Quem é quem nos estilos de escrita?

Dando continuidade aos vídeos bibliotecários, mas tentando não conversar só com bibliotecários, resolvi explicar as diferenças entre estilos de escrita literária. Afinal, o que é conto? E qual a diferença com crônica?

Todo mundo já ficou confuso um dia, não é mesmo?

Repensando a Iniciativa de Budapeste pelo Acesso Aberto

A Iniciativa de Budapeste pelo Acesso Aberto (Budapest Open Access Initiative, ou BOAI) completará 15 anos em 14 de fevereiro. Trata-se de um dos marcos iniciais do movimento pelo acesso aberto à informação científica, e seu conceito de “open access” virou padrão mundial:

“Por ‘acesso aberto’ a esta literatura, nos referimos à sua disponibilidade gratuita na internet, permitindo a qualquer usuário a ler, baixar, copiar, distribuir, imprimir, buscar ou usar desta literatura com qualquer propósito legal, sem nenhuma barreira financeira, legal ou técnica que não o simples acesso à internet. A única limitação quanto à reprodução e distribuição, e o único papel do copyright neste domínio sendo o controle por parte dos autores sobre a integridade de seu trabalho e o direito de ser propriamente reconhecido e citado.”

Aniversários são sempre uma oportunidade de avaliar o passado e planejar o futuro. Pensando nisso, a Iniciativa está promovendo uma consulta pública, aberta a todos os interessados no endereço http://budapestopenaccessinitiative.org/boai15-1, até o dia 20 de janeiro 2017.

Com o questionário BOAI15, a Iniciativa de Budapeste chama a comunidade para o diálogo em torno dos valores e das prioridades do movimento pelo acesso aberto. A perspectiva brasileira e latinoamericana é bastante relevante para essa discussão. Fazemos acesso aberto muito antes da BOAI: a rede SciELO nasceu em 1997, está completando 20 anos. Nosso modelo, baseado no financiamento público das revistas, mostra que é possível ir além da dicotomia assinaturas (leitor paga) vs. APCs (autor paga). Mas as editoras tradicionais ainda conseguem manter seu prestígio, e nós continuamos precisando gastar cada vez mais com assinaturas para não perder acesso a periódicos relevantes.

Nossos vizinhos peruanos começaram o ano sem acesso às bases SienceDirect e Scopus, da Elsevier, por falta de recursos para renovar assinaturas. Segundo o jornalista Maurício Tuffani, o Brasil deve gastar em 2017 R$ 402,9 milhões com o Portal de Periódicos da CAPES, um aumento de 16,9% em relação a 2016. Com a perspectiva de cortes de gastos e congelamento de despesas nas próximas décadas, impossível não se perguntar até quando esta situação vai se manter. Sci-hub, #icanhazpdf e outras alternativas para obter acesso a artigos ajudam a contornar a situação, mas não a solucionam.

Se você se preocupa com essas questões, responda ao questionário BOAI15 até 20 de janeiro de 2017, e ajude a divulgá-lo entre seus contatos – a tag para Twitter, Facebook e cia é #BOAI15.

Livros pra ter na biblioteca em 2017

Uma das maneiras mais simples de construir uma lista de aquisições é percorrer as indicações de melhores livros do ano oferecidas por cadernos literários, críticos e leitores que costumam fazer resenhas consistentes. Mas são sempre muitas sugestões e a grana é curta, então pra facilitar, juntei em uma lista única as indicações provenientes de 23 listas de melhores livros de 2016 (metodologia aqui). Bastante coisa boa foi lançada no último ano, que deve servir tanto para compor o acervo de literatura em diversos tipos de biblioteca, como para as nossas bibliotecas particulares. As sinopses foram retiradas dos sites das editoras e livreiros. Boas leituras e bons empréstimos em 2017!

1. Vozes de Tchernóbil, Svetlana Aleksiévitch (indicado em 13 listas)

Em 26 de abril de 1986, uma explosão seguida de incêndio na usina nuclear de Tchernóbil, na Ucrânia – então parte da finada União Soviética -, provocou uma catástrofe sem precedentes em toda a era nuclear: uma quantidade imensa de partículas radioativas foi lançada na atmosfera da URSS e em boa parte da Europa. Em poucos dias, a cidade de Prípiat, fundada em 1970, teve que ser evacuada. Pessoas, animais e plantas, expostos à radiação liberada pelo vazamento da usina, padeceram imediatamente ou nas semanas seguintes. Tão grave quanto o acontecimento foi a postura dos governantes e gestores soviéticos (que nem desconfiavam estar às vésperas da queda do regime, ocorrida poucos anos depois). Esquivavam-se da verdade e expunham trabalhadores, cientistas e soldados à morte durante os serviços de reparo na usina. Pessoas comuns, que mantinham a fé no grande império comunista, recebiam poucas informações, numa luta inglória, em que pás eram usadas para combater o átomo. A morte chegava em poucos dias. Com sorte, podia-se ser sepultado como um patriota em jazigos lacrados. É por meio das múltiplas vozes – de viúvas, trabalhadores afetados, cientistas ainda debilitados pela experiência, soldados, gente do povo – que Svetlana Aleksiévitch constrói esse livro arrebatador, a um só tempo, relato e testemunho de uma tragédia quase indizível. Cenas terríveis, acontecimentos dramáticos, episódios patéticos, tudo na história de Tchernóbil aparece com a força das melhores reportagens jornalísticas e a potência dos maiores romances literários. Eis uma obra-prima do nosso tempo.

2. Como se estivéssemos em palimpsesto de putas, Elvira Vigna (indicado em 10 listas)

Dois estranhos se encontram num verão escaldante no Rio de Janeiro. Ela é uma designer em busca de trabalho, ele foi contratado para informatizar uma editora moribunda. O acaso junta os protagonistas numa sala, onde dia após dia ele relata a ela seus encontros frequentes com prostitutas. Ela mais ouve do que fala, enquanto preenche na cabeça as lacunas daquela narrativa. Uma das grandes escritoras brasileiras da atualidade, Elvira Vigna parte desse esqueleto para criar um poderoso jogo literário de traições e insinuações, um livro sobre relacionamentos, poder, mentiras e imaginação.

3. Simpatia pela demônio, Bernardo Carvalho (indicado em 10 listas)

O funcionário de uma agência humanitária é designado para levar o resgate que libertará o jovem refém de um grupo extremista islâmico. Enquanto espera para travar contato com os terroristas, o personagem revê o mais tortuoso episódio de paixão de sua vida: seu caso com um estudante mexicano em Berlim. É no espaço entre a vivência do terrorismo contemporâneo e a aceitação do mundo sem regras criado por um relacionamento desigual que Simpatia pelo Demônio se equilibra com maestria, fazendo do romance um dos grandes acontecimentos literários brasileiros. Um livro profundo e cativante, em que política, humanidade e desejo compõem uma grande odisseia pessoal.

4. Um amor feliz, Wislawa Szymborska (indicado em 10 listas)

Quando, em 2011, a Companhia das Letras lançou Poemas, o primeiro volume com a lírica da poeta polonesa Wislawa Szymborska (Prêmio Nobel de literatura em 1996), começou uma verdadeira “febre Szymborska” no Brasil: ótimas vendas, esplêndidas resenhas e uma enorme repercussão garantiram um novo e amplo público para essa poesia que fala diretamente com o leitor. A obra de Szymborska equilibra-se entre o rigor e a observação dos fatos, sempre num tom levemente informal – a despeito da cuidadosa construção dos versos. Falando de amores e da vida cotidiana, a escritora ergueu uma obra que toca os leitores e influencia novas gerações. Este segundo volume promete fazer tanto barulho quanto o primeiro.

5. Tetralogia napolitana, Elena Ferrante: A amiga genial (indicado em 3 listas); História do novo sobrenome (indicado em 9 listas); História de quem foge e de quem fica (indicado em 8 listas)

Envolvente e com a costumeira cadência impecável, a narrativa de História do novo sobrenome dá espaço para reflexões profundas a respeito da subjetividade, da sexualidade, do amor e, sobretudo, do papel imposto à jovem mulher em meados do século XX ― contraponto construído entre as duas personagens centrais, às voltas com as restritas possibilidades de escolha, mas ao mesmo tempo surpreendidas pelas descobertas acerca de suas próprias capacidades e seus limites. Lila, que teve os estudos interrompidos por questões familiares – muito cedo teve que trabalhar com o pai e o irmão, se casou cedo. Lenu, por sua vez, consegue se desvencilhar do destino certo das moças da época e não se casa, mas passa a se preparar para a faculdade, levando consigo as marcas definitivas da complexa relação de amizade com Lila – admiração misturada a identificação.Os personagens vão ganhando espaço na história, não apenas nos acontecimentos cotidianos relatados por Lenu, como também nos comentários subjetivos da narradora. Lenu, sem poupar de nada o leitor, escancara cenas de casamento, de adultério, de supostas e reais traições dentro de uma amizade, mas também os pequenos momentos em que parece acertar as contas com ela mesma.

6. O tribunal da quinta-feira, Michel Laub (indicado em 9 listas)

Um publicitário faz confissões por e-mail ao melhor amigo. Os textos falam de sexo e amor, casamento e traição, usando termos e piadas ofensivas que contam a história de uma longa crise pessoal. Quando a ex-mulher do protagonista faz cópias das mensagens e as distribui, tem início o escândalo que é o centro deste romance explosivo. O fio condutor da história, que une o destino dos personagens diante de um tribunal inusitado, são os reflexos tardios e ainda hoje incômodos da epidemia da aids, e o que está em jogo são os limites do que entendemos por tolerância – mas para chegarmos a eles é preciso ir além do que seria uma literatura “correta” ao tratar de homofobia, assédio, violência, empatia, liberdade e solidariedade.

7. Todos os contos, Clarice Lispector (indicado em 9 listas)

Autora de romances e contos que figuram entre os mais emblemáticos da literatura brasileira, Clarice Lispector é considerada uma das mais importantes escritoras do século XX. Sua figura e sua obra exercem sobre leitores o mesmo e fascinante estranhamento que causaram desde sua estreia literária, em 1943. Nesta coletânea, que reúne pela primeira vez todos os contos da autora num único volume, organizado pelo biógrafo Benjamin Moser, é possível conhecer Clarice por inteiro, desde os primeiros escritos, ainda na adolescência, até as últimas linhas. Essencial para estudantes e pesquisadores, para fãs de Clarice Lispector e iniciantes na obra da escritora, Todos os contos foi lançado nos Estados Unidos em 2015, figurando na lista de livros mais importantes do ano do jornal The New York Times e ganhou importantes prêmios, como o Pen Translation Prize, de melhor tradução. Agora é a vez de os leitores brasileiros (re)descobrirem por completo esta contista prolífica e singular.

8. A guerra não tem rosto de mulher, Svetlana Aleksiévitch (indicado em 8 listas)

A história das guerras costuma ser contada sob o ponto de vista masculino: soldados e generais, algozes e libertadores. Trata-se, porém, de um equívoco e de uma injustiça. Se em muitos conflitos as mulheres ficaram na retaguarda, em outros estiveram na linha de frente.
É esse capítulo de bravura feminina que Svetlana Aleksiévitch reconstrói neste livro absolutamente apaixonante e forte. Quase um milhão de mulheres lutaram no Exército Vermelho durante a Segunda Guerra Mundial, mas a sua história nunca foi contada. Svetlana Aleksiévitch deixa que as vozes dessas mulheres ressoem de forma angustiante e arrebatadora, em memórias que evocam frio, fome, violência sexual e a sombra onipresente da morte.

9. Enclausurado, Ian McEwan (indicado em 8 listas)

O narrador deste livro é nada menos do que um feto. Enclausurado na barriga da mãe, ele escuta os planos da progenitora para, em conluio com seu amante – que é também tio do bebê -, assassinar o marido. Apesar do eco evidente nas tragédias de Shakespeare, este livro de McEwan é uma joia do humor e da narrativa fantástica. Em sua aparente simplicidade, Enclausurado é uma amostra sintética e divertida do impressionante domínio narrativo de McEwan, um dos maiores escritores da atualidade.

10. A filha perdida, Elena Ferrante (indicado em 7 listas)

Lançado originalmente em 2006 e ainda inédito no Brasil, o terceiro romance da autora que se consagrou por sua série napolitana acompanha os sentimentos conflitantes de uma professora universitária de meia-idade, Leda, que, aliviada depois de as filhas já crescidas se mudarem para o Canadá com o pai, decide tirar férias no litoral sul da Itália. Logo nos primeiros dias na praia, ela volta toda a sua atenção para uma ruidosa família de napolitanos, em especial para Nina, a jovem mãe de uma menininha chamada Elena que sempre está acompanhada de sua boneca. Cercada pelos parentes autoritários e imersa nos cuidados com a filha, Nina parece perfeitamente à vontade no papel de mãe e faz Leda se lembrar de si mesma quando jovem e cheia de expectativas. A aproximação das duas, no entanto, desencadeia em Leda uma enxurrada de lembranças da própria vida – e de segredos que ela nunca conseguiu revelar a ninguém.No estilo inconfundível que a tornou conhecida no mundo todo, Elena Ferrante parte de elementos simples para construir uma narrativa poderosa sobre a maternidade e as consequências que a família pode ter na vida de diferentes gerações de mulheres.

11. O marechal de costas, José Luiz Passos (indicado em 6 listas)

Operando no limite entre fato e ficção, O marechal de costas traça um retrato sem paralelos da história do país. Por trás de um olhar imóvel e de um silêncio desconcertante, o marechal Floriano definiu o período mais turbulento da nossa República. Mas o marechal de ferro oculta o sonhador casado com a própria irmã e obcecado por Napoleão Bonaparte. Nascido em Alagoas, Floriano é a figura de maior importância política nos primeiros anos da República. Nas páginas deste romance, passado e presente se intercalam de forma espantosa. Acompanhamos não só um Floriano Peixoto humano e o nascimento da República, como os acontecimentos turbulentos do presente, por meio de uma antiga cozinheira que segue, de perto, as manifestações de 2013 e seus desdobramentos políticos. Um livro poderoso sobre a construção de nossa nação.

12. Linha M, Patti Smith (indicado em 5 listas)

Depois do cultuado Só garotos, a lendária cantora e escritora Patti Smith volta à sua odisseia pessoal neste Linha M, que ela chama de “um mapa para minha vida”. O livro começa no Greenwich Village, o bairro que tanto marcou sua história. Todos os dias a artista vai ao mesmo café e, munida de seu caderno de anotações, registra suas impressões sobre o passado e o presente, a arte e a vida, o amor e a perda. É desse café que ela nos conduz ao México, onde visita a Casa Azul de Frida Kahlo em Coyoacán; a uma conferência dos membros do Instituto Alfred Wegener em Bremen, na Alemanha; e ao bangalô em Rockaway Beach que ela compra pouco tempo antes de o furacão Sandy atingir o país. Patti Smith, uma leitora voraz, nos conduz também pelo labirinto de suas paixões literárias. Conhecemos, de um ponto de vista privilegiado, sua opinião sobre escritores como Murakami, Jean Genet, Sylvia Plath e Rimbaud. As ideias de Smith abrem uma janela para sua arte e seu processo de criação, que são revelados com candura sinceridade tocantes. Em meio a essas leituras, ela costura também as próprias memórias, desde a vida em Michigan até a dor irremediável pela perda do marido, Fred Sonic Smith, num depoimento ao mesmo tempo emocionante e honesto sobre o amor. Num tom que transita entre a desolação e a esperança – e amplamente ilustrado com suas icônicas polaroides -, Linha M é uma reflexão sobre viagens, séries de detetives, literatura e café. Um livro poderoso e comovente de uma das mais multifacetadas artistas em atividade.

13. Mulheres, raça e classe, Angela Davis (indicado em 5 listas)

Mais importante obra de Angela Davis, “Mulheres, raça e classe” traça um poderoso panorama histórico e crítico das imbricações entre a luta anticapitalista, a luta feminista, a luta antirracista e a luta antiescravagista, passando pelos dilemas contemporâneos da mulher. O livro é considerado um clássico sobre a interseccionalidade de gênero, raça e classe.A perspectiva adotada por Davis realça o mérito do livro: desloca olhares viciados sobre o tema em tela e atribui centralidade ao papel das mulheres negras na luta contra as explorações que se perpetuam no presente, reelaborando-se. O reexame operado pela escrita dessa ativista mundialmente conhecida é indispensável para a compreensão da realidade do nosso país, pois reforça a práxis do feminismo negro brasileiro, segundo o qual a inobservância do lugar das mulheres negras nas ideias e projetos que pensaram e pensam o Brasil vem adiando diagnósticos mais precisos sobre desigualdade, discriminação, pobreza, entre outras variáveis. Grande parte da nossa tradição teórica e política (Gilberto Freyre e Sérgio Buarque de Holanda, para ficarmos em poucos exemplos) insiste em confinar as questões aqui tratadas por Davis na esfera privada, como se apenas desta proviesse sua solução.

14. Uma vida pequena, Hanya Yanagihara (indicado em 5 listas)

Quando quatro amigos de uma pequena faculdade de Massachusetts se mudam para Nova York em busca de uma vida melhor, eles se veem falidos, sem rumo e amparados apenas por sua amizade e por suas ambições. Willem, lindo e generoso, é aspirante a ator; JB, nascido no Brooklyn, é um pintor perspicaz e às vezes cruel que busca de todas as formas ingressar no mundo das artes; Malcolm é um arquiteto frustrado que trabalha numa empresa de renome; e o solitário, brilhante e enigmático Jude funciona como o centro gravitacional do grupo. Com o tempo, o relacionamento deles se aprofunda e se anuvia, matizado pelo vício, pelo sucesso e pelo orgulho. No entanto, seu maior desafio, como cada um passa a perceber, é o próprio Jude, um litigante extremamente talentoso na meia-idade, porém, ao mesmo tempo, um homem cada vez mais atormentado, a mente e o corpo marcados pelas cicatrizes de uma infância misteriosa, e assombrado pelo que teme ser um trauma tão intenso que não só não será capaz de superar — mas que vai definir sua vida para sempre. Com uma prosa magnífica e genial, Hanya Yanagihara criou um hino trágico e transcendental do amor fraterno, uma representação magistral da dor física e psicológica, e uma análise da verdade nua e crua que permeia a tirania da memória e os limites da resistência humana.

15. Dias de abandono, Elena Ferrante (indicado em 5 listas)

No livro, a escritora escondida pelo misterioso pseudônimo utiliza suas palavras cortantes e sua clareza brutal para percorrer o turbilhão emocional vivido por Olga após um casamento fracassado. Traída e se sentindo abandonada pelo marido, a personagem enfrenta conflitos internos em meio à nuvem cinzenta da desolação e da nova e inquietante realidade que se apresenta.Moradores de um apartamento em Turim, para onde Olga se mudou por conta da carreira profissional do marido, com dois filhos e um cachorro, Mario e Olga viveram ma relação de 15 anos com os altos e baixos de um casamento normal. Sem abalos que evidenciassem um término repentino, Olga ouve o discurso de seu marido anunciando que ele a deixaria naquele momento. As páginas seguintes vão desnudando cenas críticas do passado do casal, repassadas até a exaustão pela protagonista e misturadas à urgência do seu cotidiano completamente destruído.

16. 41 inícios falsos, Janet Malcolm (indicado em 4 listas)

O trabalho da jornalista norte-americana Janet Malcolm já foi descrito como uma mistura de reportagem, biografia, crítica literária e psicanálise, com pitadas do romance realista do século XIX. Nesta coletânea, essa junção única – marca registrada de uma das maiores escritoras de não ficção de nossos tempos – pode ser verificada a cada página. O volume reúne ensaios publicados ao longo de várias décadas, sobretudo na New Yorker, berço do jornalismo literário, e na New York Review of Books, bíblia da intelectualidade nova-iorquina. São textos que refletem o interesse da autora por pintores, fotógrafos, escritores, críticos, e pelas particularidades do ofício criativo. Malcolm explora a obsessão dos integrantes de Bloomsbury – o célebre grupo a que pertenceram Virginia Woolf e Lytton Strachey – com a construção do efeito “literário”; as apaixonadas colaborações por trás dos nus retratados pelo fotógrafo Edward Weston; ou a “banalidade” que tanto incomodava J. D. Salinger. Sob seu olhar, o pintor Julian Schnabel tem o ar modestamente satisfeito de um empreendedor bem-sucedido. O fotógrafo alemão Thomas Struth, flagrado ao citar Proust sem tê-lo lido, percebe que sua declaração será presa inevitável do oportunismo jornalístico. No perfil que dá título ao livro, o artista David Salle ganha 41 versões para sua trajetória declinante. A cada ensaio, como diz o crítico Ian Frazier na introdução, Malcolm demonstra que a não ficção – um livro-reportagem, um artigo em uma revista, o que lemos todos os dias – pode ser alçada à literatura de mais alto nível. Não à toa, Janet Malcolm vem estimulando gerações de jornalistas e escritores a romper com as convenções dos textos não ficcionais. Seu trabalho caminha no sentido contrário às crenças estabelecidas sobre as artes e a escrita, com olhar arguto para o detalhe inesperado e a disposição constante para surpreender o leitor.

17. O Fim da História, Lydia Davis (indicado em 4 listas)

Ao tentar reconstituir as lembranças de um romance fracassado, a protagonista de O fim da história se confunde, inventa, conta e reconta episódios que não temos certeza se de fato aconteceram. Ao mesmo tempo que tenta escrever um livro sobre a trajetória do casal, ela se embrenha nos recantos da memória, que escolhe caminhos tortuosos para dar sentido a eventos conduzidos pelo amor e pelo fim dele. Lydia Davis é crítica literária, tradutora e escritora, a americana Lydia Davis nasceu em Northampton (Massachussetts) em 1947. Vencedora do Man Booker International 2013, seu nome tem sido associado à radical renovação da narrativa breve, com históricas que entre ficção, ensaio e poesia. Aclamada também pelas traduções de autores franceses como Foucault, Flaubert e Proust, a autora venceu o French-American Foundation Translation Prize de 2003 por sua tradução de No caminho de Swann. Davis publicou seis livros de contos e um romance, The end of history (2004). Seu mais recente título Tipos de perturbação (2013) foi indicado ao National Book Award.

18. O homem sem doença, Arnon Grunberg (indicado em 4 listas)

O romance narra as desventuras tragicômicas no Oriente Médio de Samarendra Ambani, jovem e idealista arquiteto suíço. Sam, como é conhecido pelos amigos, mora em Zurique com a mãe e uma irmã deficiente da qual ele mesmo cuida, e trabalha num pequeno estúdio de arquitetura montado com um sócio. Ao participar de um concurso para a construção de um teatro de ópera em Bagdá, lançado por uma obscura organização internacional chefiada pelo misterioso Hamid Shakir Mahmoud, é selecionado e, posteriormente, convidado para ir ao Iraque. A viagem, iniciada em clima de ingênuo otimismo, rapidamente se transforma em uma experiência traumatizante: no país devastado pela violência, Sam vivenciará a brutalidade da guerra na própria pele: enganado, absurdamente acusado por alguns policiais – que também poderiam ser integrantes de uma milícia – de ser espião, é preso, interrogado e torturado, conseguindo retornar para Zurique graças apenas à inesperada intervenção da Cruz Vermelha. Uma vez em Zurique, Sam tenta retomar a normalidade, mas, ferido no corpo e na mente, não consegue e, pouco tempo depois, viaja para Dubai, a fim de acompanhar o projeto de construção de uma grandiosa biblioteca. No emirado, nosso herói é novamente acusado de espionagem e até de assassinato, acusações que o levarão a um trágico e surreal epílogo.Uma história trágica contada com irresistível ironia, O homem sem doença é um impiedoso ato de acusação contra o idealismo e a hipocrisia do Ocidente, que logra, ao mesmo tempo, divertir e chocar o leitor. Em outras palavras, é um típico romance de Arnon Grunberg.

19. O reino, Emmanuel Carrère (indicado em 4 listas)

Obra-prima de um dos maiores escritores franceses da atualidade, este romance reconta os primórdios do cristianismo e investiga as vidas de São Paulo e São Lucas. O Reino mergulha — e busca reconstituir — as origens do cristianismo, no final do primeiro século depois de Cristo. Carrère descreve como dois homens, Paulo e Lucas, transformaram uma pequena seita judaica, centrada em seu pregador, crucificado durante o reinado de Tibério e que acreditavam ser o messias, em uma religião que em três séculos transformou a fé no Império Romano e a seguir conquistou o mundo.
Quem narra — e se coloca na história como investigador e personagem — é o próprio Emmanuel Carrère. Partindo de uma narrativa sobre sua juventude, quando se tornou um católico fervoroso, até suas dúvidas e sua renúncia à religião, Carrère mescla presente e passado numa história turbulenta, e procura descobrir as figuras humanas por trás desses dois personagens tão marcantes da história mundial: São Paulo e São Lucas. Está é a obra-prima de Emmanuel Carrère, com mais de 300.000 exemplares vendidos na França.

20. Prosas apátridas, Julio Ramón Ribeyro (indicado em 4 listas)

Nascido em 1929,o peruano Julio Ramón Ribeyro notabilizou-se como mestre do conto e do relato inclassificável, discorrendo com agudo senso de observação e ironia sobre a vida cotidiana, os personagens citadinos e suas próprias obsessões, entre elas o cigarro. Estas Prosas apátridas reúnem fragmentos que oscilam entre anotações em um diário, aforismos e o ensaio filosófico, passeando por temas como literatura, infância e velhice, amor e sexo, memória e esquecimento, com sensibilidade, elegância e amargura ímpares. Mais um ícone da literatura latino-americana a chegar às prateleiras brasileiras pela coleção Otra Língua, organizada por Joca Reiners Terron.

21. Uma história natural da curiosidade, Alberto Manguel (indicado em 4 listas)

Em Uma história natural da Curiosidade, Alberto Manguel mapeia os textos e autores que o inspiraram ao longo de sua vida como leitor. Não se trata, porém, de um leitor qualquer. Manguel vivia rodeado por 30 mil livros em sua casa na França e atualmente dirige a Biblioteca Nacional da Argentina, cargo antes ocupado por Jorge Luís Borges. O livro se estrutura em torno de dezessete questões de respostas nada óbvias. “O que é língua? ” e “Quem sou eu?” são temas que estão na origem das histórias que o autor mobiliza neste livro. Manguel seleciona uma galeria de curiosos notáveis, como Tomás de Aquino, David Hume, Lewis Carroll, Sócrates e, sobretudo, Dante, para nos guiar em meio a tais questões.

22. Atlas de Nuvens, David Mitchell (indicado em 3 listas)

Neste que é um dos romances mais importantes da atualidade, David Mitchell combina o gosto pela aventura, o amor pelo quebra-cabeça nabokoviano e o talento para a especulação filosófica e científica na linha de Umberto Eco, Haruki Murakami e Philip K. Dick. Conduzindo o leitor por seis histórias que se conectam no tempo e no espaço – do século XIX no Pacífico ao futuro pós-apocalíptico e tribal no Havaí -, Mitchell criou um jogo de bonecas russas que explora com maestria questões fundamentais de realidade e identidade.

23. Butcher’s Crossing, John Williams (indicado em 3 listas)

Na década de 1870, Will Andrews, um jovem de 23 anos, desiste de Harvard e resolve sair da casa paterna, abandonando o opulento estilo de vida da classe média bostoniana. Viaja, então, para o West, em busca de uma forma mais autêntica de viver, e vai parar em Butcher’s Crossing, um pequeno povoado solitário perdido na vastidão da pradaria do Kansas e habitado por uma pequena comunidade de negociantes de peles e rudes caçadores de búfalos. Alguns dias depois, ele faz amizade com um caçador e, junto com outros três homens, monta uma expedição de caça a búfalos nas Rochosas do Colorado. Marcada por desafios extremos – sede, frio, calor, exaustão – e por um isolamento quase total, essa caçada vai durar vários meses e se tornar uma aventura muito árdua na natureza selvagem, tocando os limites da sobrevivência. Para Will Andrews, debilitado pela fadiga e absorto na contemplação da linda paisagem, a aventura representará uma experiência existencial com caraterísticas quase oníricas e um verdadeiro ritual de passagem.

24. Detetive à Deriva, Luís Henrique Pellanda (indicado em 3 listas)

Nas crônicas de Detetive à deriva, as belas estranhezas do dia a dia – como uma família de urubus nas alturas de um prédio, um par de botas abandonado, um solitário bebê chinês na calçada e um enigmático rastro de pétalas – estabelecem a relação entre o flâneur e o investigador, entre os observadores da poesia cotidiana e os autores policiais. Fugindo da tendência atual de transformar o espaço da crônica na imprensa em tribuna de opinião, Luís Henrique Pellanda, grande renovador e um dos principais autores contemporâneos do gênero, inspira-se nas ruas e nas janelas de sua Curitiba. Em pistas que só o cronista vê, o mistério das coisas pequenas se revela ao leitor com a leveza e o encanto de uma história bem contada.

25. Diários parte II, Susan Sontag (indicado em 3 listas)

“Quem inventou o casamento era um torturador astuto. É uma instituição destinada a embotar os sentimentos.” Reflexões agudas como essa, entre a amargura e a ironia, fazem parte da matéria-prima destes Diários, espécie de buraco da fechadura privilegiado por onde se enxerga a intimidade mental e existencial dos anos de juventude de uma das intelectuais mais influentes da América do pós-guerra. Selecionados por seu filho David Rieff depois de sua morte, os trechos ora publicados exibem um foco temático irrequieto que se desloca num caleidoscópio de assuntos da esfera pessoal e cultural. A par do seu vasto itinerário de leituras e experiências de fruição artística, presenciamos aqui, em registro confessional, a descoberta adolescente da sexualidade, as vivências como caloura precoce na Universidade da Califórnia, onde ingressou aos dezesseis anos, o breve casamento aos dezoito com seu professor Philip Rieff e as duas grandes relações amorosas mantidas com mulheres na sua fase de jovem adulta. Os Diários nos transportam, enfim, para o denso e rico mundo mental de uma jovem Susan Sontag em plena batalha diária para se tornar Susan Sontag.

26. Enquanto Houver Champanhe, Há Esperança, Joaquim Ferreira dos Santos (indicado em 3 listas)

Por quase trinta anos, entre 1969 e 1997, a sociedade brasileira foi desnudada pela escrita espirituosa do jornalista Zózimo Barrozo do Amaral em sua coluna diária no Jornal do Brasil e depois em O Globo. Muito além dos registros sociais, ele oferecia um noticiário que flertava com a economia, a política e o esporte (sua paixão), em um estilo elegante e sem qualquer cerimônia. Fez muitos amigos, ganhou uns poucos desafetos e chegou a ser preso duas vezes durante o regime militar. Joaquim Ferreira dos Santos reconstitui toda a trajetória do colunista, desde sua infância, no bairro carioca do Jardim Botânico, passando por seu começo de carreira quase acidental no jornalismo, até conquistar uma coluna assinada no Jornal do Brasil, aos vinte e sete anos. Ao seguir a trilha aberta por pioneiros como Álvaro Americano, Jacinto de Thormes e Ibrahim Sued, ele fez escola. Enquanto se tornava a mais respeitada grife do colunismo no país, Zózimo registrava nas páginas dos jornais as imensas mudanças ocorridas na elite carioca. As festas saíram dos salões dos grã-finos e instalaram-se em casas noturnas como o Regine’s e o Hippopotamus. A animação movida pelo champã ganhou aditivos como a cocaína.Ao mesmo tempo que retratava o agito social, Zózimo enfrentava os próprios demônios. Viveu amores, momentos de turbulência familiar e sérias questões de saúde. Mas até o final foi um homem apaixonado pela vida, como ele gostava de dizer: “Enquanto houver champanhe, há esperança.”

27. Homo Deus, Yuval Noah Harari (indicado em 3 listas)

Neste Homo Deus: uma breve história do amanhã, Yuval Noah Harari, autor do estrondoso best-seller Sapiens: uma breve história da humanidade, volta a combinar ciência, história e filosofia, desta vez para entender quem somos e descobrir para onde vamos. Sempre com um olhar no passado e nas nossas origens, Harari investiga o futuro da humanidade em busca de uma resposta tão difícil quanto essencial: depois de séculos de guerras, fome e pobreza, qual será nosso destino na Terra? A partir de uma visão absolutamente original de nossa história, ele combina pesquisas de ponta e os mais recentes avanços científicos à sua conhecida capacidade de observar o passado de uma maneira inteiramente nova. Assim, descobrir os próximos passos da evolução humana será também redescobrir quem fomos e quais caminhos tomamos para chegar até aqui.

28. Machado – Silviano Santiago (indicado em 3 listas)

Rio de Janeiro, começo do século XX. Viúvo e solitário, Machado de Assis sofre fortes dores e crises nervosas enquanto testemunha a modernização da antiga cidade do Rio de Janeiro. Em Mário de Alencar, filho de José de Alencar, o presidente da Academia Brasileira de Letras encontrará um precioso interlocutor, que também sofre terríveis crises nervosas e o encaminhará ao dr. Miguel Couto. Qual é a relação entre as convulsões de Machado e sua genial criação? Depois de narrar passagens inauditas das vidas de Graciliano Ramos e Antonin Artaud, Silviano Santiago oferece uma perspectiva totalmente original e audaciosa dos últimos anos de vida de um dos maiores romancistas de todos os tempos.

29. Nunca o Nome do Menino – Estevão Azevedo (indicado em 3 listas)

Em Nunca o nome do menino, a personagem principal, uma mulher, nos relata os dias de sua vida que se seguiram ao momento em que ela descobre que é personagem de uma ficção que não aprecia e cujo autor despreza. Em seu labirinto literário, dois tempos distantes de sua vida nos são narrados, duas linhas que se estendem da primeira à última página como serpentes ávidas por devorar o próprio rabo e criar uma narrativa de vertigem, repleta de espelhamentos, ciclos e sentimentos. Ela nos conta os fatos de sua vida passada – sua infância, o amor de um menino, o convívio com o próprio corpo em transformação, a relação com os pais – que a conduziriam a tal descoberta. O que fazer diante de tão angustiante possibilidade? À personagem deste livro resta amputar o dedo mínimo da mão esquerda, imaginando com isso arrancar pelo menos algumas letras das palavras que a descrevem. Ao leitor, cabe percorrer as páginas de lirismo e delicadeza do primeiro romance de Estevão Azevedo e aceitar o desafio de pensar que sua própria vida pode também ser uma ficção.

30. O Inferno dos Outros – David Grossman (indicado em 3 listas)

Em cima de um palco decadente de uma pequena cidade israelense, Dovale apresenta um show de stand up para alguns gatos pingados e um amigo de infância, seu convidado especial da noite. Enquanto faz piadas mais ou menos sagazes, no limite do politicamente correto e do bom gosto, passeando por temas tão amplos quanto o conflito Israel-Palestina e os palavrões proferidos por um papagaio, o comediante provoca o riso da plateia, mas também o desconforto. A tensão aumenta conforme Dovale expõe seus dramas pessoais mais profundos, e o humor se esvai dando lugar a uma melancolia comum a todos nós. Um romance corajoso e atual, breve mas avassalador, de um dos maiores ficcionistas contemporâneos.

31. Os sertões – Euclides da Cunha (indicado em 3 listas)

Os sertões – marco fundamental nos estudos sobre a formação brasileira, ao lado de Casa-grande e senzala e Raízes do Brasil – foi escrito a partir de um trabalho jornalístico sobre a rebelião de Canudos, liderada por Antonio Conselheiro e duramente reprimida pelo governo. Baseada em teorias deterministas em voga na época, a obra aborda cientificamente a influência do meio sobre o homem, como mostra a própria estrutura dos capítulos: “A terra”, “O homem”, “A luta”. Parte da riqueza do livro reside no fato de ele retratar a mudança de opinião do escritor que, movido por um espírito patriótico e republicano, via com maus olhos a revolta dos “fanáticos” defensores da monarquia, alinhando-se ao restante da elite letrada, que considerava a insurgência uma ameaça ao desenvolvimento brasileiro. Enviado para o interior da Bahia pelo jornal O Estado de S. Paulo, Euclides se defrontou com a realidade de famílias reunidas em torno de um líder messiânico, cujo movimento – crítico especialmente da precariedade da região – estava na iminência de ser massacrado. A experiência foi transformadora e teve como fruto um romance social que se tornou uma das maiores obras da literatura brasileira.Dificilmente classificável devido à mescla de jornalismo, literatura e estudo sociológico, o livro adianta temas-chave do modernismo e tem como um de seus legados a incorporação do ponto de vista local – nesse caso, do Brasil profundo –, por meio de uma linguagem grandiosa e repleta de contrastes. “O sertanejo é, antes de tudo, um forte” impôs um novo modo de se pensar o brasileiro, e tornou-se referência histórica incontornável para as discussões sobre identidade nacional. Além do texto estabelecido pela edição crítica de Walnice Nogueira Galvão, o volume conta com uma extensa fortuna crítica, reprodução de páginas das cadernetas de campo de Euclides da Cunha e um conjunto de imagens de Flávio de Barros, único registro fotográfico conhecido do conflito.

32. Poemas completos – Herberto Helder (indicado em 3 listas)

Poemas Completos é o novo título para o livro que passa a reunir a poesia de Herberto Helder. Esta obra segue a fixação empregue na edição anterior, Ofício Cantante, e inclui já os esgotados «Servidões» – considerado por grande parte da crítica especializada como o livro do ano em 2013 – e A Morte sem Mestre. Herberto Helder – é a última e mais completa antologia poética organizada pelo autor em 2014, um ano antes da sua morte. Unanimemente considerado o maior poeta português do século XX, ao lado de Pessoa, Herberto Helder escreveu intensamente até ao fim de sua vida, construindo aquilo a que chamava um “poema contínuo”. “Poemas Completos” reúne grande parte de sua obra poética, refeita e editada conforme era hábito do autor, um ano antes da sua morte. Publicada em Portugal em 2014, essa antologia obrigatória fica agora também acessível aos leitores brasileiros, a partir de 2016. Para além de Poemas Completos, a Editora Tinta da China Brasil publicou também Os Passos em Volta (2016). Já Photomaton & Vox, O Bebedor Nocturno e Poemas Canhotos serão os próximos títulos.

33. Quem matou Roland Barthes? – Laurent Binet (indicado em 3 listas)

Após vencer o Prêmio Goncourt com seu primeiro romance, HHhH, Laurent Binet volta a transitar pela fronteira entre ficção e realidade numa engenhosa e bem-humorada mescla de thriller histórico e farsa filosófica. A premissa é simples: e se o atropelamento que matou o crítico e semiólogo francês Roland Barthes não tivesse sido um acidente, mas sim um crime? E se o autor de Fragmentos de um discurso amoroso tivesse sido vítima de uma conspiração por estar de posse de um manuscrito contendo a sétima função da linguagem, última parte da teoria do linguista Roman Jakobson nunca revelada, capaz de convencer qualquer um de qualquer coisa? Nos meios intelectuais e políticos da Paris de então, em que transitam personagens como Foucault, Derrida, Deleuze, Althusser e Guattari, qualquer um pode ser o culpado…

34. Reza de mãe – Allan da Rosa (indicado em 3 listas)

“Reza de Mãe”, livro de contos de Allan da Rosa, é uma promissora estreia, em mais de uma acepção da palavra. Além de ser a primeira reunião impressa da produção do autor em contos, inaugura também uma abordagem linguística e literária que contempla a dura vivência na periferia sob o prisma afro-brasileiro, dos movimentos negros que germinam nas franjas da metrópole, que já estabeleceram uma produção cultural de inédito colorido poético.Como todo escritor que faz jus ao ofício, o projeto artístico de Allan é ambicioso. Não se trata apenas de dar voz ao excruciante cotidiano daqueles que vivem à margem do sistema. Ele o faz através de uma revolução estética que perpassa vários níveis, desde um trabalho de fixação de sonoros vocábulos e nomes de origem africana (malunga, requenguela, Mutalambô e outros) até uma sintaxe original na fatura das narrativas, que possuem grande poder de encantamento graças tanto ao lirismo pungente do destino dos personagens quanto ao entrelaçamento de algumas estórias. “Reza de Mãe” representa uma nova e benfazeja vertente da literatura brasileira contemporânea que não pode mais ser ignorada.

35. Rita Lee, Uma Autobiografia (indicado em 3 listas)

“Do primeiro disco voador ao último porre, Rita é consistente. Corajosa. Sem culpa nenhuma. Tanto que, ao ler o livro, várias vezes temos a sensação de estar diante de uma bio não autorizada, tamanha a honestidade nas histórias. A infância e os primeiros passos na vida artística; sua prisão em 1976; o encontro de almas com Roberto de Carvalho; o nascimento dos filhos, das músicas e dos discos clássicos; os tropeços e as glórias. Está tudo lá. E você pode ter certeza: essa é a obra mais pessoal que ela poderia entregar de presente para nós. Rita cuidou de tudo. Escreveu, escolheu as fotos e criou as legendas – e até decidiu a ordem das imagens -, fez a capa, pensou na contracapa, nas orelhas… Entregou o livro assim: prontinho. Sua essência está nessas páginas. E é exatamente desse modo que a Globo Livros coloca a autobiografia da nossa estrela maior no mercado.” Guilherme Samora é jornalista e estudioso do legado cultural de Rita Lee.

Altmetria à brasileira em 2016

Para fechar o ano, resolvi fazer um post recapitulando a produção científica sobre métricas alternativas no Brasil em 2016 (mas se você estiver de férias, recomendo que só leia isso em 2017).

2016 foi um ano bom para a altmetria.

As métricas alternativas deixaram de ser tão alternativas, com um aumento significativo no número de pesquisas publicadas sobre o assunto, a consolidação de serviços como Altmetric e Plum Analytics e, principalmente, com a publicação das recomendações de melhores práticas de uso da altmetria pela NISO.  E a altmetria ganhou até uma entrada (ainda que tímida) na Wikipedia em português.

No Brasil, tivemos uma boa safra de pesquisas sobre altmetria publicadas por autores brasileiros nesse ano, entre artigos, dissertações, livros e trabalhos apresentados em congressos. A lista não pretende ser completa, e se me esqueci de algum trabalho, fique à vontade para incluir nos comentários desse post.

ARAÚJO, Ronaldo, & FURNIVAL, Ariadne. (2016). Comunicação científica e atenção online: em busca de colégios virtuais que sustentam métricas alternativas. Informação & Informação, 21(2), 68-89. http://dx.doi.org/10.5433/1981-8920.2016v21n2p68
ARAÚJO, Ronaldo Ferreira. (2016). Presença online de pesquisadores na web: indícios para as métricas em nível de autores. Anais do XVII Encontro Nacional de Pesquisa em Ciência da Informação. Salvador, BA. http://www.ufpb.br/evento/lti/ocs/index.php/enancib2016/enancib2016/paper/view/4123
ARAÚJO, Ronaldo Ferreira, CARAN, Gustavo Miranda, & SOUZA, Iara Vidal Pereira de. (2016). Orientação temática e coeficiente de correlação para análise comparativa entre altmetrics e citações. Em Questão, 22(3), 184-200. http://dx.doi.org/10.19132/1808-5245223.184-200
ARAÚJO, Ronaldo Ferreira , & MURAKAMI, Tiago Rodrigo Marçal. (2016). Atenção online de artigos de Ciência da Informação: análise a partir de dados altmétricos do Facebook. Anais do 5o Encontro Brasileiro de Bibliometria e Cientometria. São Paulo, SP. http://www.ebbc.inf.br/ebbc5/index.php/main/download/111
BORBA, Vildeane da Rocha Borba, & CAREGNATO, Sonia. (2016). Análise do termo 'repositório institucional' no Twitter: um estudo altmétrico. Anais do 5o Encontro Brasileiro de Bibliometria e Cientometria. São Paulo, SP. http://www.ebbc.inf.br/ebbc5/index.php/main/download/89
BORBA, Vildeane da Rocha Borba, & CAREGNATO, Sonia. (2016). A repercussão de autores estrangeiros em Ciência da Informação no Twitter: uma visão altmétrica. Anais do XVII Encontro Nacional de Pesquisa em Ciência da Informação. Salvador, BA. http://www.ufpb.br/evento/lti/ocs/index.php/enancib2016/enancib2016/paper/view/4089
GOUVEIA, Fábio Castro. (2016). A altmetria e a interface entre a ciência e a sociedade. Trabalho, Educação e Saúde, 14(3), 643-645. https://dx.doi.org/10.1590/1981-7746-sip00126
GOUVEIA, Fábio Castro. (2016). Altmetria institucional: uma análise dos trabalhos publicados pela Fundação Oswaldo Cruz. XVII Encontro Nacional de Pesquisa em Ciência da Informação. http://www.ufpb.br/evento/lti/ocs/index.php/enancib2016/enancib2016/paper/view/3720
NASCIMENTO, Andrea Gonçalves do. (2016). Métricas alternativas para a avaliação da produção científica: um guia básico para o uso de altmetria para bibliotecários (Dissertação de Mestrado, Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro).  https://dx.doi.org/10.6084/m9.figshare.3409846.v1
NASCIMENTO, Andrea Gonçalves do. (2016). Altmetria para bibliotecários: Guia prático de métricas alternativas para avaliação da produção científica. Porto Alegre: Revolução eBook. http://revolucaoebook.com.br/ebook/altmetria-para-bibliotecarios-isbn-9788569333821/
NASCIMENTO, Andrea Gonçalves do, & ODDONE, Nanci Elizabeth. (2016). Métricas alternativas para a avaliação da produção científica: a altmetria e seu uso pelos bibliotecários. Anais do XVII Encontro Nacional de Pesquisa em Ciência da Informação. Salvador, BA. http://www.ufpb.br/evento/lti/ocs/index.php/enancib2016/enancib2016/paper/view/3701
REIS, José Eduardo dos, SPINOLA, Adriana Tahereh Pereira, & AMARAL, Roniberto Morato do. Visualização de indicadores bibliométricos e altmétricos: uma análise dos Repositórios Institucionais brasileiros. Anais do 5o Encontro Brasileiro de Bibliometria e Cientometria. São Paulo, SP. http://www.ebbc.inf.br/ebbc5/index.php/main/download/73
VANTI, Nadia, & SANZ-CASADO, Elias. (2016). Altmetria: a métrica social a serviço de uma ciência mais democrática. Transinformação, 28(3), 349-358. https://dx.doi.org/10.1590/2318-08892016000300009

O tema também foi discutido em blogs científicos e editoriais:

E pra quem se interessou, vale a pena lembrar de alguns artigos interessantes sobre o tema publicados no Brasil em 2015:

ARAÚJO, Ronaldo Ferreira de. (2015). Marketing científico digital e métricas alternativas para periódicos: da visibilidade ao engajamento. Perspectivas em Ciência da Informação, 20(3), 67-84. https://dx.doi.org/10.1590/1981-5344/2402
ARAÚJO, Ronaldo Ferreira de. (2015). Da altmetria à análise de citações: uma análise da revista Datagramazero. Pesquisa Brasileira em Ciência da Informação e Biblioteconomia, 10(1). http://www.ies.ufpb.br/ojs2/index.php/pbcib/article/view/23163
ARAÚJO, Ronaldo Ferreira de. (2015). Estudos métricos da informação na web e o papel dos profissionais da informação. Bibliotecas Universitárias: pesquisas, experiências e perpectivas, 2(1). https://seer.lcc.ufmg.br/index.php/revistarbu/article/view/1119
BARROS, Moreno. (2015). Altmetrics: métricas alternativas de impacto científico com base em redes sociais. Perspectivas em Ciência da Informação, 20(2), 19-37. https://dx.doi.org/10.1590/1981-5344/1782
NASCIMENTO, A., & ODDONE, N. (2015). Uso de Altmetrics para Avaliação de Periódicos Científicos Brasileiros em Ciência da Informação. Ciência da Informação em Revista, 2(1), 3-12. https://dx.doi.org/10.6084/m9.figshare.1402366.v1
SOUZA, Iara Vidal Pereira de. (2015). Altmetria: estado da arte. Tendências da Pesquisa Brasileira em Ciência da Informação, 7(2). http://inseer.ibict.br/ancib/index.php/tpbci/article/viewArticle/164
SOUZA, Iara Vidal Pereira de. (2015). Altmetria ou métricas alternativas: conceitos e principais características. AtoZ: novas práticas em informação e conhecimento, 4(2), 58-60. http://revistas.ufpr.br/atoz/article/view/44554/27146

É isso. Um bom 2017 para vocês!

 

Facebook Top10: artigos mais “populares” de 2016

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O ano de 2016 está quase no fim e o Repertório da Produção Periódica Brasileira de Ciência da Informação (RPPBCI), desenvolvido no Laboratório de Estudos Métricos da Informação na Web (Lab-iMetrics), conta com quase 11.300 registros de artigos de 36 periódicos da área de Biblioteconomia e Ciência da Informação.

Já divulgamos um post sobre o RPPBCI por aqui e ressaltamos seu diferencial de ordenar os resultados de busca por altmetrics do Facebook, ou seja, pelas interações (curtidas, comentários e compartilhamentos) que os artigos recebem na rede social. A partir desses dados elaboramos um ranking com os 10 artigos publicados no ano de 2015 com mais interações no Facebook (veja aqui).

Agora fizemos o mesmo para os artigos publicados em 2016 (n=874 em 22 dez., 2016). Caso queira fazer consultas similares para outros anos, basta aplicar o filtro ano de seu interesse e ver a listagem.

Então com vocês, eis o Facebook Top10: artigos mais “populares” de 2016.

2015 SUMÁRIO – RPPBCI
     10 top artigos.
     21 autores.
     1,878 interações.
     6 periódicos.

 

# Artigo Autores Periódico              Score* 
1 The trajectory of the university library in Brazil in the 1901-2010 period (2016) Cunha, Murilo Bastos da, Diógenes, Fabiene Castelo Branco Encontros Bibli 412

 

2 The librarian and the scientific journals editing (2016) Santana, Solange Alves, Francelin, Marivalde Moacir Revista Brasileira de Biblioteconomia e Documentacao 196
3 O papel dos bibliotecários na gestão de dados científicos (2016) Corrêa, Fabiano Couto Revista Digital de Biblioteconomia e Ciencia da Informacao 193
4 The solution to SUS is not a Brazilcare (2016) Santos, Isabela Soares RECIIS 177
5 Promotion or prevention? Analysis of the communication strategies carried out by Brazilian Health Ministry from 2006 to 2013 (2016) Vasconcelos, Wagner Robson Manso de, Oliveira-Costa, Mariella Silva de, Mendonça, Ana Valéria Machado. RECIIS 173
6 História do papel: panorama evolutivo das técnicas de produção e implicações para sua preservação (2016) Fritoli, Clara Landim, Krüger, Eduardo Leite, Carvalho, Silmara Küster de Paula. Revista Ibero Americana de Ciencia da Informacao 157
7 Use of social media by university libraries with focus on relationship marketing (2016) Araújo, Walqueline Silva, Pinho Neto, Júlio Afonso Sá, Freire, Gustavo Henrique Araújo Encontros Bibli 153
8 Use of social network to support visually impaired people: A Facebook case study (2016) Caran, Gustavo Miranda, Santini, Rose Marie, Biolchini, Jorge Calmon de Almeida Transinformacao 148
9 The Trojan Horse: the story of the united front against the SUS (2016) Silva, Thiago Henrique. RECIIS 136
10 The evolution of the topic of Information literacy in Brazil: a bibliographic study from 2006 to 2013 (2016) Trein, Juliane Marlei, Vitorino, Elizete Vieira Revista Brasileira de Biblioteconomia e Documentacao 133
*valor referente a soma das interações.

Veja esses e outros artigos publicados no ano de 2016 com dados altmétricos que obtiveram atenção online e foram curtidos, comentados ou compartilhados no Facebook, confira a lista.