A importância das Bibliotecas

Há um tempo ando meio insatisfeita com meu canal no youtube. Sentia que deveria fazer mais com o espaço que tenho, principalmente no que diz respeito à Biblioteconomia e divulgação da área.

Pensando nisso resolvi criar uma tag semanal, a “Fala, Bibliotecária”, e através dela discutir assuntos variados sobre a profissão e sobre bibliotecas. Nesse primeiro vídeo achei que seria importante discurtir um pouco da importância desses espaços, começar pelo começo mesmo.

Os vídeos serão dedicados a leigos e profissionais, porque na verdade esse é um assunto que diz respeito a todos. É uma pequena discussão com leveza e bom humor, quem quiser participar está mais que convidado!

Resenha: O nome da Rosa

Terminei esses tempos um livro que há muito estava nas minhas prioridades: O nome da Rosa. Que obra para os bibliotecários, não é mesmo?

Em uma só história temos assassinatos, suspense, intrigas, livros, uma biblioteca proibida e um bibliotecário que cuida dos podes e não podes.

Esse livro me fez pensar um pouco sobre nossa profissão na atualidade. Hoje quase tudo pode, o usuário caminha livre, leva o que quer, escolhe sem restrições e na maioria das vezes sem sequer precisar da ajuda do bibliotecário, mas será que isso tem nos afastado?

Não acho, obviamente, que um acervo fechado e proibido aproxime o bibliotecário e o público, mas acho que é hora de refletirmos se essa relação pode ser mais próxima e melhor. Indicar é um trabalho importante e pode fazer com que aquela pessoa retorne à biblioteca, é um trabalho que não pode ser esquecido pelas facilidades e praticidades com que convivemos.

Deixo aqui a resenha que fiz sobre essa obra fantástica e indico com paixão para aqueles que ainda não leram!

O veneno e suas lições

No dia 23 de fevereiro, quando teve início o aluno letivo na USP, os novos alunos da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, nossa querida FFLCH, encontraram sua biblioteca fechada pelos próprios funcionários, com apoio dos estudantes.

O protesto foi motivado por um caso bastante grave de contaminação por DDT e outros organoclorados encontrados numa grande doação de livros recebida em 2009 (?!). Os funcionários contestavam o tratamento dado ao caso pela direção da Faculdade e chefia da biblioteca, bem como as medidas recomendadas pelos especialistas consultados. Nesta matéria do UOL há links para os documentos da direção da Faculdade do Sindicato dos Trabalhadores da USP (Sintusp).

Resumindo a história sem me alongar em detalhes escabrosos, os funcionários que manipularam o material relataram sintomas como dor de cabeça, náuseas, sangramento do nariz, dor de garganta, ardência nos olhos, dificuldades respiratórias e problemas na pele.

Em cinco livros da coleção foi encontrado um pó branco que deixou os funcionários bastante preocupados. Isso depois da coleção ter sido higienizada, e aí fico imaginando a qualidade da “higienização” que deixou escapar essas 5 tartarugas. Um laudo do Instituto de Pesquisas Tecnológicas concluiu que os livros estavam contaminados por DDT, DDE e DDI,  bagulhos reconhecidamente perigosos e possivelmente cancerígenos.

A direção da Faculdade solicitou um parecer  “sobre as condições de trabalho envolvendo o contato e manuseio do acervo” a uma especialista em conservação de acervos. Apenas um único parecer, não posso deixar de notar. As recomendações foram consideradas adequadas pelo coordenador de preservação da Biblioteca Nacional que, entretanto, não achou necessário visitar o local. Curiosamente, embora a especialista recomende estabelecimento de “barreiras de contenção” e quarentena, o material estava cercado por um tapume – dentro da biblioteca – com abertura para circulação de ar “pois segundo orientação técnica a vedação completa poderia produzir danos ainda mais insanáveis à coleção”. Por mais tocante que pareça tanto amor e preocupação pelos livros, os funcionários da biblioteca não estavam se sentindo lá muito seguros. A Coordenação de Vigilância em Saúde (Covisa) do município inspecionou o local no dia 24 de fevereiro e também não achou graça na história, pois o tapume não  funciona como isolamento, determinando a retirada dos livros da biblioteca e  várias outras medidas para proteger a saúde dos seres humanos.

A Biblioteca Florestan Fernandes deve reabrir na segunda-feira, dia 2 de fevereiro, após um acordo firmado entre a direção e os trabalhadores, que inclui, surpreendentemente, um pedido de desculpas da Faculdade aos seus funcionários.

Esse pedido de desculpas é o segundo fato que me parece inédito em todos esses anos de brigas que testemunhei na Universidade de São Paulo. O primeiro é o fechamento de uma biblioteca em protesto contra uma ação da administração local. Foi um confronto direto com a chefia e com a diretoria da Faculdade, algo muito difícil de acontecer numa biblioteca da USP, creiam-me. Na verdade, não me lembro de outra ocasião em que isso tenha acontecido. Mesmo durante as greves de funcionários não são muitas as bibliotecas que fecham.

Temos aí uma bela lição para os administradores, que precisam ser mais prudentes  ao receber doações de livros antigos e mais sensíveis às reclamações dos funcionários, para dizer o mínimo. Poder, ao contrário de DDT, pode ser algo muito transitório. E uma lição mais importante ainda para bibliotecários e demais trabalhadores de bibliotecas que gostam de cultivar uma polida submissão à hierarquia, mesmo quando sua saúde pode estar em jogo. Organização e mobilização funcionam. E um pouco de coragem, ao contrário de DDT, não faz mal a ninguém.

Lamento apenas tenha sido necessário fechar uma biblioteca, acionar o Sindicato e chamar as autoridades sanitárias para resolver um problema que, embora difícil e complexo, é da alçada da nossa profissão. Tudo isso, se não me engano, poderia ter sido evitado no simples nível das ações bibliotecárias consequentes.

Vejam aí mais informações sobre o caso.

Matéria na Globo

Post no meu blog

Outro caso envolvendo contaminação por organoclorados.

foto: Propaganda de DDT. Crossett Library, Flickr.

A Grande Biblioteca

Os bibliotecários até que se animaram mas, que pena, a tal série The Librarians é irremediavelmente ruim. O gênero fantasia infanto-juvenil costuma contar com minha indulgência, sou capaz até de assistir Grimm, outra bela porcaria da televisão, mas tenho meus limites. Não consegui ver nem um episódio completo, porque produções assim tão bobinhas me irritam demais.

Mas fiquei pensando que daria pra fazer uma série interessante ambientada numa biblioteca, com enfoque realista e tudo. Por que não? Existem séries que se passam em escolas, firmas de advocacia, escritórios de sei lá o quê e outros cenários que, na vida real também não são lá muito charmosos. E hospitais, então? A gente encontra umas três séries hospitalares diferentes em cada dia de programação da TV. Ah, mas médicos e advogados são mais interessantes, salvam vidas, tiram inocentes da cadeia, essas coisas. A gente só faz psiu e tira livros da estante, de acordo com a visão corrente.

Será mesmo? Penso que tudo depende de roteiristas, diretores e atores. Vamos ver como isso poderia ser.

Nosso cenário seria uma grande biblioteca pública ou a biblioteca central de uma universidade, porque precisamos de muitos personagens, escadarias imponentes e grande quantidade de estantes. De bibliotequinha acanhada bastam as da vida real. Tenho dúvidas de qual seria a melhor opção: a pública, por seu público mais variado, ou a universitária, por ter alunos e professores. Só o relacionamento professor-bibliotecário já garantiria assunto para pelo menos uma temporada.

O usuário vai ser tema importante na série. Em cada capítulo veremos pelo menos uma história de usuário. Algumas terão continuidade, outras vão começar e terminar no mesmo dia; algumas  serão conhecidas pelos personagens fixos – o pessoal da biblioteca – outras não. Sabem aqueles usuários dos quais a gente não sabe nada e fica apenas imaginando comos e porquês? Então, esses mesmos. No primeiro capítulo veremos um usuário comum, sem nada de excepcional, o tipo que só diz bom dia, obrigado e até logo, que sai da biblioteca e se suicida. Só o espectador fica sabendo, o pessoal da biblioteca nem imagina o que aconteceu.

Os personagens principais serão  dois bibliotecários jovens que acabaram de ser contratados: a moça de temperamento artístico – talvez ela desenhe ou cante, ainda não sei – que fez biblioteconomia por razões de pobreza, como tantos de nós, e o rapaz meio nerd que pensava que biblioteconomia era outra coisa, uma coisa mais tecnológica. Vamos acompanhar os conflitos pessoais e profissionais desses jovens, seu desencanto com a profissão  e, em algum momento,sua a decisão de começar a lutar. Vocês conhecem essa história? Eu conheço.

A chefe da biblioteca acabou de se aposentar, depois de 58 anos de valorosos serviços prestados e virou retrato. A nova chefe é uma daquelas tiazinhas que administra usando sua experiência de dona de casa e mãe, toda senso comum e orações. Boa pessoa, dedicada ao trabalho e responsável, mas com formação deficiente. Aos poucos, a pacata senhora, com medo de perder o cargo, vai cair de boca na paranoia e revelar um lado autoritário que nem todos conheciam. O perigo, como sempre acontece, vai chegar de onde ela menos espera. Seu braço direito, uma bibliotecária simpática e moderninha que não vacila em usar táticas de sedução com propósitos carreirísticos, é quem vai puxar o tapetinho florido da chefia. O objetivo da moça não é apenas o cargo, mas assegurar bons negócios para um fabricante de mobiliário de bibliotecas com quem tem umas tretas. Vocês conhecem histórias parecidas? Eu conheço.

Num dado momento, a equipe da biblioteca vai se dividir entre a tiazinha conservadora, mas honesta, e a arrivista cheia de más intenções, mas com ideias um pouco mais modernas.

Nossos jovens bibliotecários vão arrumar um enorme problema com seu projeto de empréstimo de livros e criação de serviços especialmente dedicados a uma ocupação do movimento dos sem teto próxima à biblioteca. Os funcionários conservadores e os idealistas vão se enfrentar com unhas e dentes.

Teremos histórias de amor, claro, queremos audiência. O jovem bibliotecário terá um rolo com uma funcionária casada com um homem violento, o que pode render alguns momentos de violência e heroísmo entre as estantes e talvez até alguns tiros. A arrivista vai seduzir o introspectivo especialista em conservação, homem de poucas palavras que vai reagir de forma surpreendente ao se perceber enganado. Precisaremos de amores lésbicos, porque num lugar com tantas mulheres seria inverossímil não haver pelo menos uma lésbica. Que poderia ser nossa bibliotecária com pendores artísticos, por que não? E quem seria sua namorada? A dona do restaurante onde a galera almoça ou uma estudante estrangeira que passa tardes inteiras na biblioteca? E vai ter beijo lésbico entre as estantes sim, e se reclamarem vai ter até no balcão de empréstimo.

A estagiária do setor de seleção vai se encantar pelo intelecto refinado que reuniu a linda coleção de livros que a biblioteca recebeu em doação. Nas cartas e velhas fotografias encontradas entre as páginas, nas anotações feitas nas margens e na própria seleção de obras, a estudante de letras vai descobrir aquele que poderia ser o homem da sua vida, se não estivesse morto há uns 10 anos. A magia termina quando ela conversa com a filha do falecido e descobre, por trás da máscara poética, um homem egoísta que, perdido entre seus livros, ignorava o sofrimento da família durante a longa agonia da esposa que morreu de câncer. E os bilhetes e cartas que a filha não quis levar de volta vão parar no lixo reciclável porque, nas palavras da chefe do setor, o defunto “não era nenhum Mário de Andrade pra gente ficar guardando os todos os papeizinhos dele”.
O suspense será garantido por uma suspeita: a chefe da catalogação, ex-militante presa e torturada durante a ditadura, acredita que um de seus carrascos está frequentando a biblioteca.
A primeira temporada deve terminar com a mais temida das tragédias que podem acontecer numa biblioteca: um incêndio. Nossa biblioteca vai sobreviver?

Pronto, agora só falta alguém escrever e produzir isso aí. Vai ser um sucesso, garanto. Quanto ao elenco, já que estou sonhando mesmo, só faço questão de Irhandir Santos e Hermila Guedes, os demais vocês podem escolher.

 

A foto é do palácio de verão da imperatriz Sissi na ilha de Corfu, Grécia. Já que estamos sonhando.

O paraíso de Borges

Uma das citações mais queridas dos bibliotecários, bastante divulgada pelas redes sociais sem a fonte, é uma frase de Jorge Luis Borges sobre bibliotecas:

“Sempre imaginei o paraíso como um tipo de biblioteca”.

Quando leio isso costumo dizer que eu também imaginava, até começar a trabalhar em uma. Sim, porque a ideia romântica que as pessoas que gostam de ler têm de bibliotecas raramente coincide com a realidade da instituição biblioteca, que não é feita apenas de leitura e saber, mas de funcionários nem sempre simpáticos, estantes nem sempre bonitas, regras e regulamentos nem sempre razoáveis, administradores nem sempre competentes e verbas geralmente curtas. Por isso sempre imaginei que Borges não estivesse pensando na instituição, mas apenas na ideia de uma bela coleção de livros à espera de leitores vorazes.

Aí resolvi ir atrás da fonte, buscazinha básica que as pessoas que compartilham a frase no Facebook bem que poderiam ter feito, já que não dói nada.

A frase é um dos versos do “Poema de los dones”, que Borges escreveu em 1955 quando, já cego, foi nomeado diretor da Biblioteca Nacional da Argentina.

Nadie rebaje a lágrima o reproche
Esta declaración de la maestría
De Dios que con magnífica ironía
Me dio a la vez los libros y la noche.
[…]
Lento en mi sombra, la penumbra hueca
exploro con el báculo indeciso,
yo, que me figuraba el Paraíso
bajo la especie de una biblioteca.

Borges repetiu frase em 1977 durante uma conferência no teatro Coliseo de Buenos Aires sobre o tema da cegueira, recordando a ironia de sua situação: viver cercado por milhares de livros que não podia mais ler.

Poco a poco fui comprendiendo la extraña ironía de los hechos. Yo siempre me había imaginado el Paraíso bajo la especie de una biblioteca. Otras personas piensan en un jardín, otras pueden pensar en un palacio. Ahí estaba yo. Era, de algún modo, el centro de novecientos mil volúmenes en diversos idiomas. Comprobé que apenas podía descifrar las carátulas y los lomos. (BORGES, p. 53).

Mas será mesmo que o gênio cego sempre associou as bibliotecas ao paraíso?

Na biografia de Borges escrita por Marcos-Ricardo Barnatán, encontrei o seguinte relato. Em 1937 o escritor, premido por problemas financeiros, teve que arrumar emprego na Biblioteca Municipal Miguel Cané, uma biblioteca de bairro em Buenos Aires. De acordo com o autor, “os nove anos em que permaneceu no cargo, que além subalterno era muito frustrante porque consistia em catalogar livros, foram uma autêntica humilhação para Borges.” (BARNATÁN, p. 296).

A biblioteca tinha excesso de pessoal, com 50 funcionários fazendo o trabalho que 15 dariam conta. Borges catalogava e classificava, mas pensava que a coleção era tão pequena que o catálogo quase não era necessário. Era só uma coisa complicada inventada pelos funcionários para justificar seu salário.  Mas trabalhou “honestamente” em seu primeiro dia, classificando 400 livros, enquanto os colegas classificaram apenas 100.

Pera aí … como assim, Borges? Quatrocentos ou mesmo cem livros num dia é uma produção impossível. O que será que o escritor entendia por classificação? Tirar os livros de uma caixa e botar na estante? E se ele e os coleguinhas vagabundos “classificavam” 500 livros por dia, como é que a biblioteca não precisava de catálogo? Enfim, os indolentes o pressionaram a ficar na marca segura de 103 títulos após o terceiro dia de trampo, para evitar desemprego em massa na Miguel Cané.

Talvez Borges estivesse brincando ou exagerando de forma retórica, mas sem o contexto da história não dá para saber.  Gostaria de tirar a dúvida na fonte original das declarações de Borges, mas o infeliz do Barnatán não sabe fazer citação.  Simplesmente bota o texto entre aspas e pronto, temos que adivinhar de qual das dezenas de livros da bibliografia tirou o relato sobre a feroz atividade de processamento executada na Miguel Cané.

De qualquer forma, foram “nove anos de profunda infelicidade” para o escritor, levando uma “existência servil e miserável”. O sofrimento era agravado pelo fato de que, para Borges,  sua vida cotidiana “anônima e deprimente” parecia  estar em desacordo com a reputação literária bastante sólida  que já possuía na época.  (BARNATÁN, p.  296 – 297).

Nada mais longe da ideia de paraíso, me parece.

A vingança de Borges teria sido usar o tempo roubado ao trabalho humilhante de “bibliotecário” para escrever. Um dos contos escritos nessa época foi A biblioteca de Babel, para Barnatán ( p. 305)  uma “metáfora pesadelesca” da Miguel Cané. Talvez.

Eu, particularmente, acho que esse conto não tem absolutamente nada a ver com bibliotecas. O que vocês acham?

BARNATÁN, Marcos-Ricardo. Borges: biografia total. Madrid: Temas de Hoy, 1995.

BORGES, Jorge Luís.  Siete noches. Mexico, DF:  Editorial Meló, 1980.

A foto é minha, feita na Oficina Brennand, em Recife, que me fez pensar em Borges.

 

 

Um epitáfio para bibliotecários

Digam aos espartanos, estranhos que passam, que obedientes às suas leis, aqui jazemos.

Os versos do poeta Simônides, inscritos numa lápide no desfiladeiro das Termópilas, são uma homenagem aos espartanos e seus aliados que lá morreram tentando deter a invasão persa. Um heroico epitáfio, sem dúvida, para soldados que sabiam que iriam morrer e que, no final, com as armas destruídas em combate, continuaram lutando com as mãos nuas (PRESSFIELD).

O que me incomoda é que  a frase também poderia servir, se o pior dos futuros possíveis acabar se confirmando, como epitáfio para bibliotecários e bibliotecas. Tirando os espartanos, claro, que não têm nada com isso. E por que diabos cismei de relacionar uma história de 480 a. C com o presente e o futuro da minha profissão? Não sei, mas as palavras “obedientes às suas leis” gravadas numa lápide sempre me vêm à cabeça quando o assunto é a sobrevivência dos bibliotecários, porque penso que, se alguma característica nossa pode nos destruir é a precisamente a obediência, em suas variantes mais populares entre nós: o apego excessivo a regras e o respeito exagerado à autoridade.

Não, nunca fiz uma pesquisa. Não, não passei questionário. Sim, eu sei que não podemos generalizar e que existem bibliotecários para todos os gostos. Aprendi a ser bibliotecária com mulheres que eram exatamente o oposto da boa menina comportada que não desrespeita regra nenhuma, sobretudo as da catalogação. Profissionais cultas, que gostavam da profissão, mas também se interessavam pelo mundo além da biblioteconomia, politizadas, aguerridas e dispostas a lutar com mãos nuas pelo que acreditavam. Algumas delas, ainda na ditadura, participaram ativamente de greves e de atividades sindicais. Para quem não sabe, era necessária alguma coragem para fazer isso naquela época. Talvez por causa desse bom começo, jamais consegui digerir certos diálogos que ao longo dos meus 30 anos atividade. Como esses:

– Mas por que não podemos mudar isso?
– Porque é a regra!

– E se a gente fizesse de outra forma?
– Mas sempre foi feito assim!

– Essa regra serve exatamente para quê?
– Para ficar padronizado!
– E por que tem que ser padronizado dessa forma?
– Porque existe uma regra, oras!

– Mas por que você faz isso?
– Porque o chefe mandou fazer.

– Por que você aceita esse tipo de coisa?
– Porque ele (ela) é o chefe. Manda quem pode, obedece quem tem juízo. Eu cumpro ordens.

E as “respostas-padrão” nem são o pior. O mais triste é participar de reuniões numa sala cheia de profissionais sérios e competentes que deveriam questionar, ou pelo menos tentar discutir o que está sendo dito pela autoridade de plantão, mas se calam, por indiferença, medo ou por um estranho conceito de “educação” que parte do princípio de que discordar é feio.

Lília Schwarcz, em seu livro sobre D. Pedro II, menciona ensinamentos dos manuais de bons costumes do século 19: “Nunca diga do que gosta e do que não gosta, e evite fazer questões”; “abra mão de suas posições, sempre, e nunca sustente nenhuma discussão, mesmo que tenha certeza de suas convicções.” (SCHWARCZ , p. 201). Talvez esses manuais ainda estejam em vigor e ninguém me avisou.

Tantas demonstrações de conformismo e autoritarismo explícito no meu ambiente profissional me transformaram numa velha senhora pessimista. Teremos massa crítica e criativa suficiente para dar conta das mudanças que precisamos promover para continuar fazendo sentido enquanto profissionais ou vamos mandar recado pros espartanos?

Em meus tempos de estudante de biblioteconomia dividida entre a enormidade do tédio que o curso me provocava e a vontade de ser e fazer algo melhor na profissão que escolhi, meus colegas e eu pensávamos, provavelmente estimulados por alguns professores modernos, que os bibliotecários eram pessoas muito limitadas. E por isso as bibliotecas eram tão ruins. Nós éramos legais, inteligentes, jovens, bonitos e ousados, criativos e radicais. Chamávamos a nós mesmos de “ala punk da biblioteconomia” e estávamos prontos a mudar tudo. As bibliotecas não seriam as mesmas depois que a gente as tomasse de assalto. Posso estar  exagerando um pouco, mas era mais ou menos isso.

E a turma seguinte também pensava assim, as outras turmas também, e isso se repete há uns 30 anos, pelo menos, conclusão à qual cheguei pela observação de várias gerações de estudantes na instituição na qual trabalho desde 1981, a mesma onde me formei no ano seguinte.
Hoje, muitos dos meus colegas daquela época que ainda estão vivos e atuando na área são chefes de bibliotecas, professores de biblioteconomia ou, no mínimo, profissionais experientes. O mundo já virou do avesso várias vezes, muita coisa mudou e nós, de certa forma, tivemos participação nessa mudança, mas também nos tornamos, aos olhos das novas gerações, os velhinhos conservadores e apegados às mesmas regras que tanto criticávamos. Para a molecada que hoje talvez se veja como a “ala funk pancadão da biblioteconomia” ou algo assim, nós somos os bibliotecários obsoletos que só pensam em criar barreiras para impedir a circulação do conhecimento e que serão os únicos responsáveis pela eventual extinção das bibliotecas. E a roda vai continuar girando dessa forma enquanto existirem bibliotecas, bibliotecários, estudantes e professores de biblioteconomia. Digam aos espartanos etc etc …

Mas, de fato, o conformismo dos profissionais é apenas um aspecto do problema. Há mais perigos fora das bibliotecas do que dentro. Nas instituições públicas, entraves de todo tipo criados pela legislação, pela burocracia e por estruturas de poder quase feudais dificultam em níveis deprimentes os processos de mudança e inovação nas bibliotecas. Precisamos melhorar a qualidade dos serviços prestados, mas não podemos escolher pessoal com a qualificação necessária. As instalações físicas precisam ser renovadas, mas não conseguimos comprar mobiliário decente sem os intermináveis pregões ou licitações, cujos resultados muitas vezes são frustrantes. Usuários precisam de acervo atualizado, mas os livros podem levar meses para chegar e não podemos comprar de livrarias virtuais. “Mas esse livro tem na Amazon, é baratinho” quem nunca ouviu essa frase? As bibliotecas precisam de serviços de outros departamentos em suas instituições que desconhecem o conceito de “necessidade do usuário”. E como o conceito de democracia também não é muito popular nas instituições, muitas chefias, bibliotecárias ou não, costumam administrar de acordo com sua conveniência ou gosto pessoal, ou da forma que mais segura sua carreira, contando com a tranquila obediência de seus subordinados. Temos que divulgar nossos serviços e melhorar nossa imagem, mas não podemos contar com um departamento de marketing para nos auxiliar. E aí os usuários concluem que a biblioteca é ruim porque as bibliotecárias- que para eles são aquelas senhoras que guardam os livros na estante ou fazem o empréstimo – são todas umas incompetentes. Olá, espartanos, vocês ainda estão por aí?

Bibliotecas nunca são prioridade real em nenhuma instituição, por mais que se diga o contrário o tempo todo. Bibliotecas não têm presença forte nas comunidades, não fazem parte do cotidiano da maioria das pessoas, não têm a importância que deveriam ter na sociedade. Se todas as bibliotecas fechassem amanhã, é óbvio que haveria reação, porque existem boas bibliotecas e pessoas que as frequentam. Mas se forem minguando e acabando aos poucos, sem alarde, muita gente nem vai se dar conta, porque nem sabe o que é uma biblioteca.

O artigo do The Guardian traduzido e publicado aqui pelo Moreno Barros sobre bibliotecas ressurgindo das cinzas trata de culturas nas quais as bibliotecas sempre foram importantes. Onde se “entremearam no tecido da vida cotidiana”, nas palavras do autor. Aqui não me parece que seja assim. Nossa história é diferente da desses países educados e cultos que nos colonizaram, exploraram e ajudaram a implantar por aqui ditaduras assassinas para nos manter colonizados e explorados.

Sim, sou pessimista, mas não acho que seja impossível virar o jogo. Existem boas ideias em circulação, como demonstram os textos publicados neste bravo Bibliotecários sem Fronteiras.

Então, estranhos que aqui passam, termino com a palavra de ordem que sempre me manteve em pé, mesmo não acreditando que a vitória seja certa: a luta continua.

PRESSFIELD, Steven. Portões de fogo: um romance épico da batalha das Termópilas. Rio de Janeiro: Objetiva, 2000.

SCHWARCZ, L. M. As barbas do Imperador: D. Pedro II, um monarca nos trópicos. São Paulo : Companhia das Letras, 1998.

A foto do Monumento a Leônidas é de Carlos Blanco, publicada no Flickr. http://www.flickr.com/photos/crlsblnc/5650417261/