USP, greve e bibliotecários

Neste momento preciso de minha vida profissional, sou uma bibliotecária em greve. Não é a primeira vez – na verdade deve ser a trigésima primeira greve da minha carreira – e duvido muito que seja a última.

Quem nunca fez greve na vida e morre de curiosidade para saber como é a coisa, ou simplesmente tem interesse acadêmico específico nos mecanismos que regem as greves na Universidade de São Paulo, pode encontrar informações acuradas dignas da bibliotecária que sou no meu blog,  Dia de Greve, Dia de Trabalho. Comecei esse blog na greve de 2010 da USP e não parei mais.  Mas não escrevo apenas sobre greve, até porque nossas greves, afortunadamente, não duram tanto assim.

Neste momento as três universidades estaduais paulistas estão em greve, basicamente por reajuste salarial,  mas não só por isso. Nunca é só por isso, mas geralmente é assim que começa: funcionários e professores reivindicam X de reajuste, recebem metade de X ou não recebem nada, como aconteceu conosco desta vez. Reajuste zero. Tudo sobe, o plano de saúde, a escola das crianças, o aluguel, a prestação da casa etc. Mas o salário permanece igual.

De acordo com o Conselho dos Reitores das Universidades Paulistas, que chamamos pela simpática sigla CRUESP, o reajuste não é possível porque não há dinheiro. A principal culpada pela dureza acadêmica é a assim chamada crise financeira da USP, cuja folha de pagamento estaria consumindo 105 por cento de sua receita. Portanto, a USP estaria  vivendo de suas reservas que, obviamente, teriam data certa para acabar: depois que acabar a água da represa da Cantareira, destruída pela sinistra incompetência do governo paulista, o mesmo que escolhe os reitores das universidades. A água dizem que vai acabar em agosto, as reservas da USP ainda duram mais um pouco.

A Folha de São Paulo, mais do que depressa, já vem com a eterna solução: cobrar mensalidades dos alunos, acabando de vez com qualquer chance de um jovem de família pobre entrar na preciosa Universidade de São Paulo, para todo sempre destinada a ser propriedade da elite.

A Folha, assim como uma assombrosa quantidade de seres humanos e veículos de comunicação, apresenta como verdade inquestionável a sangria de 105 por cento que ocorre segundo quem? Ora, segundo a Reitoria da mesma instituição na qual se dizia, até o ano passado, que “a USP tem dinheiro sobrando”, “dinheiro não é problema” e até mesmo “vocês precisam gastar mais dinheiro”, uma instituição cujo discurso dominante fazia o funcionário que não “gastava dinheiro” sentir-se incompetente, porque se as coisas não iam bem, certamente não era por falta de verba. O atual reitor culpa a gestão anterior que, de fato, não primava pela sobriedade, mas não podemos esquecer que é a mesma universidade. As pessoas que a dirigiam antes não morreram todas de repente e foram substituídas por alienígenas criados em vagens gigantes, certo?

Então, como saber se realmente a folha de pagamento está consumindo 105 por cento da verba e se a USP está à beira da catástrofe? Simplesmente não dá para saber, porque não temos acesso às contas da Universidade. E se não temos como contestar, também não vejo motivos para acreditarmos piamente.

Neste vídeo de um debate com representantes da Associação dos Docentes da USP sobre os números divulgados pela Reitoria, os professores Otaviano Helene e Ciro Teixeira Correia questionam as vozes oriundas do Olimpo com informações que jamais aparecem na grande imprensa. O vídeo é longo e não está editado, por isso vou destacar alguns trechos. De acordo com esses docentes rebeldes:

  •  tivemos perdas reais de poder aquisitivo de 7 por cento, contando apenas os efeitos da inflação (03:05);
  • os números do crescimento do ICMS não indicam a catástrofe financeira que está sendo anunciada (05:36);
  • O gráfico distribuído pela Reitoria que mostra a diminuição das reservas da USP contém um erro que faz a situação parecer pior do que é de fato (11:28).
  • se os gastos excessivos da gestão anterior forem contidos, a situação financeira da USP estará equilibrada em um ou dois anos, sem necessidade de arrochar salários (12:55).
  • o impacto do reajuste salarial sobre as contas da USP não é tão grande quanto dizem (13:50).
  • na proposta orçamentária para 2014 aprovada pelo Conselho Universitário da USP já estava previsto o reajuste dos professores e funcionários (23:17).
  • dados da reitoria sobre a “queima orçamentária” não consideram rendimentos de aplicação das reservas e nem as receitas próprias da Universidade (28:50).
  • despesas com obras em andamento – que ninguém sabe o que são e porque foram feitas – e “restos a pagar de 2013” presentes na previsão orçamentária para 2014 equivalem a quase duas folhas de pagamento (30:54).
  • O comprometimento da verba com a folha de pagamento não é o que está sendo dito (36:00).
  • Contribuição previdenciária é o que pode estar aumentando o comprometimento da verba, e não os reajustes salariais, mas os dados sobre isso não estão abertos para a comunidade (38:15).
  • O governo não repassa todos os recursos que são arrecadados com fonte ICMS: os juros de refinanciamento de pagamentos atrasados, por exemplo, não entram na conta; para as prefeituras o repasse é feito, mas não para as universidades (45:30).

Muito do que se diz nos meios de comunicação sobre a USP é engolido com facilidade pela população, graças à fama de elitista e arrogante que a instituição carrega, fama até certo ponto justificada. Em todas as nossas greves, quando somos invariavelmente atacados pelo discurso contrário à universidade pública que domina a imprensa, discutimos a necessidade de ações que mostrem para a população a real importância da Universidade e do conhecimento que ela produz. Mas isso nunca acontece. Parece que a questão só interessa à parcela da população uspiana que faz greve, e essa turma não manda nada. E os poucos que passam eventualmente a mandar, mudam rapidamente suas prioridades.

Bibliotecários poderiam ter um papel importante nessa briga, considerando nossa habilidade para buscar, analisar e transmitir informações, além do fato de ocuparmos posição privilegiada entre o universo do trabalhador “peão” e o mundo dos pesquisadores. Somos funcionários, vivemos com os pés no mundo real, sabemos o que é uma licitação e porque demora tanto para comprar um livro ou consertar uma janela, mas também circulamos com tranquilidade no espaço onde se produz o conhecimento acadêmico, sabemos de onde sai uma tese e temos um papel claro bem claro nesse processo. Além disso, somos muitos: cerca de 400, se não estou enganada.

Mas também não mandamos nada. Vivemos condicionados pela “mecânica de obediência vertical ao poder central”, expressão usada pelo professor Andrian Pablo Funjul na Folha de São Paulo que explica maravilhosamente as relações de poder na USP. Temos nossas chefias de biblioteca, que só não decidem tudo sozinhas se não quiserem, porque nada as impede, e o Departamento Técnico do Sistema de Bibliotecas, cujas prioridades podem ser decididas pela vontade de quem o chefia, sem que exista nenhum mecanismo institucional eficiente para evitar isso.

Bibliotecários não costumam atuar politicamente enquanto categoria dentro da USP, a não ser em questões bastante pontuais, como o movimento que fizemos há alguns anos para barrar a imposição de um software para o Banco de Dados Bibliográficos da USP.

Muitas bibliotecas da USP estão fechadas por causa da greve. Não dá para saber quantos bibliotecários estão em greve, porque algumas bibliotecas fecham porque os técnicos entram em greve. Tenho visto muitos bibliotecários participando das atividades de greve, mas ainda são poucos em relação à quantidade de bibliotecas que está fechada. Dizem alguns colegas que muitos estão trabalhando atrás das portas fechadas de suas bibliotecas e outros, provavelmente, foram para suas casas. É uma pena, porque um momento de greve seria uma excelente oportunidade para nos encontrarmos, discutirmos nossos problemas específicos e encontrar uma forma de atuarmos politicamente na Universidade. E fazer nossa voz ser ouvida, para variar um pouco. Mas, lamentavelmente, nem temos uma liderança capaz de articular o pessoal.

Mas esta greve ainda não terminou. Nem a USP. Nem as bibliotecas. Ainda temos algum tempo.

Cientistas da informação? Mesmo?

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Meme que circulou hoje (18/02/2014) no Facebook.

Quando digo que sou formada em biblioteconomia, as pessoas que não tem muito contato com bibliotecas fazem várias perguntas. A que todo mundo conhece e que todos os estudantes da área já estão cansados de ouvir é o famoso “biblioquê?“. A segunda pergunta é “mas quem se forma nisso faz o quê mesmo?”. A terceira “Ah! Mas então você é biblioteconomista!”, quase, na trave. E os que sabem um pouco mais perguntam “você é bibliotecária onde?”.

Tinha escrito que um nome é só um nome antes. Mas querendo ou não, nomes designam uma série de coisas. Eu não sabia se eu ia, efetivamente, trabalhar como bibliotecária depois de formada. Vários colegas bacharéis se formam e vão trabalhar no mercado de Arquitetura da Informação, por exemplo, ou de Análise/Métricas de Mídias Sociais, ou com estatística de dados. São bacharéis em biblioteconomia, mas que não precisam de CRB. São bibliotecários de alma, mas não de carteirinha.

O que é mais importante?

O contexto é importante. Categorias e classes apenas importam no contexto em que importam. Caso eu fizesse o mestrado, seria apenas uma bacharel em biblioteconomia – pois, para mim, bibliotecário é quem atua e para o CRB é quem tem CRB. Para o mercado, bibliotecário é quem tem experiência ou procedência de uma boa universidade. Caso eu me formasse mestre em Ciência da Informação, me consideraria mestre em Ciência da Informação.

Este ano pretendo fazer uma pós latu sensu e devo me tornar especialista, caso tenha sucesso. A Ciência da Informação é uma grande área, mas vinculada a ela ou não, posso continuar pesquisando ‘a informação’ de modo a melhor se adequar aos meus interesses profissionais no momento. Posso ser pesquisadora vinculada à uma instituição de ensino superior ou pesquisadora independente, que é o que acredito que faço quando traduzo artigos e escrevo posts para o meu blog.

Vejo até hoje muitos graduandos utilizando o termo ‘cientistas da informação’ para se definirem, mas talvez as únicas pessoas que tenham ‘alvará’ para se denominar assim sejam os mestrandos e doutorandos em CI. No Brasil, não há uma graduação em Ciência da Informação propriamente dita, mas em Biblioteconomia apenas (isso explica bem o quadrinho). Há apenas uma graduação em Gestão da Informação na UFPR e ela não forma bibliotecários. Nem cientistas da informação. 

Então: uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa!

Sobre esse termo, imagino que seja apenas um nome pretensioso demais para definir algo que é muito mais simples: pesquisadores com interesse em informação de uma determinada área; ou com interesse na gestão ou fluxo de informação de um determinado ambiente, serviço ou produto. Particularmente quando leio o termo “ciência” o que me vem imediatamente em mente são as hard sciences: química, física, etc., onde existem os cientistas propriamente ditos.

Vamos pesar um pouquinho no estereótipo agora: aqueles mesmo, que usam jalecos, tem cabelos esquisitos, vivem enfurnados em laboratórios com substâncias raras, utilizadas com propósitos específicos, em ambientes ultra controlados e se comunicam com demonstrações e símbolos. Nem melhores, nem piores, mas bastante diferentes da área de ciências humanas. De qualquer modo o nome – Ciência da Informação – já existe e está consolidado enquanto área dentro da grande área das Ciências Sociais Aplicadas.

Mas sim, é sempre bom lembrar que existem ciências e ciências. 

E fazer ciência, infelizmente, ainda é pra poucos.