A importância das Bibliotecas

Há um tempo ando meio insatisfeita com meu canal no youtube. Sentia que deveria fazer mais com o espaço que tenho, principalmente no que diz respeito à Biblioteconomia e divulgação da área.

Pensando nisso resolvi criar uma tag semanal, a “Fala, Bibliotecária”, e através dela discutir assuntos variados sobre a profissão e sobre bibliotecas. Nesse primeiro vídeo achei que seria importante discurtir um pouco da importância desses espaços, começar pelo começo mesmo.

Os vídeos serão dedicados a leigos e profissionais, porque na verdade esse é um assunto que diz respeito a todos. É uma pequena discussão com leveza e bom humor, quem quiser participar está mais que convidado!

A Grande Biblioteca

Os bibliotecários até que se animaram mas, que pena, a tal série The Librarians é irremediavelmente ruim. O gênero fantasia infanto-juvenil costuma contar com minha indulgência, sou capaz até de assistir Grimm, outra bela porcaria da televisão, mas tenho meus limites. Não consegui ver nem um episódio completo, porque produções assim tão bobinhas me irritam demais.

Mas fiquei pensando que daria pra fazer uma série interessante ambientada numa biblioteca, com enfoque realista e tudo. Por que não? Existem séries que se passam em escolas, firmas de advocacia, escritórios de sei lá o quê e outros cenários que, na vida real também não são lá muito charmosos. E hospitais, então? A gente encontra umas três séries hospitalares diferentes em cada dia de programação da TV. Ah, mas médicos e advogados são mais interessantes, salvam vidas, tiram inocentes da cadeia, essas coisas. A gente só faz psiu e tira livros da estante, de acordo com a visão corrente.

Será mesmo? Penso que tudo depende de roteiristas, diretores e atores. Vamos ver como isso poderia ser.

Nosso cenário seria uma grande biblioteca pública ou a biblioteca central de uma universidade, porque precisamos de muitos personagens, escadarias imponentes e grande quantidade de estantes. De bibliotequinha acanhada bastam as da vida real. Tenho dúvidas de qual seria a melhor opção: a pública, por seu público mais variado, ou a universitária, por ter alunos e professores. Só o relacionamento professor-bibliotecário já garantiria assunto para pelo menos uma temporada.

O usuário vai ser tema importante na série. Em cada capítulo veremos pelo menos uma história de usuário. Algumas terão continuidade, outras vão começar e terminar no mesmo dia; algumas  serão conhecidas pelos personagens fixos – o pessoal da biblioteca – outras não. Sabem aqueles usuários dos quais a gente não sabe nada e fica apenas imaginando comos e porquês? Então, esses mesmos. No primeiro capítulo veremos um usuário comum, sem nada de excepcional, o tipo que só diz bom dia, obrigado e até logo, que sai da biblioteca e se suicida. Só o espectador fica sabendo, o pessoal da biblioteca nem imagina o que aconteceu.

Os personagens principais serão  dois bibliotecários jovens que acabaram de ser contratados: a moça de temperamento artístico – talvez ela desenhe ou cante, ainda não sei – que fez biblioteconomia por razões de pobreza, como tantos de nós, e o rapaz meio nerd que pensava que biblioteconomia era outra coisa, uma coisa mais tecnológica. Vamos acompanhar os conflitos pessoais e profissionais desses jovens, seu desencanto com a profissão  e, em algum momento,sua a decisão de começar a lutar. Vocês conhecem essa história? Eu conheço.

A chefe da biblioteca acabou de se aposentar, depois de 58 anos de valorosos serviços prestados e virou retrato. A nova chefe é uma daquelas tiazinhas que administra usando sua experiência de dona de casa e mãe, toda senso comum e orações. Boa pessoa, dedicada ao trabalho e responsável, mas com formação deficiente. Aos poucos, a pacata senhora, com medo de perder o cargo, vai cair de boca na paranoia e revelar um lado autoritário que nem todos conheciam. O perigo, como sempre acontece, vai chegar de onde ela menos espera. Seu braço direito, uma bibliotecária simpática e moderninha que não vacila em usar táticas de sedução com propósitos carreirísticos, é quem vai puxar o tapetinho florido da chefia. O objetivo da moça não é apenas o cargo, mas assegurar bons negócios para um fabricante de mobiliário de bibliotecas com quem tem umas tretas. Vocês conhecem histórias parecidas? Eu conheço.

Num dado momento, a equipe da biblioteca vai se dividir entre a tiazinha conservadora, mas honesta, e a arrivista cheia de más intenções, mas com ideias um pouco mais modernas.

Nossos jovens bibliotecários vão arrumar um enorme problema com seu projeto de empréstimo de livros e criação de serviços especialmente dedicados a uma ocupação do movimento dos sem teto próxima à biblioteca. Os funcionários conservadores e os idealistas vão se enfrentar com unhas e dentes.

Teremos histórias de amor, claro, queremos audiência. O jovem bibliotecário terá um rolo com uma funcionária casada com um homem violento, o que pode render alguns momentos de violência e heroísmo entre as estantes e talvez até alguns tiros. A arrivista vai seduzir o introspectivo especialista em conservação, homem de poucas palavras que vai reagir de forma surpreendente ao se perceber enganado. Precisaremos de amores lésbicos, porque num lugar com tantas mulheres seria inverossímil não haver pelo menos uma lésbica. Que poderia ser nossa bibliotecária com pendores artísticos, por que não? E quem seria sua namorada? A dona do restaurante onde a galera almoça ou uma estudante estrangeira que passa tardes inteiras na biblioteca? E vai ter beijo lésbico entre as estantes sim, e se reclamarem vai ter até no balcão de empréstimo.

A estagiária do setor de seleção vai se encantar pelo intelecto refinado que reuniu a linda coleção de livros que a biblioteca recebeu em doação. Nas cartas e velhas fotografias encontradas entre as páginas, nas anotações feitas nas margens e na própria seleção de obras, a estudante de letras vai descobrir aquele que poderia ser o homem da sua vida, se não estivesse morto há uns 10 anos. A magia termina quando ela conversa com a filha do falecido e descobre, por trás da máscara poética, um homem egoísta que, perdido entre seus livros, ignorava o sofrimento da família durante a longa agonia da esposa que morreu de câncer. E os bilhetes e cartas que a filha não quis levar de volta vão parar no lixo reciclável porque, nas palavras da chefe do setor, o defunto “não era nenhum Mário de Andrade pra gente ficar guardando os todos os papeizinhos dele”.
O suspense será garantido por uma suspeita: a chefe da catalogação, ex-militante presa e torturada durante a ditadura, acredita que um de seus carrascos está frequentando a biblioteca.
A primeira temporada deve terminar com a mais temida das tragédias que podem acontecer numa biblioteca: um incêndio. Nossa biblioteca vai sobreviver?

Pronto, agora só falta alguém escrever e produzir isso aí. Vai ser um sucesso, garanto. Quanto ao elenco, já que estou sonhando mesmo, só faço questão de Irhandir Santos e Hermila Guedes, os demais vocês podem escolher.

 

A foto é do palácio de verão da imperatriz Sissi na ilha de Corfu, Grécia. Já que estamos sonhando.

USP, greve e bibliotecários

Neste momento preciso de minha vida profissional, sou uma bibliotecária em greve. Não é a primeira vez – na verdade deve ser a trigésima primeira greve da minha carreira – e duvido muito que seja a última.

Quem nunca fez greve na vida e morre de curiosidade para saber como é a coisa, ou simplesmente tem interesse acadêmico específico nos mecanismos que regem as greves na Universidade de São Paulo, pode encontrar informações acuradas dignas da bibliotecária que sou no meu blog,  Dia de Greve, Dia de Trabalho. Comecei esse blog na greve de 2010 da USP e não parei mais.  Mas não escrevo apenas sobre greve, até porque nossas greves, afortunadamente, não duram tanto assim.

Neste momento as três universidades estaduais paulistas estão em greve, basicamente por reajuste salarial,  mas não só por isso. Nunca é só por isso, mas geralmente é assim que começa: funcionários e professores reivindicam X de reajuste, recebem metade de X ou não recebem nada, como aconteceu conosco desta vez. Reajuste zero. Tudo sobe, o plano de saúde, a escola das crianças, o aluguel, a prestação da casa etc. Mas o salário permanece igual.

De acordo com o Conselho dos Reitores das Universidades Paulistas, que chamamos pela simpática sigla CRUESP, o reajuste não é possível porque não há dinheiro. A principal culpada pela dureza acadêmica é a assim chamada crise financeira da USP, cuja folha de pagamento estaria consumindo 105 por cento de sua receita. Portanto, a USP estaria  vivendo de suas reservas que, obviamente, teriam data certa para acabar: depois que acabar a água da represa da Cantareira, destruída pela sinistra incompetência do governo paulista, o mesmo que escolhe os reitores das universidades. A água dizem que vai acabar em agosto, as reservas da USP ainda duram mais um pouco.

A Folha de São Paulo, mais do que depressa, já vem com a eterna solução: cobrar mensalidades dos alunos, acabando de vez com qualquer chance de um jovem de família pobre entrar na preciosa Universidade de São Paulo, para todo sempre destinada a ser propriedade da elite.

A Folha, assim como uma assombrosa quantidade de seres humanos e veículos de comunicação, apresenta como verdade inquestionável a sangria de 105 por cento que ocorre segundo quem? Ora, segundo a Reitoria da mesma instituição na qual se dizia, até o ano passado, que “a USP tem dinheiro sobrando”, “dinheiro não é problema” e até mesmo “vocês precisam gastar mais dinheiro”, uma instituição cujo discurso dominante fazia o funcionário que não “gastava dinheiro” sentir-se incompetente, porque se as coisas não iam bem, certamente não era por falta de verba. O atual reitor culpa a gestão anterior que, de fato, não primava pela sobriedade, mas não podemos esquecer que é a mesma universidade. As pessoas que a dirigiam antes não morreram todas de repente e foram substituídas por alienígenas criados em vagens gigantes, certo?

Então, como saber se realmente a folha de pagamento está consumindo 105 por cento da verba e se a USP está à beira da catástrofe? Simplesmente não dá para saber, porque não temos acesso às contas da Universidade. E se não temos como contestar, também não vejo motivos para acreditarmos piamente.

Neste vídeo de um debate com representantes da Associação dos Docentes da USP sobre os números divulgados pela Reitoria, os professores Otaviano Helene e Ciro Teixeira Correia questionam as vozes oriundas do Olimpo com informações que jamais aparecem na grande imprensa. O vídeo é longo e não está editado, por isso vou destacar alguns trechos. De acordo com esses docentes rebeldes:

  •  tivemos perdas reais de poder aquisitivo de 7 por cento, contando apenas os efeitos da inflação (03:05);
  • os números do crescimento do ICMS não indicam a catástrofe financeira que está sendo anunciada (05:36);
  • O gráfico distribuído pela Reitoria que mostra a diminuição das reservas da USP contém um erro que faz a situação parecer pior do que é de fato (11:28).
  • se os gastos excessivos da gestão anterior forem contidos, a situação financeira da USP estará equilibrada em um ou dois anos, sem necessidade de arrochar salários (12:55).
  • o impacto do reajuste salarial sobre as contas da USP não é tão grande quanto dizem (13:50).
  • na proposta orçamentária para 2014 aprovada pelo Conselho Universitário da USP já estava previsto o reajuste dos professores e funcionários (23:17).
  • dados da reitoria sobre a “queima orçamentária” não consideram rendimentos de aplicação das reservas e nem as receitas próprias da Universidade (28:50).
  • despesas com obras em andamento – que ninguém sabe o que são e porque foram feitas – e “restos a pagar de 2013” presentes na previsão orçamentária para 2014 equivalem a quase duas folhas de pagamento (30:54).
  • O comprometimento da verba com a folha de pagamento não é o que está sendo dito (36:00).
  • Contribuição previdenciária é o que pode estar aumentando o comprometimento da verba, e não os reajustes salariais, mas os dados sobre isso não estão abertos para a comunidade (38:15).
  • O governo não repassa todos os recursos que são arrecadados com fonte ICMS: os juros de refinanciamento de pagamentos atrasados, por exemplo, não entram na conta; para as prefeituras o repasse é feito, mas não para as universidades (45:30).

Muito do que se diz nos meios de comunicação sobre a USP é engolido com facilidade pela população, graças à fama de elitista e arrogante que a instituição carrega, fama até certo ponto justificada. Em todas as nossas greves, quando somos invariavelmente atacados pelo discurso contrário à universidade pública que domina a imprensa, discutimos a necessidade de ações que mostrem para a população a real importância da Universidade e do conhecimento que ela produz. Mas isso nunca acontece. Parece que a questão só interessa à parcela da população uspiana que faz greve, e essa turma não manda nada. E os poucos que passam eventualmente a mandar, mudam rapidamente suas prioridades.

Bibliotecários poderiam ter um papel importante nessa briga, considerando nossa habilidade para buscar, analisar e transmitir informações, além do fato de ocuparmos posição privilegiada entre o universo do trabalhador “peão” e o mundo dos pesquisadores. Somos funcionários, vivemos com os pés no mundo real, sabemos o que é uma licitação e porque demora tanto para comprar um livro ou consertar uma janela, mas também circulamos com tranquilidade no espaço onde se produz o conhecimento acadêmico, sabemos de onde sai uma tese e temos um papel claro bem claro nesse processo. Além disso, somos muitos: cerca de 400, se não estou enganada.

Mas também não mandamos nada. Vivemos condicionados pela “mecânica de obediência vertical ao poder central”, expressão usada pelo professor Andrian Pablo Funjul na Folha de São Paulo que explica maravilhosamente as relações de poder na USP. Temos nossas chefias de biblioteca, que só não decidem tudo sozinhas se não quiserem, porque nada as impede, e o Departamento Técnico do Sistema de Bibliotecas, cujas prioridades podem ser decididas pela vontade de quem o chefia, sem que exista nenhum mecanismo institucional eficiente para evitar isso.

Bibliotecários não costumam atuar politicamente enquanto categoria dentro da USP, a não ser em questões bastante pontuais, como o movimento que fizemos há alguns anos para barrar a imposição de um software para o Banco de Dados Bibliográficos da USP.

Muitas bibliotecas da USP estão fechadas por causa da greve. Não dá para saber quantos bibliotecários estão em greve, porque algumas bibliotecas fecham porque os técnicos entram em greve. Tenho visto muitos bibliotecários participando das atividades de greve, mas ainda são poucos em relação à quantidade de bibliotecas que está fechada. Dizem alguns colegas que muitos estão trabalhando atrás das portas fechadas de suas bibliotecas e outros, provavelmente, foram para suas casas. É uma pena, porque um momento de greve seria uma excelente oportunidade para nos encontrarmos, discutirmos nossos problemas específicos e encontrar uma forma de atuarmos politicamente na Universidade. E fazer nossa voz ser ouvida, para variar um pouco. Mas, lamentavelmente, nem temos uma liderança capaz de articular o pessoal.

Mas esta greve ainda não terminou. Nem a USP. Nem as bibliotecas. Ainda temos algum tempo.