Altmetria à brasileira em 2016

Para fechar o ano, resolvi fazer um post recapitulando a produção científica sobre métricas alternativas no Brasil em 2016 (mas se você estiver de férias, recomendo que só leia isso em 2017).

2016 foi um ano bom para a altmetria.

As métricas alternativas deixaram de ser tão alternativas, com um aumento significativo no número de pesquisas publicadas sobre o assunto, a consolidação de serviços como Altmetric e Plum Analytics e, principalmente, com a publicação das recomendações de melhores práticas de uso da altmetria pela NISO.  E a altmetria ganhou até uma entrada (ainda que tímida) na Wikipedia em português.

No Brasil, tivemos uma boa safra de pesquisas sobre altmetria publicadas por autores brasileiros nesse ano, entre artigos, dissertações, livros e trabalhos apresentados em congressos. A lista não pretende ser completa, e se me esqueci de algum trabalho, fique à vontade para incluir nos comentários desse post.

ARAÚJO, Ronaldo, & FURNIVAL, Ariadne. (2016). Comunicação científica e atenção online: em busca de colégios virtuais que sustentam métricas alternativas. Informação & Informação, 21(2), 68-89. http://dx.doi.org/10.5433/1981-8920.2016v21n2p68
ARAÚJO, Ronaldo Ferreira. (2016). Presença online de pesquisadores na web: indícios para as métricas em nível de autores. Anais do XVII Encontro Nacional de Pesquisa em Ciência da Informação. Salvador, BA. http://www.ufpb.br/evento/lti/ocs/index.php/enancib2016/enancib2016/paper/view/4123
ARAÚJO, Ronaldo Ferreira, CARAN, Gustavo Miranda, & SOUZA, Iara Vidal Pereira de. (2016). Orientação temática e coeficiente de correlação para análise comparativa entre altmetrics e citações. Em Questão, 22(3), 184-200. http://dx.doi.org/10.19132/1808-5245223.184-200
ARAÚJO, Ronaldo Ferreira , & MURAKAMI, Tiago Rodrigo Marçal. (2016). Atenção online de artigos de Ciência da Informação: análise a partir de dados altmétricos do Facebook. Anais do 5o Encontro Brasileiro de Bibliometria e Cientometria. São Paulo, SP. http://www.ebbc.inf.br/ebbc5/index.php/main/download/111
BORBA, Vildeane da Rocha Borba, & CAREGNATO, Sonia. (2016). Análise do termo 'repositório institucional' no Twitter: um estudo altmétrico. Anais do 5o Encontro Brasileiro de Bibliometria e Cientometria. São Paulo, SP. http://www.ebbc.inf.br/ebbc5/index.php/main/download/89
BORBA, Vildeane da Rocha Borba, & CAREGNATO, Sonia. (2016). A repercussão de autores estrangeiros em Ciência da Informação no Twitter: uma visão altmétrica. Anais do XVII Encontro Nacional de Pesquisa em Ciência da Informação. Salvador, BA. http://www.ufpb.br/evento/lti/ocs/index.php/enancib2016/enancib2016/paper/view/4089
GOUVEIA, Fábio Castro. (2016). A altmetria e a interface entre a ciência e a sociedade. Trabalho, Educação e Saúde, 14(3), 643-645. https://dx.doi.org/10.1590/1981-7746-sip00126
GOUVEIA, Fábio Castro. (2016). Altmetria institucional: uma análise dos trabalhos publicados pela Fundação Oswaldo Cruz. XVII Encontro Nacional de Pesquisa em Ciência da Informação. http://www.ufpb.br/evento/lti/ocs/index.php/enancib2016/enancib2016/paper/view/3720
NASCIMENTO, Andrea Gonçalves do. (2016). Métricas alternativas para a avaliação da produção científica: um guia básico para o uso de altmetria para bibliotecários (Dissertação de Mestrado, Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro).  https://dx.doi.org/10.6084/m9.figshare.3409846.v1
NASCIMENTO, Andrea Gonçalves do. (2016). Altmetria para bibliotecários: Guia prático de métricas alternativas para avaliação da produção científica. Porto Alegre: Revolução eBook. http://revolucaoebook.com.br/ebook/altmetria-para-bibliotecarios-isbn-9788569333821/
NASCIMENTO, Andrea Gonçalves do, & ODDONE, Nanci Elizabeth. (2016). Métricas alternativas para a avaliação da produção científica: a altmetria e seu uso pelos bibliotecários. Anais do XVII Encontro Nacional de Pesquisa em Ciência da Informação. Salvador, BA. http://www.ufpb.br/evento/lti/ocs/index.php/enancib2016/enancib2016/paper/view/3701
REIS, José Eduardo dos, SPINOLA, Adriana Tahereh Pereira, & AMARAL, Roniberto Morato do. Visualização de indicadores bibliométricos e altmétricos: uma análise dos Repositórios Institucionais brasileiros. Anais do 5o Encontro Brasileiro de Bibliometria e Cientometria. São Paulo, SP. http://www.ebbc.inf.br/ebbc5/index.php/main/download/73
VANTI, Nadia, & SANZ-CASADO, Elias. (2016). Altmetria: a métrica social a serviço de uma ciência mais democrática. Transinformação, 28(3), 349-358. https://dx.doi.org/10.1590/2318-08892016000300009

O tema também foi discutido em blogs científicos e editoriais:

E pra quem se interessou, vale a pena lembrar de alguns artigos interessantes sobre o tema publicados no Brasil em 2015:

ARAÚJO, Ronaldo Ferreira de. (2015). Marketing científico digital e métricas alternativas para periódicos: da visibilidade ao engajamento. Perspectivas em Ciência da Informação, 20(3), 67-84. https://dx.doi.org/10.1590/1981-5344/2402
ARAÚJO, Ronaldo Ferreira de. (2015). Da altmetria à análise de citações: uma análise da revista Datagramazero. Pesquisa Brasileira em Ciência da Informação e Biblioteconomia, 10(1). http://www.ies.ufpb.br/ojs2/index.php/pbcib/article/view/23163
ARAÚJO, Ronaldo Ferreira de. (2015). Estudos métricos da informação na web e o papel dos profissionais da informação. Bibliotecas Universitárias: pesquisas, experiências e perpectivas, 2(1). https://seer.lcc.ufmg.br/index.php/revistarbu/article/view/1119
BARROS, Moreno. (2015). Altmetrics: métricas alternativas de impacto científico com base em redes sociais. Perspectivas em Ciência da Informação, 20(2), 19-37. https://dx.doi.org/10.1590/1981-5344/1782
NASCIMENTO, A., & ODDONE, N. (2015). Uso de Altmetrics para Avaliação de Periódicos Científicos Brasileiros em Ciência da Informação. Ciência da Informação em Revista, 2(1), 3-12. https://dx.doi.org/10.6084/m9.figshare.1402366.v1
SOUZA, Iara Vidal Pereira de. (2015). Altmetria: estado da arte. Tendências da Pesquisa Brasileira em Ciência da Informação, 7(2). http://inseer.ibict.br/ancib/index.php/tpbci/article/viewArticle/164
SOUZA, Iara Vidal Pereira de. (2015). Altmetria ou métricas alternativas: conceitos e principais características. AtoZ: novas práticas em informação e conhecimento, 4(2), 58-60. http://revistas.ufpr.br/atoz/article/view/44554/27146

É isso. Um bom 2017 para vocês!

 

Facebook Top10: artigos mais “populares” de 2016

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O ano de 2016 está quase no fim e o Repertório da Produção Periódica Brasileira de Ciência da Informação (RPPBCI), desenvolvido no Laboratório de Estudos Métricos da Informação na Web (Lab-iMetrics), conta com quase 11.300 registros de artigos de 36 periódicos da área de Biblioteconomia e Ciência da Informação.

Já divulgamos um post sobre o RPPBCI por aqui e ressaltamos seu diferencial de ordenar os resultados de busca por altmetrics do Facebook, ou seja, pelas interações (curtidas, comentários e compartilhamentos) que os artigos recebem na rede social. A partir desses dados elaboramos um ranking com os 10 artigos publicados no ano de 2015 com mais interações no Facebook (veja aqui).

Agora fizemos o mesmo para os artigos publicados em 2016 (n=874 em 22 dez., 2016). Caso queira fazer consultas similares para outros anos, basta aplicar o filtro ano de seu interesse e ver a listagem.

Então com vocês, eis o Facebook Top10: artigos mais “populares” de 2016.

2015 SUMÁRIO – RPPBCI
     10 top artigos.
     21 autores.
     1,878 interações.
     6 periódicos.

 

# Artigo Autores Periódico              Score* 
1 The trajectory of the university library in Brazil in the 1901-2010 period (2016) Cunha, Murilo Bastos da, Diógenes, Fabiene Castelo Branco Encontros Bibli 412

 

2 The librarian and the scientific journals editing (2016) Santana, Solange Alves, Francelin, Marivalde Moacir Revista Brasileira de Biblioteconomia e Documentacao 196
3 O papel dos bibliotecários na gestão de dados científicos (2016) Corrêa, Fabiano Couto Revista Digital de Biblioteconomia e Ciencia da Informacao 193
4 The solution to SUS is not a Brazilcare (2016) Santos, Isabela Soares RECIIS 177
5 Promotion or prevention? Analysis of the communication strategies carried out by Brazilian Health Ministry from 2006 to 2013 (2016) Vasconcelos, Wagner Robson Manso de, Oliveira-Costa, Mariella Silva de, Mendonça, Ana Valéria Machado. RECIIS 173
6 História do papel: panorama evolutivo das técnicas de produção e implicações para sua preservação (2016) Fritoli, Clara Landim, Krüger, Eduardo Leite, Carvalho, Silmara Küster de Paula. Revista Ibero Americana de Ciencia da Informacao 157
7 Use of social media by university libraries with focus on relationship marketing (2016) Araújo, Walqueline Silva, Pinho Neto, Júlio Afonso Sá, Freire, Gustavo Henrique Araújo Encontros Bibli 153
8 Use of social network to support visually impaired people: A Facebook case study (2016) Caran, Gustavo Miranda, Santini, Rose Marie, Biolchini, Jorge Calmon de Almeida Transinformacao 148
9 The Trojan Horse: the story of the united front against the SUS (2016) Silva, Thiago Henrique. RECIIS 136
10 The evolution of the topic of Information literacy in Brazil: a bibliographic study from 2006 to 2013 (2016) Trein, Juliane Marlei, Vitorino, Elizete Vieira Revista Brasileira de Biblioteconomia e Documentacao 133
*valor referente a soma das interações.

Veja esses e outros artigos publicados no ano de 2016 com dados altmétricos que obtiveram atenção online e foram curtidos, comentados ou compartilhados no Facebook, confira a lista.

Facebook Top10: artigos mais “populares” de 2015

O Repertório da Produção Periódica Brasileira de Ciência da Informação (RPPBCI), desenvolvido no Laboratório de Estudos Métricos da Informação na Web (Lab-iMetrics), está sendo atualizado constantemente e conta com quase 11.000 registros de 36 periódicos da área.

Um dos diferenciais do RPPBCI é que o resultado de busca é ordenado por altmetrics score do Facebook, ou seja, ele apresenta os resultados em ordem decrescente em termos de dados da atenção online que os artigos recebem no Facebook.

Já tivemos postagens aqui no BSF escritas pela Andrea, Moreno, Iara, Tiago e por mim abordando vários aspectos sobre o emergente campo da altmetria, um dos tópicos mais atuais no âmbito da comunicação científica na atualidade (corre lá pra ver).

Diferente de métricas de citação que levam mais tempo para se acumular, os dados do RPPBCI para altmetria, como esperado, só começam a ficar legal para publicações recentes não fazendo muito sentido ser aplicado para artigos com mais de dois anos. Sendo assim resolvi fazer um pequeno levantamento dos 10 artigos publicados no ano de 2015 com mais interações no Facebook.

Coisa simples de fazer na verdade, basta aplicar o filtro ano “2015” e ver a listagem. Então com vocês, eis o Facebook Top10: artigos mais “populares” de 2015.

2015 SUMÁRIO – RPPBCI
     10 top artigos. 
     16 autores. 
     1,547 menções. 
     7 periódicos.

 

# Artigo Autores Periódico Score
1 The popular claim and Congress rumors: a recent conjuncture analysis of health in Brazil (2015) Magno, Liz DuquePaim, Jairnilson Silva RECIIS

 

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2 A brief history of academic libraries automation in Brazil and some future perspectives (2015)

 

Viana, Michelângelo Mazzardo Marques Revista Ibero Americana de Ciencia da Informacao 178
3 Políticas de preservação digital para documentos arquivísticos (2015) Santos, Henrique Machado dos; Flores, Daniel. Perspectivas em Ciencia da Informacao 151
4 O papel dos arquivos das instituições federais de ensino superior e a experiência do Arquivo Central da Universidade de Brasília (2015) Roncaglio, Cynthia Revista Ibero Americana de Ciencia da Informacao 137
5 Marketing científico digital e métricas alternativas para periódicos: da visibilidade ao engajamento (2015) Araújo, Ronaldo Ferreira. Perspectivas em Ciencia da Informacao 128
6 Da necessidade de princípios de Arquitetura da Informação para a Internet das Coisas (2015) Lacerda, Flavia; Lima-Marques, Mamede. Perspectivas em Ciencia da Informacao 117
7 Mediation and information literacy: propositions for the construction of a protagonist librarian profile (2015) Farias, Maria Giovanna Guedes InCID 107
8 A gestão de documentos nos arquivos acadêmicos e a portaria MEC n°. 1.224/2013 (2015) Santos Neto, João Arlindo; Santos, Rosana Pereira dos. Informacao@Profissoes 89
9 The privacy issue: a look at the Information Science publications (2015) Bembem, Angela Halen ClaroSantana, Ricardo César GonçalvesSantos, Plácida Leopoldina Ventura Amorim da Costa. Encontros Bibli 89
10 Web Social Semântica: uma proposta para a representação da inteligência coletiva (2015) Bembem, Angela Halen Claro;  Santos, Plácida Leopoldina Ventura Amorim da Costa; Santarém Segundo, José Eduardo. Folha de Rosto 85

Veja esses e outros artigos publicados no ano de 2015 com dados altmétricos que obtiveram atenção online e foram curtidos, comentados ou compartilhados no Facebook, confira a lista.

Maneiras alternativas de gerar métricas alternativas

O legal de pesquisar um tema de ponta é que tudo muda a toda hora e sempre há algo novo a acrescentar. O lado ruim é que a cada dia surgem novas referências que fazem com que sua bibliografia se transforme em uma espécie de gremlim que não para de se reproduzir.

Como pesquisador, há poucas coisas melhores do que vivenciar o tema da sua pesquisa na prática. E é o que vem acontecendo comigo há alguns dias.

Meu tema de pesquisa atual são as métricas alternativas, um assunto que ao mesmo tempo está na moda e não faz sucesso nenhum, dependendo para quem você pergunta. Também conhecidas como altmetrics, as métricas alternativas surgiram como uma resposta à crise da avaliação da pesquisa, representada, entre outros fatores, pelas críticas ao atual modelo de avaliação e premiação de pesquisadores, à exagerada importância e mal-uso do fator de impacto como elemento de avaliação e às mudanças no processo e velocidade da produção e disseminação de resultados de pesquisa devido ao surgimento de novas tecnologias.

Um dos pontos que procuro abordar na minha pesquisa é a dificuldade de gerar métricas alternativas para os artigos publicados em revistas brasileiras de maneira sistemática. Para se ter uma ideia da dificuldade, para gerar métricas a partir da principal ferramenta em uso, o Altmetric.com, é necessário pelo menos que os artigos tenham um identificador único – como o DOI ou PubmedID –, que sejam rastreados pela ferramenta, e que recebam citações de fontes cobertas pela ferramenta, como sites de notícias, blogs científicos, e redes sociais, quase todos internacionais. Infelizmente, a maioria dos periódicos científicos brasileiros não atende a nenhum dos dois critérios.

Mas há caminhos alternativos para que o pesquisador possa ter acesso a algumas métricas alternativas sem depender dos periódicos científicos em que seus artigos são publicados. Recentemente, publiquei um artigo sobre – adivinhe? – métricas alternativas, no periódico Ciência da Informação em Revista, que não tem DOI, e portanto seus artigos não podem ser rastreados pelo Altmetric.com.

Porém, é claro que eu queria saber quantas pessoas leram meu artigo, quem são essas pessoas e onde estão compartilhando essa informação. Por isso, tive que me virar.

Para começar, subi uma cópia do artigo publicado para o Figshare, que automaticamente atribui um número DOI ao documento: http://dx.doi.org/10.6084/m9.figshare.1402366. Os trabalhos publicados no Figshare podem ser automaticamente adicionados ao seu perfil do ImpactStory, uma espécie de currículo virtual onde você reúne todos os links a trabalhos seus em vários formatos (apresentações, vídeos, resumos, artigos) e consulta as métricas de uso, download e compartilhamento de cada trabalho.

impactstory1

Coloquei uma cópia também no academia.edu, onde vários colegas da área e outros pesquisadores interessados podem seguir seu perfil. Infelizmente, os trabalhos postados lá não são contados pelo ImpactStory, mas te dá as métricas de visualização e download no próprio site.

academiaedu

Além disso, o Ronaldo Araújo, que também é pesquisador do tema e editor da Ciência da Informação em Revista, me passou as estatísticas de acesso na plataforma do periódico, que até 1 de junho contava com 53 visualizações, 8 interações no Facebook e 1 tweet.

Nascimento Metrics

Nascimento API Metrics

E a partir do link no ImpactStory, finalmente consigo ver como o score do artigo no Altmetric.com:

altmetricscore

Aproveito para agradecer ao pessoal da Biblioteca Central da UFF que tuitou sobre o artigo. (O outro tuíte foi meu, claro :-).

Altmetrics: por que se importar?

Na semana passada Moreno e Andréa falaram um pouco sobre as altmetrics: o que são, que possibilidades e desafios oferecem, o que nós bibliotecários temos a ver com isso. Quero acrescentar meus dois centavos nesta conversa, vamos lá?

A altmetrics ou altmetria foi o tema da minha dissertação de mestrado, que está disponível aqui para quem quiser ler e comentar (para ir direto ao ponto, podem ler só os capítulos 4-8). Minha maior motivação para escolher falar disso foi justamente a vontade de apresentar e contribuir para a discussão sobre a área aqui no Brasil.

Mas por que nós deveríamos nos importar com a altmetria? Como o Moreno bem disse, “o panorama sobre o tema ainda não é perfeitamente claro ou consensual”. Uma das coisas que constatei na minha pesquisa é que, por enquanto, ninguém sabe muito bem para que servem as métricas alternativas, ou o que exatamente elas medem. E muita gente no meio acadêmico ainda torce o nariz para as redes sociais – bater papo no Twitter, escrever blog, nada disso contribui para construir uma carreira acadêmica séria. E aí? Vale a pena conhecer, estudar, discutir e divulgar a altmetria? Eu acho que sim, e quero compartilhar com vocês algumas razões para isso.

Razões teóricas

Parte da proposta da altmetria é valorizar outros impactos além da citação, outros produtos além do artigo científico, outros públicos além do acadêmico. Sim, o volume de dados altmétricos gerados para um determinado artigo ainda é, no geral, muito baixo; mas o fato é que as pessoas estão, sim, interagindo com documentos científicos online. Quem são estas pessoas, quais são suas motivações? O fato de não sabermos ainda exatamente o que significa(m) a(s) altmetria(s) não deve ser motivo para descartá-la(s), pelo contrário – é um convite para explorar um campo ainda desconhecido.

Razões práticas

Muitos de nós, bibliotecários, estamos envolvidos na criação e manutenção de repositórios institucionais. Adotar ferramentas de compartilhamento e monitorar a interação dos usuários com seus produtos nas redes sociais pode ser importante para demonstrar diferentes usos e possíveis impactos dos produtos de pesquisa da sua instituição. Este artigo (em inglês) mostra como o uso da altmetria em RIs pode ser valioso para autores e administradores.

A altmetria também pode ser benéfica para o pesquisador individual – e isso vale tanto para os nossos usuários quanto para nós mesmos. Jason Priem e Heather Piwowar, fundadores do ImpactStory, dão 10 motivos para incluir dados altmétricos no seu currículo. Eu acrescento mais um à lista – motivação pessoal. Quem já trabalhou com pesquisa (ou escreveu um TCC) sabe como pode ser desanimador pensar que só a sua banca vai ler aquela coisa linda que você passou semanas/meses/anos escrevendo. Mas quem disse que tem que ser assim? Você pode colocar seu trabalho online em sites como o Figshare (que dá um DOI para cada item postado) e criar seu perfil no ImpactStory para acompanhar quem, onde e o que estão falando sobre o seu trabalho. Claro que nada disso dará muito resultado se você não contar pra ninguém. Divulgue seu trabalho nas redes, envolva-se com as pessoas que se interessam pelas coisas que te interessam, participe da conversa. Os resultados podem te surpreender…

Razões políticas

O surgimento da altmetria não é um acontecimento isolado: ela é parte da reação à crise do sistema de comunicação científica. Um de seus marcos iniciais, o texto Altmetrics: a manifesto, deixa claro um posicionamento crítico à hegemonia do fator de impacto na avaliação da produção científica. Esta crítica também está expressa na San Francisco Declaration on Research Assessment (Declaração de São Francisco sobre Avaliação da Pesquisa, conhecida pela sigla DORA), que traz entre suas recomendações o estímulo à utilização de uma variedade de métricas e indicadores na avaliação de impacto.

As métricas alternativas podem ser especialmente benéficas para países periféricos como o Brasil, ajudando a demonstrar de forma mais completa os impactos da pesquisa realizada por aqui. Mas esses benefícios não são automáticos. A Andréa já comentou sobre alguns dos desafios técnicos e econômicos que precisamos enfrentar nesta área, como o custo para utilização das ferramentas do Altmetric.com e a adoção do DOI e/ou outros identificadores que permitam o acompanhamento adequado dos produtos de pesquisa na web. O argentino Juan Pablo Alperin é bastante enfático ao afirmar que é preciso um esforço consciente e deliberado para aproximar a altmetria dos pesquisadores de países periféricos, evitando os erros que já cometemos em relação ao fator de impacto (ver Ask Not What Altmetrics Can Do for You, But What Altmetrics Can Do for Developing Countries; e Altmetrics could enable scholarship from developing countries to receive due recognition).

Precisamos de mais estudos sobre altmetria e suas possibilidades, e de ferramentas que atendam às nossas necessidades específicas – revelando a qualidade e o impacto das nossas pesquisas, para além das bases internacionais. Acredito que nós bibliotecários podemos contribuir muito para mudar este jogo. Mãos à obra!


P.S.: Tive a honra de ser entrevistada pelo SciCast Podcast, falando um pouco sobre Biblioteconomia, Ciência da Informação, e, claro, altmetria. Ouçam, comentem, critiquem :)

 

Altmetrics: pode ser?

Quando estudamos o surgimento dos periódicos, aquela história do Journal des sçavans, percebemos que as revistas científicas foram criadas para suprir a falta de canais de comunicação entre os pesquisadores, que já contavam com uma comunidade de pares para discutir e selecionar o que lhes parecia mais relevante em suas áreas. Atualmente, o cenário da comunicação científica é praticamente o oposto, dado o inesgotável número de revistas científicas e outros canais de comunicação acadêmica.

Porém, da mesma forma, a comunidade de pares continua sendo fundamental para discutir e selecionar o que merece ser lido. Ou melhor, nesses nossos tempos, o que merece ser curtido, seguido, postado, retuitado, compartilhado.

Os pesquisadores de hoje se comunicam através do Twitter, do Facebook, e de redes sociais acadêmicas que cumprem um papel cada vez mais importante para a construção da ciência. Para dar conta dessa tendência de citações online, fora dos padrões tradicionais de citação de artigos, surgira as altmetrics, sobre as quais o Moreno já falou um pouco aqui.

E seria tudo muito lindo para os pesquisadores e as revistas científicas, um novo caminho, uma alternativa à tirania do fator de impacto, não fosse por um pequeno detalhe: os nossos pesquisadores e as nossas revistas  científicas ainda não estão preparados para produzir esses tipos de métricas.

O Moreno já falou no post dele sobre as dificuldades dos pesquisadores em entender e gerar essas métricas, e como os bibliotecários podem ajudar toda uma geração (ou várias) de pesquisadores a mostrar o valor da sua produção sob a ótica das altmetrics.

E do outro lado estão as revistas científicas, de onde essas métricas deveriam ser extraídas. Se todos os nossos pesquisadores publicassem somente na Nature, PLOS One ou Elsevier, não haveria problema, já que essas publicações já conseguem integrar APIs de medição de atenção online e produzir métricas a nível de artigo, usando o Altmetric, uma das principais ferramentas que coletam dados para a produção dessas métricas.

Os resultados de uma recente pesquisa que apresentei no 4o. Encontro Brasileiro de Bibliometria e Cientometria sobre os  periódicos científicos brasileiros na área de Ciência da Informação, mostram que somente quatro publicações são rastreadas pelo Altmetric. E a quantidade de menções registradas em redes sociais e acadêmicas é ainda muito baixa.

Vão dizer: “Claro! Porque as nossas revistas não são citadas!”. Mas não é tão simples assim.

Para usar as ferramentas do Altmetric, é necessário pelo menos (1) pagar uma assinatura anual pelo serviço, que custa de 11.000 a 19.000 reais, e (2) prover um DOI ou outro identificador único para que o API retorne todos os dados de menção a um documento, coisa que poucas revistas científicas publicadas no Brasil tem, sendo a grande maioria da coleção SciELO.

Isso é só um exemplo dos desafios econômicos e técnicos que ainda teremos que enfrentar para ver resultados concretos da aplicação das altmetrics no Brasil.

Mas o Altmetric é somente uma das ferramentas que produzem métricas alternativas. E com seu crescimento já passou a oferecer acesso gratuito a algumas funcionalidades a pesquisadores e bibliotecários. A cada dia surgem novas opções de serviços de altmetrics, e certamente haverá iniciativas voltadas para os países periféricos, cuja ciência segue clamando por uma forma alternativa de provar o seu reconhecimento.

Vamos ver.