O que você sabe sobre a Biblioteca Nacional?

Durante esse ano estou trabalhando na Biblioteca Nacional como bolsista pesquisadora. Achei que essa era também uma ótima oportunidade para levar um pouco da instituição para o canal e falar sobre uma biblioteca que muita gente mal conhece (mesmo entre bibliotecários!). Nesse primeiro vídeo falo sobre sua história e algumas curiosidades.

Como trazer as crianças para biblioteca?

Olá pessoal!

No ‘Fala, Bibliotecária’ dessa semana resolvi falar de um tema bem importante: incentivo à leitura para crianças. Essa nova geração, com todos os meios de informação tão acessíveis, anda complicada para focar a atenção em algo. Então precisamos nos renovar e pensar juntos como melhorar nossa mediação!

 

Resenha: Um corpo na Biblioteca

Bibliotecário não pode ver um livro que fala sobre biblioteca que já fica doido para ler, não é mesmo? Então, foi assim que acabei comprando o ‘Um corpo na biblioteca’ da Agatha Christie.

Fiquei encantada com a possibilidade de um suspense daqueles bem pesados e cheio de reviravoltas se passando dentro de uma biblioteca, cheio de mistérios e livros. Pois bem, que engano! Nada disso aconteceu e de quebra ainda levei um livro cheio de problemas de impressão e edição. Como as editoras ainda são relapsas com essas coisas, não é mesmo? Na pressa do lançamento tenho visto muitos livros serem publicados com erros de digitação e edição. Acho isso muito feio e quase uma falta de respeito com o consumidor leitor, que vai pagar caro por aquele livro.

Enfim, deixo com vocês a resenha completa:

Divulgando a profissão

Os bibliotecários estão em alta! A Universal acaba de divulgar um seriado novo chamado ‘The Librarians’ onde os personagens principais são bibliotecários que protegem antigos tesouros do mundo que estão guardados na Biblioteca Pública Metropolitana de Nova York.

Ainda falando sobre bibliotecários e bibliotecas, esses dias o BSF compartilhou no Facebook esse texto que amei, falando sobre ‘Como é trabalhar numa biblioteca’. Resolvi então aproveitar a deixa para trazer aqui para o blog um vídeo que fiz falando sobre a profissão, graduação e tudo mais. Várias pessoas já haviam me pedido para falar sobre o que eu fazia e como havia sido minha formação, até que achei que era hora e decidi gravar falando apenas disso.

É um vídeo despretensioso, apenas para divulgar um pouco e explicar parte de nosso universo. Nada sério, nada formal. A vida de bibliotecário não é fácil, já ouvi incontáveis vezes: ‘precisa de ensino superior para ser bibliotecário?’; ‘qualquer um faz o que você faz’; ‘você só fica aí sentada no Facebook e coloca os livros no lugar’. E mais infinitas coisas que com certeza não são novidade para nenhum de vocês. Grande parte do que ouço vem dos próprios alunos que eu auxilio no dia a dia, o que acaba sendo mais chato ainda. Mas levo na brincadeira e sempre explico que essa é uma profissão que precisa sim de formação superior e que o trabalho vai muito além do que é visto.

Acredito que para essa situação mudar precisamos cada vez mais falar sobre o que fazemos e mostrar o quão legal é esse universo. Ver seriados, filmes e textos divulgando profissão me deixa muito feliz! Ok, nos seriados e filmes tudo é fantasiado, mas só de ter um bibliotecário ali já acho bacana.

Esse vídeo que fiz circulou entre os alunos do colégio que trabalho e, para minha surpresa, vários vieram conversar e dizer que curtiram e entenderam melhor o que faço.

Por que leitores brasileiros preferem livrarias a bibliotecas?

Quando criança, eu não tinha o hábito de frequentar bibliotecas. Até porque elas não existiam no meu bairro, ou nas redondezas onde eu morava. Mas eu amava ler! Adorava bancas de jornal e livrarias, que eram os lugares onde eu encontrava livros e revistas e podia saciar minha sede de leitura. Depois descobri a biblioteca da escola e passava alguns recreios lá dentro, já que não podia levar os livros pra casa. Lembro de uma excursão da escola à Biblioteca Pública Municipal do Rio de Janeiro, que era muito longe da minha casa. Só me restava comprar os livros mesmo. Passeios a livrarias eram – e ainda são – os meus favoritos!

Foi só depois que me mudei para o Canadá que passei a frequentar bibliotecas públicas e me apaixonei. Tantos livros, tantos recursos disponíveis gratuitamente para o público! Sou frequentadora assídua e sempre trago pra casa mais livros do que posso ler dentro do prazo de entrega.

Como expatriada, comecei a questionar sobre os hábitos de leitura dos brasileiros, em especial sobre o uso de bibliotecas públicas. Depois de muita pesquisa, vi que há sim várias bibliotecas públicas em todo o Brasil. Sim, são escassas, e talvez o acervo não seja o dos mais atraentes ou relevantes, mas o recurso está lá. A pergunta então era: será que o povo usa?

No ano passado, em março, fui ao Rio de Janeiro visitar a família e fiz questão de conhecer uma biblioteca pública. Era quinta-feira. Fui no Centro Cultural Banco do Brasil, no centro da cidade, onde tem uma biblioteca no quinto andar. Fiquei maravilhada com o espaço! Tudo tão novo, tão arrumado! Tão diferente da minha biblioteca universitária na Escola de Comunicação da Praia Vermelha.

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Tive que deixar bolsas na entrada, mostrar identidade e tudo. Sinceramente? Achei que isso já era a primeira barreira para o uso da biblioteca. Entendo a questão da segurança, mas devia haver outra forma de evitar roubo sem ter que obrigar os usuários a deixar seus pertences na porta. (Não preciso nem dizer que isso não existe aqui no Canadá, né? Com exceção de bibliotecas de coleções especiais e materiais raros, claro).

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Fiquei encantada com a biblioteca infantil! Adorei a parede com lombadas de livros, coisa mais linda! Entrei no espaço infantil e encontrei apenas uma mãe com um menino de uns 7 anos talvez. O menino pedia pra mãe ler pra ele. A mãe estava ocupada no seu celular, sem dar atenção ao menino, ignorando o seu pedido. Aquilo me cortou o coração! Uma criança estava ali, sedenta pela leitura, e justamente a pessoa que deveria mais incentivá-lo estava desperdiçando esta oportunidade. Então foi na biblioteca pra quê, alguém pode me explicar?

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Saí de lá e fui ver as outras estantes, com material de pesquisa. Adorei ver o catálogo de fichas, coisa que não vejo mais por aqui, que só consultamos o acervo digitalmente. Vi algumas pessoas estudando em salas de leitura, mas a biblioteca estava bem vazia. Não contei mais de 20 pessoas por lá.

Bem, numa quinta-feira, de manhã, no centro da cidade, como é que eu poderia esperar uma biblioteca cheia, não é mesmo?

Depois do almoço, no mesmo dia, na mesma quinta-feira, eu passei pela porta da Livraria Cultura, na rua Senador Dantas, também no centro da cidade.

A livraria estava LOTADA!

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Na parte infantil tinham algumas famílias com crianças de várias idades, passando pelas estantes e escolhendo livros. Outras sentavam no chão com seus filhos no colo e folheavam livros juntos. Em todos os andares, muita gente. Os caixas, com fila.

E a pergunta: se tem um lugar onde as pessoas podem ter acesso a livros sem pagar um tostão, por que é que preferem gastar dinheiro com os livros em vez de pegar emprestado nas bibliotecas públicas?

Posso imaginar algumas respostas:

1) O acervo das bibliotecas públicas não é adequado e não atende à necessidade do público
Eu sinceramente não tenho ideia de como é feito o gerenciamento do acervo de bibliotecas públicas no Brasil. Elas compram materiais publicados recentemente? Você pode encontrar os best sellers por exemplo? Pelo que vi na biblioteca do CCBB, pelo menos na parte infantil, o acervo não era muito grande. Vi alguns títulos novos, mas a maioria não era. O estado físico das obras também era ruim, com aspecto velho, folhas amareladas, lombadas machucadas. O leitor tem prazer em ler um livro em bom estado. Se o leitor quer ler Nicholas Sparks e não encontra na biblioteca, claro que tem que comprar na livraria (não procurei por este autor naquela biblioteca, então é só um exemplo mesmo).

2) O público não tem conhecimento das bibliotecas públicas
Voltemos ao início do texto, lá quando eu era criança e não tinha a mínima ideia de que poderia existir um espaço de livre acesso aos livros. Biblioteca pra mim era algo que existia na escola e em lugares bem longe da minha casa. Biblioteca pra mim era um lugar onde não se podia falar alto. Biblioteca pra mim era um lugar onde encontrávamos livros velhos, muito antigos, empoeirados e com cheiro de mofo. A minha geração, que teve a mesma experiência que eu tive, provavelmente não vai pensar na biblioteca como opção cultural para levar seus filhos. Esses vão associar livros à livrarias imediatamente.

3) O acesso a bibliotecas é dificultoso
Essa e a última questão estão ligadas. É a questão da escassez. Provavelmente há mais livrarias do que bibliotecas públicas em cidades grandes do Brasil.

Acredito que o acervo deficiente seja uma das principais razões pelas quais o brasileiro prefere comprar o livro do que pegar emprestado. Porque talvez o livro que ele queira ler não esteja na biblioteca. Ou se está, o acesso não é facilitado ou o livro não está em condições boas de uso. Posso estar totalmente enganada, afinal estou longe e não tenho como avaliar essa questão de perto.

Sei que minha amostragem é muito pequena. Eu só visitei uma biblioteca pública. Mas no meu círculo de amizades vejo que essa hipótese não é tão absurda assim. Pouquíssimas pessoas que eu conheço no Brasil, em várias cidades até, têm o hábito de frequentar bibliotecas. Muito mais gente compra livros em livrarias, das pessoas com que me relaciono.

Mas vocês aí, me digam, por que o povo prefere livrarias a bibliotecas? E como podemos inverter essa situação no nosso papel de bibliotecários?

O que fichas catalográficas tem em comum com crowdsourcing

Primeiramente, você observa nas Bibliotecas – geralmente universitárias – colegas bibliotecários inconformados, e até mesmo mau humorados, por ficar horas e mais horas elaborando fichas catalográficas de teses e dissertações.

Depois, você lê, ouve, come, respira e transpira que estamos na era da informação, da colaboração, da participação, etc, etc, etc.  Então… bingo!!! Que tal um crowdsourcing?

Não gosto muito de “estrangeirismos”, mas se me for útil e funcional, por que não usar? Crowdsourcing ao pé da letra vem da adesão de duas palavras inglesas, crowd, que significa multidão e source, que significa fonte, origem, raiz e na sua melhor tradução para o termo, fonte de informações.

Crowdsourcing, são então pessoas que se unem para resolver problemas em conjunto, criar novos produtos, testarem sites, criarem conteúdo, encontrarem soluções e muito mais. E é uma tarefa feita por nós há muito tempo, não é uma novidade da internet, as cooperativas são exemplos de crowdsourcing, determinados movimentos também (esse conceito quem me passou foi a mega bibliotecária e amiga Marchelly Porto).

Então mãos à obra. O desafio era encontrar alguém que auxiliasse a montar um código de programação para um sistema de geração automática de ficha catalográfica de teses e dissertações; disponibilizar este formulário numa webpage, e os próprios usuários informar os dados. Gerando assim, mais autonomia ao usuário, e também empregando os bibliotecários em atividades afins na biblioteca.

Encontrei isso já pronto. Quem me cedeu gentilmente o código fonte, para livres adaptações às necessidades das bibliotecas, foi a analista de sistemas Maria Alice Soares de Castro, do Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação da Universidade de São Paulo.

De posse do código, comecei a esboçar e adequar os campos. Contei com parceria das bibliotecárias da Universidade  Federal de Santa Catarina, e o então aluno de ciências da computação e estagiário, Bernardo Egelke, que foi o responsável pela implementação do código PHP.

O resultado pode ser conferido nesta página http://ficha.bu.ufsc.br/

Alguns testes com usuários, e percebi que havia muitas dúvidas de como preencher estes campos. Fez-se necessário a elaboração de um tutorial, http://portalbu.ufsc.br/ficha/

Sei que não está dentro das normas de arquitetura da informação, mas após vários testes, resolvi deixar assim, por permitir a leitura em softwares para pessoas cegas ou com baixa visão.

Outro detalhe, resolvemos chamar de Ficha de Identificação da Obra, para não “ferir” o trabalho intelectual do bibliotecário. Afinal, uma ficha catalográfica, precisa ter a CDU/CDD e Cutter, o que não temos aqui.

Agora, o próximo desafio deste crowdsourcing (preciso do auxílio de mais bibliotecários e analistas de TI), é usarmos estes dados que o usuário já informa, e, importar diretamente para os sistemas automatizados das bibliotecas. Sei que foram feitos contatos prévios com o Pergamun, mas não sei como está esse processo. A ideia é que um bibliotecário possa checar algumas informações básicas: confirmar se a tese, dissertação existe,; se está impresso e depositado na biblioteca; e, verificar os metadados, e importá-los já para a catalogação.

Outro modelo muito bem adaptado,  foi elaborado pela Biblioteca da Universidade Federal de Santa Maria, disponível em  http://cascavel.ufsm.br/ficha_catalografica/. Este está com o visual mais parecido com o código cedido pela Maria Alice, ou seja, não foram implementadas folhas de estilo.

Tá… eu sei que tem cloud computing, big data, anotações semânticas e tudo mais, mas às vezes somos desafiados nas pequenas coisas do dia a dia, e não temos verbas para gastar. Aliás, em alguma das minhas próximas postagens quero abordar a seara dos repositórios, sei que vai dar pano pra manga.

No mais, dúvidas, sugestões ou mesmo quem precisar dos códigos, me escreva que enviarei por e-mail.