Como funciona o empréstimo de e-books e audiolivros digitais?

Os e-books estão ganhando um espaço cada vez maior em bibliotecas do mundo inteiro. Há duas formas de promover o acesso a coleções digitais em bibliotecas públicas: pelo empréstimo de e-readers, ou através de softwares que mediam o empréstimo dos arquivos digitais diretamente nos dispositivos eletrônicos dos usuários.

Eu não estou falando de disponibilizar uma lista de arquivos em PDF que você pode baixar gratuitamente, cujos direitos autorais são livres. Estou falando de conteúdo licenciado.

Software para empréstimo de e-books

Aqui no Canadá, muitas bibliotecas públicas usam o Overdrive como software para empréstimo de e-books e audiolivros em MP3.

No catálogo das bibliotecas, você encontra a obra com um link para baixar pelo Overdrive.

O usuário pode instalar o aplicativo do Overdrive no seu tablet,  celular (smartphone) ou no próprio computador. Uma vez instalado, você faz o login no Overdrive com o cadastro da sua biblioteca local (usando o número do cartão e a senha).

Eu uso duas coleções: a da biblioteca pública de Vancouver, e a do consórcio de bibliotecas de British Columbia (a província). Como o licenciamento dessas coleções é caro, muitas bibliotecas da província se juntaram para fazer um consórcio, onde compartilham recursos e coleções. A coleção digital da biblioteca pública da minha cidade (que fica na região da grande Vancouver) é disponível através do consórcio da província.

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Você pode também navegar pelo próprio Overdrive e pesquisar o livro que quer ler ou ouvir.

A coleção é extensa, com títulos de diversos gêneros e categorias.

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Tem até Harry Potter!

A interface de pesquisa é muito bem organizada, com diversos filtros.

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Se o livro não estiver disponível, você pode fazer a reserva e entrar na fila de espera. Assim que o livro for liberado, você recebe um email notificando da disponibilidade do livro e com um prazo de dias para pegar emprestado.

Os e-books e audiolivros são emprestados por um período de 14 ou 21 dias, sem direito a renovação. Quando expira, o conteúdo simplesmente some do seu dispositivo, como mágica!

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Nessa pesquisa, acabei encontrando um livro que queria ler, em formato áudio: Cadê você, Bernadette?, de Maria Semple. (Note que há livros super novos, lançamentos recentes). O livro estava disponível para empréstimo, então baixei.

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Você clica na opção Download. Apesar do programa baixar o mp3 para o seu dispositivo, você não tem acesso ao arquivo em nenhum momento. Ele só é disponível através do Overdrive.

Uma vez baixado, você pode ouvir/ler offline, sem precisar estar conectado à internet. Não é streaming.

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Os audiolivros são divididos em muitas partes, dependendo da extensão do livro. Esse aqui são 8 partes de 1 hora e pouco cada uma.

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E quem paga essa conta?

As editoras ainda estão meio hesitantes em liberar seus livros para empréstimo por bibliotecas. Até dois anos atrás, algumas das grandes editoras internacionais não liberavam e-books para bibliotecas de jeito nenhum. Mas com a crescente demanda, tiveram que encontrar meios para viabilizar os contratos com bibliotecas públicas.

Uma das alternativas foi cobrar incrivelmente caro por cópias digitais para bibliotecas. Eu fiz um estágio em 2012 numa biblioteca pública da cidade e a gerente de aquisições me falou que, na época, um e-book poderia custar até 80 dólares para bibliotecas, enquanto custavam menos de 15 para leitores comuns.

Outra solução foi limitar o número de downloads por cópia. Uma das editoras (não lembro qual, acho que a Harper Collins, uma das gigantes) permitia apenas 26 leituras de cada e-book. Depois disso, a licença expirava e a biblioteca era obrigada a comprar outra licença.

No Brasil

A Biblioteca de São Paulo empresta e-readers a seus usuários, porém eles devem usar os dispositivos dentro da biblioteca.

Eu fico aqui, torcendo pelo progresso das bibliotecas públicas na nossa terrinha, pra que todo mundo um dia possa ter acesso a tecnologias como o Overdrive.

Demonstração

Editando o post pra inserir finalmente o vídeo de demonstração! (agosto de 2015)

Por que ainda não existe #rolezinho na biblioteca?

É claro que o título desse post seria uma pergunta pois sou uma pessoa que tende a colecionar perguntas. Enfim…

Hoje estive no SESC para um curso chamado “Introdução ao universo dos arquivos” (porque sou curiosa) e peguei um exemplar gratuito da Revista do SESC São Paulo, que sempre tem notícias interessantes sobre as áreas de cultura, arte e informação. Compartilhei no Facebook com todo mundo e a Carla Castilhos re-compartilhou, começando uma série de questionamentos:

Gente, ok, temos que melhorar o acesso tanto financeiro quanto físico mesmo às atividades culturais, mas temos também que aceitar que tem muita, mas muita gente que não gosta. Muitas pessoas têm acesso a livros, a museus, a teatro e cinema e simplesmente NÃO estão a fim. O que me intriga é: quais as razões? Não gosta por que? Por que é chato, ok, mas por que achamos algo chato ou legal? O que tornou os livros chatos? As artes visuais chatas?

Conheço mais de uma pessoa que ia na Bienal de Artes do Mercosul e de uns anos pra cá passaram a achar… chato. O que aconteceu? Foram os visitantes que mudaram, os artistas, enfim, quais as causas da chatice?

Será que as pessoas estão hiperestimuladas pela internet e 9gag e youtube e querem tudo mais rápido, mais digerível? Será que a informação é tanta que estamos cansados? Será que estamos trabalhando demais? Ou será que cultura é só algo chato mesmo e estamos indo pelo caminho errado ao tentar fomentar algo que não faz mais sentido numa sociedade que está no ritmo do consumo e diversão imediata? (É uma pergunta séria, não estou usando ironia).

Como também tinha alguns questionamentos sobre a pesquisa, sugeri que escrevêssemos alguma coisa. Nada como um post inicial pro Bibliotecários Sem Fronteiras feito colaborativamente na mesma noite por uma bibliotecária que está em São Paulo e outra em Porto Alegre. Acho que entendi o espírito da coisa. Pois bem. O que mais nos chamou atenção na matéria foi justamente os seguintes dados:

“Que locais frequenta nos fins de semana quando quer fazer alguma atividade cultural?
Shopping centers – 6% (1º lugar) / 8% (soma das menções)
Cinemas – 5% (1º lugar) / 7% (soma das menções)
Teatros – 3% (1º lugar) / 4% (soma das menções)
Museus – 1% (1º lugar) / 2% (soma das menções)
Não faz nenhuma atividade cultural – 51%”
Voz ao grande público. Revista SESC SP, São Paulo, n°199, jan./2014.

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Rolezinho de sábado passado (11/01) no Shopping Itaquera em São Paulo

O assunto da semana (passada e desta ao menos) são os rolezinhos que tem acontecido em alguns shoppings da capital paulistana. O que nos chama atenção é que muita gente têm usado unicamente este espaço nos finais de semana ao invés de outros equipamentos de cultura e lazer existentes – e agora estão em conflito sobre o uso e a convivência nesses espaços. Alguns textos tentam caracterizar o rolezinho aproximando-o de um flash mob – pois ambos são planejados – mas as características dos eventos são diferentes. Um rolezinho é um passeio que, devido ao medo e insegurança dos paulistanos de classe média, confundem-se com arrastões. É muito pano sociológico pra manga, de fato.

Lemos, de bibliotecários e não-bibliotecários no Facebook a seguinte provocação: “rolezinho em biblioteca e museu ninguém quer dar né?”

Consideramos simplistas as explicações que são ventiladas por aí: brasileiro não lê porque a escola oprime, porque livros são caros, porque as bibliotecas não têm acervo adequado e o céu (ou o inferno, né?) é o limite. Mas duas coisas precisam ser tornadas um pouco mais claras. Coisas que o pessoal do rolezinho não sabe e coisas que o pessoal que quer rolezinho em biblioteca não entende: 1. Ricos (ricos mesmo, de verdade) não vão em shopping. Surpresos? Pois é. Eles não vão, gente. 2. Por que uma pessoa que trabalha 5 dias na semana gastaria 2 dias de folga (às vezes 1 dia só de folga, pasmem: às vezes nenhum) pra ir em uma biblioteca?

Por favor, surpreendam-nos, bibliotecários.

Convenhamos: é bem mais difícil ter (e realizar) atividades de ação cultural em bibliotecas do que em centros culturais. É claro que todas tentativas são sempre válidas. Mas por que elas não “pegam”? Sempre nos perguntamos o que os shoppings (e livrarias) têm que as bibliotecas, museus, teatros, não têm? A primeira coisa que nos vem em mente nesse calor é: “ar condicionado?”. Ou refrigeração equivalente, enfim. Pode parecer bobo, mas a estrutura física conta bastante. Faltam mesmo cadeiras confortáveis, ar-condicionado, banheiros decentes, estacionamento, estrutura física, etc.

Brasileiros são mesmo estranhos. Ao mesmo tempo que museus, teatros e bibliotecas ainda são compreendidos como lugares de “ricos”, de “status”, ainda persiste uma mentalidade tacanha de que “coisa de graça (ou muito barata) é pra pobre, não preciso pegar livro de graça”. Quer dizer… Mas talvez estejamos fazendo a pergunta errada. Talvez a pergunta devesse ser: por que as pessoas se sentem parte de uma comunidade de comércio – para chegarem ao ponto de querer se apropriar dela – mas muitas vezes não se sentem parte de uma comunidade cultural, independente desse comércio?

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Museu aberto de arte urbana de São Paulo

Aliás, o que seria essa comunidade cultural? Em uma discussão no Facebook, pensou-se que baixar um filme ou ver uma série também podem ser um tipo de cultura (e por que não seria?). Entendemos que a pesquisa não tenha sido publicada na íntegra na revista, mas alguns pontos poderão ser explorados assim que ela for publicada, tais como: a pesquisa considera cultura de periferia (funk, graffitti, rap), cultura de fato? Outra questão levantada nas discussões foi: por que os shopping centers foram considerados como “cultura” e assinalados como resposta na pesquisa? Sobre isso, há uma excelente citação de Maria Aparecida Perez no artigo da Revista do SESC:

“As pessoas costumam ver a cultura como algo a ser comprado – entrada para o cinema, teatro, shows, museus etc. Normalmente, não reconhecem como cultura o artesanato, a culinária, a leitura (é vista como estudo), a prática de esportes” (…) “Quando a pessoa vai a um centro cultural, à escola para ver alguma apresentação ou a shows em praça pública, provavelmente não considera uma ação cultural.”

Outra pergunta: o quanto as pessoas querem fazer parte de uma comunidade cultural?
E de quais, na verdade?

Opinião pessoal: para mim, a carência é tanta que na falta de espaços culturais as pessoas se refugiam nas 1. igrejas; 2. shoppings; 3. academias. #prontofalei

Não imaginamos que exista, em nenhuma situação, um aculturamento propriamente dito, mas sim, uma cultura de exclusão – e em todos os lugares – e isso é meio que inevitável: pessoas sempre serão pessoas. Isso não é de todo ruim: pode estimular a diversidade cultural (as chamadas “subculturas”) desde que elas, às vezes, estejam dispostas à conviver por algum período de tempo no mesmo espaço. E isso também é inevitável. E esta é sempre a parte mais complexa. Uma das palavras que os muito ricos gostam de utilizar ultimamente chama-se exclusividade. A exclusão já começa a partir daí: pela busca a uma individualidade autêntica, que nem se sabe se é real ou não.

Voltando à pesquisa publicada na Revista:

FREQUÊNCIA A ATIVIDADES CULTURAIS – Atividades que NUNCA fez ou a que NUNCA FOI na vida

Ir ao cinema – 22%
Ler um livro por lazer, sem ser de trabalho ou estudo – 31%
Ir a um show de música em uma casa de espetáculo – 55%
Ir a uma peça de teatro em um teatro – 57%
Ir a exposição de pintura, escultura ou outras artes – 71%
[. . .]

É realmente muito surpreendente (meio assustador na verdade) que 55% dos entrevistados NUNCA tenham ido à um show de música ou casa de espetáculo. É quase inacreditável. Sempre acreditamos que a leitura é deixada por último, mas não foi dessa vez, para a nossa surpresa. E a razão principal de os respondentes não terem realizado atividades culturais no último ano foi “não gosta” (1ª razão mais citada). Durante discussão no Facebook, Fernando Pires disse que isso tem muito jeito daquele “não gosto de brócolis” que as crianças soltam vez e outra. O “não gosta” na verdade mesmo quase sempre é um “não tem costume” (3ª razão mais citada). As pessoas não são preparadas pra ser consumidores – o maior formador deles é a TV e agora as redes sociais na internet. E infelizmente é conhecido que arte/produto cultural não-blockbuster rende pouco.

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Faz bem, de vez em quanto. A gente promete.

Em uma sociedade que cada vez mais preza pelo individualismo e com os avanços na internet, a preferência é sempre por ver um filme no conforto (e na comodidade) do seu próprio sofá do que se deslocar pela cidade para pegar fila em cinema. Além do mais, para ir ao cinema é preciso, também, de modos: não falar ao celular, não falar alto demais, não chutar a cadeira, não rir alto durante a seção, não fazer guerra de pipoca, (Bibliotecária mal-humorada, oi?)… São tantos “nãos” e “modos para a boa convivência” que a pessoa acaba preferindo ficar em casa. Sem falar que tem gente que não vai simples e justamente pra não socializar com outras pessoas: gente culta demais não quer nem respirar o mesmo ar com quem apenas “pega um cineminha”. E por aí vai. A sociedade tem desses melindres.

Ainda também discute-se a possibilidade da internet como Meio de Comunicação de Massa mas os teóricos da comunicação resistem à considerá-la como tal. Mesmo com 51% dos entrevistados já utilizando e tendo acesso ao computador e a internet, a televisão ainda é a favorita para o tempo livre, de modo geral. Talvez porque a família não se reúna pra usar a internet em conjunto, como acontece com o rádio e a TV. O que pesquisamos ou acessamos, apesar de estar disponível para todos, não é usado de forma massiva e simultânea.Também existe a questão da produção do conteúdo, que no rádio e na TV é feita pra atingir uma massa – na internet, as informações são mais publicadas para nichos específicos. Eis uma citação do Bourdieu (dsclp, Fabiano) basicamente dizendo que ninguém curte muito brócolis, mesmo:

Os membros das classes populares e das frações menos ricas em capital cultural das classes médias recusam sistematicamente a sofisticação propriamente estética quando a encontram em espetáculos que lhes são familiares, em particular os programas de variedades televisionadas. Sabemos que, do mesmo modo que no cinema, o público popular, muitas vezes desconcertado com os flash-backs, gosta das intrigas lógicas e cronologicamente orientadas para um happy ending e “se encontra”  melhor nas situações e nas personagens simplesmente desenhadas do que nas “histórias”
ambíguas e simbólicas, agenciadas sem ordem aparente e reenviando a experiências e a problemas totalmente estranhos à experiência ordinária.

BOURDIEU, P. e SAINT-MARTIN, M. Goftts de classe et styles de vie.
[Excerto do artigo “Anatomie du goftt”]. Actes de Ia Recherche en Sciences Sociales, n° 5 , out. 1976, p. 18-43. Traduzido por Paula Montero.

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Resistência.

A pesquisa também apontou que a maioria dos entrevistados, mesmo com a internet, ainda passa muito tempo diante da TV. Isso significa que uma parcela considerável da população ainda (sim, 2014 e ainda: o futuro ainda não chegou) pode ser influenciável pelos programas como novelas, reality shows, propagandas, noticiários, etc. Isso levando-se igualmente em conta a forma que se assiste televisão: passivamente, jamais de forma crítica, reflexiva, acreditam na TV como se tudo mostrado na tela fossem verdades inalteráveis. Talvez seja um fetiche de geração, ou um fetiche da tela, do monitor mesmo. Mesmo existindo N possibilidades de pesquisa, é mais fácil acreditar no que é conveniente. Digo isso – que pode ser geracional – pois o mesmo ocorre quando os nossos pais acreditam em hoaxs veiculados por e-mail, repassando pra todo mundo sem nem se dar ao trabalho de verificar as fontes. Se está no papel é verdade e, hoje em dia, se está na tela também (seja no monitor ou na TV). Cultura de pesquisa? Opa, também ainda não trabalhamos. Tem, mas acabou.

O que que falta, gente?

Pra essas pessoas?

Pra gente?