autorais (quando aplicável, de 5% a 10%); tradução (quando aplicável); revisão de prova; revisões (que podem chegar a três); diagramação; capa; impressão; unidades para divulgação (blogs, revistas, jornais); margem de desconto na “venda” para as livrarias; impostos; provisão para inadimplência. Os custos gráficos variam conforme o miolo, a capa, o formato/as dimensões. Uma porcentagem significativa do preço de venda fica com as livrarias, físicas ou digitais. Como regra, as editoras dão para as livrarias um desconto de 50% sobre o valor de capa proposto. Por exemplo, se o preço de capa sugerido for de R$ 39,90, a livraria pagará aproximadamente R$ 20,00. Isso dá margem para promoções, como estamos acostumados a ver. Excepcionalmente, pode existir desconto maior na primeira leva de livros da editora para a livraria, ou outros acordos especiais.

POR QUE AS VERSÕES DIGITAIS SÃO CARAS – Como regra, os contratos estipulam um limite para o valor do ebook de 50% do preço de capa da edição física. Desse modo, como os livros, no Brasil, costumam ter um preço de capa de R$ 29,90 e de R$ 39,90, a versão digital fica com preços maiores do que os praticados, por exemplo, nos EUA.

AS LIVRARIAS SÓ COMPRAM OS LIVROS DEPOIS DA VENDA PARA O CONSUMIDOR – Ao contrário do que acontece em outros países, as livrarias brasileiras não compram os livros das editoras antes de venderem. Existem dois sistemas por meio dos quais distribuem os livros: consignação e venda com direito de devolução. A diferença está no momento em que o dinheiro entra no caixa da editora: na consignação, só entra quando há o acerto de contas, isto é, quando a livraria fatura os livros efetivamente vendidos (ou perdidos) e devolve o restante, se houver; na venda com direito de devolução, o dinheiro entra “imediatamente” no caixa da editora, mas, passado um tempo, a livraria tem o direito de devolver os livros não vendidos e reclamar o dinheiro (proporcional) de volta. O dinheiro não entra imediatamente no caixa das editoras em nenhuma das hipóteses: há prazos entre o faturamento da compra dos livros e a efetiva transferência da quantia. O prazo pode variar de 60 a 120 dias, conforme as negociações entre as partes, e o acerto de contas pode acontecer, às vezes, apenas uma vez por ano. Os pagamentos ainda podem ser feitos por outras formas, como por meio de bonificações em futuras compras. Por exemplo, a livraria devolve um número de livros e fica com um crédito de quatro mil reais que são abatidos da próxima aquisição de livros da mesma editora. Assim, as editoras têm de bancar todos os gastos desde a decisão pela publicação de uma determinada obra até o real recebimento de qualquer repasse das vendas pelas livrarias.

AS EDITORAS NÃO ODEIAM OS LEITORES – As editoras dependem dos consumidores, isto é, dos leitores. Mas a viabilidade de uma obra leva em conta a projeção de recepção pelo mercado em relação aos custos projetados. Em outras palavras, se o livro não se pagar e gerar lucro razoável, ele não será publicado ou republicado. O custo unitário é menor quanto maior for a tiragem. Em contrapartida, o risco é maior, já que o custo total é maior. Se as vendas não atingirem o mínimo, a editora absorve um prejuízo proporcional. O raciocínio se aplica a séries de livros: se o primeiro ou o segundo volume não se bancarem, provavelmente os demais não serão publicados.

POR QUE AS EDITORAS NÃO VENDEM OS LIVROS DIRETAMENTE – Se as editoras vendessem os livros diretamente, por loja ou site próprios, os preços poderiam ser menores e os lucros, maiores. Não existe nenhuma lei que proíba o comércio direto. Porém, haveria uma saia justa com as livrarias, que provavelmente deixariam de distribuir os livros dessa editora, pois não teriam como igualar os preços. O mercado editorial tem um equilíbrio complicado no atual modelo.

QUANTO OS AUTORES RECEBEM DE ROYALTIES – Geralmente as editoras pagam um adiantamento de direitos autorais para o autor contratado. Esse valor corresponde a um valor mínimo assegurado ao autor, ou seja, o autor não deve nem precisa reembolsar o adiantamento caso as vendas não atinjam o valor correspondente. Os royalties correspondem a um percentual do valor de venda, entre 5% e 10%. Se e quando as vendas de livros ultrapassam o valor do adiantamento, o autor começa a receber, no período estipulado no contrato, a sua porcentagem.

NENHUMA EDITORA COBRA PARA PUBLICAR UM AUTOR – Editora (ou editor) é a pessoa física ou jurídica (“empresa”) “à qual se atribui o direito exclusivo de reprodução da obra e o dever de divulgá-la, nos limites previstos no contrato de edição”, nos termos da Lei de Direitos Autorais. Se uma empresa cobra do autor para publicar, não é uma editora, mas uma gráfica ou, no máximo, uma prestadora de serviços. Não basta que se autodenomine “editora.” Em resumo, uma editora é um negócio cujo lucro vem da venda dos livros.

O que eu não aprendi na escola de biblioteconomia

Mesmo com periódicos ajustes e atualizações, dificilmente um curso universitário consegue acompanhar as evoluções do mercado. Isso vale para todas as áreas. Algumas lacunas na preparação tradicional de 4 anos podem ser preenchidas com cursos paralelos e formação continuada. Todos concordamos com isso, mas fico sempre pensando comigo mesmo, como seria uma grade/matriz curricular para o curso de biblioteconomia mais adequada para o mundo atual?

Pensando nisso eu joguei a seguinte pergunta no facebook: o que você não aprendeu na escola de biblio que gostaria de ter aprendido e o que você aprendeu na experiência profissional que não te ensinaram na escola de biblio?

Minha síntese é que a formação do bibliotecário poderia ser melhorada nas seguintes frentes: administração e tecnologia. Normalmente essas disciplinas são oferecidas dentro da matriz como superficiais comparadas às disciplinas de processos técnicos voltadas à gestão de acervos. São ministradas por professores dos cursos de origem, que em geral não tem qualquer conhecimento sobre a operação de bibliotecas (mal os de biblio tem). Lembro de reuniões de departamentos que essas disciplinas eram um fardo, tanto para os professores dos outros cursos como os professores de biblio.

Não acredito que a ABECIN não tenha conhecimento desse tipo de descompasso, que em princípio, não seria algo difícil de ser solucionado. A sugestão inicial seria reduzir algumas disciplinas excessivamente técnicas (quem precisa de três semestres de CDD?) e oferecer mais disciplinas de TI e ADM, com foco especial em bibliotecas. Mas não fazer apenas mudança de nomenclatura de disciplinas com o mesmo corpo docente de sempre, isso não.

Um leque de disciplinas poderia ser oferecido por especialistas que não necessariamente fazem parte do corpo docente, ou então disciplinas a distância ministradas por pessoas reconhecidamente competentes naqueles temas, e já que, afinal, a rede de universidades é praticamente uma só, não seria tão absurdo propor uma equivalência de créditos entre as universidades federais e estaduais.

Um estudo relevante poderia ser feito com os principais contratantes de bibliotecários ao redor do país, públicos e privados, e solicitar que eles indiquem o tipo de profissional que desejam. Ou então elencar descrições de vagas de trabalho que não são direcionadas à bibliotecários, mas que poderiam ser preenchidas por nós. E a partir disso redesenhar a matriz pra atender as demandas.

Claro que vão dizer que alguns cursos já fazem isso e reformularam suas grades, e que a universidade não tem como ensinar tudo, e que o aluno/profissional é responsável por sua formação também, e que a universidade não tá pra formar só mão de obra, e etc. Mas convenhamos né, muito da formação está completamente fora da realidade e a biblioteconomia mudou muitos nos últimos 20 anos. Não dá pra ficar sempre correndo atrás de atualização por fora ao mesmo tempo em que perdemos tempo dentro de sala de aula.

Algumas das respostas estão compiladas abaixo, principais temas que merecem ser ensinados mais e melhor:

ADMINISTRAÇÃO

– gestão de projetos, planejamento estratégico, plano de metas, concorrência a editais

– gestão de orçamentos, como gerir recibos, NFs, Lei 8.666/93 e impostos (processos de aquisição e assinaturas)

– marketing e comunicação da biblioteca (promocional, redes sociais)

– arquitetura de biblioteca, segurança de acervos, insalubridade

TECNOLOGIA

– avaliação de sistemas de automação (quesitos técnicos, customização)

– desenvolvimento de softwares (open source, apps, mobile)

– informação digital (competência digital, social media, mineração de dados)

GESTÃO DE PESSOAS

– atendimento e venda (comportamento informacional)

– relacionamento interpessoal, gestão de conflitos, psicologia

– colaboração, mentoring e coaching

PROCESSOS TÉCNICOS e outros

– mediação de leitura

– acessibilidade

– lei de acesso à informação

– idiomas

UNIVERSIDADE

– distância entre teoria e prática (foco na pesquisa em detrimento do ensino e extensão)

– parcerias com as bibliotecas setoriais (estágios e extensão)

– intercâmbio de matrizes, oferta de disciplinas de outras universidades, créditos a distância

A moça, o verme e o tigre: uma história da Grande Biblioteca

O nome verdadeiro da estagiária era Maria Amélia, mas como todos na família desde sempre a chamaram Pris, foi com esse apelido que ela se apresentou aos colegas na Grande Biblioteca. Uma das bibliotecárias perguntou se os pais dela eram fãs de Blade runner mas foram obrigados a lhe dar o nome das avós por pressão familiar. Não, não era isso, mas não era a primeira vez que Pris ouvia que seu apelido tinha a ver com esse filme. Precisava assisti-lo qualquer dia.

Pris, estudante de letras que amava livros e lembrava com carinho da moça da pequena biblioteca da escola onde estudou, ficou feliz em conseguir um estágio num local para ela tão mitológico. Emprestar livros para a população e ajudar as pessoas a escolherem suas leituras parecia-lhe o melhor trabalho do mundo. Até a realidade cair pesadamente sobre ela.

A estagiária não conseguia conviver com a agressividade das pessoas. Quando um leitor grosseiro ou impaciente a tratava mal, ficava completamente sem ação e chegava a chorar. O colegas mais velhos tentavam ensiná-la a lidar com os “ossos”, explicavam que não podia ser tão sensível e “levar para o pessoal”, mas não adiantava. Pris simplesmente não conseguia entender como alguém podia tratar mal uma pessoa que não apenas estava trabalhando, mas tentando sinceramente ajudar. O chefe logo percebeu isso e a afastou um pouco do contato com o público. Pris ficou meio triste com isso, mas entendeu, e como amava mesmo os livros, sentia-se feliz em guardá-los nas estantes, trocar etiquetas e separar os que precisavam de reparos. E ainda havia momentos em que ela ficava no balcão de atendimento, cobrindo horário de jantar dos colegas.

Parecia estar tudo bem assim, até que o Nojento a descobriu. O Nojento era o usuário mais detestado pelos funcionários da Grande Biblioteca. O homem não chegava a ser abertamente grosseiro, mas conseguia ser extremamente desagradável apenas com um olhar ou um comentário irônico, particularmente se era atendido por um funcionário negro, mulher ou nitidamente homossexual, como era o caso do chefe da Pris. Esse era o único que não se deixava afetar pelo Nojento, porque também sabia usar apenas um olhar para colocar as pessoas em seu devido lugar. Diziam que o Nojento era membro de uma organização fascista, mas ninguém, conseguiu descobrir nada sobre a criatura. “É só uma cria do inferno nascida do cu de um demônio de segunda”, dizia uma das moças da faxina, desbocada e muito respeitada por essa qualidade. E o Nojento, com seu cabelo ensebado e seu queixo de Goebbels, começou a frequentar a Grande Biblioteca justamente no horário em que Pris estava atendendo e que seu chefe já havia ido embora. O homem parecia gostar dela, ainda que de forma desprezível. Fazia elogios ao seu cabelo e roupas, olhava para a moça com aquele olhar que os homens parecem praticar em frente ao espelho para provocar repulsa nas mulheres e até chegou a levar um chocolate vagabundo de presente, atirado à lixeira assim que o desinfeliz virou as costas.

Pris estava começando a entrar em desespero. Quanto mais ela demonstrava sua aversão, mais o homem parecia decidido a importuná-la, divertindo-se com a aflição da estagiária. E o pior é que não havia nada de concreto que pudesse motivar uma reclamação. Pris receava que lhe dissessem que precisava aprender a lidar com “galanteios”, como já ouvira uma vez na faculdade, e tinha medo de que a mandassem embora por ser uma pessoa “difícil”, que chorava à toa e criava problemas. Os colegas diziam que não, que ninguém faria isso com ela, mas Pris tinha dúvidas. Até o chefe, que a entendia e protegia, parecia não ter muita certeza da reação da chefe da Grande Biblioteca, que não gostava de lidar com esse tipo de problema.

Naquele dia, ela não estava no balcão de empréstimos no horário habitual, porque dois dos colegas estavam trabalhando até mais tarde, pagando horas devidas, e aproveitou para ir resolver um problema na impressora de etiquetas na sala da catalogação. O Alencar viu, com desgosto, o Nojento entrar pela porta, já com aquele sorriso seboso na cara, sorriso que se apagou assim que não viu sua presa. O desgraçado ficou por ali de bobeira por uns minutos, mexendo no expositor de livros novos, até que Alencar e a colega de balcão se distraíram com uns jovens perdidos no universo dos catálogos e o perderam de vista. Desconfiado, Alencar foi dar uma busca e viu o sujeito entrar na área reservada aos funcionários, furtivo.

Nesse dia, a bibliotecária que dava plantão noturno era a Fernanda, do Departamento de Aquisições. Fernandona, como a chamavam os poucos funcionários que não tinham medo dela, era uma ex-jogadora de basquete e maratonista de exatos um metro e oitenta e quatro, uma negra de braços fortes, sorriso glorioso e fama de não levar desaforo para casa. Alencar avisou, “ô Fernanda, o cara que persegue a menina foi atrás dela lá no fundo, vou chamar o segurança”.

– Espera um pouco aí – avisou Fernanda, que já conhecia o sujeito e a história toda do assédio a Pris, erguendo-se nos saltos até atingir quase um metro e noventa.

Alencar achou melhor não discutir, só ligou discretamente para a portaria enquanto a Fernandona marchava para a porta dos serviços internos. O Nojento estava lá, no largo corredor cheio de portas, provavelmente esperando a estagiária aparecer.

– Procurando o quê, amigo? – a bibliotecária falou alto, sem se preocupar em ser educada. Educação não se aplicava ao caso.
– Calma aí, negona. O banheiro não é mais aqui?

Fernanda percebeu alguma coisa estranha no ar, algo pesado e viscoso. Como se tivesse entrado num ambiente contaminado ou num matadouro. O homem sorria, provocador, e ela avançou, sentindo o tigre subir dentro de si. Como no dia em que impediu o pai de bater na mãe, como na ocasião em que reagiu na rua a uma ofensa racista e quase foi presa. Empurrou o homem de encontro à parede, com toda a força, segurou-o pelo pescoço com as duas mãos e apertou um pouco, cheia de repugnância. O Nojento tentou se debater, mas Fernanda era bem mais forte do que ele e ambos sabiam disso. Falou baixo e pausadamente, deixando o tigre rosnar livremente:

– Você sabe que não. E sabe também que não vai voltar aqui nunca mais e, se voltar, vai ser de cabeça baixa, olhando pro chão. Você NUNCA MAIS vai dizer outra palavra nesta biblioteca que não seja “por favor” e “muito obrigado” e NUNCA MAIS vai olhar para aquela menina. Entendeu? Fui negra e clara?

Assim que o homem conseguiu abanar a cabeça em concordância, Fernanda o deixou ir. Saiu apressado, quase correndo, mas ainda conseguiu ensaiar um vago gesto de despedida para Alencar e os demais, que o olhavam perplexos. Para manter um resto de dignidade, sem dúvida. A bibliotecária veio logo atrás, sentindo o tigre recuar lentamente. O ar do grande salão de entrada também parecia sujo, como se o homem em fuga tivesse deixado pra trás a sua nuvem escura.

Fernanda ficou um pouco por ali, parada, tentando se recompor. Sentia nojo das mãos que haviam tocado no homem e uma vaga sensação de mal-estar parecia correr pelas suas veias. E foi nesse momento que entrou o Francês.

Alain era um professor da universidade que frequentava bastante a seção de obras raras, para alguma pesquisa acadêmica. Muito gentil, embora reservado, era bastante querido por todos os funcionários. As meninas o achavam bonito, embora fosse apenas um intelectual ossudo e meio velhusco, porque havia uma doçura em suas maneiras que encantava de imediato. No exato instante em que ele entrou, Fernanda percebeu que o ar pesado se dissipava, dando lugar a uma luminosidade diferente da luz habitual do ambiente. Ao vê-la ali parada, ainda meio em choque com o que acabara de fazer, o Francês se aproximou e perguntou, com seu sotaque forte:

– Que foi, Fernanda? Tudo bem com você?

– Tudo bem, meu lindo. Foi só uma coisa estranha que eu precisei fazer e que me deixou nervosa.

Alain franziu a testa e alisou levemente a lateral do braço da bibliotecária, num gesto de consolo.  Mais calma, Fernanda agradeceu pela preocupação, fez um sinal de positivo para o segurança que havia chegado com cara de ponto de interrogação e foram todos cuidar de suas vidas. A luz leve e brilhante que entrou com o Francês já havia tomado todo o espaço aéreo da Grande Biblioteca.

O Nojento nunca mais apareceu e Pris nem ficou sabendo da história. Combinaram de não contar nada para não assustá-la mais ainda. Apenas soube, por Alencar, que a Fernandona tinha algo a ver com o desaparecimento do “encosto” e a abraçou muito. Meses depois foi aberto um concurso público, com duas vagas para a Grande Biblioteca e ela se inscreveu. Decidira, afinal, que trabalhar em biblioteca era o que desejava da vida, apesar dos percalços todos. O chefe disse que, à medida que ela fosse ficando mais velha, as pessoas naturalmente a respeitariam mais. E depois, com a maturidade as lágrimas tendem a secar.  Mais tarde, pensava Pris,  poderia pensar em cursar Biblioteconomia. Por que não?