Como trazer as crianças para biblioteca?

Olá pessoal!

No ‘Fala, Bibliotecária’ dessa semana resolvi falar de um tema bem importante: incentivo à leitura para crianças. Essa nova geração, com todos os meios de informação tão acessíveis, anda complicada para focar a atenção em algo. Então precisamos nos renovar e pensar juntos como melhorar nossa mediação!

 

Qual é a finalidade do trabalho bibliotecário?

Durante meus cursos costumo oferecer uma apresentação introdutória contextualizando as mudanças em nossa área traçando uma paralelo com as transformações da economia industrial para a economia da experiência. Um dos objetivos é evidenciar que a miopia de marketing presente em alguns em discursos sobre atuação profissional podem ofuscar reais oportunidades de atuação.

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Quando a formação do bibliotecário era específica para atuação em bibliotecas o marketing da área estava embutido na natureza de cada biblioteca. Ou seja, a finalidade da atuação profissional poderia ser compreendida relacionando o nosso código de ética (preservar o cunho liberal e humanista de sua profissão, fundamentado na liberdade da investigação científica e na dignidade da pessoa humana) que orienta nossas práticas a prestação de serviços para as pessoas, com os tipos de bibliotecas, que as direcionam para comunidades e necessidades pré-definidas. Ou seja, os livros, documentos e as técnicas eram meios utilizados para maximizar o acesso e prover experiências intelectuais positivas em cada tipo de biblioteca.

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No entanto a partir fase da economia de serviços acompanhamos uma mudança da formação na área orientada para o problema da informação. Bibliotecários passaram também a denominar-se gestores de unidades de informação e/ou mediadores da informação. A miopia de marketing esta na perspectiva de que a informação é a finalidade da atuação profissional. O que não deveria ser pois a informação é um dos meios e não a finalidade da atuação em nossa área. Da mesma forma que os livros e documentos eram nossos meios nas bibliotecas tradicionais na fase pré-digital. Mesmo quando atuamos sobrecarregados de trabalho técnico em bibliotecas sem relação direta com os usuários, poderiamos cumprir nossa função de forma indireta, pois o marketing estava vinculado a experiência dos usuários no acesso aos tipos de serviços  intrínsecos ao tipo de cada biblioteca.

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Quando divulga-se que a finalidade da atuação profissional é disseminação da informação em qualquer suporte gera-se o grande problema de formação atualmente: a confusão entre meios e fins. Faz sentido enquanto pesquisador  (cientista da informação) tentar compreender como os fluxos da informação (meios) relacionam-se com a realidade. Mas não faz sentido para atuação profissional acreditar que precisamos disseminar a informação indiscriminadamente. Pois a nossa atuação profissional deve ser centrada em como melhor adequar nossos meios (recursos e serviços de informação) para os fins (pessoas). Com esta distinção entre meios e fins que também é possível diferenciar a responsabilidade de técnicos em biblioteconomia e bibliotecários. Os técnicos podem trabalhar exclusivamente com os meios, mas só os bibliotecários podem planejar novos serviços para converter os meios para os fins.

O discurso que vincula as oportunidades de atuação profissional apenas para os meios é o que costumo chamar de ideologia da informação (ideologia é um sistema de pensamento que não corresponde com a realidade). Um discurso muitas vezes proveniente da importação de tendências de outras áreas – como a de gestão  – tentando vislumbrar novas oportunidades de atuação em diferentes suportes. Um dos exemplos esta em práticas como a de Gestão da Informação e na relação entre Dado – Informação – Conhecimento superada em práticas de gestão mais emergentes. Devido a consumerização da tecnologia da informação  muitas práticas de gestão relacionadas a mediação da informação deram lugar a práticas ligadas a Gestão da Inovação e Colaboração. Ou seja, o que pode fazer sentido teórico durante uma pesquisa e revisão de literatura pode não fazer como objetivo da atuação profissional em um cenário de rupturas tecnológicas. 

Qual é a diferença entre um profissional da informação e um bibliotecário? Durante um período de tempo pude atuar com a aplicação de técnicas de organização da informação para o desenvolvimento de portais corporativos e de plataformas de e-commerce. Estava sendo bibliotecário? Não. Pois a atuação estava centrada nos meios para resolver problemas de processos corporativos. Lembram do código de ética com a liberdade de investigação científica? O que otimizar a recuperação de informação em um portal corporativo tem haver com desenvolvimento intelectual? Existe uma relação muito mais direta da aplicação de nossas técnicas para o desenvolvimento organizacional do que o  desenvolvimento humano e em algumas situações eles podem não ser compatíveis.

No entanto acredito na possibilidade de atualizar o sentido da formação profissional em biblioteconomia para o cenário econômico emergente. De que forma? Partindo do princípio de que as bibliotecas sempre foram parte da economia da experiência. Que tipo de experiência? Experiência Intelectual. Logo o objetivo da atuação profissional não tem relação com a disseminação da informação (meios) mas em prover uma experiência intelectual positiva (fins). É possível disseminar a informação com o uso adequado de técnicas da nossa área para organização e recuperação da informação, mas o valor do nosso trabalho só pode ser medido quando conectamos os meios com os fins. 

Planejar e prover serviços de informação orientados a experiência intelectual dos usuários em diferentes contextos.

Qual seria então a finalidade da atuação profissional do bibliotecário que faz mais sentido em qualquer suporte que tem relação direta com a experiência intelectual? Inteligência. A minha defesa é que o nosso objeto de atuação profissional é a inteligência, mesmo que  o de pesquisa continue sendo a informação. Sempre atuamos através das bibliotecas com alguma modalidade de Democratização da Inteligência. Tanto que o campo da Ciência da Informação surgiu com a expectativa de que técnicas oriundas da nossa área poderiam oferecer suporte aos setores de inteligência na área governamental. Um exemplo pode ser a criação de serviços de informação voltados para os distintos níveis de intelecto profissional ou em pesquisa.

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Compreendendo que a Democratização da Inteligência é a norteadora para o desenvolvimento de serviços de informação centrados nas pessoas existem pelo menos três linhas de atuação profissional possíveis: Curadoria Digital, Colaboração e Capacitação.

Curadoria Digital é o tema do meu próximo curso na ExtraLibris. Trata-se de uma forma de atualização da disciplina de Referência.

Estas três linhas são uma proposta para melhor relacionar nossos meios com os fins e são temas abordei profissionalmente na última década. Quem sabe, em uma próxima publicação para o BSF escreva com exemplos de práticas profissionais possíveis com cada uma das linhas.

NOTAS:

(1) Importante assistir a apresentação do Joseph Pine sobre a Economia da Experiência.

(2) O artigo original traduzido para português sobre a Miopia de Marketing do Theodore Levitt para a Harvard Business Review – jul/ago/1960 pode ser baixado neste link.

(3) Também vale a pena ler sobre a importância da criação de serviços de informação centrados nas pessoas em um cenário de abundância de informação  no artigo A “fadiga da carne”: reflexões sobre a vida da mente na Era da Abundância, publicado originalmente na EDUCAUSE Review, vol. 39, no. 2 (March/April 2004). Durante a leitura deste artigo na graduação que foi possível compreender que o foco da atuação em ambientes digitais não deveria ser direcionado para a criação de repositórios e bibliotecas digitais.

(4) O que escrevi no post é um direcionamento de um trabalho de pesquisa maior que envolve o cruzamento de diversas outras referências. Durante os meus cursos realizo uma apresentação com mais exemplos, referências e estudos de caso de práticas orientadas a democratização da inteligência que podemos realizar com nossas técnicas para organização e disseminação da informação.

O que faz um bibliotecário “famoso”?

Me foi sugerida a tradução de um post da Jessamyn West, sobre como é ser uma bibliotecária famosa.  Não quero traduzir o post dela na íntegra, mas tentar fazer um post traduzindo e utilizando citações dela, fazendo meus comentários também.

Acho que já teve por aqui um post sobre O melhor bibliotecário que eu conheço, mas a Jessamyn esses dias estava questionando sobre a pessoa mais famosa em cada profissão quando se deu conta de que ela mesma era mais famosa na biblioteconomia nos Estados Unidos. Ela chegou a esta conclusão pois ela aparece nesta lista e também na lista recuperada pelo Google quando procuram pela palavra “librarian”, ou seja bibliotecário/a.

Ela inclusive criticou a definição de “bibliotecários” de acordo com o Google nessa imagem aqui que eu achei bem emblemática pra não traduzir:

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A lista de bibliotecários famosos não é tão longa assim e geralmente é feita de gente que fez coisas com livros em geral e pode ou não pode ter gastado boa parte da vida delas trabalhando em ou para bibliotecas. As pessoas que o Google acha que são bibliotecários em sua maioria tiveram outros trabalhos. Quando a pequena lista de pessoas famosas na sua área inclui Eratóstenes, você percebe que a biblioteconomia não é uma plataforma que apoia o que a maioria das pessoas entende por celebridade. Eu não sou reconhecida quando vou em bibliotecas aleatórias (geralmente) e não usaram meu nome pra batizar nenhuma biblioteca. No entanto eu participei de vários passeios nos bastidores de bibliotecas e vi vários porões incríveis. Você pode gastar sua fama de vários modos diferentes e este é o meu.

A Jessamyn também reconhece que outras coisas fizeram com que ela fosse “famosa” na área como estar na internet desde sempre (não só isso, como também acompanhar de fato as tendências), possuir o domínio librarian.net e também responder e-mails e atender telefonemas. Mas ela apontou uma coisa sobre a qual jamais parei pra pensar: que estamos num mundo onde findability (ou ainda “encontrabilidade”, ou recuperação pelas máquinas de busca) muitas vezes se equivalem à fama. Isso é bastante curioso pois uma pessoa pode ser famosa online e nem tanto na vida real ou o oposto disso. Ou ainda: pode ser famosa apenas em determinados nichos. Em se tratando de Internet, é difícil medir, acho, talvez quem saiba melhor responder isso é o Murakami que é das métricas.

Resumindo, a Jess considera biblioteconomia uma profissão clássica de nerds (e é mesmo, eu também concordo) e não vê nenhum problema em ser considerada “a rainha das nerds”, até acha graça e gosta disso. Mas ela acredita que boa parte de ser bem conhecida é porque ela de fato conhece muita gente, viaja bastante e frequenta muitas conferências de bibliotecários nos EUA. Mas ao mesmo tempo enfrentamos o mesmo problema: a biblioteconomia é uma profissão distribuída (tem no Brasil inteiro), então não existe um lugar específico em que se juntem todos os bibliotecários que não seja “online”. Então se você quiser conhecer colegas pessoalmente, você tem que viajar.

O que é difícil porque a maioria das pessoas que de fato trabalha em período integral em bibliotecas tem poucas oportunidades de viajar por conta de seu trabalho que não sejam as ocasionais conferências estaduais ou nacionais. E ainda assim, elas são as pessoas que estão fazendo o bom trabalho que pessoas como eu apenas falam sobre.

Mas convenhamos: a cultura de bibliotecas por lá é bem mais forte e a classe lá é bem mais unida que a daqui. Os bibliotecários lá não apenas defendem a profissão: eles são militantes. O senso de coletividade deles é muito forte. Ela ainda explica que além das conferências nacionais e estaduais anuais ainda existem encontros consistentes de: bibliotecários jurídicos, bibliotecários de música, bibliotecários públicos, bibliotecários cristãos, bibliotecários progressistas e todo esse pessoal tem seu próprio público e palestrantes. Acho que até hoje nunca vi (ou pelo menos não sei de) encontros de bibliotecários especializados no Brasil.

Eu tive trabalhos de meio período fazendo instrução em tecnologia, respondendo e-mails, escrevendo para publicações sobre biblioteconomia, cuidando de websites e dando palestras em conferências da área, o que significa que eu pude encontrar bibliotecários de todo o país. Eles me encontram mas mais importante que isso: eu os encontro. Saber o que importa para os meus colegas em todo o país me faz sentir que estou fazendo o nosso trabalho quando eu uso a minha mini-fama para ajudar a endereçar as preocupações da nossa profissão para as pessoas que não fazem parte dela.

É uma linda.

E aí ela chegou numa parte que eu vou traduzir na íntegra, simplesmente porque eu achei muito esclarecedor:

O que um bibliotecário famoso faz?

  • Aconselha

Pessoas entrando na profissão acreditando que ela pode ser divertida e criativa é muito mais interessante do que gente achando que é um trabalho limpo de escritório onde você pode ler o dia todo. A nova safra de bibliotecários é tão mais antenada e informada do que quando eu estava no curso de graduação. Vamos manter assim. Trazer gente boa pra área e mantê-las lá.

  • Colabora

Lutar contra o perpétuo problema de imagem por parte dos próprios bibliotecários. Trabalhar a moral e ao mesmo tempo trabalhar a mensagem que passamos. Promover bons trabalhos feitos pelos colegas e dizer “que ótimo trabalho” o quanto for possível. Pessoas te zoam pelo modo que você se veste? Ignore-as e força no coque. Use mesmo. [Traçando um paralelo daqui: As 10 Bibliotecárias Mais Gatas do Brasil | Bibliotecários Tatuados]

  • Traduz

Eu sou boa com tecnologia e em falar com o pessoal da área de tecnologia. Sou boa em entender o que uma biblioteca precisa em seu ambiente tecnológico. Eu geralmente traduzo as necessidades e preocupações de um grupo para o outro e vice-versa e sugiro modos para que esta comunicação seja mais clara no futuro.

  • Inova

Temos uma permissão para compartilhar e é um tempo maravilhosamente fértil para usar a tecnologia para fazer isso. Descobrir qual tecnologia se adapta bem aos propósitos da biblioteca (para uso dentro da biblioteca ou conectar bibliotecários fora da biblioteca) e começar a utilizá-las assim que são lançadas e contar novidades de como outras bibliotecas estão utilizando bem certa tecnologia.

  • Agita

Eu frequentemente relembro as pessoas de que servir todo o público é desafiador de verdade e complexo e que bibliotecas fazem um trabalho muito bom com isso, mesmo a despeito de um mundo cada vez mais privatizado. Reforma de copyright, uso justo, liberdade intelectual e a Library Bill of Rights permanecem como importantes fundações da nossa profissão. Conte aos outros sobre isso.

  • Defende

Pela diversidade e inclusão. Nossa profissão deveria refletir a diversidade de nosso público. Acesso a conteúdo e serviços deveriam ser o quão equitativos pudermos oferecer, para todas as pessoas, especialmente para as mais difíceis de servir. A divisão de empoderamento é real. As bibliotecas e seus apoiantes muitas vezes falam pelas pessoas que não podem ou não falam por si mesmas.

Essas não são bem atividades de alguém que você consideraria famoso. Não tem muito autógrafo não. Raramente apareço em roupas bonitas ou tenho minha foto tirada em público. Em última análise eu sou apenas uma parte de um sistema de pessoas e tecnologia bem amplo e interconectado que administram bibliotecas nesse país. E o nosso pessoal apenas é tão famoso quanto precisa pra fazer seu trabalho.

14 Coisas Que Todo Mundo Entende Errado Sobre Bibliotecários

“Sim, eu posso te ajudar a achar todos os livros.” “Não, eu não passo o dia inteiro lendo todos os livros.”

por Arianna Rebolini, do BuzzFeed

Título original: 14 Things Everyone Gets Wrong About Librarians

Recentemente perguntamos a alguns bibliotecários na comunidade do BuzzFeed quais são as idéias mais erradas que as pessoas tem sobre o seu trabalho. Seguem os resultados esclarecedores!

1. Que no seu trabalho não tem stress nenhum.

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Flickr: pleeker / Creative Commons

“Odeio quando as pessoas dizem, ‘é tão silencioso aqui. seu trabalho deve ser super relaxante’. Ou assumem que você tem três horas no trabalho apenas pra ler qualquer livro que você queira”. —Jackie DeStefano, Facebook

“Especialmente durante o programa de leitura de verão*!” —Maria Slytherinn Hill, Facebook

2. Que a tecnologia faz com que seu trabalho seja redundante.

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Shironosov / Getty Images

“[As pessoas assumem] que bibliotecários e bibliotecas são obsoletos porque ‘você pode achar tudo no Google’. Há tanta informação (eletrônica ou em outro suporte) que não pode ser acessada pelo Google, e nós sabemos encontrá-la.” —AnnaBanana617

3. Que você passa os dias lendo.

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“Pessoas me disseram que elas adorariam ser bibliotecárias porque seria muito bom trabalhar com livros o dia todo. Nada disso. Não é isso que eu faço o dia todo. Eu trabalho com PESSOAS o dia inteiro – referência, programação de ensino. Às vezes isso envolve fazer com que elas encontrem livros, mas se não fosse pelas pessoas, não existiriam bibliotecários.” —Emily Lauren Mross, Facebook

4. Que você ou é assim…

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“[As pessoas acham] que você precisa ser de um certo jeito! Tenho cabelo roxo, tatuagens e um piercing no nariz.” —Maria Slytherinn Hill, Facebook

5. Ou assim:

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“Todo o combo de ‘bibliotecária sexy’ é realmente tosco.” — saraf45be50781

6. Que se o seu foco é em leitura/literatura para crianças, é sempre brincadeira.

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Purestock / Getty Images

“Detesto quando acham que bibliotecários que se envolvem com crianças (ou escolares) são babás glorificadas que fazem apenas hora do conto. Eu sou responsável por bem mais que isso, incluindo habilidades em tecnologia e ensino” — Jessica Vining Prutting, Facebook

7. Que você só trabalha em bibliotecas ou em escolas.

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“A biblioteconomia é bastante ampla em diversidade. Trabalhamos em organizações, escritórios jurídicos, institutos de pesquisa e laboratórios, no governo e nas forças armadas. Não apenas damos baixa e realocamos livros. Somos pesquisadores, especialistas em computação, desenvolvedores de coleções, arquivistas, especialistas, especialistas em metadados (fazemos com que tudo seja encontrável online e offline) e muito mais” —AnnaBanana617

8. Que você não precisa de diploma pra isso.

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Chad Baker/Jason Reed/Ryan McVay / Getty Images

“As pessoas sempre se chocam quando eu falo pra elas que eu estou me especializando para ser bibliotecária. Acredito que elas pensam que bibliotecários só precisam saber a CDD e talvez como usar o computador, de vez em quando” —Chelsea Phillips, Facebook

9. Que o trabalho é fácil.

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Purestock / Getty Images

“Sou bibliotecária de escola de ensino fundamental e é muito frustrante ouvir, ‘Seu trabalho deve ser tão fácil! Você só lê pra eles o dia todo!’. Sim. E ensino habilidades de pesquisa, de comunicação, de falar em público, entre outras. Sem contar a gestão de classe, orçamento, processamento, auxílio aos professores… Certamente não é tão fácil quanto eu faço aparentar ser!” —brittanyo4910df152

10. Que você tem aversão à tecnologia.

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“A maioria das pessoas não percebe que nós temos que ter aulas de computação bem intensas para termos um mestrado em biblioteconomia. Muitos de nós entendemos de design de bases de dados, HTML, C++, e outros códigos!” —laureno404824e16

11. Que você precisa ser de uma certa idade.

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“Eu já ouvi isso um monte de vezes: ‘Mas você é tão novinha!’ (Sou uma anomalia. A maioria das bibliotecárias nasce com 60 anos e só fica velha a partir dessa idade.)” —katrinalewine

12. Que vocês são um bando de puritanos.

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Nandyphotos / Getty Images

“O maior erro que já ouvi na vida é o de que bibliotecários são puritanos. Eu amo sexo! Só não curto quando eu tenho que testemunhar isso / mandar as pessoas pararem / limpar depois. Trabalhei numa biblioteca por nove anos e durante esse tempo eu costumava a flagrar pessoas transando e assistindo pornografia no computador O. TEMPO. TODO. Não quero nem começar a falar de todas as camisinhas usadas que eu encontrei entre os livros. *nojinho*” —deejuju

13. Que você é um solitário introvertido.

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Jupiterimages / Getty Images

“[As pessoas pensam] que você quer ser um bibliotecário porque você quer sentar sozinho e ler; bibliotecários sempre tem que estar disponíveis e interagindo com todo mundo desde crianças birrentas até pais e mãe, a pessoas em situação de rua procurando abrigo no inverno e ar condicionado no verão, até idosos tecnofóbicos. Nem todo mundo é bom nisso, bem como em qualquer outra profissão, mas aqueles que começam achando que vão sentar atrás de uma mesa e ler o dia todo são poucos e bem distantes!” —sarahc130

14. Que bibliotecas basicamente são uma espécie em extinção.

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Flickr: drocpsu

“[As bibliotecas] não estão morrendo — elas estão mudando.” —Sara Frye, Facebook

 

*Nos EUA eles tem vários programas extra-curriculares que alunos fazem durante o verão, que é no mês de julho. Aqui seria mais ou menos equivalente à biblioteca de faculdade em época de provas, quando fica cheia de gente e os bibliotecários piram.

Vaga para bibliotecários no Netflix Brasil

Não se falou de outra coisa até agora – pelo menos entre os meus colegas bibliotecários: a vaga do Netflix para tagger. É uma vaga tão boa que parece mentira né? Mas não é mentira não.

O curioso é que as pessoas não tem muita noção do que um “tagger” faz. E isso é, basicamente, catalogação gente. Coisa que a gente ouve desde o início do curso de biblioteconomia.

Eles divulgaram a vaga pelo YouTube ontem, com um vídeo engraçadinho:

É claro que já teve brasileiro levando o vídeo a mal nos comentários. Pois essa vaga é coisa que “nem parece trabalho”. Mas aí é que está…

Nós sabemos que criar categorias, classificações e descrições do que for – de filmes, inclusive Marina que o diga – é trabalho nosso SIM! É nosso trabalho e MUITO! E é inclusive o que fazemos como bibliotecários desde os tempos mais primórdios.

Claro que eles pedem alguém que já tenha familiaridade com a terminolgia cinematográfica, porque aí a curva de aprendizagem é mais rápida para o negócio. Mas a verdade é que qualquer pessoa minimamente interessada pode fazer especificação de produtos facilmente. E como tem muita gente interessada em filmes e séries… Já viram né?

Com certeza vai ter uns 20394820948209389 caboclos tentando essa vaga dos sonhos e eu espero que pelo menos 3 deles sejam bibliotecários. No mínimo.

E aí?

Alguém que é bibliotecário e lyndo já conseguiu se candidatar?

E pra quem acha que essa é a vaga dos sonhos pra assistir todas as séries e filmes preferidos o dia inteiro, eu só vou largar esse Tweet pertinentíssimo aqui:

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A vaga é pra quem tem inglês fluente e segue a descrição traduzida, só pra gente saber um pouco mais do perfil que eles procuram:

Tagger Brasileiro
Empregos em Aprimoração de Conteúdo
São Paulo, SP

Netflix, o principal canal de Internet do mundo para filmes e TV está lançando uma caçada a um tagger que fale português brasileiro para se juntar a sua equipe de Aprimoração de Conteúdo.

Os candidatos aprovados serão responsáveis por assistir e analisar filmes e séries de TV que será apresentadas no Netflix no futuro. O tagger vai desconstruir os filmes e programas de e descrevê-los usando tags objetivas.

Este “processo de marcação” é a primeira etapa do sistema de recomendação Netflix e trabalha em conjunto com algoritmos avançados que geram sugestões altamente personalizados para cada um dos cerca de 60 milhões de usuários da Netflix, oferecendo-lhes um conjunto individual de títulos correspondentes seus gostos.

Outras responsabilidades podem incluir também atuando como um consultor cultural brasileiro, destacando as especificidades culturais e preferências de gosto nacionais.

O papel vai oferecer horários flexíveis de trabalho a partir de casa e se adequaria àqueles com uma paixão por filmes e séries de TV, como pode ser evidenciado por uma licenciatura em Cinema ou História do Cinema e / ou experiência em dirigir, criar roteiros ou cinema. Os candidatos com experiência de análise (por exemplo, como um crítico ou trabalhar em desenvolvimento) também seria adequado.

As competências chave e qualidades para este papel incluem:

– Expertise em Filmes e Conteúdo para TV

– Excelentes habilidades organizacionais

– Persistência em acompanhamento e seguimento em um projeto

– Detalhista

– Inglês fluente

Habilidades técnicas de interesse:

– Experiência com Sistemas de Gestão de Conteúdos ou Ativos

– Excel

Background:

– 1-2 anos de experiência em companias de website/mídia/novas mídias

– Experiência em Cinema ou editorial de TV é desejável

Favor observar: apenas currículos enviados em inglês serão considerados.

Referência, ontem e hoje: conversas de bibliotecária velha

Meu primeiro emprego foi na Filmoteca da Escola de Comunicações e Artes da USP. Na época era uma seção não oficial da biblioteca que abrigava, além dos filmes realizados pelos alunos do curso de cinema da própria instituição, uns 2500 títulos de outras instituições com as quais a ECA mantinha convênios.

Minhas modestas atribuições envolviam a catalogação e cuidados com a conservação da bagaça toda, todos os perrengues de caráter “administrativo” e, naturalmente, atendimento ao público.

Essa parte do trabalho era insana, porque os usuários olhavam pra mim e perguntavam se eu “tinha um filme” sobre os assuntos mais diversos como fabricação de cerveja, profecias de Nostradamus, criação de coelhos, filosofia, equações de segundo grau, o diabo. E todos os dias eu atendia um adolescente querendo filmes sobre as drogas ou sobre o aborto – para os eternos e inúteis trabalhos escolares, claro.

Imaginem tentar responder a essas questões sem ter um catálogo de verdade, apenas umas listas mais ou menos improvisadas. E vejam que estou falando de filmes de rolo que só podiam ser assistidos quando projetados, nada dessa moleza de vídeos em caixinhas, também conhecidos como videocassetes, que a gente enfiava num aparelho e assistia na televisão, podendo voltar, avançar e até parar a imagem quando quisesse. Essa modernidade só apareceu na Filmoteca uns seis anos depois da minha contratação.

Uma das demandas mais frequentes era o filme para substituir a apresentação do trabalho que o aluno não queria fazer ou a aula que o professor não queria dar. Esse substituto, obviamente, precisava ser a encarnação cinematográfica perfeita e literal do tema da aula ou trabalho a ser sacaneado. O filme deveria ser capaz de substituir até mesmo o conhecimento superficial do assunto. Alguém precisava, por exemplo, de um filme sobre a vida e a carreira dos participantes da Semana de Arte Moderna após a semana, mas não conseguia lembrar de um único nome de artista que tenha participado do dito cujo evento.

– Ah, não sei, não tem um filme sobre o que aconteceu com TODOS ELES depois da Semana?

Depois de um tempo, conhecendo melhor o acervo – e isso quer dizer que projetei para mim mesma e assisti a quilômetros de películas de acetato de celulose – comecei a desenvolver técnicas de convencimento de usuários. O papo era mais ou menos assim:

– Bem, não temos um filme assim prontinho sobre as diferenças entre o expressionismo e o impressionismo. Mas temos um sobre o impressionismo e outro sobre o expressionismo, olha que legal! Você pode mostrar os dois e falar sobre as diferenças!

Às vezes dava certo, às vezes não. Alguns usuários até achavam um absurdo que não existisse um filme exatamente sobre o tema de seu trabalho ou aula e me olhavam acusadoramente:

– Vocês deveriam ter, não? Aqui não é uma escola de artes?

Em dias de alto nível de ironia, eu concordava e dizia que eu poderia tentar fazer um rapidinho, mas em geral me limitava a explicar com alguma paciência como funcionavam a vida, o cinema e as bibliotecas. Outra sacanagem que eu gostava de fazer nos dias de ironia era perguntar ao moleque que pedia um filme sobre as drogas (ou o aborto) se ele queria um filme contra ou a favor.

– Huumm, sei lá … Acho que contra, né?

Nos dias mais felizes, eu conseguia convencer alguém a usar o filme não para substituir sua voz e seu pensamento, mas para dialogar e discutir. Por que não exibir um filme que defenda ponto de vista oposto ao seu e aí contrapor seus próprios argumentos? Num desses dias um professor me pediu um filme “sobre o capitalismo”. Sugeri um filminho de propaganda ideológica dos Estados Unidos produzido na época da guerra fria, que defendia galhardamente os dogmas capitalistas. O professor gostou da ideia e voltou dizendo que a discussão na classe foi excelente, muito melhor do que seria se ele passasse um documentário do tipo “o que é o capitalismo”.

Nos dias mais tristes o usuário se recusava a fazer uma simples busca em dicionário do acervo para conhecer melhor o tema do trabalho e, quem sabe assim, conseguir encontrar um bom filme para discutir suas próprias ideias, mesmo que eu indicasse as fontes mais prováveis. Era como se me dissessem, “olha, eu não quero pensar, não me amole”. Nesses dias melancólicos eu descobria que o trabalho encomendado pelo professor se resumia a passar o filme durante a aula. Eu preciso levar um filme, o professor mandou. Alguns alunos até me pediam para fazer um atestado para provar que estiveram na Filmoteca da ECA, mas não encontraram o filme sobre o aborto ou as drogas.

Eu gostava de explicar o quanto era absurdo obrigar um aluno a atravessar a cidade, muitas vezes perdendo horas de trabalho dele mesmo ou dos pais, para procurar um filme que nem existia. Que ele ganharia mais se aproveitasse o tempo estudando o tema, talvez até numa biblioteca pública perto da casa dele. E que ele poderia contar ao professor o que eu disse. Os estudantes vibravam quando eu dizia “fala pro seu professor ligar pra mim”, mas obviamente nunca recebi nenhuma ligação de professor indignado com minha falta de educação.

Durante os 10 anos em que trabalhei atendendo usuários aprendi muito com eles. Descobri, por exemplo, como e por quê as pessoas procuram filmes num acervo (mais ou menos) organizado e como se deve indexar e catalogar esse acervo para que ele faça algum sentido.

No início da década de 1990 saí do atendimento e fui trabalhar no tratamento da informação, catalogando e indexando filmes, imagens fixas, discos e partituras. Foi bom enquanto durou, mas o mundo foi rodando nas teclas do meu computador e acabei voltando à referência em 2013, não por um motivo meu ou de quem comigo houvesse que qualquer querer tivesse. Voltei feliz, porque o contato com o usuário me fazia muita falta.

Voltei para um mundo que todos me diziam que havia mudado. Um mundo onde o usuário busca informação de forma tão diferente que se os bibliotecários não “mudarem seus paradigmas” vão virar sucata. E como não sei que paradigmas são esses e sucata já sou mesmo, lá fui eu, não sem alguma apreensão, encarar esse usuário desconhecido que já nasceu digital.

Dois anos depois, constatei alguns fatos. Não, não fiz pesquisa nem estudo de usuário, por enquanto falo apenas de percepções. A universidade transborda de gente para fazer estudos, façam isso e me deixem trabalhar.

Sim, muita coisa mudou. Hoje a molecada procura “equações de segundo grau” no Youtube e pronto. Na verdade, pode até digitar “equassões” (acabei de testar) que funciona. Só aparece na biblioteca quem é chato e não ficou satisfeito com o resultado ou recebeu do professor ordens expressas nesse sentido. Um diálogo recente:

– Infelizmente não temos, mas olha só, tem no Youtube …

– É que o professor quer que a gente pegue numa biblioteca (expressão de tédio mortal).

-Tá bom, fala que você veio aqui na ECA e uma bibliotecária de 55 anos falou que esse filme do Youtube é muito bom, é um dos melhores sobre o assunto.

Entre os que me pedem auxílio, ainda é muito comum o desejo de encontrar trabalhos prontinhos com exatamente o mesmo tema da pesquisa do sujeito, seja a relação de A com B ou a influência de X em Y, e estou falando de gente fazendo mestrado, não de crianças. A diferença é que o usuário ingênuo de antigamente que pesquisava sobre a influência da invenção da fotografia no desenvolvimento da arte abstrata, por exemplo, procurava “influência” no fichário, não encontrava nada e pedia ajuda para os bibliotecários – se achasse algum por perto. Já o usuário ingênuo de hoje digita a frase no Google e como alguma coisinha sempre encontra, conclui que não precisa de auxílio nem de bibliotecas, certeza essa que uma rápida análise de seus textos acadêmicos pode facilmente desmentir. Do que eles não precisam mesmo, ninguém precisa, é de bibliotecas vagabundas, bibliotecários incompetentes e professores ruins.

Não atendo mais tantas crianças e adolescentes atrás de material para trabalhos escolares e isso tem um lado bom, porque só gosto de crianças a partir dos 18 anos. O lado ruim é que fico me perguntando se tem alguém conversando com eles sobre seleção e uso de filmes em sala de aula.

Antigamente eram poucos os usuários que realmente entendiam bem as ferramentas disponíveis na época, como os catálogos, as bibliografias ou as obras de referência. Hoje, tanto os usuários quanto as ferramentas são mais tecnológicos (digamos), mas o nível de compreensão não mudou significativamente. A maior diferença que percebo nesse embate entre “o que eu sei e o que preciso perguntar para alguém” é que poucos usuários tinham vergonha de não saber usar um fichário, que era entendido como coisa de bibliotecários, enquanto hoje as pessoas costumam escamotear ao máximo suas eventuais dificuldades com uma base de dados ou catálogo online. Ninguém gosta de ser visto como um excluído digital. Os mais jovens, ao contrário do que nós velhinhos gostamos de acreditar, não nasceram sabendo tudo, mas não têm a mínima vergonha de perguntar e aprender. E, para minha surpresa, também adoram ensinar: “ó, faz assim”.

Trabalhar no atendimento é muito mais divertido agora, porque temos infinitamente mais recursos para encontrar informação pro usuário, mas também é mais angustiante porque praticamente não existem mais limites para o que a gente precisa saber. Na década de 1980 eu tinha o acervo da instituição e mais uma listinha de endereços de outras filmotecas que entregava para o usuário que não conseguia atender com os “meus” filmes. Hoje eu tenho, teoricamente, o mundo. Que um dia será Tlön, não podemos esquecer.

A parte chata é que eu passo boa parte do meu tempo justificando erros do sistema, explicando interfaces ilógicas, traduzindo para o usuário termos que não fazem sentido para ele (nem para mim), torcendo para os links abrirem, mostrando caminhos para chegar a um recurso escondido num site mal feito. Antigamente eu só precisava explicar os meus próprios erros e os dos meus colegas bibliotecários. Agora, são os erros dos bibliotecários, dos analistas, dos vendedores de software, dos desenhistas de sites, dos editores de publicações online… de uma multidão sem rosto. Nem sempre sei de quem é o erro e, quando sei, raramente minhas críticas são ouvidas. Algumas coisas não mudam mesmo.

A foto é minha: um rolo de filme 16mm, uma coladeira.