Vagas para profissionais da informação

Perguntei pro Moreno esses dias se eu podia escrever por aqui posts sobre vagas de biblio. Por hora, o BSF nunca teve uma linha editorial pra isso, mas eu acho importante que exista. A intenção não é tanto fazer a divulgação de toda e qualquer vaga de biblio, pois para isso já existem blogs especializados como o Biblioteconomia – Vagas para SP e o Biblio Vagas. Também costumam utilizar o site do OFAJ para verificar vagas e os sites do CRBs.

A intenção é divulgar vagas que são de biblio e também de vagas “que não parecem” de biblio, como aquela vaga de tagger do Netflix que divulguei aqui mais cedo esse ano.

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Semana passada abriu vaga para bibliotecário no SESC de São Paulo e as inscrições são até amanhã, 28/07. Em 2013 eu participei do processo seletivo que consiste em 5 fases e fui até a última fase, mas não rolou para mim. Durante o processo seletivo conheci pessoas incríveis e foi aí que percebi que elas tinham muito mais jeito pra vaga. Nem sempre se trata apenas de uma questão de competência, mas muitas vezes de perfil profissional mesmo – as meninas que conheci já tinham tido experiências nas Fábricas de Cultura daqui de São Paulo e certamente estavam mais aptas do que eu. Tanto que no meio do processo me peguei torcendo para minhas concorrentes, que acabaram passando. Indico essa vaga para quem tem a intenção de trabalhar com ação cultural e com bibliotecas infantis, pois o projeto de biblioteca itinerante do BiblioSesc tem este foco.

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Outra vaga que apareceu hoje no twitter pra mim foi a de Analista de Contas para a Bookwire Brasil. Achei essa vaga interessante para a nossa área pois trata-se de uma startup alemã especializada na distribuição de e-books. Acredito que um profissional da informação tenha as competências necessárias para trabalhar no mercado editorial, principalmente se for focado em gestão e um pouco também em tecnologia de informação. No link tem a descrição para a vaga e entre as habilidades é exigido inglês fluente. Para o bibliotecário ou bibliotecária que quer trabalhar com tecnologia e e-books ou já possui algum tipo de especialização nisso, é uma boa oportunidade para destaque. A vaga é para São Paulo, capital.

Conhece algum outro site que divulga vagas para a área?

Deixe dicas também nos comentários. 😀

Como identificar os potenciais de sua comunidade

O que a história do jazz e do blues, Violeta Parra e Páez Vilaró podem ensinar aos bibliotecários…

Seguindo com a série sobre o desenvolvimento de atividades editoriais em bibliotecas públicas e comunitárias.

No primeiro post, abordei algumas razões para bibliotecas desenvolverem alguma atividade editorial. Longe de esgotar esse assunto, apenas ressaltei aqueles motivos que considero cruciais para a missão das bibliotecas públicas e comunitárias:

  • o empoderamento da comunidade;
  • o resgate da cultura popular; e
  • o reconhecimento dos talentos escondidos e esquecidos na comunidade.

Agora vou falar sobre a identificação das pessoas que serão a nova “coleção” dessas bibliotecas.

Não há como resolver esse problema apenas abrindo inscrições e esperando interessados. Em geral as pessoas que têm as melhores histórias, aquelas que guardam os registros culturais mais autênticos, sequer sonham que esse material tenha algum valor.

Em nossa sociedade, infelizmente, a cultura popular só ganha valor quando algum grande nome da música, artes plásticas ou cinema resolve resgatá-la (e diluí-la, na maioria das vezes) em suas obras. E nesse ponto deixa o âmbito onde foi criada e, transformada em produto, ganha valor comercial, vira concerto, álbum, mostra em museus, item de leilão, cartaz em cinema… E quantas manifestações genuínas e ricas de nossa cultura se extinguiram aguardando a “descoberta”!!!

Então, como nós bibliotecários poderíamos descobrir esses verdadeiros tesouros e legitimar sua importância para a sociedade e, principalmente para as próprias pessoas que os produzem e transmitem?

Esse não é um papel novo em bibliotecas! As bibliotecas nacionais costumam organizar o acervo cultural de seus países e algumas dedicaram esforço para documentar a cultura popular, com o principal foco no registro e resgate da identidade histórica da nação.

Dessas eu destaco o exemplo mais emblemático, por dois motivos: primeiro pela iniciativa ter partido da maior biblioteca que já existiu, a Biblioteca do Congresso dos EUA (o que diz bastante sobre a importância desse resgate), o segundo motivo é que o projeto envolveu a documentação e o resgate do blues e do jazz, e eu sou fã de blues e jazz!

John Lomax e seu filho Alan, dois antropólogos, dedicaram suas vidas a explorar e documentar a música folclórica nos Estados Unidos e em diversos outros países.  Das inúmeras expedições pelos confins dos EUA, procurando músicos populares e menestréis errantes (documentando o impressionante acervo de gravações folclóricas que compõe o Archive of American Folk Song), talvez o mais importante trabalho dos Lomax tenha sido o registro das canções dos negros do país, feito entre 1933 e 1942, sob encomenda da Biblioteca do Congresso.

Equipamento de gravação no porta malas do carro de John Lomax
Equipamento de gravação no porta malas do carro de John Lomax

Essa coleção permitiu traçar a história da música negros dos EUA, precursora do blues, do jazz, do rock e da música pop, resgatar canções que hoje são conhecidas mundialmente e projetar artistas que, de outra forma, permaneceriam no ostracismo da pobreza, racismo e exclusão social.

Para conseguir esse feito, os Lomax não lançaram editais convocando músicos negros para gravarem suas canções. Não publicaram anúncios no jornal e esperaram. Foram atrás desses artistas nos lugares onde eles estavam, conversaram com cada um deles, entrevistaram, registraram suas duras trajetórias de vida e gravaram pessoalmente suas canções.

E onde encontrariam músicos negros e pobres naquela época? Geralmente nas prisões dos estados do sul do país! Marginalizados, os negros pobres dessa época e especialmente os músicos, eram presos por muito pouco. Nessas prisões, e também em bares, zonas rurais e guetos urbanos, John e Alan Lomax descobriram músicos como Leadbelly, Muddy Waters, Woody Guthrie, Big Bill Broonzy, Bessie Jones, Kelly Pace e muitos outros. Os que estavam presos ganhavam a liberdade com acordos entre Lomax e os diretores das penitenciárias, alguns seguiram carreiras internacionais a partir de então.

Voltando para nossas bibliotecas, você talvez diria: “Mas Derbi, eles tinham a maior biblioteca do mundo financiando essas expedições! Nós, aqui na biblioteca do bairro, mal conseguimos comprar um computador!”. E você tem razão. Por isso tenho outro exemplo para ilustrar como algo parecido pode ser feito, sem um orçamento gigante, ou mesmo sem qualquer orçamento…

Violeta Parra, compositora e cantora, saiu cedo na vida, violão embaixo do braço, percorrendo as bucólicas paisagens rurais e as difíceis cordilheiras do Chile, em busca daqueles músicos que conheciam as canções folclóricas, transmitidas pela tradição oral. Por ter tomado para si essa missão, é considerada a fundadora da música popular chilena. Começou pobre, estudou até o segundo ano do secundário e largou os estudos para poder ganhar a vida. Também é considerada a mãe das canções de protesto e suas músicas foram gravadas por gente como Milton Nascimento e Mercedez Sosa, Elis Regina , Joan Baez e muitos outros (para saber mais sobre essa heroína latino-americana, recomendo o filme Violeta se fue a los cielos).

Cena do filme "Violeta fue a los cielos" sobre a vida de Violeta Parra
Cena do filme “Violeta fue a los cielos” sobre a vida de Violeta Parra

Mas não vamos restringir os exemplos ao resgate da cultura musical, cito aqui uma passagem da história do grande pintor uruguaio Carlos Páez Vilaró, muito conhecido pela Casa Pueblo, a “escultura habitável”, em Punta Ballena, no Uruguai. No começo de sua carreira, nos anos 40, Páez Vilaró viveu em um cortiço de negros chamado Mediomundo, em Montevidéu. Ali se apaixonou profundamente pelo candombe, uma tradição popular de origem africana. Nesse período produziu inúmeras obras retratando o candombe e o cotidiano dos moradores do Mediomundo.

Cortiço Mediomundo, de Páez Vilaró
Cortiço Mediomundo, de Páez Vilaró

Mais tarde, quando convidado para expor essas obras em uma exposição fechada para os europeus, Páez Vilaró recusou o convite, respondendo que, se quisessem conhecer o cortiço, que viessem ao cortiço. Daí surgiu uma exposição única, que trouxe a Europa para o cortiço!

Com telas penduradas nos varais de roupa e nas entradas das casas, o mundo se encantou com a vida dessa comunidade afro-castelhana. Isso trouxe aos protagonistas da cultura do candombe um reconhecimento que até então nunca tiveram, inclusive evitando o despejo planejado pelas autoridades e garantindo o direito a uma moradia digna (embora o prédio histórico tenha sido demolido posteriormente). Hoje o candombe é um patrimônio imaterial uruguaio comparado ao carnaval brasileiro.

O que pretendo demonstrar com os exemplos acima é que, em todos os casos, a ação intensa de convívio possibilitou o resgate e a valorização de um ativo cultural que estava até então escondido, abafado, fadado a desaparecer na crescente alienação provocada pela massificação da cultura. Os próprios artistas e comunidades ganharam uma nova consciência do valor daquilo que faziam cotidianamente, logo, de seus lugares no mundo.

Assim, o menestrel que cantava notícias por onde passava em forma de proto-blues, o peão da fazenda que marcava o ritmo da pesada rotina nos campos de algodão com canções de trabalho ancestrais, ensinadas por seus pais, a senhora que animava as festas da família com melodias de seus antepassados Mapuches nos Andes Chilenos, o povo do cortiço, que viu suas vidas refletidas nas pinturas, todos e cada um imediatamente se identificou com suas raízes e percebeu o quanto aquilo era importante!!!

Da mesma forma podemos fazer isso em nossas bibliotecas, pelas comunidades que atendemos. Estamos preparados para isso? Provavelmente não! Mas Violeta estava? Hoje não precisamos cruzar desertos e cordilheiras para realizar essa proposta, mas ainda temos penhascos de desigualdade e de preconceito para superar. Também temos toda sorte de recursos educativos e apoio de pessoas especializadas para nos ajudar nesse difícil e longo caminho.

Mas onde procurar? Em todos os lugares! Mas certos locais e eventos são mais propícios a revelar talentos e histórias impressionantes.  Alguns passos para iniciar essa aventura:

  • Fortaleça os laços da biblioteca com associações de moradores, participe de reuniões, saiba dos problemas da comunidade;
  • Proponha atividades da biblioteca em eventos das igrejas e terreiros do local. Construa esses eventos junto com as lideranças desses espaços, aceite as propostas, respeite as preferências e decisões sobre essas ações;
  • Desenvolva alguma atividade da biblioteca nas ruas. Pode ser uma biblioteca itinerante no porta malas de um carro, uma feira de trocas, uma bicicloteca…;
  • Crie uma banquinha da biblioteca nas feiras da comunidade. Faça contação de histórias, ofereça empréstimos… frutas e verduras costumam ser mais populares que livros e a feira é um dos lugares mais democráticos dos bairros;
  • Descubra onde as pessoas se reúnem. As praças são sempre um bom ponto de partida, são o lugar onde velhos jogam dominó, jovens andam de skate nas pistas, homens e mulheres caminham ou passam o tempo.
  • Converse muito, sobre todos os assuntos e escute mais do que fala!

O grande desafio é a abordagem, que precisa ser a mais honesta o possível, sem ser invasiva ou artificial. É preciso ter interesse genuíno no que as pessoas fazem, é preciso querer fazer parte.

Para aproximar a discussão de nossa realidade e para ter uma ideia do que fazer com as histórias descobertas, nos próximos posts dessa série (prometo que serão mais curtos!) vou falar sobre alguns coletivos e movimentos sociais, de várias partes do Brasil, que praticam ações culturais desse tipo nas vilas e favelas e vêm obtendo resultados fantásticos! Se alguém souber de ações desse tipo e quiser contribuir, comente por aqui!

* A imagem do post é a pintura “Favela Vila Broncos”, de Bob Dylan, do livro The Brazil Series.

Por que ainda não existe #rolezinho na biblioteca?

É claro que o título desse post seria uma pergunta pois sou uma pessoa que tende a colecionar perguntas. Enfim…

Hoje estive no SESC para um curso chamado “Introdução ao universo dos arquivos” (porque sou curiosa) e peguei um exemplar gratuito da Revista do SESC São Paulo, que sempre tem notícias interessantes sobre as áreas de cultura, arte e informação. Compartilhei no Facebook com todo mundo e a Carla Castilhos re-compartilhou, começando uma série de questionamentos:

Gente, ok, temos que melhorar o acesso tanto financeiro quanto físico mesmo às atividades culturais, mas temos também que aceitar que tem muita, mas muita gente que não gosta. Muitas pessoas têm acesso a livros, a museus, a teatro e cinema e simplesmente NÃO estão a fim. O que me intriga é: quais as razões? Não gosta por que? Por que é chato, ok, mas por que achamos algo chato ou legal? O que tornou os livros chatos? As artes visuais chatas?

Conheço mais de uma pessoa que ia na Bienal de Artes do Mercosul e de uns anos pra cá passaram a achar… chato. O que aconteceu? Foram os visitantes que mudaram, os artistas, enfim, quais as causas da chatice?

Será que as pessoas estão hiperestimuladas pela internet e 9gag e youtube e querem tudo mais rápido, mais digerível? Será que a informação é tanta que estamos cansados? Será que estamos trabalhando demais? Ou será que cultura é só algo chato mesmo e estamos indo pelo caminho errado ao tentar fomentar algo que não faz mais sentido numa sociedade que está no ritmo do consumo e diversão imediata? (É uma pergunta séria, não estou usando ironia).

Como também tinha alguns questionamentos sobre a pesquisa, sugeri que escrevêssemos alguma coisa. Nada como um post inicial pro Bibliotecários Sem Fronteiras feito colaborativamente na mesma noite por uma bibliotecária que está em São Paulo e outra em Porto Alegre. Acho que entendi o espírito da coisa. Pois bem. O que mais nos chamou atenção na matéria foi justamente os seguintes dados:

“Que locais frequenta nos fins de semana quando quer fazer alguma atividade cultural?
Shopping centers – 6% (1º lugar) / 8% (soma das menções)
Cinemas – 5% (1º lugar) / 7% (soma das menções)
Teatros – 3% (1º lugar) / 4% (soma das menções)
Museus – 1% (1º lugar) / 2% (soma das menções)
Não faz nenhuma atividade cultural – 51%”
Voz ao grande público. Revista SESC SP, São Paulo, n°199, jan./2014.

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Rolezinho de sábado passado (11/01) no Shopping Itaquera em São Paulo

O assunto da semana (passada e desta ao menos) são os rolezinhos que tem acontecido em alguns shoppings da capital paulistana. O que nos chama atenção é que muita gente têm usado unicamente este espaço nos finais de semana ao invés de outros equipamentos de cultura e lazer existentes – e agora estão em conflito sobre o uso e a convivência nesses espaços. Alguns textos tentam caracterizar o rolezinho aproximando-o de um flash mob – pois ambos são planejados – mas as características dos eventos são diferentes. Um rolezinho é um passeio que, devido ao medo e insegurança dos paulistanos de classe média, confundem-se com arrastões. É muito pano sociológico pra manga, de fato.

Lemos, de bibliotecários e não-bibliotecários no Facebook a seguinte provocação: “rolezinho em biblioteca e museu ninguém quer dar né?”

Consideramos simplistas as explicações que são ventiladas por aí: brasileiro não lê porque a escola oprime, porque livros são caros, porque as bibliotecas não têm acervo adequado e o céu (ou o inferno, né?) é o limite. Mas duas coisas precisam ser tornadas um pouco mais claras. Coisas que o pessoal do rolezinho não sabe e coisas que o pessoal que quer rolezinho em biblioteca não entende: 1. Ricos (ricos mesmo, de verdade) não vão em shopping. Surpresos? Pois é. Eles não vão, gente. 2. Por que uma pessoa que trabalha 5 dias na semana gastaria 2 dias de folga (às vezes 1 dia só de folga, pasmem: às vezes nenhum) pra ir em uma biblioteca?

Por favor, surpreendam-nos, bibliotecários.

Convenhamos: é bem mais difícil ter (e realizar) atividades de ação cultural em bibliotecas do que em centros culturais. É claro que todas tentativas são sempre válidas. Mas por que elas não “pegam”? Sempre nos perguntamos o que os shoppings (e livrarias) têm que as bibliotecas, museus, teatros, não têm? A primeira coisa que nos vem em mente nesse calor é: “ar condicionado?”. Ou refrigeração equivalente, enfim. Pode parecer bobo, mas a estrutura física conta bastante. Faltam mesmo cadeiras confortáveis, ar-condicionado, banheiros decentes, estacionamento, estrutura física, etc.

Brasileiros são mesmo estranhos. Ao mesmo tempo que museus, teatros e bibliotecas ainda são compreendidos como lugares de “ricos”, de “status”, ainda persiste uma mentalidade tacanha de que “coisa de graça (ou muito barata) é pra pobre, não preciso pegar livro de graça”. Quer dizer… Mas talvez estejamos fazendo a pergunta errada. Talvez a pergunta devesse ser: por que as pessoas se sentem parte de uma comunidade de comércio – para chegarem ao ponto de querer se apropriar dela – mas muitas vezes não se sentem parte de uma comunidade cultural, independente desse comércio?

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Museu aberto de arte urbana de São Paulo

Aliás, o que seria essa comunidade cultural? Em uma discussão no Facebook, pensou-se que baixar um filme ou ver uma série também podem ser um tipo de cultura (e por que não seria?). Entendemos que a pesquisa não tenha sido publicada na íntegra na revista, mas alguns pontos poderão ser explorados assim que ela for publicada, tais como: a pesquisa considera cultura de periferia (funk, graffitti, rap), cultura de fato? Outra questão levantada nas discussões foi: por que os shopping centers foram considerados como “cultura” e assinalados como resposta na pesquisa? Sobre isso, há uma excelente citação de Maria Aparecida Perez no artigo da Revista do SESC:

“As pessoas costumam ver a cultura como algo a ser comprado – entrada para o cinema, teatro, shows, museus etc. Normalmente, não reconhecem como cultura o artesanato, a culinária, a leitura (é vista como estudo), a prática de esportes” (…) “Quando a pessoa vai a um centro cultural, à escola para ver alguma apresentação ou a shows em praça pública, provavelmente não considera uma ação cultural.”

Outra pergunta: o quanto as pessoas querem fazer parte de uma comunidade cultural?
E de quais, na verdade?

Opinião pessoal: para mim, a carência é tanta que na falta de espaços culturais as pessoas se refugiam nas 1. igrejas; 2. shoppings; 3. academias. #prontofalei

Não imaginamos que exista, em nenhuma situação, um aculturamento propriamente dito, mas sim, uma cultura de exclusão – e em todos os lugares – e isso é meio que inevitável: pessoas sempre serão pessoas. Isso não é de todo ruim: pode estimular a diversidade cultural (as chamadas “subculturas”) desde que elas, às vezes, estejam dispostas à conviver por algum período de tempo no mesmo espaço. E isso também é inevitável. E esta é sempre a parte mais complexa. Uma das palavras que os muito ricos gostam de utilizar ultimamente chama-se exclusividade. A exclusão já começa a partir daí: pela busca a uma individualidade autêntica, que nem se sabe se é real ou não.

Voltando à pesquisa publicada na Revista:

FREQUÊNCIA A ATIVIDADES CULTURAIS – Atividades que NUNCA fez ou a que NUNCA FOI na vida

Ir ao cinema – 22%
Ler um livro por lazer, sem ser de trabalho ou estudo – 31%
Ir a um show de música em uma casa de espetáculo – 55%
Ir a uma peça de teatro em um teatro – 57%
Ir a exposição de pintura, escultura ou outras artes – 71%
[. . .]

É realmente muito surpreendente (meio assustador na verdade) que 55% dos entrevistados NUNCA tenham ido à um show de música ou casa de espetáculo. É quase inacreditável. Sempre acreditamos que a leitura é deixada por último, mas não foi dessa vez, para a nossa surpresa. E a razão principal de os respondentes não terem realizado atividades culturais no último ano foi “não gosta” (1ª razão mais citada). Durante discussão no Facebook, Fernando Pires disse que isso tem muito jeito daquele “não gosto de brócolis” que as crianças soltam vez e outra. O “não gosta” na verdade mesmo quase sempre é um “não tem costume” (3ª razão mais citada). As pessoas não são preparadas pra ser consumidores – o maior formador deles é a TV e agora as redes sociais na internet. E infelizmente é conhecido que arte/produto cultural não-blockbuster rende pouco.

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Faz bem, de vez em quanto. A gente promete.

Em uma sociedade que cada vez mais preza pelo individualismo e com os avanços na internet, a preferência é sempre por ver um filme no conforto (e na comodidade) do seu próprio sofá do que se deslocar pela cidade para pegar fila em cinema. Além do mais, para ir ao cinema é preciso, também, de modos: não falar ao celular, não falar alto demais, não chutar a cadeira, não rir alto durante a seção, não fazer guerra de pipoca, (Bibliotecária mal-humorada, oi?)… São tantos “nãos” e “modos para a boa convivência” que a pessoa acaba preferindo ficar em casa. Sem falar que tem gente que não vai simples e justamente pra não socializar com outras pessoas: gente culta demais não quer nem respirar o mesmo ar com quem apenas “pega um cineminha”. E por aí vai. A sociedade tem desses melindres.

Ainda também discute-se a possibilidade da internet como Meio de Comunicação de Massa mas os teóricos da comunicação resistem à considerá-la como tal. Mesmo com 51% dos entrevistados já utilizando e tendo acesso ao computador e a internet, a televisão ainda é a favorita para o tempo livre, de modo geral. Talvez porque a família não se reúna pra usar a internet em conjunto, como acontece com o rádio e a TV. O que pesquisamos ou acessamos, apesar de estar disponível para todos, não é usado de forma massiva e simultânea.Também existe a questão da produção do conteúdo, que no rádio e na TV é feita pra atingir uma massa – na internet, as informações são mais publicadas para nichos específicos. Eis uma citação do Bourdieu (dsclp, Fabiano) basicamente dizendo que ninguém curte muito brócolis, mesmo:

Os membros das classes populares e das frações menos ricas em capital cultural das classes médias recusam sistematicamente a sofisticação propriamente estética quando a encontram em espetáculos que lhes são familiares, em particular os programas de variedades televisionadas. Sabemos que, do mesmo modo que no cinema, o público popular, muitas vezes desconcertado com os flash-backs, gosta das intrigas lógicas e cronologicamente orientadas para um happy ending e “se encontra”  melhor nas situações e nas personagens simplesmente desenhadas do que nas “histórias”
ambíguas e simbólicas, agenciadas sem ordem aparente e reenviando a experiências e a problemas totalmente estranhos à experiência ordinária.

BOURDIEU, P. e SAINT-MARTIN, M. Goftts de classe et styles de vie.
[Excerto do artigo “Anatomie du goftt”]. Actes de Ia Recherche en Sciences Sociales, n° 5 , out. 1976, p. 18-43. Traduzido por Paula Montero.

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Resistência.

A pesquisa também apontou que a maioria dos entrevistados, mesmo com a internet, ainda passa muito tempo diante da TV. Isso significa que uma parcela considerável da população ainda (sim, 2014 e ainda: o futuro ainda não chegou) pode ser influenciável pelos programas como novelas, reality shows, propagandas, noticiários, etc. Isso levando-se igualmente em conta a forma que se assiste televisão: passivamente, jamais de forma crítica, reflexiva, acreditam na TV como se tudo mostrado na tela fossem verdades inalteráveis. Talvez seja um fetiche de geração, ou um fetiche da tela, do monitor mesmo. Mesmo existindo N possibilidades de pesquisa, é mais fácil acreditar no que é conveniente. Digo isso – que pode ser geracional – pois o mesmo ocorre quando os nossos pais acreditam em hoaxs veiculados por e-mail, repassando pra todo mundo sem nem se dar ao trabalho de verificar as fontes. Se está no papel é verdade e, hoje em dia, se está na tela também (seja no monitor ou na TV). Cultura de pesquisa? Opa, também ainda não trabalhamos. Tem, mas acabou.

O que que falta, gente?

Pra essas pessoas?

Pra gente?