Vamos falar de Biblioteconomia e Ciência da Informação?

No dia do bibliotecário resolvi trazer uma discussão que considero importante: as diferenças entre Biblioteconomia e Ciência da Informação. Vejo muita gente rivalizando cursos, brigando por qual é melhor, mas sentar e conversar que é bom não tinha visto nada. Então fiz algumas pesquisas e gravei, humildemente, esse vídeo para começarmos a conversar sobre o assunto.

Acho importante discutir e saber realmente o que diferencia um do outro. É um passo para nos enterdermos melhor e fortalecer nossa imagem profissional, caminhando para o reconhecimento.

Okubo para o Movers and Shakers, votem!

O Movers & Shakers do Library Journal é uma premiação dessas “funcionário do mês”, ou melhor ainda, de bibliotecários escolhidos por seus colegas como os que mais “sacudiram e inovaram” o cenário das bibliotecas e da profissão no último ano. Eu sempre acompanhei a eleição e acho uma boa apresentação americana do que considero tarefa das mais difíceis na nossa área: identificar talentos e mapear as boas práticas.

De uns anos pra cá eles passaram a aceitar indicações internacionais, e a Soraia Magalhães foi a primeira representante do Brasil a receber a premiação. Para o ano de 2015 a Soraia e eu achamos que seria legal reforçar o reconhecimento de um colega, que há muito vêm contribuindo para a área: William Okubo.

Acho difícil algum colega de profissão não conhecê-lo, mas se por alguma razão este for o caso, William já foi bibliotecário de referência nos ônibus-bibliotecas de SP, participou da criação da Associação de Profissionais da Informação (ABRINFO) e largou recentemente a Biblioteca Mario de Andrade, onde trabalhou por muitos anos, para acompanhar projetos culturais voltados a jovens carentes. Agora ele faz o acompanhamento desses projetos financiados pelas leis de fomento à cultura da cidade de São Paulo, em especial do Programa VAI. O trabalho também inclui sua colaboração nas discussões para implantação de novos projetos e editais de fomento na mesma área, além dar continuidade na organização da informação e conhecimento produzidos nos 10 anos de Programa. Toda essa experiência foi compartilhado em sua apresentação no BiblioCamp, uma das melhores do dia. Ele também foi homenageado recentemente pela Assembléia Legislativa do Estado de São Paulo na sessão solene em comemoração do Jubileu de Ouro dos 50 anos da Regulamentação da Profissão de Bibliotecário.

Além de tudo isso, da atuação profissional exemplar e ser uma da figuras mais atuantes do cenário nacional, William conecta pessoas, e pra mim essa é a principal contribuição dele para uma área que, embora pequena, possui mais desconexões do que união.

Neste ano de 2015 talvez o Cristian Santos tenha sido o bibliotecário que mais sacudiu e inovou, mas meus votos vão para William Okubo pelo conjunto da obra.

Para fazer a indicação é necessário preencher este formulário. As perguntas estão em inglês mas são simples. Existem dois campos principais, nominee (a pessoa nomeada, William) e nominator (quem está nomeando, você). Basta preencher os campos indicados, com nome, endereço, etc. Eu deixo abaixo uma cola que vocês podem usar pra dar o voto ao William. A votação encerra na sexta-feira, dia 6/11. Então façam logo esse gesto de reconhecimento profissional.

5 lições que as bibliotecas podem aprender com o BuzzFeed

[texto de Christina Manzo, publicado no Weave]

Desde seu lançamento em 2006, o BuzzFeed se tornou uma instituição da internet, ao reconhecer e aproveitar o ciclo de vida insaciável da mídia viral. A ideia por trás do site é relativamente simples: reunir conteúdo de tendências de toda a web (por exemplo, notícias, fofocas de celebridades, entretenimento, quizes) e organizá-lo em um formato que seja curto e atraente.

O patrimônio líquido da BuzzFeed Inc. é estimado 850 milhões de dólares. E de acordo com uma auditoria de analytics, o site recebeu 146 milhões de visitas somente em maio de 2015 (visitas online e mobile). Em contraste, a Biblioteca do Congresso, a mais antiga instituição cultural federal nos Estados Unidos, atraiu pouco mais de 1 milhão de visitas no mesmo período.

O modelo de negócios do BuzzFeed depende do potencial de compartilhamentos, algo que possui em comum com as bibliotecas de hoje, e por essa razão os designers de sites de biblioteca têm a oportunidade de aprender com o esmagador sucesso do BuzzFeed. Aqui estão as principais lições que designers de sites de bibliotecas podem aprender com o BuzzFeed.

1. Formatação

O que eles fazem:
Estatisticamente falando, se você clicou sobre este artigo você está talvez involuntariamente ciente de um dos recursos mais utilizáveis do BuzzFeed: sua formatação. Por exemplo, o título deste artigo possui exatamente oito palavras. Isto não é acidental. Estudos relatam que manchetes de oito palavras têm um CTR (ou click-through rate) que é 21% maior do que aquelas que não tem. Além disso, a utilização de um número ímpar no título é também estatisticamente favorável, uma vez que aumenta o CTR em 20%.

Uma vez a manchete estatisticamente favorável esteja escrita, o BuzzFeed emprega o método “Mordida-Lanche-Refeição” de coleta de informações para se certificar que o usuário não será oprimido por conteúdo em sua página inicial (ver fig. 1). O Buzzfeed fornece uma manchete (a mordida), uma sinopse (o que aumenta o CTR em 27 por cento) e uma descrição curta, coloquial do artigo (o lanche), que é o que um leitor precisa para tomar uma decisão sobre se deve ou não ler o artigo (a refeição).

O que as bibliotecas podem fazer:
Um calendário de eventos da biblioteca é o teste ideal para este método. Há uma grande quantidade de informação que tem de ser transportadas em uma pequena quantidade de espaço; no entanto, muitas vezes os usuários sofrem a sobrecarga de informações. Idealmente, os usuários serão capazes de percorrer uma grande quantidade de eventos para ver o que é interessante ou que lhes é aplicável. Um exemplo de uma biblioteca que faz isso bem é a Salt Lake City Public Library (ver fig. 2).

Esta sinopse inclui as “mordidas” para título, hora, data e local e o “lanche” da descrição do evento.

2. Personas

O que eles fazem:
O BuzzFeed tem algo para todos, porque os seus artigos são baseados em diferentes personas. Em web design, uma persona é “um indivíduo com dados demográficos específicos e outras características. Cada persona é um composto de características de pessoas reais que seu grupo representa.” (Redish, 2012).

Exemplos de como o mesmo site pode recorrer a grupos opostos de personas.

O BuzzFeed cria uma grande quantidade de conteúdo direcionado para personas, que muitas vezes é contraditório (como visto acima); no entanto, ele dá ao leitor uma experiência mais personalizada com o site. Mesmo se o leitor não concorda com todos os itens na lista, as personas são muitas vezes suficientemente gerais para garantir, pelo menos, alguma medida de sucesso.

O que as bibliotecas podem fazer:
Além de sua utilidade geral no web design da biblioteca, personas são ideais para oferecer sugestões aos leitores, porque elas agrupam os usuários baseados em livros, gêneros e autores que já gostam. Tradicionalmente, esta tarefa tem sido realizada por um único bibliotecário durante uma entrevista de referência, mas o que é único sobre o método do BuzzFeed é que ele permite a auto-categorização (ou seja, se eu me identifico como um nerd, é provável que eu leia um artigo intitulado “27 livros que os nerds vão amar”).

Usando personas para sugestões ao leitor é algo que o próprio BuzzFeed já está fazendo. Por exemplo, entre meados de maio e junho de 2015, o Buzzfeed publicou as seguintes listas temáticas: 23 livros que todos os fãs de futebol devem ler, 47 livros que todo universitário deve ler, 9 quadrinhos de Avengers baseados no seu personagem favorito, 16 livros perfeitos para preencher o vazio deixado por Mad Men, 29 livros que você definitivamente deve levar para a praia neste verão e 26 livros para inspirar sua próxima viagem épica de verão.

3. Engajamento

O que eles fazem:
BuzzFeed permite que os usuários cataloguem sua coleção usando palavras-chave “livremente escolhidas”, votando em sua reação a uma história ou lista. Embora essas palavras-chave (ver Fig. 4) seriam julgadas por qualquer catalogador profissional como “tags de lixo”, elas ajudam a envolver o leitor no processo de coleta de informações e permitem aos usuários a encontrar o conteúdo que eles querem rapida e facilmente.

Essas categorias são coloquiais o suficiente para atrair a atenção, mantendo alguma medida de eficácia.

Além disso, o BuzzFeed incentiva os usuários a votar no conteúdo que eles mais tarde transformam em artigos. Por exemplo, a votação de hoje sobre quais livros ler na praia pode se tornar a lista de amanhã dos melhores 23 livros pra ler neste verão. Isso garante que o grupo demográfico vê o conteúdo relevante que eles próprios podem ter ajudado a criar.

O que as bibliotecas podem fazer:
Folksonomias são surpreendentemente precisas. Num estudo de 2015, Manzo et ai. descobriram que os participantes pesquisados, bibliotecários e leigos, eram capazes de igualar metadados criados profissionalmente (ou exatamente ou muito perto) cerca de 88 por cento das vezes. No entanto, permitir o controle completo por parte dos usuários não é uma meta realista para muitas bibliotecas. Em vez disso, folksonomias devem ser utilizadas para complementar os metadados que já existem, criados profissionalmente. Um grande exemplo dessa justaposição ocorre na interface do catálogo do Bibliocommons, que permite a coexistência de listas criadas pelo usuário e taxonomias profissionais, em uma única interface facilmente pesquisável.

O próximo passo para as bibliotecas que empregam este tipo de modelo taxonômico misto é encontrar maneiras novas e inovadoras para transformar essas informações em conteúdo, exposições e outros meios de engajamento. Onde o BuzzFeed simplesmente transforma esses dados criados pelo usuário em conteúdo, as bibliotecas têm o potencial para explorar maneiras criativas para que os usuários interajam com esses dados. Grandes exemplos disso incluem a exposição Origins do Chinese American Museum e do App Library da Digital Public Library of America.

4. Oportunidade

O que eles fazem:
Outra opção de design simples que mantém o BuzzFeed relevante é a sua apresentação cronológica. Sua home page é especificamente projetada para mostrar aos usuários o que é burburinho, naquele momento particular. Isso mantém o conteúdo relevante e permite mais tráfego, conforme o que os visitantes do site veem às 9 horas será diferente do que ao meio-dia.

Não apenas o home do Buzzfeed conta com cronologia, mas também tem uma sub-página inteira dedicada a o que está quente no momento.

O que as bibliotecas podem fazer:
Pontualidade pode ser um assunto complicado com os sites de biblioteca. Grande parte da informação em um home page de biblioteca deve permanecer estática por uma boa razão (por exemplo, a localização da biblioteca, horário de funcionamento), mas mantendo todo o site estático, estamos perdendo a chance de envolvermos em uma discussão com nossos usuários sobre as questões que importam a eles.

A boa notícia é que muitos catálogos de bibliotecas já estão usando esse recurso, destacando os livros, filmes e outras mídias em sua coleção que foram recentemente emprestados ou comentados. A melhor notícia é que as bibliotecas têm a oportunidade de ampliar o uso dessa estratégia para incluir outros conteúdos online.

Bibliotecários de referência são normalmente as primeiras pessoas a serem consultadas quando os usuários estão pesquisando um novo problema ou assunto. Muitas bibliotecas já mantem controle sobre o número e tipos de perguntas, mas muitas delas avaliam esses dados apenas ao final de um ano. Se as bibliotecas realizarem a análise de dados em tempo real, os bibliotecários na linha de frente podem obter uma imagem mais clara das questões que o público se preocupa naquele momento, e equipá-los melhor para responder a perguntas do público e promover o conteúdo da web em tempo útil para antecipar algumas das essas perguntas.

5. Potencial de compartilhamento

O que eles fazem:
Setenta e cinco por cento de todo o tráfego de BuzzFeed vem de pessoas que compartilham seu conteúdo em plataformas de mídia social como Facebook e Twitter. Parte disso é fácil de explicar: eles tornam esse processo mais fácil, com uma única etapa, incorporando plug-ins de mídia social em cada página. A resposta mais complexa é que eles têm o conteúdo que as pessoas inerentemente desejam compartilhar. Este conceito envolve todos os quatro pontos anteriores. Seu conteúdo é compartilhável porque é utilizável, interativo, personalizado e em tempo oportuno. Todos estes quatro conceitos são as pernas da mesa proverbial que mantêm o BuzzFeed compartilhável. Sem a viralidade da marca, toda a operação iria desmoronar.

BuzzFeed oferece todas e quaisquer opções de compartilhamento em uma barra, visualmente legível.

O que as bibliotecas podem fazer:
Potencial de compartilhamento é outro conceito que pode ser difícil em termos de conteúdo de biblioteca, devido ao fato de que a maior parte da vida online da biblioteca gira em torno do seu espaço físico. Em razão deste ponto de vista, muitas oportunidades para engajamento online tendem a cair no esquecimento. Há duas soluções diferentes que podem ajudar uma biblioteca a engajar mais como uma entidade online: uma tradicional e outra um pouco mais contemporânea. O método tradicional é incentivar os usuários a interagir com a biblioteca digital (ou seja, tê-los confirmados em um evento no Facebook).

A solução mais contemporânea é ter os usuários interagindo com a biblioteca como uma entidade digital. Grandes exemplos disso são os hackatons, onde o público se reúne ao longo de alguns dias para projetar e construir algo como um aplicativo ou corrigir um problema de codificação. Se você estiver interessado em aprender mais sobre hackatons, consulte o guia DPLA de como fazer.

TL; DR

Modelo de negócios do BuzzFeed depende de pessoas que querem compartilhar o conteúdo do site. As bibliotecas também contam com esse modelo para promover o uso da mídia em suas coleções, mas muitas vezes esse conceito é aplicado somente para a biblioteca em um sentido físico. A fim de tornar a biblioteca compartilhável em um nível digital, o conteúdo deve primeiro ser utilizável, interativo, personalizado e publicado em tempo oportuno. Atualmente, o conteúdo da biblioteca cai muitas vezes sob a categorização coloquial de “TL; DR” (ou too long, didn’t read – “muito longo, não li”, taquigrafia da internet comum para algo chato). Para mudar isso, precisamos repensar nossa estratégia online de ser simplesmente uma extensão do edifício físico para uma entidade separada, porém relacionada, que permite aos usuários interagir com a biblioteca de formas inovadoras. Ao reconhecer que há algo a ser aprendido com o modelo de negócios de Buzzfeed, as bibliotecas podem descobrir o que torna a media “viral” e usá-la para sua vantagem.

Qual é a finalidade do trabalho bibliotecário?

Durante meus cursos costumo oferecer uma apresentação introdutória contextualizando as mudanças em nossa área traçando uma paralelo com as transformações da economia industrial para a economia da experiência. Um dos objetivos é evidenciar que a miopia de marketing presente em alguns em discursos sobre atuação profissional podem ofuscar reais oportunidades de atuação.

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Quando a formação do bibliotecário era específica para atuação em bibliotecas o marketing da área estava embutido na natureza de cada biblioteca. Ou seja, a finalidade da atuação profissional poderia ser compreendida relacionando o nosso código de ética (preservar o cunho liberal e humanista de sua profissão, fundamentado na liberdade da investigação científica e na dignidade da pessoa humana) que orienta nossas práticas a prestação de serviços para as pessoas, com os tipos de bibliotecas, que as direcionam para comunidades e necessidades pré-definidas. Ou seja, os livros, documentos e as técnicas eram meios utilizados para maximizar o acesso e prover experiências intelectuais positivas em cada tipo de biblioteca.

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No entanto a partir fase da economia de serviços acompanhamos uma mudança da formação na área orientada para o problema da informação. Bibliotecários passaram também a denominar-se gestores de unidades de informação e/ou mediadores da informação. A miopia de marketing esta na perspectiva de que a informação é a finalidade da atuação profissional. O que não deveria ser pois a informação é um dos meios e não a finalidade da atuação em nossa área. Da mesma forma que os livros e documentos eram nossos meios nas bibliotecas tradicionais na fase pré-digital. Mesmo quando atuamos sobrecarregados de trabalho técnico em bibliotecas sem relação direta com os usuários, poderiamos cumprir nossa função de forma indireta, pois o marketing estava vinculado a experiência dos usuários no acesso aos tipos de serviços  intrínsecos ao tipo de cada biblioteca.

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Quando divulga-se que a finalidade da atuação profissional é disseminação da informação em qualquer suporte gera-se o grande problema de formação atualmente: a confusão entre meios e fins. Faz sentido enquanto pesquisador  (cientista da informação) tentar compreender como os fluxos da informação (meios) relacionam-se com a realidade. Mas não faz sentido para atuação profissional acreditar que precisamos disseminar a informação indiscriminadamente. Pois a nossa atuação profissional deve ser centrada em como melhor adequar nossos meios (recursos e serviços de informação) para os fins (pessoas). Com esta distinção entre meios e fins que também é possível diferenciar a responsabilidade de técnicos em biblioteconomia e bibliotecários. Os técnicos podem trabalhar exclusivamente com os meios, mas só os bibliotecários podem planejar novos serviços para converter os meios para os fins.

O discurso que vincula as oportunidades de atuação profissional apenas para os meios é o que costumo chamar de ideologia da informação (ideologia é um sistema de pensamento que não corresponde com a realidade). Um discurso muitas vezes proveniente da importação de tendências de outras áreas – como a de gestão  – tentando vislumbrar novas oportunidades de atuação em diferentes suportes. Um dos exemplos esta em práticas como a de Gestão da Informação e na relação entre Dado – Informação – Conhecimento superada em práticas de gestão mais emergentes. Devido a consumerização da tecnologia da informação  muitas práticas de gestão relacionadas a mediação da informação deram lugar a práticas ligadas a Gestão da Inovação e Colaboração. Ou seja, o que pode fazer sentido teórico durante uma pesquisa e revisão de literatura pode não fazer como objetivo da atuação profissional em um cenário de rupturas tecnológicas. 

Qual é a diferença entre um profissional da informação e um bibliotecário? Durante um período de tempo pude atuar com a aplicação de técnicas de organização da informação para o desenvolvimento de portais corporativos e de plataformas de e-commerce. Estava sendo bibliotecário? Não. Pois a atuação estava centrada nos meios para resolver problemas de processos corporativos. Lembram do código de ética com a liberdade de investigação científica? O que otimizar a recuperação de informação em um portal corporativo tem haver com desenvolvimento intelectual? Existe uma relação muito mais direta da aplicação de nossas técnicas para o desenvolvimento organizacional do que o  desenvolvimento humano e em algumas situações eles podem não ser compatíveis.

No entanto acredito na possibilidade de atualizar o sentido da formação profissional em biblioteconomia para o cenário econômico emergente. De que forma? Partindo do princípio de que as bibliotecas sempre foram parte da economia da experiência. Que tipo de experiência? Experiência Intelectual. Logo o objetivo da atuação profissional não tem relação com a disseminação da informação (meios) mas em prover uma experiência intelectual positiva (fins). É possível disseminar a informação com o uso adequado de técnicas da nossa área para organização e recuperação da informação, mas o valor do nosso trabalho só pode ser medido quando conectamos os meios com os fins. 

Planejar e prover serviços de informação orientados a experiência intelectual dos usuários em diferentes contextos.

Qual seria então a finalidade da atuação profissional do bibliotecário que faz mais sentido em qualquer suporte que tem relação direta com a experiência intelectual? Inteligência. A minha defesa é que o nosso objeto de atuação profissional é a inteligência, mesmo que  o de pesquisa continue sendo a informação. Sempre atuamos através das bibliotecas com alguma modalidade de Democratização da Inteligência. Tanto que o campo da Ciência da Informação surgiu com a expectativa de que técnicas oriundas da nossa área poderiam oferecer suporte aos setores de inteligência na área governamental. Um exemplo pode ser a criação de serviços de informação voltados para os distintos níveis de intelecto profissional ou em pesquisa.

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Compreendendo que a Democratização da Inteligência é a norteadora para o desenvolvimento de serviços de informação centrados nas pessoas existem pelo menos três linhas de atuação profissional possíveis: Curadoria Digital, Colaboração e Capacitação.

Curadoria Digital é o tema do meu próximo curso na ExtraLibris. Trata-se de uma forma de atualização da disciplina de Referência.

Estas três linhas são uma proposta para melhor relacionar nossos meios com os fins e são temas abordei profissionalmente na última década. Quem sabe, em uma próxima publicação para o BSF escreva com exemplos de práticas profissionais possíveis com cada uma das linhas.

NOTAS:

(1) Importante assistir a apresentação do Joseph Pine sobre a Economia da Experiência.

(2) O artigo original traduzido para português sobre a Miopia de Marketing do Theodore Levitt para a Harvard Business Review – jul/ago/1960 pode ser baixado neste link.

(3) Também vale a pena ler sobre a importância da criação de serviços de informação centrados nas pessoas em um cenário de abundância de informação  no artigo A “fadiga da carne”: reflexões sobre a vida da mente na Era da Abundância, publicado originalmente na EDUCAUSE Review, vol. 39, no. 2 (March/April 2004). Durante a leitura deste artigo na graduação que foi possível compreender que o foco da atuação em ambientes digitais não deveria ser direcionado para a criação de repositórios e bibliotecas digitais.

(4) O que escrevi no post é um direcionamento de um trabalho de pesquisa maior que envolve o cruzamento de diversas outras referências. Durante os meus cursos realizo uma apresentação com mais exemplos, referências e estudos de caso de práticas orientadas a democratização da inteligência que podemos realizar com nossas técnicas para organização e disseminação da informação.

Vagas para profissionais da informação

Perguntei pro Moreno esses dias se eu podia escrever por aqui posts sobre vagas de biblio. Por hora, o BSF nunca teve uma linha editorial pra isso, mas eu acho importante que exista. A intenção não é tanto fazer a divulgação de toda e qualquer vaga de biblio, pois para isso já existem blogs especializados como o Biblioteconomia – Vagas para SP e o Biblio Vagas. Também costumam utilizar o site do OFAJ para verificar vagas e os sites do CRBs.

A intenção é divulgar vagas que são de biblio e também de vagas “que não parecem” de biblio, como aquela vaga de tagger do Netflix que divulguei aqui mais cedo esse ano.

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Semana passada abriu vaga para bibliotecário no SESC de São Paulo e as inscrições são até amanhã, 28/07. Em 2013 eu participei do processo seletivo que consiste em 5 fases e fui até a última fase, mas não rolou para mim. Durante o processo seletivo conheci pessoas incríveis e foi aí que percebi que elas tinham muito mais jeito pra vaga. Nem sempre se trata apenas de uma questão de competência, mas muitas vezes de perfil profissional mesmo – as meninas que conheci já tinham tido experiências nas Fábricas de Cultura daqui de São Paulo e certamente estavam mais aptas do que eu. Tanto que no meio do processo me peguei torcendo para minhas concorrentes, que acabaram passando. Indico essa vaga para quem tem a intenção de trabalhar com ação cultural e com bibliotecas infantis, pois o projeto de biblioteca itinerante do BiblioSesc tem este foco.

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Outra vaga que apareceu hoje no twitter pra mim foi a de Analista de Contas para a Bookwire Brasil. Achei essa vaga interessante para a nossa área pois trata-se de uma startup alemã especializada na distribuição de e-books. Acredito que um profissional da informação tenha as competências necessárias para trabalhar no mercado editorial, principalmente se for focado em gestão e um pouco também em tecnologia de informação. No link tem a descrição para a vaga e entre as habilidades é exigido inglês fluente. Para o bibliotecário ou bibliotecária que quer trabalhar com tecnologia e e-books ou já possui algum tipo de especialização nisso, é uma boa oportunidade para destaque. A vaga é para São Paulo, capital.

Conhece algum outro site que divulga vagas para a área?

Deixe dicas também nos comentários. 😀

Bibliotecários lato e strictu sensu

Sempre tive probleminhas com denominações e definições das coisas. Acho que esse foi um dos motivos que me levou a fazer biblioteconomia e também faz parte de uma busca pessoal por um certo senso de identidade – que hoje reconheço como ilusório. De uns tempos pra cá aprendi que a minha identidade pode ser fluída e essa questão não tem mais me angustiado tanto. Mas volta e meia me pego pensando no tema. A minha dúvida não é mais “o que é um bibliotecário” ou “o que faz um bibliotecário”, mas mudou para “onde está o bibliotecário?”. Já passei do “quem sou eu?”, hoje questiono “onde estou?” e daqui alguns tempos devo me perguntar de novo “pra onde vou?”.

Me formei em 2011 em Biblioteconomia e eu deveria ter feito mestrado. Contra tudo o que todos diziam, não fiz. Não sei dizer se foi a melhor escolha, só sei dizer que foi uma escolha minha. Da mesma forma que me diziam pra jamais fazer biblioteconomia e eu fui teimosa, insisti e fiz. Não me arrependo de nenhuma das decisões que tomei até hoje pois elas não me inviabilizaram nada, muito pelo contrário: me ensinaram muitas coisas. E depois da graduação fui fazer o que eu fui formada pra fazer: ser bibliotecária. Mas foi tudo muito diferente do que eu esperava. Eu achava que ia conseguir um emprego e ficar nele por um bom tempo até ir para outro e assim por diante. Mas não foi assim que a vida funcionou (pra mim ao menos).

Jamais considerei tentar concursos – mas sempre tentei e sempre falhei. Apesar de ser uma das opções mais interessantes para se ter estabilidade, acredito que me desmotivaria gradualmente por uma série de outros motivos. Pra mim seria morte em vida permanecer em um lugar apenas pelo dinheiro. Sim, eu sei, dinheiro é muito importante sim, mas existem outras coisas que me interessam mais. Ainda entendo que dentro da biblioteconomia o campo é vasto e que há de fato muito a ser feito. E eu nunca soube exatamente que tipo de bibliotecária eu seria. E ainda não sei se hoje tenho certeza – e não acho isso nada ruim, pelo contrário, o leque de possibilidades continua aí para que eu possa explorá-lo até onde for possível.

Ano passado recebi 3 ligações me oferecendo vagas pra trabalhar com a mesma coisa em lugares diferentes de São Paulo. Recusei cada uma delas, mas me interessava em saber sobre os detalhes à título de curiosidade do quanto o mercado está aquecido por aqui (São Paulo, capital). Até que um dia me chamaram pelo LinkedIn e me fizeram uma proposta que mudaria tudo – mas não muito. A vaga era para Analista de Produto, para trabalhar com taxonomia e catalogação em uma multinacional. Me interessei na hora, pois sempre quis trabalhar com isso tudo. Fui nas três entrevistas e então me chamaram.

Complicou um pouco pois eu estava exatamente na metade da pós, moro no centro e a empresa é em outra cidade e aí mudou tudo: horários, lugares, tudo aqui é longe e difícil. Mas coloquei na balança e decidi que eu queria passar por essa experiência acima de qualquer coisa e que queria o cargo. Valia o sacrifício. Mudar de cargo pra mim foi aceitar um desafio e tanto, pois até o momento tinha trabalhado apenas em frentes que podem ser consideradas strictu sensu na área de biblioteconomia e arquivologia: em uma biblioteca corporativa especializada e em um arquivo de uma construtora e incorporadora. Eu precisava e queria dar esse salto.

Sempre tive facilidade e curiosidade em lidar e aprender a mexer com algumas tecnologias, mas não entendia – diferente de vários dos meus colegas – como isso podia se encaixar na profissão que escolhi pra mim: a de bibliotecária. Há algum tempo eu achava que tinha escolhido biblioteconomia apenas para aprender as técnicas. Hoje acredito que minha relação com a área tem mais a ver com o fato de eu ter ‘aprendido’ ou melhor, vivenciado o mindset bibliotecário, que é diferente sim dos outros profissionais. É uma questão de mentalidade mesmo, da forma que enxergamos as coisas como estão ou podem estar no mundo.

Hoje eu entendo que num nível bem pessoal e particular, biblioteconomia para mim se aproxima mais disso mesmo, da estrutura, da forma que pensamos a informação – independente do contexto e de qualquer tipo de apego a normas e regras – sejam elas criadas há muito tempo atrás ou até mesmo as recentes, pois as regras do jogo estão mudando o tempo todo, constantemente. Acredito sinceramente que, pelo menos os bibliotecários do que posso chamar de nova geração (de 2000 pra cá) pensam a organização e representação da informação, suas estruturas e fluxos de modo específico, com foco no usuário. Ao menos quero ter essa fé..

Acredito também que a nossa área nos permite essa flexibilidade de poder trabalhar em diferentes tipos de ambientes de acordo com nossas habilidades. Nessa época em que o e-commerce é uma tendência cada vez mais em evidência, a forma de pensar do bibliotecário – trabalhando com uma equipe multidisciplinar, juntamente com arquitetos de informação e programadores – é primordial para o andamento do negócio. Neste tipo de ambiente em específico onde a experiência do usuário é altamente priorizada e privilegiada, a organização das informações e sua estruturação é o core, uma vez que não estamos mais lidando com objetos físicos e não podemos ver efetivamente o que se está comprando. A partir daí podem surgir N questões, nas quais já estou pensando para o meu TCC.

Trabalhando com taxonomia, indexação e catalogação, basicamente o que eu e minha equipe fazemos hoje consiste em: receber demandas dos departamentos da empresa, planejar e sugerir soluções levando em conta a taxonomia pré-existente do site (suas categorias, subcategorias, facetas e limitações da ferramenta); Analisar criticamente padronização das fichas de produtos disponíveis (seus atributos e valores, algo muito próximo de catalogação), avaliando as mudanças pretendidas e sugerindo implementações; E também estar em contato com o modelo de taxonomia da matriz, pensando numa possível migração e adaptação do modelo de negócio americano para o Brasil.

Como Analista de Produto trabalhando com taxonomia em ambiente de Internet, posso dizer que hoje sou uma bibliotecária lato sensu, que não trabalha com um cargo convencional ou tradicional na área. Mas basta observar as atividades realizadas que fica difícil dizer que “isso não tem nada a ver com biblioteconomia”. Tem sim. E tem muito. O que percebo é que apenas troquei livros e papéis por estruturas em árvores de links, mas a ideia da coisa toda é muito parecida contendo apenas nomes diferentes. Esse mundo de links parece muito distante de livros e papéis, mas a verdade é que pensar em planejamento e estratégia de organização da informação para o digital é bastante similar, com a diferença que as coisas acontecem muito mais rápido.

A tônica é de mudança constante. E isso requer um determinado tipo de perfil muito flexível, resiliente e adaptável – o que tradicionalmente não faz parte de um perfil da nossa área que seja mais conservador e avesso à mudanças (ainda mais constantes!). Geralmente as mudanças não ocorrem do dia pra noite: ocorrem de hora em hora, e das formas mais inesperadas possíveis… Linkagem, relinkagem, categorização, recategorização e migração são palavras de uso diário. Mas é só mais um jeito diferente de permanecer fazendo a mesma coisa. Este mês fazem três meses e nenhum dia tem sido igual ao outro…

Espero aprender tudo o que posso aprender por aqui.