O fantasma da visita do MEC

Desde que comecei a tag ‘Fala, Bibliotecária!’ um dos temas mais pedidos é ‘visita do MEC’. Eu sempre disse que não faria, afinal minha proposta é divulgar a área, mas depois de insistidas sem fim resolvi dar o braço a torcer e aproveitar para ajudar quem trabalha com educação em geral.

Então habemus vídeo de visita MEC.

*Spoiler: todo mundo sobrevive no final.

 

Falando de carreira

Aproveitando os conselhos do Moreno e os erros da Marina, como não sou tão jovem, nem errei muito (ainda), vim falar sobre o ‘está sendo’. Muita gente me pede para falar sobre pós-graduação, como foi, como é, como organizo minha vida, então aí está! Não é do ‘Fala, Bibliotecária!’, mas é, rs.

Por que bibliotecário?

– Todos os bibliotecários possuem formação universitária em Biblioteconomia, com algumas variações em nível de graduação para Documentação, Gestão da Informação e Gestão de Unidades de Informação. Outros podem ser considerados, ainda, cientistas da informação, já que além da graduação em biblioteconomia, fizeram mestrado ou doutorado em Ciência da Informação.

– Há um milhão de bibliotecários no mundo. Um milhão de especialistas em informação não podem ser deixados de lado.

– Os bibliotecários são uma parte essencial da gestão de ativos digitais, da arquitetura de informação e da recuperação do conhecimento estratégico para aqueles que disso necessitam.

– Os bibliotecários leem e analisam mais livros do que qualquer outro grupo no planeta. Os bibliotecários são uma fonte confiável de recomendações de livros e treinados para assessorar o leitor.

– Para os autores, os bibliotecários são um recurso indispensável para a divulgação e venda de seus livros.

– Os bibliotecários têm trabalhado durante décadas na estruturação da informação e do conhecimento, e identificado tudo através de metadados.

– Os bibliotecários são especialistas na recuperação de informação e podem recomendar informação personalizada adequada para o usuário.

– Os bibliotecários fazem a conexão entre as pessoas e as informações que elas estão procurando, e as informações que elas nem sequer sabem que estão procurando.

– Os bibliotecários são treinados para pensar na relação entre um leitor e qualquer pesquisa que ela ou ele esteja fazendo, seja uma busca inconsciente ou algo objetivo, e direcionar tanto a pessoa para a informação como a informação para o leitor.

– A consciência das bibliotecas por justiça social e a atenção para com os carentes só faz aumentar o seu valor. Os bibliotecários são defensores da redução da exclusão digital.

Sempre haverá fontes de informação para organizar. Sempre haverá pessoas que precisam de informações. Sempre haverá a necessidade de bibliotecários digitais. Sempre haverá a necessidade de bibliotecários.

[tradução de Why Librarians? de Michelle Zaffino]

Como trazer as crianças para biblioteca?

Olá pessoal!

No ‘Fala, Bibliotecária’ dessa semana resolvi falar de um tema bem importante: incentivo à leitura para crianças. Essa nova geração, com todos os meios de informação tão acessíveis, anda complicada para focar a atenção em algo. Então precisamos nos renovar e pensar juntos como melhorar nossa mediação!

 

Qual é a finalidade do trabalho bibliotecário?

Durante meus cursos costumo oferecer uma apresentação introdutória contextualizando as mudanças em nossa área traçando uma paralelo com as transformações da economia industrial para a economia da experiência. Um dos objetivos é evidenciar que a miopia de marketing presente em alguns em discursos sobre atuação profissional podem ofuscar reais oportunidades de atuação.

economiadaexperiencia

Quando a formação do bibliotecário era específica para atuação em bibliotecas o marketing da área estava embutido na natureza de cada biblioteca. Ou seja, a finalidade da atuação profissional poderia ser compreendida relacionando o nosso código de ética (preservar o cunho liberal e humanista de sua profissão, fundamentado na liberdade da investigação científica e na dignidade da pessoa humana) que orienta nossas práticas a prestação de serviços para as pessoas, com os tipos de bibliotecas, que as direcionam para comunidades e necessidades pré-definidas. Ou seja, os livros, documentos e as técnicas eram meios utilizados para maximizar o acesso e prover experiências intelectuais positivas em cada tipo de biblioteca.

ofuturodabiblioteconomia

No entanto a partir fase da economia de serviços acompanhamos uma mudança da formação na área orientada para o problema da informação. Bibliotecários passaram também a denominar-se gestores de unidades de informação e/ou mediadores da informação. A miopia de marketing esta na perspectiva de que a informação é a finalidade da atuação profissional. O que não deveria ser pois a informação é um dos meios e não a finalidade da atuação em nossa área. Da mesma forma que os livros e documentos eram nossos meios nas bibliotecas tradicionais na fase pré-digital. Mesmo quando atuamos sobrecarregados de trabalho técnico em bibliotecas sem relação direta com os usuários, poderiamos cumprir nossa função de forma indireta, pois o marketing estava vinculado a experiência dos usuários no acesso aos tipos de serviços  intrínsecos ao tipo de cada biblioteca.

disseminacaodainformacao

Quando divulga-se que a finalidade da atuação profissional é disseminação da informação em qualquer suporte gera-se o grande problema de formação atualmente: a confusão entre meios e fins. Faz sentido enquanto pesquisador  (cientista da informação) tentar compreender como os fluxos da informação (meios) relacionam-se com a realidade. Mas não faz sentido para atuação profissional acreditar que precisamos disseminar a informação indiscriminadamente. Pois a nossa atuação profissional deve ser centrada em como melhor adequar nossos meios (recursos e serviços de informação) para os fins (pessoas). Com esta distinção entre meios e fins que também é possível diferenciar a responsabilidade de técnicos em biblioteconomia e bibliotecários. Os técnicos podem trabalhar exclusivamente com os meios, mas só os bibliotecários podem planejar novos serviços para converter os meios para os fins.

O discurso que vincula as oportunidades de atuação profissional apenas para os meios é o que costumo chamar de ideologia da informação (ideologia é um sistema de pensamento que não corresponde com a realidade). Um discurso muitas vezes proveniente da importação de tendências de outras áreas – como a de gestão  – tentando vislumbrar novas oportunidades de atuação em diferentes suportes. Um dos exemplos esta em práticas como a de Gestão da Informação e na relação entre Dado – Informação – Conhecimento superada em práticas de gestão mais emergentes. Devido a consumerização da tecnologia da informação  muitas práticas de gestão relacionadas a mediação da informação deram lugar a práticas ligadas a Gestão da Inovação e Colaboração. Ou seja, o que pode fazer sentido teórico durante uma pesquisa e revisão de literatura pode não fazer como objetivo da atuação profissional em um cenário de rupturas tecnológicas. 

Qual é a diferença entre um profissional da informação e um bibliotecário? Durante um período de tempo pude atuar com a aplicação de técnicas de organização da informação para o desenvolvimento de portais corporativos e de plataformas de e-commerce. Estava sendo bibliotecário? Não. Pois a atuação estava centrada nos meios para resolver problemas de processos corporativos. Lembram do código de ética com a liberdade de investigação científica? O que otimizar a recuperação de informação em um portal corporativo tem haver com desenvolvimento intelectual? Existe uma relação muito mais direta da aplicação de nossas técnicas para o desenvolvimento organizacional do que o  desenvolvimento humano e em algumas situações eles podem não ser compatíveis.

No entanto acredito na possibilidade de atualizar o sentido da formação profissional em biblioteconomia para o cenário econômico emergente. De que forma? Partindo do princípio de que as bibliotecas sempre foram parte da economia da experiência. Que tipo de experiência? Experiência Intelectual. Logo o objetivo da atuação profissional não tem relação com a disseminação da informação (meios) mas em prover uma experiência intelectual positiva (fins). É possível disseminar a informação com o uso adequado de técnicas da nossa área para organização e recuperação da informação, mas o valor do nosso trabalho só pode ser medido quando conectamos os meios com os fins. 

Planejar e prover serviços de informação orientados a experiência intelectual dos usuários em diferentes contextos.

Qual seria então a finalidade da atuação profissional do bibliotecário que faz mais sentido em qualquer suporte que tem relação direta com a experiência intelectual? Inteligência. A minha defesa é que o nosso objeto de atuação profissional é a inteligência, mesmo que  o de pesquisa continue sendo a informação. Sempre atuamos através das bibliotecas com alguma modalidade de Democratização da Inteligência. Tanto que o campo da Ciência da Informação surgiu com a expectativa de que técnicas oriundas da nossa área poderiam oferecer suporte aos setores de inteligência na área governamental. Um exemplo pode ser a criação de serviços de informação voltados para os distintos níveis de intelecto profissional ou em pesquisa.

democratizacaodainteligencia

Compreendendo que a Democratização da Inteligência é a norteadora para o desenvolvimento de serviços de informação centrados nas pessoas existem pelo menos três linhas de atuação profissional possíveis: Curadoria Digital, Colaboração e Capacitação.

Curadoria Digital é o tema do meu próximo curso na ExtraLibris. Trata-se de uma forma de atualização da disciplina de Referência.

Estas três linhas são uma proposta para melhor relacionar nossos meios com os fins e são temas abordei profissionalmente na última década. Quem sabe, em uma próxima publicação para o BSF escreva com exemplos de práticas profissionais possíveis com cada uma das linhas.

NOTAS:

(1) Importante assistir a apresentação do Joseph Pine sobre a Economia da Experiência.

(2) O artigo original traduzido para português sobre a Miopia de Marketing do Theodore Levitt para a Harvard Business Review – jul/ago/1960 pode ser baixado neste link.

(3) Também vale a pena ler sobre a importância da criação de serviços de informação centrados nas pessoas em um cenário de abundância de informação  no artigo A “fadiga da carne”: reflexões sobre a vida da mente na Era da Abundância, publicado originalmente na EDUCAUSE Review, vol. 39, no. 2 (March/April 2004). Durante a leitura deste artigo na graduação que foi possível compreender que o foco da atuação em ambientes digitais não deveria ser direcionado para a criação de repositórios e bibliotecas digitais.

(4) O que escrevi no post é um direcionamento de um trabalho de pesquisa maior que envolve o cruzamento de diversas outras referências. Durante os meus cursos realizo uma apresentação com mais exemplos, referências e estudos de caso de práticas orientadas a democratização da inteligência que podemos realizar com nossas técnicas para organização e disseminação da informação.