A moça, o verme e o tigre: uma história da Grande Biblioteca

O nome verdadeiro da estagiária era Maria Amélia, mas como todos na família desde sempre a chamaram Pris, foi com esse apelido que ela se apresentou aos colegas na Grande Biblioteca. Uma das bibliotecárias perguntou se os pais dela eram fãs de Blade runner mas foram obrigados a lhe dar o nome das avós por pressão familiar. Não, não era isso, mas não era a primeira vez que Pris ouvia que seu apelido tinha a ver com esse filme. Precisava assisti-lo qualquer dia.

Pris, estudante de letras que amava livros e lembrava com carinho da moça da pequena biblioteca da escola onde estudou, ficou feliz em conseguir um estágio num local para ela tão mitológico. Emprestar livros para a população e ajudar as pessoas a escolherem suas leituras parecia-lhe o melhor trabalho do mundo. Até a realidade cair pesadamente sobre ela.

A estagiária não conseguia conviver com a agressividade das pessoas. Quando um leitor grosseiro ou impaciente a tratava mal, ficava completamente sem ação e chegava a chorar. O colegas mais velhos tentavam ensiná-la a lidar com os “ossos”, explicavam que não podia ser tão sensível e “levar para o pessoal”, mas não adiantava. Pris simplesmente não conseguia entender como alguém podia tratar mal uma pessoa que não apenas estava trabalhando, mas tentando sinceramente ajudar. O chefe logo percebeu isso e a afastou um pouco do contato com o público. Pris ficou meio triste com isso, mas entendeu, e como amava mesmo os livros, sentia-se feliz em guardá-los nas estantes, trocar etiquetas e separar os que precisavam de reparos. E ainda havia momentos em que ela ficava no balcão de atendimento, cobrindo horário de jantar dos colegas.

Parecia estar tudo bem assim, até que o Nojento a descobriu. O Nojento era o usuário mais detestado pelos funcionários da Grande Biblioteca. O homem não chegava a ser abertamente grosseiro, mas conseguia ser extremamente desagradável apenas com um olhar ou um comentário irônico, particularmente se era atendido por um funcionário negro, mulher ou nitidamente homossexual, como era o caso do chefe da Pris. Esse era o único que não se deixava afetar pelo Nojento, porque também sabia usar apenas um olhar para colocar as pessoas em seu devido lugar. Diziam que o Nojento era membro de uma organização fascista, mas ninguém, conseguiu descobrir nada sobre a criatura. “É só uma cria do inferno nascida do cu de um demônio de segunda”, dizia uma das moças da faxina, desbocada e muito respeitada por essa qualidade. E o Nojento, com seu cabelo ensebado e seu queixo de Goebbels, começou a frequentar a Grande Biblioteca justamente no horário em que Pris estava atendendo e que seu chefe já havia ido embora. O homem parecia gostar dela, ainda que de forma desprezível. Fazia elogios ao seu cabelo e roupas, olhava para a moça com aquele olhar que os homens parecem praticar em frente ao espelho para provocar repulsa nas mulheres e até chegou a levar um chocolate vagabundo de presente, atirado à lixeira assim que o desinfeliz virou as costas.

Pris estava começando a entrar em desespero. Quanto mais ela demonstrava sua aversão, mais o homem parecia decidido a importuná-la, divertindo-se com a aflição da estagiária. E o pior é que não havia nada de concreto que pudesse motivar uma reclamação. Pris receava que lhe dissessem que precisava aprender a lidar com “galanteios”, como já ouvira uma vez na faculdade, e tinha medo de que a mandassem embora por ser uma pessoa “difícil”, que chorava à toa e criava problemas. Os colegas diziam que não, que ninguém faria isso com ela, mas Pris tinha dúvidas. Até o chefe, que a entendia e protegia, parecia não ter muita certeza da reação da chefe da Grande Biblioteca, que não gostava de lidar com esse tipo de problema.

Naquele dia, ela não estava no balcão de empréstimos no horário habitual, porque dois dos colegas estavam trabalhando até mais tarde, pagando horas devidas, e aproveitou para ir resolver um problema na impressora de etiquetas na sala da catalogação. O Alencar viu, com desgosto, o Nojento entrar pela porta, já com aquele sorriso seboso na cara, sorriso que se apagou assim que não viu sua presa. O desgraçado ficou por ali de bobeira por uns minutos, mexendo no expositor de livros novos, até que Alencar e a colega de balcão se distraíram com uns jovens perdidos no universo dos catálogos e o perderam de vista. Desconfiado, Alencar foi dar uma busca e viu o sujeito entrar na área reservada aos funcionários, furtivo.

Nesse dia, a bibliotecária que dava plantão noturno era a Fernanda, do Departamento de Aquisições. Fernandona, como a chamavam os poucos funcionários que não tinham medo dela, era uma ex-jogadora de basquete e maratonista de exatos um metro e oitenta e quatro, uma negra de braços fortes, sorriso glorioso e fama de não levar desaforo para casa. Alencar avisou, “ô Fernanda, o cara que persegue a menina foi atrás dela lá no fundo, vou chamar o segurança”.

– Espera um pouco aí – avisou Fernanda, que já conhecia o sujeito e a história toda do assédio a Pris, erguendo-se nos saltos até atingir quase um metro e noventa.

Alencar achou melhor não discutir, só ligou discretamente para a portaria enquanto a Fernandona marchava para a porta dos serviços internos. O Nojento estava lá, no largo corredor cheio de portas, provavelmente esperando a estagiária aparecer.

– Procurando o quê, amigo? – a bibliotecária falou alto, sem se preocupar em ser educada. Educação não se aplicava ao caso.
– Calma aí, negona. O banheiro não é mais aqui?

Fernanda percebeu alguma coisa estranha no ar, algo pesado e viscoso. Como se tivesse entrado num ambiente contaminado ou num matadouro. O homem sorria, provocador, e ela avançou, sentindo o tigre subir dentro de si. Como no dia em que impediu o pai de bater na mãe, como na ocasião em que reagiu na rua a uma ofensa racista e quase foi presa. Empurrou o homem de encontro à parede, com toda a força, segurou-o pelo pescoço com as duas mãos e apertou um pouco, cheia de repugnância. O Nojento tentou se debater, mas Fernanda era bem mais forte do que ele e ambos sabiam disso. Falou baixo e pausadamente, deixando o tigre rosnar livremente:

– Você sabe que não. E sabe também que não vai voltar aqui nunca mais e, se voltar, vai ser de cabeça baixa, olhando pro chão. Você NUNCA MAIS vai dizer outra palavra nesta biblioteca que não seja “por favor” e “muito obrigado” e NUNCA MAIS vai olhar para aquela menina. Entendeu? Fui negra e clara?

Assim que o homem conseguiu abanar a cabeça em concordância, Fernanda o deixou ir. Saiu apressado, quase correndo, mas ainda conseguiu ensaiar um vago gesto de despedida para Alencar e os demais, que o olhavam perplexos. Para manter um resto de dignidade, sem dúvida. A bibliotecária veio logo atrás, sentindo o tigre recuar lentamente. O ar do grande salão de entrada também parecia sujo, como se o homem em fuga tivesse deixado pra trás a sua nuvem escura.

Fernanda ficou um pouco por ali, parada, tentando se recompor. Sentia nojo das mãos que haviam tocado no homem e uma vaga sensação de mal-estar parecia correr pelas suas veias. E foi nesse momento que entrou o Francês.

Alain era um professor da universidade que frequentava bastante a seção de obras raras, para alguma pesquisa acadêmica. Muito gentil, embora reservado, era bastante querido por todos os funcionários. As meninas o achavam bonito, embora fosse apenas um intelectual ossudo e meio velhusco, porque havia uma doçura em suas maneiras que encantava de imediato. No exato instante em que ele entrou, Fernanda percebeu que o ar pesado se dissipava, dando lugar a uma luminosidade diferente da luz habitual do ambiente. Ao vê-la ali parada, ainda meio em choque com o que acabara de fazer, o Francês se aproximou e perguntou, com seu sotaque forte:

– Que foi, Fernanda? Tudo bem com você?

– Tudo bem, meu lindo. Foi só uma coisa estranha que eu precisei fazer e que me deixou nervosa.

Alain franziu a testa e alisou levemente a lateral do braço da bibliotecária, num gesto de consolo.  Mais calma, Fernanda agradeceu pela preocupação, fez um sinal de positivo para o segurança que havia chegado com cara de ponto de interrogação e foram todos cuidar de suas vidas. A luz leve e brilhante que entrou com o Francês já havia tomado todo o espaço aéreo da Grande Biblioteca.

O Nojento nunca mais apareceu e Pris nem ficou sabendo da história. Combinaram de não contar nada para não assustá-la mais ainda. Apenas soube, por Alencar, que a Fernandona tinha algo a ver com o desaparecimento do “encosto” e a abraçou muito. Meses depois foi aberto um concurso público, com duas vagas para a Grande Biblioteca e ela se inscreveu. Decidira, afinal, que trabalhar em biblioteca era o que desejava da vida, apesar dos percalços todos. O chefe disse que, à medida que ela fosse ficando mais velha, as pessoas naturalmente a respeitariam mais. E depois, com a maturidade as lágrimas tendem a secar.  Mais tarde, pensava Pris,  poderia pensar em cursar Biblioteconomia. Por que não?

Acesso Aberto em Ação – Semana do Acesso Aberto 2016

A Semana Internacional do Acesso Aberto é um evento de conscientização e divulgação do movimento pelo acesso aberto à informação científica, celebrado anualmente por indivíduos e instituições ao redor do globo. O tema deste ano é “Open in Action” (Acesso Aberto em Ação), e o evento acontece entre 24 e 30 de outubro.

O objetivo da Semana sempre foi motivar ações em torno do acesso aberto, e a ideia este ano é sair do discurso para a ação, estimulando estudantes, bibliotecária/os, pesquisadores e cia. a tomar atitudes concretas para tornar seus trabalhos mais abertos e disponíveis, e a encorajar outras pessoas a fazer o mesmo. Isso pode tomar muitas formas: depositar trabalhos num repositório institucional, fazer campanha pelo uso de licenças Creative Commons, e o que mais você imaginar.

A data oficial da Semana Internacional do Acesso Aberto 2016 é a última semana de outubro, do dia 24 ao dia 30. Eu sei, está bem em cima para se planejar. Mas nada impede que você organize eventos locais com o tema em datas que façam sentido para a sua instituição/comunidade (por exemplo, para recepção a novos alunos em 2017). Se você gosta da ideia e vai promover um evento, não deixe de cadastrá-lo no site oficial da Semana!

Está sem inspiração? Aqui tem algumas sugestões de atividades:

  • Mutirão para cadastrar materiais no seu repositório institucional (e/ou um evento de informação sobre o repositório da sua instituição);
  • Palestra com estudantes/professores sobre como é publicar em acesso aberto;
  • Desafios do tipo “Quem consegue encontrar este artigo”, comparando as possibilidades para quem tem acesso ao Portal CAPES e quem não tem;
  • Treinamentos com usuários voltados para publicação em periódicos de acesso aberto, uso de repositórios institucionais e/ou de sites como Figshare/Zenodo;
  • Exibição do filme “O Menino da Internet: A História de Aaron Swartz” (dá pra achar legendado no YouTube);
  • Debates sobre SciHub, #icanhazpdf e outras estratégias alternativas para ter acesso a artigos científicos.

Navegando pelos eventos já cadastrados você pode encontrar outras ideias interessantes para a sua comunidade. Se você não está numa instituição no momento, não tem recursos para organizar um evento, ou simplesmente não quer deixar a Semana passar em branco, existem outras maneiras de participar: divulgando materiais relevantes nas suas redes sociais, criando desafios pessoais, falando com seus colegas sobre o tema…

Para mais informações sobre a Semana Internacional do Acesso Aberto, visite o site www.openaccessweek.org (tem um grupo brasileiro lá, mas está parado desde 2014). Ah, e deixe um comentário aqui se estiver planejando ou já tiver realizado algum evento nessa linha, quem sabe não rola um post futuro contando o que está acontecendo nas bibliotecas brasileiras em torno do acesso aberto?

Como fazer pesquisa em bibliotecas especializadas ou de obras raras

É muito comum pesquisadores e entusiastas de bibliotecas especializadas e de obras raras se deslocarem muitos kilômetros e dedicarem muitos dias em busca dos seus materiais de pesquisa. Qual é a maneira mais eficiente então de visitar essas bibliotecas, ter acesso ao acervo, consultar os materiais e atender as expectativas dos bibliotecários?

Tendo trabalhado em bibliotecas especializadas e sempre relatando e acompanhando essas visitas (no Caçadores de Bibliotecas e de pesquisadores como o Fabiano Cataldo e a Claudiane Weber, por exemplo), acho que seria interessante oferecer algumas dicas para pesquisadores ou pessoas em geral que precisam consultar algum acervo raro, manuscritos ou materiais especializados. Vamos lá.

Conheça a biblioteca

Antes de visitar uma biblioteca especializada (inclua aqui bibliotecas nacionais, universitárias, religiosas, de obras raras, etc) é importante contactá-la para confirmar que o material que você pretende examinar está disponível nas datas que deseja visitar. Isso é crucial especialmente para quem viaja para visitar bibliotecas de outras cidades e países. Os itens podem algumas vezes estar em exibição em uma exposição, emprestados, passando por algum tipo de conservação ou no estúdio fotográfico. Não tem nada mais simples do que dar um telefonema ou mandar email pra confirmar. Outra coisa importante é verificar se a obra já não foi digitalizada, já que as bibliotecas estão disponibilizando novos materiais online todos os dias.

Especialmente durante viagens, certifique-se que a biblioteca não estará fechada para algum feriado ou evento local. Algumas bibliotecas menores fecham para uma pausa do almoço. Lembre também que muitas vezes você vai ser convidado a deixar o ambiente de pesquisa alguns minutos antes do horário de fechamento indicado.

A maioria das bibliotecas exige que você solicite os itens com antecedência, que deve ser feito pelo menos um dia antes da visita. Isso agiliza a pesquisa porque você não vai precisar ficar esperando as obras serem encontradas nos armazéns e estantes, elas já estarão lá separadas quando você chegar. Provavelmente será necessário obter um passe de leitor ou visitante para a maioria das bibliotecas, ou até mesmo atender requisitos incomuns para entrar em certas bibliotecas especializadas. Tente resolver de antemão, para não correr o risco de chegar lá e descobrir que você não trouxe identificação suficiente para ser admitido.

Tenha sempre em mãos:

1. comprovante de residência
Já que você estará trabalhando com alguns materiais considerados valiosos, vai ser preciso uma prova oficial de endereço para obter o acesso.

2. uma carta de referência ou recomendação
A maioria das bibliotecas especializadas exige que você traga uma carta de recomendação recente indicando brevemente qualquer filiação institucional que você possua e comprovação de experiência com manuseio de materiais e coleções especiais. Ela deve ser impressa em papel timbrado oficial. Leve sempre um original e uma cópia para cada biblioteca que visitar.

3. foto 3×4
Algumas bibliotecas possuem câmeras e tiram sua fotografia na hora. Mas outras bibliotecas menores podem pedir-lhe para trazer uma ou duas fotos para anexar a um cartão de visitante. Se a biblioteca for em outro país procure saber qual é o tamanho exato da foto de identificação que eles exigem.

4. dinheiro vivo e moedas
Normalmente você não pode entrar com bolsas ou mochilas e precisa deixá-los no guarda volumes. Mas na maioria das bibliotecas (fora do país), você recebe uma chave de armário, em troca de uma moeda. Não se preocupe: é um depósito, você vai recebe-la de volta quando retornar a chave. Além disso, as bibliotecas podem cobrar taxas por reprodução de imagens (fotografias, reprografias, microfilmes) e outros serviços, como o próprio cafezinho. Leve dinheiro.

Ao planejar sua visita, não se esqueça de cuidar de si mesmo: algumas bibliotecas podem ser muito frias (bibliotecas de faculdades e catedrais antigas especialmente durante o inverno no hemisfério norte). As grandes bibliotecas nacionais e universitárias tem restaurantes e cafés no local, mas em outros casos você vai querer trazer um estoque suficiente para garantir o dia, sem perder tempo à procura de comida.

Traga os instrumentos certos

Pense cuidadosamente sobre suas necessidades de pesquisa antes de ir à biblioteca, e o que você vai precisar para respondê-las. Muitas viagens bem-sucedidas para a sala de leitura podem ser feitas com nada mais do que um método para tomar notas. Mas tudo pode ficar mais fácil com algumas ferramentas simples:

1. uma régua
Esta é a parte mais importante do kit de ferramentas do pesquisador especializado. É bem difícil encontrar uma régua específica para o trabalho codicológico. Os manuscritos são sempre medido em milímetros, independentemente da sua dimensão; isto significa que você quase nunca vai precisa se preocupar com números decimais ou frações para chegar a um nível adequado de precisão, poupando tempo. Infelizmente, a maioria das réguas são marcadas apenas em centímetros, o que torna difícil para ler as inscrições menores. As réguas mais precisas numeram os milímetros individualmente. Ainda melhor é uma régua que marca metade dos milímetros. Como o pergaminho raramente é plano, uma régua flexível é o ideal para trabalhos que avaliam o layout da página ou caligrafia. Uma régua de cerca de 500 milímetros de comprimento é o suficiente para a maioria dos manuscritos.

2. lápis e papel
Bibliotecas com coleções especiais proibem canetas. Muitos emprestam lápis, mas às vezes um lápis emprestado não é o suficiente para a escrita mais estendida; traga os seus próprios lápis, além de um apontador. Mesmo se você estiver usando um laptop, não quer ficar preso se a bateria morrer de repente.

3. uma câmera
Às vezes é mais rápido tirar uma foto e fazer anotações mais detalhadas em casa. Reconhecendo que isso reduz o desgaste das coleções, um número crescente de bibliotecas permite a fotografia de seus itens. Mas não conte somente com isso: muitas salas de leitura tem luz demasiado fraca para obter uma imagem clara de uma página de texto escrito à mão, com uma câmera point-and-shoot ou smartphone tradicional. Mesmo com uma câmera sofisticada o texto pode estar ilegível, necessitando de outra visita. Muitas vezes a opção mais rentável é (quando existir) solicitar uma cópia ao serviço oferecido pela própria biblioteca, que produz fotografias mais claras e profissionais; e se você pedir um manuscrito inteiro, você também vai estar fazendo um favor ao mundo, uma vez que isso permite que as bibliotecas tornem o material disponível através da digitalização das obras. Se você está determinado a tirar suas próprias fotos, esteja ciente de que muitas bibliotecas proibem câmeras SLR que emitem ruidos. A câmera ideal para a maioria dos pesquisadores é uma câmera semiprofissional. Busque a câmera que ofereça maior sensibilidade de captura, já que esta é a chave para obter fotografias nítidas de texto (um sensor APS-C é uma expectativa razoável com a tecnologia de hoje e com o orçamento de um pesquisador). Também é útil ter uma capa de lente, para reduzir o brilho das luzes fluorescentes e garantir que você não fique muito perto do livro.

4. uma lupa
Opcional, dependendo de sua visão e da especificidade da pesquisa. Muitas vezes pode ser emprestada nas salas de leitura.

5. uma pequena lanterna elétrica
Ao estudar uma superfície de escrita, seja em pergaminho ou uma página impressa, um feixe de luz pode revelar muitos detalhes. Certifique-se de usar uma luz LED, uma vez que estas produzem menos calor; e tenha cuidado para não cegar outros leitores.

Seja bonzinho com as obras raras

A manipulação de um manuscrito ou obra rara é como cuidar de uma criança pequena. Eles às vezes podem ser surpreendentemente resistentes, mas também podem fazer coisas inesperadas quando não estamos atentos e se machucar facilmente.

Utilize sempre os apoios apropriados para as obras: em geral as bibliotecas disponibilizam apoiadores em cada mesa. As almofadas de espuma em formato triangular estão se tornando comuns e vêm em tamanhos diferentes. Se você não encontrar o que precisa, ou você não tem certeza de como usar os apioadores corretamente, a equipe da sala de leitura está lá para dar uma mão.

A Biblioteca Britânica oferece uma série de filmes que mostra como usar os itens especiais corretamente; mesmo pesquisadores experientes às vezes são surpreendidos ao descobrir que estavam utilizam as obras incorretamente durante décadas. Procure saber na sua biblioteca de preferências se eles oferecem orientações específicas sobre a utilização e conservação das obras.

[artigo original Tips for a Manuscripts Road Trip]

Altmetria para bibliotecários

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Saiu o aguardado livro da Andréa Gonçalves sobre altmetrics. O livro é resultado da pesquisa dela no mestrado e é ótimo porque mostra vários exemplos de aplicação de altmetria na prática, diferente da maioria dos artigos acadêmicos que apresenta somente o conceito.

O livro não foi escrito somente para bibliotecários, mas acho que nós temos aqui uma chance enorme de aprofundar ainda mais nessa coisa de métricas acadêmicas alternativas.

A gente acaba atuando mais ou menos como consultores dentro das discussões institucionais sobre a comunicação científica e a definição do impacto da pesquisa, os professores estão sempre tirando dúvidas com a gente sobre os indicadores de impacto, não é verdade? Quem também lida diretamente com assinaturas de periódicos e hospedagem de conteúdo em repositórios, por exemplo, vai começar a pautar as decisões de aquisição e renovações de assinaturas a partir do volume de conteúdo compartilhado e reverberado na web. Além disso, nós normalmente somos os responsáveis pelas atividades de mediação e treinamento dos usuários em gestão de informação científica e sobre mídias sociais e ferramentas como Mendeley, Google Scholar, YouTube, Slideshare e blogs. Por isso que a Altmetria pode e deve tornar-se uma parte mais comum do ferramental das bibliotecas acadêmicas e especializadas.

O ebook está disponível nas principais lojas online. Vejam aqui o release completo: Altmetria para bibliotecários Guia prático de métricas alternativas para avaliação da produção científica

Como largar um livro

Sou uma leitora constante e esfomeada, ou seja, tenho necessidade de estar sempre lendo um livro ou, como nem sempre consigo controlar a impaciência para começar o próximo da fila, às vezes leio dois ao mesmo tempo. E quando digo “livro” pode ser uma coisa impressa em papel ou uma coisa digital, tanto faz, desde que seja ficção ou qualquer texto sobre assuntos que me interessam: arte, cinema, fotografia, história, política, literatura, mitologia grega.  Também leio textos de interesse profissional, mas esses entram no departamento das obrigações. Ler por obrigação é outro tipo de leitura,  não vale.

Mas também sou uma leitora completamente indisciplinada, caótica e sem-vergonha, do tipo que pula páginas, lê o final antecipadamente e desiste da leitura sem piedade se o livro não está agradando.

Um dia desses escrevi no Facebook sobre como larguei o 1Q84, do Haruki Murakami, no meio do segundo volume, porque o besta do livro abusou da minha paciência, e a amiga Ana Carolina Biscalchin sugeriu que eu fizesse um tutorial de como desistir de livros mainstream sem culpa! Como a culpa é algo que não me atinge facilmente quando se trata de coisas que me aborrecem, levei a sério a brincadeira. Por que não?

O tutorial poderia ser resumido a algo extremamente simples, assim:

Se um livro te aborrecer ou irritar, feche-o e abra de novo no dia seguinte. Pode ser que você apenas esteja num dia ruim. Se continuar te aborrecendo ou irritando, feche-o para sempre, jogue fora ou passe pra frente.

Mas resolvi caprichar para não dar margem a dúvidas, então leiam aí:

Como largar um livro

Muito fácil, não? Se alguém ainda estiver vacilando, faça aí um comentário e eu ajudo a destruir seus escrúpulos.

Eu também, na verdade, tenho os meus. Por hábito e gosto, prefiro não largar um livro só porque a leitura está difícil. Nesses casos eu insisto bastante, e costuma valer a pena, mesmo que demore para terminar e que seja necessário intercalar com outras leituras mais leves. Alguns dos livros que eu mais amo são um tanto difíceis de assimilar e precisam ser lidos várias vezes, em momentos distintos da vida. Ler Guimarães Rosa e Machado de Assis na adolescência é uma coisa, ler depois dos 30 ou 40 é outra. Do Ulisses eu só li uns trechos, porque além de difícil o desgraçado é muito chato, mas ainda mora na minha estante, querendo uma segunda chance. Vou pensar no caso.

Confissões de uma bibliotecária errada

Inspirada pelos Conselhos a um jovem bibliotecário, do Moreno Barros, resolvi contar tudo o que fiz de errado nesta minha longa carreira de bibliotecária. Ou quase tudo, porque em 35 anos a gente comete tantos erros que acaba esquecendo a metade.

Sinceramente, não sei se teria feito menos bobagens “se soubesse o que sei agora” ou se tivesse dado dois segundos de atenção a bons conselhos. Provavelmente não, porque boa parte dos erros eu cometi deliberadamente, sabendo muito bem no que iriam dar, outros simplesmente não pude evitar porque são parte da minha natureza. Como o escorpião da fábula, aquele que matou a rã que o levava nas costas enquanto atravessava um lago.

E observem que estou tratando aqui de carreira não de princípios éticos nem de convicções políticas, universos completamente diferentes que poucas vezes se encontram.

Dito isso, vamos às principais burradas, mais ou menos por ordem de lembrança.

1. Permaneci numa profissão da qual não gosto. É erro primordial, claro, que não inviabiliza uma carreira, mas também não ajuda em nada. Escolhi o curso de biblioteconomia porque era menina e não sabia que droga fazer da vida, como tantos outros jovens. Não pulei fora quando descobri onde me havia metido porque pobre não pode ter essas frescuras de trocar de faculdade. E por aqui acabam as desculpas, já que todo ser humano adulto deve ser capaz de mudar de profissão em algum momento de sua vidinha besta. Eu poderia ter ido fazer outra coisa, sei lá o quê. O problema é sempre o tal “sei lá”.

2. Descuidei um pouco da formação. Um erro inicial costuma provocar reações em cadeia difíceis de controlar, por exemplo, o aperfeiçoamento profissional pode ser um fardo chato para quem não morre de amores pela biblioteconomia. Não estou dizendo que fiquei parada e bocejando esses anos todos, eu estudei, fiz cursos, acompanhei a literatura da área e até participei, com enorme esforço, de congressos e seminários chatíssimos. Mas, como só me interesso por documentação audiovisual, área um tanto carente no Brasil, deveria ter procurado algo interessante para fazer em outro país. Mas não fui. Tive preguiça, medo, pensava que “essas coisas não são para mim” e, bem, talvez não fossem mesmo.

3. Fui um desastre no marketing pessoal. Numa profissão tão cheia de moças boazinhas, ser uma ursa antissocial e desbocada e nem se dar ao trabalho de disfarçar não é bom negócio. Entretanto, apesar do meu jeito inóspito de ser, sempre fiz questão de dividir conhecimentos e experiências com colegas e estudantes que procuram minha ajuda. Por ter estudado a vida toda em escolas públicas e trabalhar numa universidade pública, entendo isso praticamente como uma obrigação moral. Mas, como expliquei no início, estou tratando aqui de carreira. Embora essa minha postura tenha me rendido grande satisfação pessoal e muitas amizades, para fins carreirísticos teria sido mais útil vender consultoria, porque pouca gente dá valor ao que é de graça. A bibliotecária passou um dia todo com você explicando o trabalho dela? Deve ser uma coitada. A bibliotecária cobra uma grana para fazer uma palestra? Puxa, deve ser fera.

4. Confundi as coisas e deixei que minha decepção com a universidade e com a profissão me paralisasse por muito tempo. Amuada, enfiei a cara no trabalho e não fiz mais nada além de trabalhar no meu canto. Quem perdeu com isso, a USP e a biblioteconomia? Não, quem perdeu fui eu, claro.

5. Participei de greves, horror dos horrores! O movimento dos trabalhadores da USP ajudou a melhorar o nível salarial dos funcionários e contribuiu para deter algumas medidas nocivas à Universidade, mas esses são ganhos coletivos. Para a carreira do indivíduo, lamento informar, ser visto como “grevista” ou “gente ligada ao sindicato” é algo bastante ruim. Numa sociedade autoritária e escravocrata como a nossa, o trabalhador que ousa defender seus direitos é considerado como um bandido. Minto: até os traficantes e líderes de facções criminosas são mais admirados entre nós.

6. Fui otária. Defendi gente de caráter fraco, respeitei gente incompetente, fiz favores sem pensar em cobrança, aceitei cargos e responsabilidades que não queria e pior, que me afastaram de tudo o que me interessava de verdade.

7. Fui dura e cruel em alguns momentos. E não pensem que vou dizer que deveria ter sido mais legal. Meu erro foi não ter sido MAIS dura e MAIS cruel em muitos momentos.

Sete erros, que bonito. Sinto que poderia continuar nesta brincadeira por muito tempo, mas dá pena estragar esse número.

Conselhos a um jovem bibliotecário

Dentro de algumas semanas eu completo 10 anos de formado. Já estou em uma descendente profissional no sentido de que não preciso mais de uma conta no linkedin. E o mais importante, é reconhecer as limitações que a constante atualização da área exige e abrir espaço para os bibliotecários mais jovens, torcer que façam coisas novas e boas.

Olhando em retrospecto, muita coisa interessante aconteceu, muitas experiências. Mas o melhor que eu poderia oferecer para a área já fiz, o melhor que eu poderia dizer, já disse. Daqui pra frente, será apenas o trivial. Eu só quero continuar fazendo minhas coisas decentemente na minha bibliotequinha, compartilhar meus tweets e gifs de gatinhos no facebook.

Talvez outros colegas da minha geração despontem como representantes de importantes setores na área: um diretor de uma grande biblioteca aqui, um gestor de sistema ali, uma defensora de uma política importante para a área e assim por diante. Eu sempre falei que a responsabilidade da nossa geração, desses bibliotecários formados entre o final de 90 até 2010, era a transição da biblioteca em papel para a biblioteca plenamente digital. O fim dos catálogos de ficha. E salvo pequenos percalços, cumprimos bem esse papel.

Passados esses anos e olhando para trás, pensando no meu eu calouro de faculdade, será que existe uma fórmula para uma carreira decente? Profissionalmente falando, que conselhos você daria a si mesmo aos 18, 20 anos? Foi essa pergunta que fiz aos colegas no facebook e acho que é importante dividir aqui, não só pra servir aos futuros bibliotecários, mas também como nossa chance de fazer a avaliação e auto-crítica profissional.

Particularmente, além de mantras óbvios como trabalhar duro e assumir riscos, eu acredito muito em sorte. Não a sorte no estilo auto-ajuda, mas ei, várias cagadas aconteceram comigo, e não dá pra desconsiderar. Uma das mais importantes foi ter me formado justamente em um período que o país estava fervendo economicamente. Várias bibliotecas estavam sendo construídas do zero. Carreiras de internet com nomenclaturas que dois anos antes nem existiam, estavam explodindo. Estar no lugar certo, na hora certa é mais sorte do que preparação. Cagadas acontecem. Saiba tirar proveito.

Bem, muitas dicas poderiam ser dadas aos jovens bibliotecários. O post do facebook está lá para sua apreciação, com diversos conselhos, muitos que escritos de diferente formas, transmitem a mesma ideia. Separei aqui aqueles com que mais concordo:

Suzana Huguenin: Faça amizades na faculdade, você poderá precisar delas profissionalmente depois

Louise Arruda: aproveite o máximo que a faculdade te oferecer, matérias de outras áreas que te interessem, cursos de extensão, projetos de pesquisa, cursos de línguas mais baratos, possibilidades de intercâmbio, enfim, não tenha pressa pra terminar o curso – absorva o máximo que puder da universidade.

Amanda Moura: 1)Estude inglês. 2) Você não precisa ser um programador, mas precisa aprender pelo menos a usar bem a tecnologia. 3) Faça estágios em empresas da área que você gostaria ou pretende trabalhar. 4) O estágio só existe porque vc faz faculdade. Portanto, não falte aula ou deixe de estudar pelo estágio. 5) Se achar o curso chato, achar que poderia fazer outra coisa na vida, tranque o curso. 6) Se tiver intenção de continuar na área acadêmica, seja bolsista de iniciação científica. 7) Aproveite a faculdade, beba com os amigos, tenha conversas de corredor, interaja com pessoas de outros cursos, participe de ENEBDS E EREBDS. Essas coisas ajudam mais a se colocar no mercado que puxar saco de professor.

Gustavo Henn: Leia todos os livros que puder

Angelina Pereira: Não encare o estágio como um emprego único e eterno. Vivencie essa experiência rica em outras instituições

Ana Maranhão: Em pouco tempo tudo que aprenderam estara ultrapassado ou parcialmente ultrapassado. Estejam conectados, mantenham-se atualizados, leiam blogs, estejam permanentemente abertos a novas tecnologias.

Heres Emerich: Não ligue para notas, elas não ligam pra você. Ser aprovado é importante. Faça contatos na área na sua cidade e no resto do Brasil e do mundo se puder. Faça mais contatos ainda com a galera das outras áreas. Não subestime a importância do bar. Não subestime a importância da estrada. Esforce-se para entender como sua instituição funciona (burocrática e culturalmente), lute pra mudar o que achar errado. Depois esforce-se para entender como seu país funciona (burocrática e culturalmente), lute com todas as forças para mudar o que achar errado.

Anelise Duarte: Seja bolsista, faça dos seus professores não só seus mestres, mas seus futuros colegas, amigos de profissão. Escreva. Sempre anote as suas ideias, elas podem ser muito úteis num futuro próximo. Participe dos eventos estudantis. Eles abrem portas e abrem as mentes tb. Seja membro ativo do diretório acadêmico, saiba quem te representa. Estude, leia, ouça música e acredite que você vai aprender muito mais do que guardar livros.

Carla Rech: encare o interior do país como possibilidade de trabalho (tem muitas boas vagas no interior que são pouco disputadas); se tiver a oportunidade faça intercâmbio, com o tempo suas obrigações aumentam e a chance de viver essa experiência diminui

Carla Castilhos: pensa bem antes de pegar qualquer estágio, conversa com os colegas pq tem uns vários que são furada; faça cursos e mais cursos e aproveite os descontos para estudantes. e o mais importante: a faculdade passa, a profissão é o que fica. se o curso é xarope não necessariamente o emprego depois vai ser

Zé Estorniolo: Troca de curso!! rss

Dora Steimer: Os conselhos nunca mudam. As pessoas mudam.

Com certeza dá pra destrinchar mais esses conselhos. Eu ainda tenho o projeto, trivial, de escrever o “tudo que você sempre quis saber sobre biblioteconomia mas tinha vergonha de perguntar”. Estes conselhos farão parte de um dos capítulos finais.

Dar conselho é mole, se todos fossem bons, ninguém daria de graça. Mas talvez essa seja a coisa mais importante da nossa pequena classe profissional: dá pra conhecer as pessoas de verdade, estreitar laços, estabelecer redes, fazer amizades, confiar nos seus conselhos. Eu não posso dizer o nome de todas as pessoas que me ensinaram, me apoiaram, trabalharam comigo e me aturaram. Mas eu gostaria de agradecer a todos elas. A profissão tem os seus dias de merda, repletos de gente acéfala. Mas tem também outros dias de glória, feitos por pessoas do bem, bibliotecários e usuários, que fazem valer a pena.

Work hard, play hard. Get lucky.