O dilema de Dewey – arte da capa da Library Journal

Muito legal o processo de criação da capa da Library Journal desse mês, via Koren Shadmi:

Mês passado me pediram para desenhar a capa da revista Library Journal. O artigo principal da edição era sobre a reorganização das bibliotecas. A maioria das bibliotecas utilizada o velho método inventado por Melvil Dewey – adequadamente chamado de “Classificação Decimal Dewey”. O novo sistema faria a biblioteca parecer muito mais como uma livraria. A editora queria basicamente mostrar o próprio Dewey em estado perplexo por uma biblioteca que está de acordo com o novo sistema, e não o seu. Eu desenhei alguns esboços indicando as composições possíveis – todas mostrando Dewey espantado pelo biblioteca estranha. A editora decidiu escolher o desenho em que as estantes de livros aparecem por cima de Dewey como arranha-céus enquanto ele permanece sem ação na parte de baixo. Veja como ficou a imagem final:

melvin dewey desenho

melvin dewey library journal cover

melvin dewey library journal cover

Buscador de bibliotecas

A Sony lançou por esses dias um novo leitor de e-books e como promoção do produto lançou também um hotsite que permite a busca por e-books na biblioteca mais próxima do interessado. Basta entrar com um CEP e os resultados mostram uma lista de bibliotecas da região que oferecem empréstimo/download de e-books.

No Brasil…dentro de 67 anos.

Além de toda aquela história que as pessoas agora estão mais propensas a utilizar os leitores de livros eletrônicos, de um número de usuários interessados nas coleções digitais vir aumentando gradativamente nos últimos anos, acho que conforme as bibliotecas e os bibliotecários cada vez mais se preocupam em atender essa demanda da melhor forma possível, mais e mais pessoas passarão a fazer uso dessas tecnologias. Qualquer coisa que promova a leitura e o uso dos recursos de uma biblioteca me parece atraente.

As bibliotecas (americanas) que oferecem coleções digitais (aqui tem uma lista grande de bibliotecas que oferecem empréstimo de ebooks) tem políticas bem estabelicidades sobre a distribuição e uso do acervo digital. Algumas permitem o download para os usuários cadastrados, e eles podem ficar com os arquivos pra sempre. Outras usam DRM, ou algumas variações de restições digitais, onde o arquivo precisa ser devolvido para a biblioteca ou o próprio software reconhece que o período de empréstimo acabou e o arquivo é deletado do software do usuário. Existem outras políticas, mais simples e mais complexas.

O Google anunciou ontem também a liberação de download de livros no Google Books no formato EPUB, que é compatível com a maioria dos leitores de ebooks e alguns outros aparelhos, como o iPhone. É uma espécie de pdf mais leve.

Eu já uso o Adobe Digital Editions há bastante tempo, não só pra gerenciar toda minha coleção de artigos e documentos em pdf, como pra ter uma leitura mais agradável na tela do computador.

O que me chama atenção é que nesse caso específico da Sony, os caras nada fizeram além de criar um mecanismo de busca que faz o rastreio dos sites das bibliotecas que oferecem empréstimo das suas coleções digitais, através da inclusão de um CEP. Ou seja, algo que seria perfeitamente possível de se fazer no Brasil, já que eles não estão fazendo a busca no catálogo interno das bibliotecas, o que tornaria o procedimento bem mais complicado. Eles apenas criaram uma lista de links e associaram os links a uma outra lista de CEPs.

Algo que uma biblioteca maior como a Biblioteca Nacional ou a Biblioteca do Senado, poderiam fazer para as bibliotecas públicas e as universidades maiores como a USP, UFRJ e Unicamp poderiam fazer para as bibliotecas universitárias. Um serviço prestado aos cidadãos.

O problema por enquanto talvez seja que as coleções digitais ainda sejam muito pequenas ou “despreparadas”. Por exemplo, eu vejo que a maioria das universidades possum um canal, uma webtv, uma assessoria de imprensa que grava os eventos que acontecem, algumas palestras, algumas aulas. Por que não tornar esse conteúdo disponível para download, por meio de serviços decentes, compatíveis com ferramentas que os usuário interessados nesse tipo de materiais utilizam, como ipods, iphones, leitores de ebook, psp, etc ?

A conferir.

Tendências em bibliotecas – user experience

google suggest

Eu acho que o Google suggest é um bom detector de tendências, pois dá as sugestões com base no que as pessoas estão buscando na máquina, procurando saber, o que é hype no momento.

Fui ver o que o Google me sugeria para “bibliotecas usando…”. Claro que não dá pra fazer essa busca em português, porque bibliotecas usando tendências no Brasil, affff.

Alguns resultados são óbvios. Há uma clara indicação que as pessoas estão correndo atrás de ferramentas “2.0”, apesar de que Drupal, Facebook, Twitter, Delicious, WordPress, mashups, Joomla e o próprio conceito de ferramentas “2.0” (um peteleco na orelha pra cada vez que alguém falar 2.0) já estarem circulando por aí há anos.

Kindle talvez seja a única novidade recente, digamos assim, pois a medida que o aparelho (e o conceito por trás dele) impacta na razão de ser das bibliotecas, elas começam a ficar preocupadas e buscar uma adequação.

Agora, a sugestão mais interessante pra mim é exatamente aquela que talvez tenha mais relação direta com a biblioteconomia hard-core, clássica: o Encore.

O Encore é uma interface de resultados de busca que apresenta os registros num estilo mais Amazon de ser, com navegação intuitiva e aqueles fru-fru participativos 2.0 (peteleco), tag cloud, comentários, estrelinhas, revisões.

Clique sobre a imagem para versão ampliada
encore

O grande lance é que o Encore pode (e deve) ser utilizado em paralelo ao sistema de automação tradicional utilizado pela biblioteca. O que ele faz na verdade é uma busca por palavras-chave sobre os registros bibliográficos usados no catálogo tradicional, mas recupera informação e a apresenta de maneira mais amigável. Ele funciona exclusivamente com palavras-chave e termos de busca. Mais ou menos como a busca do Google (veja aqui a página de busca do Encore). Então se o usuário quiser pesquisar pelo ISBN, número de chamada, etc, ele tem que usar o catálogo tradicional.

A meu ver, não se trata de uma duplicação dos serviços simplesmente porque a maioria dos catálogos tradicionais robustos está muito atrás ainda na questão da experiência do usuário e não disponibiliza os resultados de busca decentemente. O que o Encore fez foi incorporar alguns quesitos de navegabilidade e interação utilizados em sistemas emergentes (delicious, twitter, wordpress, etc) e aplicar ao catálogo da biblioteca.

E para bibliotecas em que a situação do catálogo é crítica, talvez seja melhor chutar o balde, jogar tudo pro alto e investir em um modelo paralelo, inteiramente novo, que faça mais sentido para o usuário.

Na verdade eu ainda tenho outras preferências de resultados de busca e apresentações de catálogos. Mas é interessante ver que algumas soluções estão caminhando cada vez mais em direção ao alinhamento das necessidades dos usuários e os serviços que a biblioteca pode oferecer, fazendo uso dessas tecnologias “2.0” (peteleco).

Dêem uma olhada na tela de resultados de busca no catálogo.

O site oficial é esse: Encore Innovative Interfaces

Realidade aumentada em livro pop-up

A agência devilfish fez uma promo interativa para a música Ride My Star de Julian Perretta, em que você, o telespectador, pode ver a si mesmo, filmado pela webcam do seu computador, segurando o livro pop-up da animação em 3D do vídeo, com as suas próprias mãos.

A idéia é que você imprima um papel especial (chamado “tracker”) usado para a sua webcam rastrear a animação.

O clipe de Julian Perretta utiliza uma combinação de Flash e Papervision para criar cenários em 3D. O cenário foi desenvolvida em realidade aumentada (Augmented Reality), que usa Flash, a sua webcam e um ícone especial impresso (tracker) para criar um vídeo totalmente interativo e imersivo.

Veja o exemplo abaixo:

O ícone/tracker está disponível no site do Peretta Julian: julianperretta.com onde você também pode assistir e ter a experiência do vídeo em realidade aumentada. Você precisará de Flash 10 e uma webcam para o pop-up funcionar perfeitamente.

Biblioteca Nacional de Brasília

biblioteca nacional de brasília

Visitei a Biblioteca Nacional de Brasília (Biblioteca Nacional Leonel de Moura Brizola), aquela controversa, e dei uma avaliada enquanto usuário comum. Algumas impressões:

a entrada da biblioteca é através de uma única porta minúscula, sem saber exatamente se aquilo é a frente ou os fundos da biblioteca. Como os vidros são “fumados”, você não consegue ver absolutamente nada dentro da biblioteca. É preciso chegar bem próximo do vidro para conseguir ler um papel A4 que diz “entrada da biblioteca”. Por que não fazer uma mega letreiro em neon piscante avisando que é ali a entrada da biblioteca? Eu achei a entrada bastante confusa, desestimulante e nada convidativa.

Na recepção existem roletas eletrônicas, mas que ainda não estão ativadas. Existe um balcão de recepção a esquerda das roletas, com 3 estagiárias prestativas, mas não muito bem humoradas. Segundo erro grave, você tem um porta que é tão desestimulante a ponto de ser agressiva, e agora se depara com roletas eletrônicas, barreiras de rfid (talvez) e segurança. Isso é um presídio, um banco ou uma biblioteca nacional?

Eu só queria visitar, já que nem mesmo poderia consultar qualquer coisa, já que o acesso livre ao acervo só está programado para julho de 2009. E talvez utilizar a internet, se fosse possível. Para usar a internet e circular nos andares superiores, eu tive que ceder minha identidade, endereço residencial e cpf, para criar uma conta no sistema, liberando o acesso aos outros andares da biblioteca (acervo) e internet (térreo).

Mas eu sou um mero visitante. Até entendo a necessidade de criação de conta pra uso da internet, já que o sistema funciona como uma lan house, com tempo estipulado e tal. E até entendo o registro por razões de segurança. Mas por que a biblioteca precisa saber do meu endereço residencial (já que não existe empréstimo domiciliar) e meu cpf?

Um outro recepcionista fez questão que eu fosse ver uma tal cadeira multimídia no terceiro andar. Lá fui eu, as cadeiras são interessantes, ficam viradas de frente pra esplanada e são na verdade cadeiras de massagem com um monitor acoplado. Você pode ficar ali uns minutos, caso queira tirar um momento de relaxamento entre as leituras e pesquisas. Mas nenhuma delas estava funcionando. Estavam lá, cerca de 10, ainda desativadas.

As cadeiras de estudo (todas individuais) parecem bem confortáveis. Boa ergonomia, boa iluminação. Quase todas estavam ocupadas (talvez umas 200 ou 300, no total), tanto no segundo como terceiro andar, e mais de 60% das pessoas (um estimativa minha) estavam com laptop. Perguntei pra bibliotecária mais próxima se havia conexão wifi disponível, e ela disse que sim. Ponto pra biblioteca nacional de Brasília.

O acervo físico é separado por vidro, aquários. Reparei que algumas estantes tem um acabamento de madeira, o que é bem mais bonito do que as estantes tradicionais de metal. Os livros ainda estão sendo processados, já tem número de lombada, mas além disso, não vi nenhuma indicação visual de número de chamada, seja nas próprias estantes, ou ao redor do aquário.

Existem salas fechadas, para trabalhos em grupos.

Os banheiros são limpos, o que é um bom sinal. Banheiro limpo é o melhor reflexo das condições da instituição.

Voltei pro térreo. Os blocos de piso do salão de internet estão soltos. Mesmo que eu quisesse manter o silêncio, não conseguiria. Há uma grande variedade de jornais do dia, e de dias anteriores. Poltronas de couro excelentes. Há algumas revistas de grande circulação. Essas revistas estão expotas em duas prateleiras, com mais de 1,60m de altura. Quem tem menos de 1,60m sequer enxerga as revistas da estante superior, quanto mais alcançá-las.

Fui usar a internet. Primeiro teste óbvio: orkut. A biblioteca bloqueia orkut. Pronto, já não queria nem mesmo ficar sentado ali. Desestímulo total. O único browser disponível era o Internet Explorer. Não testei pra ver se eu conseguia fazer alguma tipo de download. Você não tem acesso à torre. Os cabos vêm do alto, direto pros monitores, teclado e mouse, que ficam em blocos de 3 ou 4. São cerca de 50 computadores, talvez mais. A minha tela ficou piscando repetitivamente, como se fosse mal contato. Desloguei, tentei usar outra máquina e não achei nenhum monitor com o campo de login aberto. Talvez eu tivesse que solicitar ao atendente. Mas pelo desgaste, eu resolvi ir embora.

As impressões gerais são muito boas, já que a biblioteca é mais um marco arquitetônico de Brasília, é muito bem localizada, próxima do terminal rodoviário, e na esplanada, visível para milhares de transeuntes que ali circulam diariamente.

biblioteca nacional de brasília

Fui muito bem atendido quando precisei, minhas perguntas foram respondidas pontualmente.

A biblioteca atende normas de acessibilidade, e mesmo sem querer (caso não tenha realizado um projeto de usabilidade com base na experiência do usuário leigo), ainda assim a visitação é bem simples e prazerosa. Seria muito difícil se perder lá dentro, em termos de ausência de sinais, de organização espacial óbvia ou atendimento dos funcionários.

Existem algumas falham bastante específicas, essas que eu citei acima, mas que não são graves e podem ser resolvidas facilmente. Mas é preciso ter bastante cuidado porque algumas dessas falhas são capazes de espantar centenas de usuários potenciais, como a porta de entrada, cadastro e acesso restrito à internet, por exemplo.

Quando vocês estiverem visitando bibliotecas ou mesmo nas bibliotecas em que trabalham todos os dias, tentem se colocar por alguns instantes na condição de usuário comum. Imaginem o usuário mais leigo que poderia aparecer na biblioteca, ou a criança mais jovem capaz de ler, ou o idoso, o deficiente físico, o desempregado, o morador de rua, etc, e perceba como o ambiente físico e as instalações promovem uma boa experiência entre o leitor pesquisador e os livros e recursos que a biblioteca oferece.

Como eu falei nas últimas palestras, no Brasil, pouco se estuda em termos de design associado à biblioteconomia. Pode existir um discurso de escassez de recursos financeiros, mas acho que esse talvez não seja mais o caso para a maioria das bibliotecas que comportam grande número de usuários e acessos.


Payback movies SIBI USP – Parte 2 – Moreno Barros from ExtraLibris on Vimeo.

Bibliotecários tendem a falar para bibliotecários, utilizando lexicon, jargões, que não são compatíveis com a vida dos seus usuários. E isso se extende mais claramente no que concerne ao design, ao espaço físico, disposição de estantes, sistemas de classificação, sinalizações, etc.

Talvez um pouco mais de exercício, possa resolver grandes deficiências que existem hoje. Existem excelentes práticas e elas podem ser replicadas.

Deixem suas impressões, sugestões e reclamações.

Bibliotecários sem Fronteiras: 7 anos!

Hoje completamos 7 anos desde a criação do primeiro blog na área de biblioteconomia no Brasil.
Começou com o nome Blig-o-teconomia, uma brincadeira com o nome do serviço de hospedagem de blogs usado na época pela Vivi, e com outro objetivo: informar pessoas de fora da área sobre o que é biblioteconomia, o que um bibliotecário faz, etc. O objetivo estava sendo alcançado, mas em pouco tempo as visitas de pessoas da área e discussões voltadas para este público dominaram o blog. A coisa cresceu e mais tarde ganhou o nome atual, novo servidor, novos editores, um domínio próprio e até hoje sempre tem alguém pensando em um novo conteúdo ou recurso.
Fica aqui a lembrança do aniversário, e que o sétimo ano seja de muitas novidades!