Facebook Top10: artigos mais “populares” de 2015

O Repertório da Produção Periódica Brasileira de Ciência da Informação (RPPBCI), desenvolvido no Laboratório de Estudos Métricos da Informação na Web (Lab-iMetrics), está sendo atualizado constantemente e conta com quase 11.000 registros de 36 periódicos da área.

Um dos diferenciais do RPPBCI é que o resultado de busca é ordenado por altmetrics score do Facebook, ou seja, ele apresenta os resultados em ordem decrescente em termos de dados da atenção online que os artigos recebem no Facebook.

Já tivemos postagens aqui no BSF escritas pela Andrea, Moreno, Iara, Tiago e por mim abordando vários aspectos sobre o emergente campo da altmetria, um dos tópicos mais atuais no âmbito da comunicação científica na atualidade (corre lá pra ver).

Diferente de métricas de citação que levam mais tempo para se acumular, os dados do RPPBCI para altmetria, como esperado, só começam a ficar legal para publicações recentes não fazendo muito sentido ser aplicado para artigos com mais de dois anos. Sendo assim resolvi fazer um pequeno levantamento dos 10 artigos publicados no ano de 2015 com mais interações no Facebook.

Coisa simples de fazer na verdade, basta aplicar o filtro ano “2015” e ver a listagem. Então com vocês, eis o Facebook Top10: artigos mais “populares” de 2015.

2015 SUMÁRIO – RPPBCI
     10 top artigos. 
     16 autores. 
     1,547 menções. 
     7 periódicos.

 

# Artigo Autores Periódico Score
1 The popular claim and Congress rumors: a recent conjuncture analysis of health in Brazil (2015) Magno, Liz DuquePaim, Jairnilson Silva RECIIS

 

466
2 A brief history of academic libraries automation in Brazil and some future perspectives (2015)

 

Viana, Michelângelo Mazzardo Marques Revista Ibero Americana de Ciencia da Informacao 178
3 Políticas de preservação digital para documentos arquivísticos (2015) Santos, Henrique Machado dos; Flores, Daniel. Perspectivas em Ciencia da Informacao 151
4 O papel dos arquivos das instituições federais de ensino superior e a experiência do Arquivo Central da Universidade de Brasília (2015) Roncaglio, Cynthia Revista Ibero Americana de Ciencia da Informacao 137
5 Marketing científico digital e métricas alternativas para periódicos: da visibilidade ao engajamento (2015) Araújo, Ronaldo Ferreira. Perspectivas em Ciencia da Informacao 128
6 Da necessidade de princípios de Arquitetura da Informação para a Internet das Coisas (2015) Lacerda, Flavia; Lima-Marques, Mamede. Perspectivas em Ciencia da Informacao 117
7 Mediation and information literacy: propositions for the construction of a protagonist librarian profile (2015) Farias, Maria Giovanna Guedes InCID 107
8 A gestão de documentos nos arquivos acadêmicos e a portaria MEC n°. 1.224/2013 (2015) Santos Neto, João Arlindo; Santos, Rosana Pereira dos. Informacao@Profissoes 89
9 The privacy issue: a look at the Information Science publications (2015) Bembem, Angela Halen ClaroSantana, Ricardo César GonçalvesSantos, Plácida Leopoldina Ventura Amorim da Costa. Encontros Bibli 89
10 Web Social Semântica: uma proposta para a representação da inteligência coletiva (2015) Bembem, Angela Halen Claro;  Santos, Plácida Leopoldina Ventura Amorim da Costa; Santarém Segundo, José Eduardo. Folha de Rosto 85

Veja esses e outros artigos publicados no ano de 2015 com dados altmétricos que obtiveram atenção online e foram curtidos, comentados ou compartilhados no Facebook, confira a lista.

Como funciona o mercado editorial no Brasil

peço perdão ao Rodrigo por reproduzir aqui na íntegra o conteúdo que foi publicado na newsletter do Grifo Negro. Mas era muito bom pra deixar passar e certamente vai ajudar a desmistificar muito aos bibliotecários, que são grandes compradores de livros no Brasil.

PRODUZIR UM LIVRO SAI MAIS CARO DO QUE PENSAMOS – Vários elementos compõem os custos de um livro: adiantamento e outros acordos de direitos autorais (quando aplicável, de 5% a 10%); tradução (quando aplicável); revisão de prova; revisões (que podem chegar a três); diagramação; capa; impressão; unidades para divulgação (blogs, revistas, jornais); margem de desconto na “venda” para as livrarias; impostos; provisão para inadimplência. Os custos gráficos variam conforme o miolo, a capa, o formato/as dimensões. Uma porcentagem significativa do preço de venda fica com as livrarias, físicas ou digitais. Como regra, as editoras dão para as livrarias um desconto de 50% sobre o valor de capa proposto. Por exemplo, se o preço de capa sugerido for de R$ 39,90, a livraria pagará aproximadamente R$ 20,00. Isso dá margem para promoções, como estamos acostumados a ver. Excepcionalmente, pode existir desconto maior na primeira leva de livros da editora para a livraria, ou outros acordos especiais.

POR QUE AS VERSÕES DIGITAIS SÃO CARAS – Como regra, os contratos estipulam um limite para o valor do ebook de 50% do preço de capa da edição física. Desse modo, como os livros, no Brasil, costumam ter um preço de capa de R$ 29,90 e de R$ 39,90, a versão digital fica com preços maiores do que os praticados, por exemplo, nos EUA.

AS LIVRARIAS SÓ COMPRAM OS LIVROS DEPOIS DA VENDA PARA O CONSUMIDOR – Ao contrário do que acontece em outros países, as livrarias brasileiras não compram os livros das editoras antes de venderem. Existem dois sistemas por meio dos quais distribuem os livros: consignação e venda com direito de devolução. A diferença está no momento em que o dinheiro entra no caixa da editora: na consignação, só entra quando há o acerto de contas, isto é, quando a livraria fatura os livros efetivamente vendidos (ou perdidos) e devolve o restante, se houver; na venda com direito de devolução, o dinheiro entra “imediatamente” no caixa da editora, mas, passado um tempo, a livraria tem o direito de devolver os livros não vendidos e reclamar o dinheiro (proporcional) de volta. O dinheiro não entra imediatamente no caixa das editoras em nenhuma das hipóteses: há prazos entre o faturamento da compra dos livros e a efetiva transferência da quantia. O prazo pode variar de 60 a 120 dias, conforme as negociações entre as partes, e o acerto de contas pode acontecer, às vezes, apenas uma vez por ano. Os pagamentos ainda podem ser feitos por outras formas, como por meio de bonificações em futuras compras. Por exemplo, a livraria devolve um número de livros e fica com um crédito de quatro mil reais que são abatidos da próxima aquisição de livros da mesma editora. Assim, as editoras têm de bancar todos os gastos desde a decisão pela publicação de uma determinada obra até o real recebimento de qualquer repasse das vendas pelas livrarias.

AS EDITORAS NÃO ODEIAM OS LEITORES – As editoras dependem dos consumidores, isto é, dos leitores. Mas a viabilidade de uma obra leva em conta a projeção de recepção pelo mercado em relação aos custos projetados. Em outras palavras, se o livro não se pagar e gerar lucro razoável, ele não será publicado ou republicado. O custo unitário é menor quanto maior for a tiragem. Em contrapartida, o risco é maior, já que o custo total é maior. Se as vendas não atingirem o mínimo, a editora absorve um prejuízo proporcional. O raciocínio se aplica a séries de livros: se o primeiro ou o segundo volume não se bancarem, provavelmente os demais não serão publicados.

POR QUE AS EDITORAS NÃO VENDEM OS LIVROS DIRETAMENTE – Se as editoras vendessem os livros diretamente, por loja ou site próprios, os preços poderiam ser menores e os lucros, maiores. Não existe nenhuma lei que proíba o comércio direto. Porém, haveria uma saia justa com as livrarias, que provavelmente deixariam de distribuir os livros dessa editora, pois não teriam como igualar os preços. O mercado editorial tem um equilíbrio complicado no atual modelo.

QUANTO OS AUTORES RECEBEM DE ROYALTIES – Geralmente as editoras pagam um adiantamento de direitos autorais para o autor contratado. Esse valor corresponde a um valor mínimo assegurado ao autor, ou seja, o autor não deve nem precisa reembolsar o adiantamento caso as vendas não atinjam o valor correspondente. Os royalties correspondem a um percentual do valor de venda, entre 5% e 10%. Se e quando as vendas de livros ultrapassam o valor do adiantamento, o autor começa a receber, no período estipulado no contrato, a sua porcentagem.

NENHUMA EDITORA COBRA PARA PUBLICAR UM AUTOR – Editora (ou editor) é a pessoa física ou jurídica (“empresa”) “à qual se atribui o direito exclusivo de reprodução da obra e o dever de divulgá-la, nos limites previstos no contrato de edição”, nos termos da Lei de Direitos Autorais. Se uma empresa cobra do autor para publicar, não é uma editora, mas uma gráfica ou, no máximo, uma prestadora de serviços. Não basta que se autodenomine “editora.” Em resumo, uma editora é um negócio cujo lucro vem da venda dos livros.

O que eu não aprendi na escola de biblioteconomia

Mesmo com periódicos ajustes e atualizações, dificilmente um curso universitário consegue acompanhar as evoluções do mercado. Isso vale para todas as áreas. Algumas lacunas na preparação tradicional de 4 anos podem ser preenchidas com cursos paralelos e formação continuada. Todos concordamos com isso, mas fico sempre pensando comigo mesmo, como seria uma grade/matriz curricular para o curso de biblioteconomia mais adequada para o mundo atual?

Pensando nisso eu joguei a seguinte pergunta no facebook: o que você não aprendeu na escola de biblio que gostaria de ter aprendido e o que você aprendeu na experiência profissional que não te ensinaram na escola de biblio?

Minha síntese é que a formação do bibliotecário poderia ser melhorada nas seguintes frentes: administração e tecnologia. Normalmente essas disciplinas são oferecidas dentro da matriz como superficiais comparadas às disciplinas de processos técnicos voltadas à gestão de acervos. São ministradas por professores dos cursos de origem, que em geral não tem qualquer conhecimento sobre a operação de bibliotecas (mal os de biblio tem). Lembro de reuniões de departamentos que essas disciplinas eram um fardo, tanto para os professores dos outros cursos como os professores de biblio.

Não acredito que a ABECIN não tenha conhecimento desse tipo de descompasso, que em princípio, não seria algo difícil de ser solucionado. A sugestão inicial seria reduzir algumas disciplinas excessivamente técnicas (quem precisa de três semestres de CDD?) e oferecer mais disciplinas de TI e ADM, com foco especial em bibliotecas. Mas não fazer apenas mudança de nomenclatura de disciplinas com o mesmo corpo docente de sempre, isso não.

Um leque de disciplinas poderia ser oferecido por especialistas que não necessariamente fazem parte do corpo docente, ou então disciplinas a distância ministradas por pessoas reconhecidamente competentes naqueles temas, e já que, afinal, a rede de universidades é praticamente uma só, não seria tão absurdo propor uma equivalência de créditos entre as universidades federais e estaduais.

Um estudo relevante poderia ser feito com os principais contratantes de bibliotecários ao redor do país, públicos e privados, e solicitar que eles indiquem o tipo de profissional que desejam. Ou então elencar descrições de vagas de trabalho que não são direcionadas à bibliotecários, mas que poderiam ser preenchidas por nós. E a partir disso redesenhar a matriz pra atender as demandas.

Claro que vão dizer que alguns cursos já fazem isso e reformularam suas grades, e que a universidade não tem como ensinar tudo, e que o aluno/profissional é responsável por sua formação também, e que a universidade não tá pra formar só mão de obra, e etc. Mas convenhamos né, muito da formação está completamente fora da realidade e a biblioteconomia mudou muitos nos últimos 20 anos. Não dá pra ficar sempre correndo atrás de atualização por fora ao mesmo tempo em que perdemos tempo dentro de sala de aula.

Algumas das respostas estão compiladas abaixo, principais temas que merecem ser ensinados mais e melhor:

ADMINISTRAÇÃO

– gestão de projetos, planejamento estratégico, plano de metas, concorrência a editais

– gestão de orçamentos, como gerir recibos, NFs, Lei 8.666/93 e impostos (processos de aquisição e assinaturas)

– marketing e comunicação da biblioteca (promocional, redes sociais)

– arquitetura de biblioteca, segurança de acervos, insalubridade

TECNOLOGIA

– avaliação de sistemas de automação (quesitos técnicos, customização)

– desenvolvimento de softwares (open source, apps, mobile)

– informação digital (competência digital, social media, mineração de dados)

GESTÃO DE PESSOAS

– atendimento e venda (comportamento informacional)

– relacionamento interpessoal, gestão de conflitos, psicologia

– colaboração, mentoring e coaching

PROCESSOS TÉCNICOS e outros

– mediação de leitura

– acessibilidade

– lei de acesso à informação

– idiomas

UNIVERSIDADE

– distância entre teoria e prática (foco na pesquisa em detrimento do ensino e extensão)

– parcerias com as bibliotecas setoriais (estágios e extensão)

– intercâmbio de matrizes, oferta de disciplinas de outras universidades, créditos a distância

A moça, o verme e o tigre: uma história da Grande Biblioteca

O nome verdadeiro da estagiária era Maria Amélia, mas como todos na família desde sempre a chamaram Pris, foi com esse apelido que ela se apresentou aos colegas na Grande Biblioteca. Uma das bibliotecárias perguntou se os pais dela eram fãs de Blade runner mas foram obrigados a lhe dar o nome das avós por pressão familiar. Não, não era isso, mas não era a primeira vez que Pris ouvia que seu apelido tinha a ver com esse filme. Precisava assisti-lo qualquer dia.

Pris, estudante de letras que amava livros e lembrava com carinho da moça da pequena biblioteca da escola onde estudou, ficou feliz em conseguir um estágio num local para ela tão mitológico. Emprestar livros para a população e ajudar as pessoas a escolherem suas leituras parecia-lhe o melhor trabalho do mundo. Até a realidade cair pesadamente sobre ela.

A estagiária não conseguia conviver com a agressividade das pessoas. Quando um leitor grosseiro ou impaciente a tratava mal, ficava completamente sem ação e chegava a chorar. O colegas mais velhos tentavam ensiná-la a lidar com os “ossos”, explicavam que não podia ser tão sensível e “levar para o pessoal”, mas não adiantava. Pris simplesmente não conseguia entender como alguém podia tratar mal uma pessoa que não apenas estava trabalhando, mas tentando sinceramente ajudar. O chefe logo percebeu isso e a afastou um pouco do contato com o público. Pris ficou meio triste com isso, mas entendeu, e como amava mesmo os livros, sentia-se feliz em guardá-los nas estantes, trocar etiquetas e separar os que precisavam de reparos. E ainda havia momentos em que ela ficava no balcão de atendimento, cobrindo horário de jantar dos colegas.

Parecia estar tudo bem assim, até que o Nojento a descobriu. O Nojento era o usuário mais detestado pelos funcionários da Grande Biblioteca. O homem não chegava a ser abertamente grosseiro, mas conseguia ser extremamente desagradável apenas com um olhar ou um comentário irônico, particularmente se era atendido por um funcionário negro, mulher ou nitidamente homossexual, como era o caso do chefe da Pris. Esse era o único que não se deixava afetar pelo Nojento, porque também sabia usar apenas um olhar para colocar as pessoas em seu devido lugar. Diziam que o Nojento era membro de uma organização fascista, mas ninguém, conseguiu descobrir nada sobre a criatura. “É só uma cria do inferno nascida do cu de um demônio de segunda”, dizia uma das moças da faxina, desbocada e muito respeitada por essa qualidade. E o Nojento, com seu cabelo ensebado e seu queixo de Goebbels, começou a frequentar a Grande Biblioteca justamente no horário em que Pris estava atendendo e que seu chefe já havia ido embora. O homem parecia gostar dela, ainda que de forma desprezível. Fazia elogios ao seu cabelo e roupas, olhava para a moça com aquele olhar que os homens parecem praticar em frente ao espelho para provocar repulsa nas mulheres e até chegou a levar um chocolate vagabundo de presente, atirado à lixeira assim que o desinfeliz virou as costas.

Pris estava começando a entrar em desespero. Quanto mais ela demonstrava sua aversão, mais o homem parecia decidido a importuná-la, divertindo-se com a aflição da estagiária. E o pior é que não havia nada de concreto que pudesse motivar uma reclamação. Pris receava que lhe dissessem que precisava aprender a lidar com “galanteios”, como já ouvira uma vez na faculdade, e tinha medo de que a mandassem embora por ser uma pessoa “difícil”, que chorava à toa e criava problemas. Os colegas diziam que não, que ninguém faria isso com ela, mas Pris tinha dúvidas. Até o chefe, que a entendia e protegia, parecia não ter muita certeza da reação da chefe da Grande Biblioteca, que não gostava de lidar com esse tipo de problema.

Naquele dia, ela não estava no balcão de empréstimos no horário habitual, porque dois dos colegas estavam trabalhando até mais tarde, pagando horas devidas, e aproveitou para ir resolver um problema na impressora de etiquetas na sala da catalogação. O Alencar viu, com desgosto, o Nojento entrar pela porta, já com aquele sorriso seboso na cara, sorriso que se apagou assim que não viu sua presa. O desgraçado ficou por ali de bobeira por uns minutos, mexendo no expositor de livros novos, até que Alencar e a colega de balcão se distraíram com uns jovens perdidos no universo dos catálogos e o perderam de vista. Desconfiado, Alencar foi dar uma busca e viu o sujeito entrar na área reservada aos funcionários, furtivo.

Nesse dia, a bibliotecária que dava plantão noturno era a Fernanda, do Departamento de Aquisições. Fernandona, como a chamavam os poucos funcionários que não tinham medo dela, era uma ex-jogadora de basquete e maratonista de exatos um metro e oitenta e quatro, uma negra de braços fortes, sorriso glorioso e fama de não levar desaforo para casa. Alencar avisou, “ô Fernanda, o cara que persegue a menina foi atrás dela lá no fundo, vou chamar o segurança”.

– Espera um pouco aí – avisou Fernanda, que já conhecia o sujeito e a história toda do assédio a Pris, erguendo-se nos saltos até atingir quase um metro e noventa.

Alencar achou melhor não discutir, só ligou discretamente para a portaria enquanto a Fernandona marchava para a porta dos serviços internos. O Nojento estava lá, no largo corredor cheio de portas, provavelmente esperando a estagiária aparecer.

– Procurando o quê, amigo? – a bibliotecária falou alto, sem se preocupar em ser educada. Educação não se aplicava ao caso.
– Calma aí, negona. O banheiro não é mais aqui?

Fernanda percebeu alguma coisa estranha no ar, algo pesado e viscoso. Como se tivesse entrado num ambiente contaminado ou num matadouro. O homem sorria, provocador, e ela avançou, sentindo o tigre subir dentro de si. Como no dia em que impediu o pai de bater na mãe, como na ocasião em que reagiu na rua a uma ofensa racista e quase foi presa. Empurrou o homem de encontro à parede, com toda a força, segurou-o pelo pescoço com as duas mãos e apertou um pouco, cheia de repugnância. O Nojento tentou se debater, mas Fernanda era bem mais forte do que ele e ambos sabiam disso. Falou baixo e pausadamente, deixando o tigre rosnar livremente:

– Você sabe que não. E sabe também que não vai voltar aqui nunca mais e, se voltar, vai ser de cabeça baixa, olhando pro chão. Você NUNCA MAIS vai dizer outra palavra nesta biblioteca que não seja “por favor” e “muito obrigado” e NUNCA MAIS vai olhar para aquela menina. Entendeu? Fui negra e clara?

Assim que o homem conseguiu abanar a cabeça em concordância, Fernanda o deixou ir. Saiu apressado, quase correndo, mas ainda conseguiu ensaiar um vago gesto de despedida para Alencar e os demais, que o olhavam perplexos. Para manter um resto de dignidade, sem dúvida. A bibliotecária veio logo atrás, sentindo o tigre recuar lentamente. O ar do grande salão de entrada também parecia sujo, como se o homem em fuga tivesse deixado pra trás a sua nuvem escura.

Fernanda ficou um pouco por ali, parada, tentando se recompor. Sentia nojo das mãos que haviam tocado no homem e uma vaga sensação de mal-estar parecia correr pelas suas veias. E foi nesse momento que entrou o Francês.

Alain era um professor da universidade que frequentava bastante a seção de obras raras, para alguma pesquisa acadêmica. Muito gentil, embora reservado, era bastante querido por todos os funcionários. As meninas o achavam bonito, embora fosse apenas um intelectual ossudo e meio velhusco, porque havia uma doçura em suas maneiras que encantava de imediato. No exato instante em que ele entrou, Fernanda percebeu que o ar pesado se dissipava, dando lugar a uma luminosidade diferente da luz habitual do ambiente. Ao vê-la ali parada, ainda meio em choque com o que acabara de fazer, o Francês se aproximou e perguntou, com seu sotaque forte:

– Que foi, Fernanda? Tudo bem com você?

– Tudo bem, meu lindo. Foi só uma coisa estranha que eu precisei fazer e que me deixou nervosa.

Alain franziu a testa e alisou levemente a lateral do braço da bibliotecária, num gesto de consolo.  Mais calma, Fernanda agradeceu pela preocupação, fez um sinal de positivo para o segurança que havia chegado com cara de ponto de interrogação e foram todos cuidar de suas vidas. A luz leve e brilhante que entrou com o Francês já havia tomado todo o espaço aéreo da Grande Biblioteca.

O Nojento nunca mais apareceu e Pris nem ficou sabendo da história. Combinaram de não contar nada para não assustá-la mais ainda. Apenas soube, por Alencar, que a Fernandona tinha algo a ver com o desaparecimento do “encosto” e a abraçou muito. Meses depois foi aberto um concurso público, com duas vagas para a Grande Biblioteca e ela se inscreveu. Decidira, afinal, que trabalhar em biblioteca era o que desejava da vida, apesar dos percalços todos. O chefe disse que, à medida que ela fosse ficando mais velha, as pessoas naturalmente a respeitariam mais. E depois, com a maturidade as lágrimas tendem a secar.  Mais tarde, pensava Pris,  poderia pensar em cursar Biblioteconomia. Por que não?

5 dicas para Biblioteca Escolar!

Nesse ‘Fala, Bibliotecária!’, dei 5 dicas bem simples e econômicas para melhorar bibliotecas escolares! Para quem se interessar sobre o assunto, eu estarei hoje no Conaler falando mais sobre esse assunto e dando mais dicas! (o evento é gratuito e online!)

Acesso Aberto em Ação – Semana do Acesso Aberto 2016

A Semana Internacional do Acesso Aberto é um evento de conscientização e divulgação do movimento pelo acesso aberto à informação científica, celebrado anualmente por indivíduos e instituições ao redor do globo. O tema deste ano é “Open in Action” (Acesso Aberto em Ação), e o evento acontece entre 24 e 30 de outubro.

O objetivo da Semana sempre foi motivar ações em torno do acesso aberto, e a ideia este ano é sair do discurso para a ação, estimulando estudantes, bibliotecária/os, pesquisadores e cia. a tomar atitudes concretas para tornar seus trabalhos mais abertos e disponíveis, e a encorajar outras pessoas a fazer o mesmo. Isso pode tomar muitas formas: depositar trabalhos num repositório institucional, fazer campanha pelo uso de licenças Creative Commons, e o que mais você imaginar.

A data oficial da Semana Internacional do Acesso Aberto 2016 é a última semana de outubro, do dia 24 ao dia 30. Eu sei, está bem em cima para se planejar. Mas nada impede que você organize eventos locais com o tema em datas que façam sentido para a sua instituição/comunidade (por exemplo, para recepção a novos alunos em 2017). Se você gosta da ideia e vai promover um evento, não deixe de cadastrá-lo no site oficial da Semana!

Está sem inspiração? Aqui tem algumas sugestões de atividades:

  • Mutirão para cadastrar materiais no seu repositório institucional (e/ou um evento de informação sobre o repositório da sua instituição);
  • Palestra com estudantes/professores sobre como é publicar em acesso aberto;
  • Desafios do tipo “Quem consegue encontrar este artigo”, comparando as possibilidades para quem tem acesso ao Portal CAPES e quem não tem;
  • Treinamentos com usuários voltados para publicação em periódicos de acesso aberto, uso de repositórios institucionais e/ou de sites como Figshare/Zenodo;
  • Exibição do filme “O Menino da Internet: A História de Aaron Swartz” (dá pra achar legendado no YouTube);
  • Debates sobre SciHub, #icanhazpdf e outras estratégias alternativas para ter acesso a artigos científicos.

Navegando pelos eventos já cadastrados você pode encontrar outras ideias interessantes para a sua comunidade. Se você não está numa instituição no momento, não tem recursos para organizar um evento, ou simplesmente não quer deixar a Semana passar em branco, existem outras maneiras de participar: divulgando materiais relevantes nas suas redes sociais, criando desafios pessoais, falando com seus colegas sobre o tema…

Para mais informações sobre a Semana Internacional do Acesso Aberto, visite o site www.openaccessweek.org (tem um grupo brasileiro lá, mas está parado desde 2014). Ah, e deixe um comentário aqui se estiver planejando ou já tiver realizado algum evento nessa linha, quem sabe não rola um post futuro contando o que está acontecendo nas bibliotecas brasileiras em torno do acesso aberto?