Repertório da Produção Periódica Brasileira de Ciência da Informação

O Repertório da Produção Periódica Brasileira de Ciência da Informação (RPPBCI) é um coletânea de metadados de artigos de periódicos de Ciência da Informação disponibilizados em OAI-PMH, ou seja, que utilizam o OJS/SEER.

Está sendo desenvolvido no Laboratório de Estudos Métricos da Informação na Web (Lab-iMetrics) na linha de pesquisa Ciência 2.0 e os aportes da altmetria pelo Tiago Murakami
e por mim. Desde o lançamento estamos quebrando a cabeça para melhorar uma coisa ou outra.

Atualmente, contamos com 31 periódicos coletados, 10.031 artigos indexados e 10.106 referências cadastradas. É possível fazer a busca nos campos “Título, Autores e Resumos” ou somente nas Referências.

Recentemente publicamos na Revista Pesquisa Brasileira em Ciência da Informação e Biblioteconomia, como pesquisa em andamento, um artigo que descreve em linhas gerais o RPPBCI. Recomendamos aos interessados nesse serviço de descoberta a leitura do artigo:

Ronaldo Ferreira Araújo, Tiago Rodrigo Marçal Murakami, Robéria Lourdes de Vasconcelos Andrade

E a visita, consulta ao site do RPPBCI e claro, as críticas.

Boas pesquisas!

O que é um artigo científico?

Nessa semana no ‘Fala, Bibliotecária’ resolvi falar sobre artigos científicos. Parece ser tão óbvio, não é? Por isso mesmo. Escolhi o tema para dar uma explicada geral, falar de Capes, de organização de ideias e de estrutura. De quebra tem até uma ajudinha para quem está começando a desbravar esse universo e para quem está se preparando para os TCCs da vida.

O futuro da biblioteconomia – o livro

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O perigo de escrever um artigo sobre os impactos da inteligência artificial em bibliotecas é que ele pode ao mesmo tempo celebrar o avanço da robotização em nossa atividade profissional e justificar a eventual extinção do bibliotecário. Seria uma contradição acreditar que a IA é uma ameaça para a força de trabalho em geral, mas individualmente nós permanecermos confiantes de que somos insubstituíveis. Então aqui vou eu.

Nas discussões sobre o futuro da biblioteca e da biblioteconomia (que se tornaram livro, falarei sobre ele mais adiante) meu argumento era que a inteligência artificial torna o bibliotecário descartável, e nesse sentido o movimento de IA e robotização poderia representar uma necessidade de mudança de foco na biblioteconomia.

Em termos gerais, a essência do trabalho do bibliotecário (organização de registros do conhecimento para fins de recuperação, que é o que nos difere de outros profissionais) continua sendo importante, mas a maneira como esse processo é realizado está mudando (eu explico essa mudança no meu capítulo do livro). A oportunidade seria que as bibliotecas podem capitalizar sobre o valor da IA para agilizar alguns processos, liberando recursos, que são limitadíssimos, para se concentrar em enriquecer a experiência dos usuários (em suma, digitalizar tudo o que possui sob sua salvaguarda e deixar que profissionais de outras áreas cuidem do resto).

O discurso do humanismo bibliotecário é que, inerente ao nome da IA, a inteligência é artificial. E a grande missão dos bibliotecários é a conexão humana: as bibliotecas podem conectar pessoas à informação e a outras pessoas. Mesmo com os robôs super sofisticados, ainda haverá muitas coisas que só os humanos conseguem oferecer, como a criatividade, a inovação, exploração, arte, ciência, entretenimento e cuidar de outras pessoas.

Certamente eu tenho um pé atrás com esse discurso, que deseja justificar a permanência dos bibliotecários em um mundo robotizado acreditando que estamos completamente de fora das forças capitalistas que promovem as mudanças reais. Além disso, o ponto mais importante a meu ver, é que defender o retardo da mudança tecnológica para preservar postos de trabalho é em certa medida o mesmo que defender uma punição sobre os usuários e a melhoria da experiência de uso de bibliotecas. Porque como consumidores e usuários, nós quase nunca resistimos à mudança de tecnologia que nos fornece melhores produtos e serviços, mesmo quando isso custa empregos.

Se a nossa área ainda não foi afetada seriamente pela robotização, é porque nós custamos pouco, somos baratos. Embora a sofisticação técnica indique o que pode ser automatizado, no entanto, é o quanto os robôs custam em comparação com o trabalho humano que impulsiona quando eles vão ser adotados. A principal razão para utilizar robôs em vez de pessoas é quando o robô pode tornar o custo da atividade menos caro de ser realizada. Mas o inverso também é verdadeiro. Quando as pessoas podem fazer algo que custa mais barato do que os robôs podem fazer, então não faz sentido econômico usar robôs. Esta é a teoria econômica básica aplicada ao trabalho.

Ou seja, podemos acreditar o quanto quisermos no papel humanista da profissão. Mas não podemos depois reclamar que fomos pegos de surpresa pelos robôs.

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O Murakami resgatou ontem o incrível texto da Lydia Sambaquy, escrito em 1972, sobre a biblioteca do futuro. “Como ela descreve como acha que seria a Biblioteca no ano 2000, seria lindo escrever uma resposta para ela, para falar no que nos tornamos.”

Não pretendo escrever a resposta, especialmente porque não há que o responder, ela acertou rigorosamente tudo. Só destaco alguns pontos:
– a preocupação naquela época com a organização da explosão bibliográfica (ou qualquer outro adjetivo catastófrico). Ninguém mais sofre com isso hoje (not information overload, filter failure);
– o medo da destruição universal dos livros (facilmente resolvido com a digitalização e impressão 3D, mas que cria outros problemas como os monopólios de informação com fins lucrativos);
– compreensão enciclopédica sobre os avanços de outras áreas (pra mim, a melhor definição da missão da biblioteconomia especializada: um conjunto de técnicas aplicadas ao implemento de outras áreas);
– a missão da biblioteca maior (pública, nacional) flutua entre o guardião (limitada) e o divulgador (nobre).

A maior assertiva é “A grande e significativa diferença que prevejo, nas bibliotecas do ano 2000, será encontrada na parte relativa ao controle dos assuntos de que trata a documentação reunida.”

Mas a meu ver, o ponto crucial é que ela diz que “Crescendo o registro dos conhecimentos científicos, tecnológicos, artísticos, literários, cresce, consequentemente a dificuldade e a importância da Biblioteconomia e Documentação como profissão”, que eu concordo ipsis litteris, exceto que a transição de um modelo de organização centrado em registros físicos para um modelo baseado em registros digitais, junto da consolidação do Google, nos levou a acreditar que o problema da recuperação estava finalmente resolvido. Obviamente este problema não está resolvido, mas a ideia de um pequeno grupo de autoridades em representações descritivas e temáticas competindo com um algoritmo incrementável é desoladora.

E exatamente este ponto que eu tento destrinchar no meu capítulo do livro: considerando que já contamos com uma base de organização e classificação estabelecida ao longo de anos, em grande parte graças aos próprios bibliotecários, e do constante acúmulo de dados nascidos digitais ou convertidos em digitais, robôs já fazem o trabalho de recuperação e contextualização de modo semelhante e farão melhor do que nós no futuro.

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O LIVRO

Há muito tempo eu tinha o sonho de ter um livro impresso publicado pelo Briquet mas nunca me esforcei para criar algo que estivesse a altura do seu catálogo (quem sabe um dia eu retome a crítica sobre a trilogia do Nitecki). Mas o tempo foi duro com os pequenos editores e o próprio Briquet já havia deixado claro que não pretendia mais publicar livros impressos, apenas e-books. Como os livros digitais são mais fáceis de distribuir eu tomei a liberdade de propor ao Briquet a publicação de alguns textos que haviam circulado por aqui sobre o futuro da biblioteconomia, a partir de uma provocação do Gustavo Henn.

O Briquet topou, e de comum acordo com os autores dos textos, liberamos o valor de capa para ser repartido entre a editora e a ABRAINFO. É um projeto interessante para todos os autores, porque oferecemos mais um material de consulta para as pessoas da área, consolidando textos que ficariam dispersos; a oportunidade de um grupo de pessoas que não escreveria em caráter de monografia ter seu texto publicado por uma editora de renome; a oportunidade de um grupo de pessoas que representa a transição do impresso pro digital trabalhar em cima de uma plataforma exclusivamente digital; a oportunidade de deixar registrado o discurso que marca a época atual e fazer o exercício de futurologia. Pro Briquet, acredito que a vantagem é expandir o catálogo, que também é uma coisa que eu sei que ele ressente, quando comparamos por exemplo a capacidade de produção intelectual de profissionais de outros países. Os bibliotecários brasileiros simplesmente não escrevem livros, tanto quando poderiam, ou preferem publicar apenas os textos acadêmicos que acabam por refletir e repercutir pouco a área, em sua maioria.

Eu ainda gostaria de propor algumas sugestões ao Briquet quanto à distribuição do livro, ou para os seus livros futuros. No nosso caso, não faria sentido ter um livro versando sobre o futuro que não estivesse na vanguarda das modalidades de publicação. Algumas pessoas reclamaram que o livro só é distribuído em pdf, mas eu vou pedir que tenham paciência e tenho certeza que em breve teremos mais opções de comercialização e distribuição de materiais da nossa área.

O livro está sendo vendido por módicos R$10, o preço de menos de duas cervejas. Lembrando que a grana é revertida em parte para o Briquet (ele tem todo o trabalho de revisar, diagramar, site, etc, suas funções como editor e continuar expandindo seu catálogo) e parte para a ABRAINFO (para que possa tocar suas atividades sem fins lucrativos e promover mais deste tipo de iniciativa).

São 6 capítulos divididos em duas grandes seções: utopias e distopias. O prefácio é assinado pelo grande Briquet de Lemos.

Tem o capítulo “O futuro é agora. Peraí… Chegou”, escrito pelo Gustavo Henn, onde ele lança os questionamentos que desencadearam na proposta do livro: O que nos diferencia de uma máquina? O que diferencia o bibliotecário de uma máquina? Ou melhor, o que faz um bibliotecário que uma máquina não pode fazer melhor? Gustavo indica três linhas de atuaçãos em que as máquinas já fazem melhor que os bibliotecários, então ele reflete sobre as atividades que ainda podem nos manter relevantes.

No capítulo 2, “O futuro da biblioteconomia é hoje” escrito pela Dora Steimer, ela traça uma distinção interessante entre o know how e o mindset dos bibliotecários, sobre como nós possuímos a mentalidade necessária para conversar de igual para igual com profissionais de tecnologia, oferecendo elementos que geralmente não são o foco de quem é de tecnologia da informação. Ela põe em xeque o que acontece hoje nas escolas de biblioteconomia, onde o aluno realiza um duplo esforço: aprender apenas a teoria na graduação, aprender sobre tecnologia apenas no mercado e literalmente se virar para fazer a ponte entre estes dois mundos.

Eu assino o capítulo 3, “Biblioteconomia em tempos de robotização”, já adiantei do que se trata acima.

Fabiano Caruso escreveu o capítulo 4, “Qual é a finalidade do trabalho bibliotecário?”, e discute a possibilidade de atualizar o sentido da formação profissional em biblioteconomia para o cenário digital e econômico emergente, em que o objetivo da atuação não tem relação com a disseminação da informação (meios), mas em prover uma experiência intelectual positiva (fins). Nesse sentido existem pelo menos três linhas de atuação profissional possíveis para o futuro: curadoria digital, colaboração e capacitação.

Na parte de distopias, tem o meu texto “O papel da biblioteca em face do apocalipse zumbi”, o título é auto-explicativo.

E pra fechar o texto sensacional da Marina Macambyra, “O apocalipse zumbitecário”. Em uma determinada noite de inverno em São Paulo, Marina sonhou com o futuro distante, e os bibliotecários há muito tido como extintos começaram a voltar. Os zumbitecários — como logo começaram ser chamados — nada faziam de errado ou realmente perigoso. Não atacavam, não mordiam, não tentavam devorar cérebros, apenas gritavam o quanto eram importantes e não reconhecidos, lembravam a todos da importância da padronização.

Espero que gostem. O livro está disponível na editora Briquet de Lemos.

O mito da neutralidade bibliotecária

Bibliotecas são de diversos tipos, mas podemos pegar algumas das principais bibliotecas públicas do Brasil para perceber que as categorias mais populares entre seus usuários estão no espectro de livros para concurso público, artesanato, quadrinhos, culinária, guia de viagens, autoajuda e saúde. Corrijam-me se eu estiver *profundamente* enganado.

Eu não sei o que isso pode dizer sobre nós enquanto sociedade, mas eu acho que explica alguma coisa sobre a biblioteca, com B maiúsculo. Por mais que a gente goste de vender a glória da biblioteca como uma instituição livre e um componente elementar de uma sociedade democrática, parece que, basicamente, as pessoas veem as bibliotecas como espaços recreativos.

E é desta mesma forma que eu, *pessoalmente*, vejo as inúmeras comunidades e grupos sobre bibliotecas e biblioteconomia na web: espaços recreativos, que eu frequento apenas para manter o capital social e nutrir o “fear of missing out”, mas não *necessariamente* para construir uma mentalidade ou posição crítica em relação a todas as coisas.

Foi um alento enorme ter encontrado ao longo destes últimos anos na nossa web local colegas bibliotecários que destoam da maioria conservadora da classe (me corrijam se eu estiver *profundamente * enganado) e que diariamente me oferecem uma curadoria dos seus interesses pessoais na forma de textos e links, que ajudam a moldar o meu posicionamento diante do mundo. Mas eu ainda sinto que falta muito para chegarmos ao nível de densidade das discussões promovidas pelos bibliotecários, por exemplo, americanos, espanhóis e franceses, publicando essencialmente em blogs. Basta comparar o tipo de conteúdo que costuma gerar repercussão nos blogs e redes de lá, com os daqui.

Fica a dica da leitura de livros como Questioning Library Neutrality: Essays from Progressive Librarian e The anarchist in the library, coisa que a gente não vê por aqui.

Tudo isso pra dizer que as “disputas” que aconteceram recentemente no grupo Bibliotecários do Brasil e na lista da ANCIB, em relação à defesa ou não do posicionamento da classe bibliotecária face ao “golpe” ou não, a mim me parecem meramente um desconhecimento sobre como a web funciona, mais do que uma divergência de posições políticas claras entre partes. Quando se questiona o papel de moderadores nestes grupos, falta entender que os moderados não precisam pedir permissão para ninguém para criar o que criaram, porque estão agindo em conformidade com os preceitos da web livre.

A neutralidade da rede se torna uma tragédia, porque justamente no momento em que celebramos o produto destas duas maravilhas – Facebook e o povão – os esclarecidos delegadinhos estão conspirando para remover as condições onde a comunicação não depende de permissão. É um paradoxo.

A minha máxima aprendida em mais de 10 anos publicando neste singelo blog, que contribuiu esparsamente para a promoção do entretenimento bibliotecário, com raros surtos de engajamento coletivo e discussões pertinentes, é “quem fala o que quer, precisa ouvir o que não quer”. Obviamente que ninguém em sã consciência vai defender o direito de ser genocida impunemente. Mas eu quero atentar exclusivamente para o quão despreparados nós estamos para estabelecer uma etiqueta da web quando a maioria de nós só passou a usá-la pouco tempo atrás e continua a usá-la apenas para fins de entretenimento.

Se posso fazer uma analogia, não ficaram sabendo do episódio da bot da Microsoft que se transformou em defensora do nazismo? Só que o robô foi deliberadamente programado para agir como um papagaio, reforçando o que outros usuários do Twitter a induziam a dizer. Na mesma perspectiva do que eu tento explicar – hermeticamente – acima, Tay o bot racista do twitter, nos faz temer a natureza humana, não a inteligência artificial. Se existe um problema de bolha na internet ou comportamento de manada, isso só diz respeito à um problema de filtragem de informação. E na minha humilde opinião, estão a exigir demais de um grupo extenso de microcéfalos. Quem são esses microcéfalos? Bem, podem começar por mim.

Ademais, no meu entendimento *pessoal* a propaganda de ambos lados (PT, PSDB, direita, esquerda, liberais, republicanos, como queiram) deseja defender o indefensável. O que é bastante diferente do que o grupo de bibliotecários pretendia com o vídeo, defender o óbvio: a crise é justamente quando precisamos defender o óbvio, e nesse sentido o vídeo e os textos abaixo estão cobertos de razão. Defendem apenas o estritamente defensável.

O Cristian (que aliás, eu fico feliz por usar o seu poder de hub para alimentar a discussão e botar a cara tapa, seguido de um grupo grande de bibliotecários em seus para lá de 30 anos marcando espaço em um movimento de mídia que, em tese, deveria partir dos bibliotecários mais novos – onde estão estes?) foi bastante claro em seu questionamento:

E bibliotecário pode se manifestar politicamente? A pergunta é de uma ingenuidade só. Afinal de contas, não se trata de uma questão de escolha. Todo mundo dá pinta, mesmo quando de bico fechado. É que o silêncio nos trai, hermanitos. Portanto, não peco contra a virtude da prudência ao me opor à mídia e ao sr. Moro em relação a Lava-Jato. Afinal de contas, prudência não se confunde com medo, letargia e, muito menos, covardia. “Prudentia”, palavra latina, pode ser traduzida como “sagacidade”. Não por acaso, é o nome atribuído a Craytus, o deus romano da guerra. Afirmo, tranquilamente, e sem medo de errar, que um bibliotecário prudente é aquele que, a partir do esquadrinhamento de um determinado quadro social, toma, corajosamente, partido — na guerra, sempre há dois lados, no mínimo –, convencido de que sua leitura de mundo é a mais adequada, a mais justa ou, no mínimo, a mais plausível. Isso não implica negar valor ao discurso do outro, mas em tomar para si certo protagonismo de uma história coletiva que vai de desenhando, certo de que o seu silêncio, embora pessoalmente vantajoso em certos aspectos, pode produzir dor e perdas na esfera pública.

O mesmo vale para o texto publicado na lista da ANCIB pelo Edmir Perroti,

Estamos vivendo uma guerra informacional (vazamentos, escutas telefônicas, bombardeio midiático…) Se outras existiram no Brasil, eram de teor distinto da atual, em volume e procedimentos. Acredito que uma associação de pesquisadores do campo informacional, por mais diferenças que- felizmente!- acolha, têm alguns entendimentos em comum (não teria?) Compartilhar com a sociedade o que é comum seria de grande valia nesta hora de perplexidade. Acredito que para todos nós, mesmo havendo nuances: a) Democracia é um valor acima de qualquer tipo de particularismo; b) Toda e qualquer divulgação de informação, no país, inscreve-se nos quadros dos valores democráticos afirmados em nossa Constituição e ganha sentido em relação a ele; c) A manipulação de informações por interesses de quaisquer espécies, é ato anti-democrático. Seus efeitos acarretam prejuízos à sociedade.

Ir a público para explicar de forma breve essas relações básicas entre Democracia e Informação, bem como manifestar preocupação com atos informacionais que não respeitam valores afirmados em nossa Constituição, é ato pedagógico e não político-partidário; agrega e não separa ou desconsidera diferenças. A hora pede contribuição, esclarecimento, compartilhamento. Não se espera panfleto, em especial de uma Associação como a ANCIB, cujos membros são especialistas renomados que se ocupam justamente de uma das questões que estão no centro dos problemas- as informacionais. É preciso dizer pouco, mas com clareza e serenidade: a matéria a qual nós, cientistas da informação, nos dedicamos- a Informação- não pode ser manipulada à revelia dos preceitos constitucionais por quem quer que seja. As consequências serão graves para todos, cientistas e não cientistas.

Marina, sempre certeira:

Bibliotecários aprendem – ou deveriam aprender – a selecionar e a analisar informação. Eu aprendi.

Bibliotecários devem ser capazes de de entender um texto a partir de uma leitura rápida e fragmentária e dizer do que se trata em algumas palavras. E precisam desenvolver a capacidade de entender um conteúdo qualquer expresso em palavras ou imagens com profundida suficiente para escrever um resumo objetivo e inteligível. Sim, bibliotecários aprendem isso, ou deveriam aprender.

Bibliotecários têm obrigação de desenvolver tolerância e compreensão com a diversidade humana, porque nas bibliotecas entram todo o tipo de pessoas que têm o direito de ser atendidas da mesma forma, sem discriminação nem preconceito.

Bibliotecários não podem ter dificuldades com interpretação de texto. Não podem, simplesmente.

Bibliotecários não podem ser preconceituosos, nem se recusar a combater o preconceito. NÃO PODEM.

Bibliotecários não podem se calar diante da escalada da intolerância por conveniência política nem marchar ao lado de fascistas.

Bibliotecários não podem espalhar notícias falsas pelas redes sociais e nem deixar de olhar criticamente para uma imagem. E nem acreditar cegamente em tudo o que leem na imprensa ou veem na TV.

Editorial a cinco mãos publicado na Biblioo:

Mas como acabar com a amorfia que existe na profissão se não discutirmos isso em grupos da área? Os bibliotecários não podem ficar à margem desse e de tantos outros acontecimentos vividos em nosso país. Somos seres políticos, toda ação do homem é política. Precisamos discutir política em todas as esferas, seja dentro da sala de aula, em eventos e também nas mídias sociais, sempre respeitando a opinião diferente, pois divergências sempre surgirão. Não podemos tolerar a censura nas mídias sociais ou em qualquer espaço de construção coletiva e democrática. Devemos rechaçar as manipulações, distorções, alienações ou favoritismos. Precisamos ter respeito às ideias contrárias e nos posicionarmos sem agressão às pessoas com opiniões divergentes.

E finalmente o vídeo:

Estamos em 2016 e “neutralidade” não significa imparcialidade e objetividade, mas muitas vezes soa como “indiferença”. Eu sou cético e pessimista, mas quero me enganar mais uma vez e ter a esperança que essas demonstrações públicas vão estimular ainda mais interesse e debate sobre o conceito de neutralidade entre os bibliotecários e quais brigas nós queremos brigar.

Uma bruxa chamada Caterina

Quando o homem muito magro entrou pela primeira vez na biblioteca, ninguém prestou muita atenção. A magreza exagerada e o aspecto cinzento do homem foram devidamente criticados em discretos cochichos, logo encerrados por um veredito do funcionário mais velho da equipe, “deve estar doente, coitado”.

O homem muito magro fez as perguntas de praxe que fazem os usuários novatos ou pouco familiarizados com o mundo das bibliotecas e só. Mas depois de 3 dias de consultas febris ao acervo e catálogos, um detalhe saboroso chamou a atenção do pessoal que guardava material: os livros e revistas consultados pelo homem eram quase todos ligados a assuntos sombrios como ocultismo, magia, bruxaria, artes divinatórias e outros babados do mundo sobrenatural. Até o Malleus Maleficarum foi encontrado na mesa usada pelo possível doente, para irritação da Lúcia, militante feminista bem informada e a única na equipe que sabia do que tratava aquele manual.

Capricho 43

Aí o pessoal resolveu comentar com a chefia, a bibliotecária Ilana, mesmo correndo o risco de levar bronca por preconceito com pessoas diferentes, por julgar o outro pelo aspecto físico etc. “Se nós fôssemos avaliados pelos mesmos critérios que vocês usam para reclamar dos usuários estaríamos todos desempregados, porque aqui todo mundo é muito bizarro”, era o discurso habitual nessas situações. Lúcia foi a porta-voz, deixando claro que não estavam pegando no pé do coitado, apenas queriam deixá-la avisada sobre Potenciais Problemas com Malucos. Era o famoso alerta PPcM, uma brincadeira que eles haviam inventado depois que descobriram um doido de pedra comendo um dicionário de sinônimos e antônimos, uma página por dia.

Sim, Ilana já havia reparado no Homem Muito Magro e na aflição expressa nos gestos dele. E no olhar incerto que ele lhe lançava em alguns momentos, um olhar que ela conhecia muito bem, um olhar com vontade de pedir ajuda, mas com medo ou vergonha demais para se arriscar. Ilana sentia culpa por ignorar esses olhares, mas como estava ocupada demais com usuários que conseguiam verbalizar suas questões e angústias, deixava para depois. A preocupação do pessoal a fez decidir tomar uma atitude, antes que começasse o zum-zum-zum e os bicos que normalmente se seguiam aos relatórios para a chefia. Usou seu procedimento não invasivo padrão, lançar um olhar firme-porém-simpático, um sorriso caloroso e um direto “tudo bem aí com o senhor? ”. O Homem Muito Magro assustou-se um pouco, como tantos usuários que não esperam simpatia, respondeu com um vacilante “tudo bem” e voltou a esquadrinhar as estantes esotéricas. Depois de alguns vinte minutos criou coragem e se aproximou da mesa da bibliotecária.

– Moça, estou procurando uma coisa, uma informação importante, mas estou tendo dificuldades. Será que você, a senhora, poderia me ajudar?
– Claro, me chame de você. O que está procurando?

Aparentando alguma dificuldade para emitir a voz, o Homem Muito Magro engoliu em seco, suspirou e soltou:

– Preciso encontrar uma bruxa chamada Caterina.

O sorriso solícito da bibliotecária congelou ligeiramente. O homem sentiu a mudança e começou a se explicar, num discurso angustiado, mas sem qualquer sinal de incoerência ou delírio. Paciente de câncer há alguns meses, recebera dias atrás o desengano final do médico. O tumor ignorou tanto a quimioterapia quanto as preces da família, e estava prestes a derrotar completamente seu portador. O Homem Muito Magro saiu desnorteado do consultório, praticamente decidido a buscar formas de abreviar o próprio sofrimento. Seu fim, avisou o médico, não seria bonito. Naquele momento, sentiu uns dedos ossudos segurarem seu braço com força. “Procure uma bruxa chamada Caterina”, sussurrou a mulher de cabelos compridos e olhos avermelhados.

– Do que a senhora está falando?
– Eu disse uma bruxa chamada Caterina. Só ela pode te curar.

O Homem ficou sem ação enquanto a mulher sumia no meio da multidão que deixava o hospital. Naquele momento, o choque da notícia e a surpresa com a abordagem da desconhecida não o deixou raciocinar direito. Mais tarde, aquelas palavras começaram a martelar em sua cabeça “uma bruxa chamada Caterina pode te curar”. E se fosse sua última chance? Por que não arriscar? Voltou ao hospital, perguntou em vão pela mulher que conseguia descrever apenas vagamente. Uma funcionária simpática mostrou fotos de várias enfermeiras, médicas e outras trabalhadoras do hospital, suas amigas de redes sociais, mas nenhuma se parecia nem de longe com a mulher dos olhos vermelhos. A moça disse que iria assuntar no pronto socorro da oftalmologia, se ela estava com os olhos irritados talvez fosse uma paciente. Anotou seu telefone para avisar se descobrisse alguma coisa. Nada.

Então ele resolveu procurar. Seu filho mais velho frequentava a biblioteca e sempre achava coisas tão interessantes, que pareciam tão impossíveis de encontrar, de repente não custava tentar. O que mais ele poderia fazer, já que nem a internet não ajudou muito? Quem sabe aprendendo um pouco sobre bruxaria, assunto que nunca foi de seu interesse, ele conseguiria encontrar alguma pista. O Homem Muito Magro queria viver, pelo menos mais alguns anos, só para ver os três filhos crescidos.

A bibliotecária nem tentou disfarçar a comoção. Deu uns tapinhas solidários na mão do Homem Muito Magro e disse “eu não acredito em bruxas, mas vamos tentar encontrar essa aí”. E Ilana tentou mesmo, com afinco e sem nenhum constrangimento, de todas as formas que sabia procurar informações e mais algumas que improvisou na hora. Procurando artigos sobre curandeirismo, encontrou uma tese sobre o assunto com transcrições de entrevistas com vários curandeiros, mas ninguém chamado Caterina (ou Catarina, ou Katerina, ou Ekaterina). Achou o blog pessoal de uma delas, uma pilantragem total com várias dicas de receitas milagrosas, mas nenhuma referência que pudesse ser útil. Mandou e-mail para o autor da tese, perguntando onde poderia encontrar mais informações e pessoas decentes que praticassem curas, sem obter resposta. Inscreveu-se em grupos de bruxaria no Facebook, enviou pedidos de amizade para algumas pessoas que se diziam bruxas ou curandeiras. Ligou para uma amiga praticante de candomblé e para uma tia espírita, e levou bronca das duas, porque suas religiões nada têm a ver com bruxaria. “Sim, mas você não conhece uma mãe-de-santo (ou médium), que se chame Caterina ou algo assim? ”. Ficaram de procurar e entrar em contato caso encontrassem uma pista. Ilana passava dicas para o Homem Muito Magro para que ele não perdesse o ânimo, combinavam estratégias, dividiam tarefas. Recebendo ajuda e atenção, o desespero do homem parecia diminuir um pouco. Foram dois dias de buscas, depois ele sumiu. Nunca mais apareceu. Talvez tenha morrido, talvez tenha desistido. Ou, como aventava Lúcia, tentando consolar a chefe que havia ficado meio tristonha com a história toda, pode ter encontrado a bruxa e se curado.

Em sua próxima ida ao dermatologista, uns dois meses depois, os olhos de Ilana se encheram de lágrimas, inconformada por não ter pensado no óbvio. Bem no alto do painel com os nomes dos profissionais que tinham salas no edifício, lia-se: Dra. Caterina Maria Almeida Schmidt, oncologista.