Freud versus as requisições de obras

Enquanto os colegas do blog olham para o futuro, vou olhar um pouco para o passado. Mas quem disse que ao olhar para o passado não podemos tirar dados e fatos para remoldar o futuro? É isso que pretendo fazer contando uma história.

 

Tudo começa na Sala de Leitura Herculano de Freitas (atual Circulante), na Biblioteca Mário de Andrade, no ano de 2007. Faltavam alguns meses para se iniciar a grande reforma que mudaria aquela Biblioteca e o estado físico do prédio realmente era deprimente: pisos rachados, vazamentos e infiltrações para todo lado, mobiliário acabado, acervo com pragas e precisando de encadernação e restauro. A falta de pessoal apertava e a estrutura administrativa não existia, a improvisação reinava ali. Para tristeza de todos até chegou a nós uma crítica de um aluno do curso de Biblioteconomia da ECA-USP que dizia que a Mário havia parado na Idade Média.

Exatamente naquela época eu trabalhava como bibliotecário de referência, e fazia o horário das 13 às 21 horas. O trabalho de referência era muito estimulante, mas depois das 18 horas a coisa ficava tenebrosa. A Mário (abreviação carinhosa) ficava bem vazia dali até o fechamento, e naquele dia deviam ter umas 10 pessoas (cabiam 120!), e entediado que estava, pois não havia muito o que fazer (os dois únicos computadores do salão só acessavam o horrível (ainda é!) catálogo eletrônico e o celular não tinha Hungry Birds e muito menos Internet) eu costumava xeretar a vida dos leitores, e ficava tentando identificar o que liam, ou sentava no mesão de referência e ficava anotando no caderno de causos e ocorrências os livros solicitados e não comprados, os assuntos com resultados negativos ou  minhas reclamações e ideias de mudanças.

E naquele dia, eram umas 19 horas, e como sempre, eu acabara de voltar do jantar (normalmente a janta era um lanche de pernil no Bar do Estadão que fica ali perto), quando estava andando por entre as quase 60 mesas de usuários existentes no salão, parando aqui e ali, levantando-as e tentando deixá-las umas atrás da outras na posição certa (toque bibliotecário) que vi aquele usuário sentado folheando os livros. Folheando quase sem parar. Continuei observando e logo depois, ele se levantou, foi até o balcão de entrega de livros, os entregou junto com duas requisições de livros, voltou e aguardou pela chegada de mais livros. Quando chegaram, ele recomeçou a folheação. Mais um tempo passou, ele se levantou novamente e fez tudo de novo.

Não resisti à cena toda e fui lá conversar com ele. Ao chegar perto pedi licença e perguntei:

– O que você está procurando?!

– Preciso localizar dois artigos do Sigmund Freud que estão nas suas Obras Psicológicas Completas que um professor pediu….

– Você não sabe o assunto e o volume ou tem alguma outra informação?!

– Não. Ele parou, olhou num papel todo amassado e leu os títulos dos artigos. Como sempre acontecia na referência, nem eu nem ele entendemos direito do que se tratavam aqueles títulos enormes e sem sentido algum para leigos.

– Realmente, você terá que olhar todos os volumes. São quantos?

– 24.

– E quantos você já checou?

– Olha, estou no sexto volume. Eu não queria reclamar, mas  quando termino de olhar dois, tenho que pedir mais dois e os livros não descem tão rápido. Vai demorar um bocado.

A situação da pobre criatura era crítica, pois a Mário tinha um rígido sistema de regras, sendo as primordiais naquele momento:

1- Cada leitor só podia solicitar 2 livros de cada vez.

2- Os pedidos eram feitos através de um formulário de requisição individual para cada obra. E em cada pedido era preciso preencher os dados pessoais, título e localização da obra.

Isso significava que aquele ser ainda precisava escrever mais 18 vezes as mesmas coisas, mudando apenas a localização da obra.

 

Era óbvio que eu já sabia daquelas regras, e não concordava com elas, mas como era novo na instituição eu meio que deixei estar… até aquele dia, claro!

Diante da situação, como era (sou?!) meio sanguíneo, enlouqueci e o espírito do Ranganathan desceu sobre mim martelando na cabeça aquele trecho da lei mais aterrisadora da biblioteconomia: poupe o tempo do leitor, poupe o tempo do leitor, poupe o tempo do leitor….

Disse ao leitor para aguardar que ia resolver o problema e fui correndo atrás de um carrinho. Encontrei um bem velho e barulhento e avisei as funcionárias do monta carga (elevador de livros da biblioteca) que iria até o oitavo andar pegar toda a coleção do Freud para um usuário consultar tudo de uma vez. A dona Valmira e a Silvania arregalaram os olhos e deixaram o jovem bibliotecário subir, não sem antes avisar que eu estava descumprindo uma regra e que no dia seguinte teria treta (elas falaram isso com outras palavras, claro….).

Bufando, entrei num dos velhos elevadores e fui buscar os livros. Quando os trouxe, a fim de evitar mais tretas (já pensou na zona de outros usuários querendo o mesmo? sem as mesmas justificativas que aquele?!) chamei o usuário e o deixei consultando as obras em uma sala anexa.

Ele ficou muito agradecido, e eu e as “meninas/os” (a Silvania, a Valmira, a Mazé, o Siloni, o Dudu e mais dois colegas que não lembro o nome) nos sentimos no paraíso e não naquela instituição com jeitão de massa falida.

 

Antes do fim, uma pausa para algumas explicações.

Como muitos devem saber, na BMA uma boa parte dos livros ficam na torre e no período citado o atendimento realizado na Sala de Leitura se referia ao que se chama Coleção Geral de Livros, e estes livros ficavam do sexto ao décimo quarto andar. Como haviam poucos funcionários e muitos eram idosos, se tentava evitar muitos vais e vens para não cansar os velhinhos que já reclamavam de dores em quase todo lugar. Além disso, as estantes não eram (e não são) muito ergonomicas, e pegar obras próximo ao chão era (é!) um saco e muito complicado para aqueles senhores e senhoras.

A administração tinha comprado milhões de formulários, e num local onde os recursos eram escassos ou simplesmente não existiam (diferente de hoje, a BMA ainda não tinha recursos próprios, pois acabara de deixar de ser uma espécie de “biblioteca ramal grande” e se transformara finalmente em um departamento)  deixar de utilizar aqueles formulários e criar outros menos grotescos, mesmo que em benefício do usuário, era uma heresia!

Apesar de certa beleza, o tipo de arquitetura da BMA também era (é!) um problema. Ela foi pensada em uma época que o acesso livre às estantes não era uma premissa fundamental como é hoje.

 

Enfim, tal sistema de funcionamento fazia com que problemas surgissem a todo momento e a razão de existir de uma biblioteca, que são seus usuários, eram submetidos a regras e modos de fazer que claramente os faziam perder tempo e se afastassem da biblioteca não somente por causa da situação caótica causada pelo descaso dos políticos (e também dos profissionais bibliotecários, diga-se de passagem) que deixaram uma instituição chegar naquele ponto.

Depois daquele dia ainda tive vários enfrentamentos com as regras da biblioteca e com os colegas, me exasperei e se exasperaram comigo, mas olhando para o tempo que passou vejo que valeu a pena. Muitos daqueles colegas cansados e desmotivados estiveram ao meu lado durante e após a reforma que durou longos 3 anos, e conseguimos avançar bastante, transformando o que eu chamava de uma biblioteca morta mas não enterrada, em uma biblioteca estimulante, com muitos desafios, inclusive uma diretoria atual meio cabeçuda (não que os diretores anteriores e eu, auxiliar deles, não o fossemos também em alguns momentos).

 

Espera aí! Você quer saber o que aconteceu com as requisições?!

Tomei ódio delas e durante a reforma as reencontrei em caixas e mais caixas com milhares delas. E admito que, escondido, durante os três longos anos de reforma, dei fim a muitas delas, mas acredito que em alguma salinha da torre elas ainda esperam o dia de retornarem ao uso e assombrarem a vida dos leitores da Biblioteca, que hoje, podem pedir livros à vontade, mas sem exageros, claro.

 

Revisão por pares em debate: corre que dá tempo (ou não) #peerreview

O Departamento de Biblioteconomia e Documentação da USP/ECA realizou a 5ª edição da série “O Estado da Arte”, com objetivo de propiciar uma visão atualizada de  temas relevantes para os campos da Informação/Comunicação. O instigante assunto discutido no último dia 19 de maio foi “Prostituição Acadêmica: o Modelo Brasileiro de Produção Científica”, fruto da tese de doutorado do Moreno Barros. Quem perdeu pode assistir ao vídeo postado pelo Moreno no seu canal do YouTube.

Dentre as várias discussões estava em cheque o modelo brasileiro de produção e avaliação científica. A avaliação por pares, por exemplo, foi discutida e para os interessados sobre o assunto ficou aquela vontade de questionar mais. Pois bem, ainda ontem cantei “maio, já está no final, o que somos nós afinal, se já não nos vemos mais, estamos longe demais…” e com o alinhamento dos planetas, e o início de junho, hoje um dos assuntos bem discutidos na minha timeline do Twitter era #peerreview e tão logo percebi do que se tratava, fiz um rápido mapeamento “a la mad max” pra ver quem estava falando o que com quem e juntei tudo no NodeXL.

 

GraphImage

Se você correr ainda dá pra companhar e participar da discussão pela hastahg  #peerreview corre gente! E se não der, veja o que já passou. É uma boa oportunidade para acompanhar uma discussão atual sobre o tema, conhecer sugestão de textos, pesquisas, apresentações bem como passar a seguir perfis institucionais e pessoais que publicam sobre o tema. A Figura abaixo mostra os termos mais frequente na descrição da Bio do perfil dos usuários que estão participando do debate.

Perfil Bios

Depois, sendo possível, faço um update com dados sobre o conteúdo, afinal, todos sabem, “The winter is coming” !

Biblioteconomia: entre a felicidade e a tristeza por graus de separação

A clássica teoria dos seis graus de separação nasceu de um estudo científico, que criou a teoria de que, no mundo, são necessários no máximo seis laços de amizade para que duas pessoas quaisquer estejam ligadas.

Em tempos de ubiquidade, internet das coisas, a noção do que pode ser interconectado mudou drasticamente a forma de enxergarmos fenômenos em rede. Mas a teoria vigora e a todo vapor, inclusive sendo aplicada na web com inúmeras possibilidades (inclusive entre áreas de conhecimento, planos e projetos, assuntos, sentimentos e por aí vai…).

Uma delas que me peguei pensando esse mês e que pode auxiliar nas crises existências na área não auxilia em nada é, a qual distância estamos da felicidade ou da tristeza na Biblioteconomia? Obstinado a encontrar uma possível resposta passei semanas com os mais doutos conhecedores do sentido da vida vasculhando a internet e descobri uma aplicação* que pode ajudar. Após conhecer seu complexo funcionamento e as condições exigidas (ter um coração puro, desviar-se do mal, blá, blá…) para quem faz as perguntas não exitei:

“Uma vez na Biblioteconomia, a que distância estamos da tristeza e da felicidade” ao que obtive a resposta:

BSF1

 

BSF2

 

Como podem perceber, a distância é a mesma. Trata-se de três degraus, é como dizer que você está a três passos para ser feliz ou triste na Biblioteconomia. Mas notem que para se chegar à felicidade é necessário passar pela CDD!

Só não direi que qualquer semelhança é mera coincidência porque isso é ciência. E é por isso que I Fuck… <3 Science!

(*) Solução baseada em artigos da Wikipédia. Para usos acadêmicos de análises de 6 graus de separação de artigos da wikipédia, acesse: Degrees of Wikipedia.

Os melhores podcasts que ouvi até 2013

Seguindo as listinhas do William Okubo e do Cauê Araújo, resolvi trocar ideias sobre podcasts e apresentar alguns dos meus programas favoritos.

Podcasts são uma espécie de evolução do bom e velho programa de rádio: arquivos de áudio distribuídos pela internet usando feeds RSS. Você pode fazer streaming ou baixar os episódios para ouvir depois, no computador ou num dispositivo móvel.

Me apaixonei pelos podcasts em 2008 (sdds Tweet Me Harder!). Para alguém como eu, que não pode nem dar aquela olhadela básica no Meia Hora do vizinho no ônibus sem ter náuseas, esses programinhas viraram a melhor opção para passar horas no trânsito sem morrer de tédio.

Acho que podcasts podem ter bastante utilidade para bibliotecários. Pessoalmente, claro, para se atualizar, aprender, estimular a mente e, por que não, se divertir e aliviar o estresse (ser bibliotecária mal-humorada só é legal no Facebook, né?).

E profissionalmente também, tanto para atualização pessoal quanto como mais uma ferramenta no arsenal de referência. Se o usuário está pesquisando sobre questões éticas e morais no humor, por que não indicar também o episódio do Philosophy Bites sobre o tema? A questão é sobre Ciências Sociais? Sem problemas. Na área das ciências exatas e biológicas, há boas opções em português para gostos variados – como Dragões de Garagem, #SciCast, e Fronteiras da Ciência. Em espanhol, o Ideómica de Luis Quevedo apresenta uma boa variedade de assuntos. E eu não poderia deixar de mencionar o StarTalk, do astrofísico, webcelebridade e meme Neil DeGrasse Tyson.

Numa biblioteca escolar, por que não aproveitar a popularidade do Nerdcast, que frequentemente aborda temas históricos e científicos? Ou usar o We Can Cast It pra iniciar uma discussão sobre feminismo?

Ou ainda, aproveitando a proposta do Derbi Casal sobre atividade editorial em bibliotecas: por que não desenvolver seu próprio podcast, apresentando histórias da comunidade, iniciativas da sua organização, e/ou temas de interesse para seus usuários? Estas dicas do YouPix podem ser um bom ponto de partida.

Segue minha seleção personalíssima de podcasts favoritos e recomendados, com indicações de alguns episódios para quem quiser experimentar. Me limitei a cinco aqui, mas dei um jeito de citar quase tudo que ouço aí em cima :-). O idioma do áudio está indicado entre parênteses:

  • Radiolab (inglês): Radiolab é um programa sobre curiosidade. É também o podcast que eu levaria comigo para uma ilha deserta. Os apresentadores, Jad Abumrad e Robert Krulwich, são fantásticos. A produção é impecável, os temas são sempre interessantes. Imperdível. Um dos meus favoritos é o episódio Famous Tumors (Cânceres Famosos). Para algo mais poético, a dica é The Distance of the Moon – um conto de Italo Calvino lido pelo ator Liev Schreiber. Para ver uma das apresentações ao vivo do programa, que lotam teatros nos EUA, clique aqui.
  • Radio Ambulante (espanhol, alguns episódios disponíveis em inglês): produzido pelo jornalista e escritor Daniel Alarcón, Radio Ambulante conta histórias da América Latina – da mulher misteriosa que está matando motoristas de ônibus em Juárez, México aos irmãos argentinos que construíram seu próprio avião; passando pela partida de futebol que envergonhou o Chile em 1973.
  • Freakonomics Radio (inglês): comandado por Stephen Dubner, co-autor do livro de mesmo nome (seu companheiro Steve Levitt é convidado regular do programa), Freakonomics Radio explora o lado oculto de tudo por uma perspectiva econômica. Recomendo The Upside of Quitting (o lado bom de desistir), um dos episódios mais populares e que tem a ver com a minha trajetória pessoal – assunto pra outro post, um dia…
  •  Zuim (português): podcast semanal especializado em música brasileira, Zuim mistura ritmos e estilos em três diferentes temas: “Essa é Pra Tocar no Rádio”, “Brasil Instrumental”, e “Leitura Musicada”. Neste último, as músicas são acompanhadas por textos de historiadores, críticos e compositores (quem aprecia esse tipo de análise vai gostar também da série Classicamente do site VivaMúsica!). Qualquer episódio é um bom lugar pra começar.
  • Welcome to Night Vale (inglês): não, você não vai aprender nada com este podcast de Joseph Fink e Jeffrey Cranor. Não importa: Welcome to Night Vale é uma das coisas mais interessantes, inteligentes e divertidas que eu já ouvi. À primeira vista, é só um programa de rádio comunitária de uma pequena cidade no meio do deserto. Mas coisas estranhas acontecem em Night Vale… Um dos candidatos à prefeitura é literalmente um dragão de cinco cabeças, e outra é uma mulher idosa sem rosto que mora secretamente na sua casa. A Biblioteca Pública não é um lugar seguro (um repelente de bibliotecários é recomendável para evitar ataques). A maior estranheza de todas: nada disso é estranho para os cidadãos de Night Vale. O grande trunfo de Welcome to Night Vale é o locutor/narrador, Cecil Gershwin Palmer (vivido por Cecil Baldwin). Se você gosta de uma boa história, vale muito a pena ouvir!

Bem, estas são minhas dicas. E vocês, curtem podcasts? Que programas recomendam? Conhecem iniciativas de bibliotecas nessa área?