Qual a diferença entre um curador do conhecimento e um bibliotecário?

Dia 2/06 aconteceu na Livraria Cultura – Companhia das Letras uma seção do Encontros Criativos, promovido pela jornalista Mariana Castro com os sócios fundadores da Inesplorato, Débora Emm e Roberto Meirelles. Eu e Ana Marysa fomos lá pra conferir um pouco mais sobre o empreendedorismo deles e entender como funciona a empresa e seu processo de curadoria de conhecimento.

Resolvemos escrever este post juntas falando um pouco sobre o que ouvimos e entendemos, deixando nossos comentários, que praticamente coincidiram, [entre chaves e em rosa].

Buscando na internet é possível achar várias entrevistas e referências do trabalho da Inesplorato, mas a nossa intenção foi selecionar o que consideramos insights para a área. Fiquei sabendo da empresa através da Ana – que já participou de um dos meet.ups deles – e achei o trabalho que eles fazem bastante próximo do que fazemos mas com alguns diferenciais.

A empresa

Débora, que é formada em Ciências Sociais e Publicidade e Propaganda, disse que a intenção dela ao criar a Inesplorato era fazer com que essas duas áreas entrassem em diálogo de certo modo: o mundo teórico e o mundo prático, mercadológico. Para ela o conhecimento pode ser considerado uma ferramenta com a qual as pessoas devem se relacionar de uma maneira profunda, de acordo com contexto e o significado de cada um.

Para ela é uma vitória o fato de clientes pessoa jurídica compreenderem o processo da Inesplorato e ao longo do tempo se engajarem com ele.

A empresa é de pequeno porte e, diferente da maioria dos negócios, não existe uma hierarquia pré-estabelecida no organograma. Na empresa, todos são colaboradores. Uma vez que os profissionais tem diferentes habilidades e backgrounds, suas funções não são estáticas, mas variam de acordo com os projetos recebidos, onde cada profissional se relaciona de forma diferente. Isso deve impactar muito na pluralidade, diversidade e singularidade de cada projeto desenvolvido por lá.

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As tão conhecidas caixas de conhecimento da Inesplorato.

Débora entendeu a partir de sua experiência com a empresa que um processo de curadoria é artesanal e não escalável e que apesar de a Inesplorato ser uma startup, não há intenção de aceleração no crescimento da empresa. Ou seja, o crescimento deverá ser natural e não imposto por uma injeção de dinheiro de investidores. A intenção é manter a qualidade do serviço e, por isso, a quantidade de projetos e pessoas atendidas são limitadas.

[Aliás, quem trabalha na área do conhecimento deve se atentar a isso. O processo de curadoria e o próprio processo de adquirir conhecimento exige tempo e reflexão, para que se obtenha um resultado com qualidade.]

As caixas

A empresa é conhecida pelas caixas de conhecimento que produzem, tanto para pessoas físicas quanto jurídicas. A confecção da caixa dura em torno de 45 dias, onde 3 curadores trabalham em um processo de curadoria direcionada (não necessariamente temática, mas às vezes multi-temática). Sempre é feito um diagnóstico, uma entrevista que tem o intuito não só de solucionar uma possível dúvida da pessoa, mas também para ver o contexto como um todo, o background ou a cultura da empresa a qual eles estão atendendo.

Nesta conversa pessoal, o curador pergunta para a pessoa sobre sua história de vida, suas paixões, seus heróis e o que ela espera do futuro. A partir do diagnóstico verificado sobre a necessidade de conhecimento da pessoa, os itens que compõem a caixa não são escolhidos de modo aleatório, mas todos se comunicam e fazem um sentido único, personalizado para o destinatário.

A caixa oferece um conteúdo que pode ser relevante para a pessoa, mas o que conta é toda a experiência: essa caixa é confeccionada e entregue da forma mais atraente e inspiradora possível, com anotações, tudo para fazer com que a pessoa se interesse pelo conteúdo. São entregues diversos materiais como livros, filmes, artigos, músicas, indicações palestras e às vezes até mesmo contatos de pessoas para se conhecer e tomar um café.

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Networking conta como uma parte de construção de repertório e conhecimento.

O diferencial da Inesplorato está na necessidade que eles sentem que as pessoas se envolvam com o que é produzido.

“De nada adianta você ter tido o trabalho de selecionar todo um material, ter envolvido todo um processo para a pessoa levar pra casa e simplesmente não ler, não absorver o que foi feito. Então nós tentamos fazer com que o processo seja o mais atraente e inspirador possível, pra conseguirmos este engajamento. Nós sempre pensamos em como criar uma maneira incrível de conseguir relacionar a pessoa com o conhecimento, como que eu te envolvo de uma forma diferente, como eu te apresento algo de modo diferente e como eu conecto todas as coisas que foram selecionadas de uma forma super engajadora e super inspiradora.”

Débora também diz que algumas pessoas lidam com a caixa de forma pesada, pois às vezes são convidadas a se desconectarem de algo que estavam fazendo no piloto automático e iniciarem um processo de coisas novas para serem exploradas e descobertas. E o desconforto com o convite a pensar fora da própria caixa nem sempre é algo fácil de ser empreendido por qualquer pessoa.

Roberto diz que a intenção das caixas é promover um processo de transformação “levando a cabeça das pessoas pro céu, mas mantendo os pés no chão” e ele vê a necessidade de que o trabalho mostre seu valor com a pessoa aplicando aquele conteúdo na vida pessoal, obtendo impactos práticos. São sugeridas missões para a pessoa realizar com o material recebido e é a partir disto que a empresa recebe seu feedback.

Outros Serviços

Além das caixas feitas para pessoas físicas, Débora falou um pouco sobre empresas que utilizam o serviço da Inesplorato como a Globo, Avon, Ambev e Whirpool Latin America. Os temas são os mais variados possíveis e vai desde amor e causa feminina até utilização de elétrodomésticos pelo mercado brasileiro. A empresa também oferece serviços de coaching e tem estudos contínuos que alimentam sua base de informação com curadorias temáticas, como foi citado o caso do Culturas Brasileiras.

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Inpirar. Criar. Repetir. Aprendizagem e construção de repertório como processos contínuos…

Mas acreditamos que foi necessária uma boa dose de persistência para conquistar o mercado, que é sempre difícil:

“O mercado vê o conhecimento como luxo e não como base. O processo de aprender é doloroso e nem sempre tranquilo. Às vezes pode ser difícil se permitir provocar a pensar de uma forma diferente, às vezes é mesmo mais fácil permanecer na zona de conforto. Acredito que isso mude a partir do relacionamento que cultivamos com o cliente, que quando começa a ser desenvolvido, começa a criar conteúdos próprios e trazer novas propostas. Isso tudo é muito gostoso de perceber e acompanhar”. – Débora Emm

A empresa também está está em processo de beta testing com o Mappa, que vai ser um modo de fazer com que a caixa se torne acessível a todos, também em ambiente digital. Segundo a Débora, esta foi uma forma de racionalizar o processo analógico, lidando também com o mesmo problema que outras empresas que trabalham com informação enfrentam diariamente: o seu excesso. A ideia do Mappa é que as pessoas possam mapear seus conhecimentos para identificarem o que sabem que sabem, o que não sabem que sabem e o que não sabem de fato.

A intenção é fazer com que as pessoas possam ganhar consciência das informações que consomem e os conhecimentos que adquirem e enxergar o que está sendo adicionado ao seu repertório pessoal, a partir de uma busca manipulável e customizada, num universo finito de conteúdo.

[Fiquei com uma questão depois de pensar sobre tudo o que ouvi e não consegui perguntar na hora: em relação aos clientes pessoa jurídica, o que diferencia o trabalho de curadoria da Inesplorato de um trabalho, por exemplo, de gestão do conhecimento, pesquisa de mercado e/ou inteligência competitiva?]

4 Perfil Profissional

Em dado momento, Mariana perguntou sobre o perfil profissional das pessoas que trabalham na Inesplorato, pois ao que tudo indicava, eles teriam talvez “criado uma nova profissão”. [Talvez não. Mas definitivamente eles souberam vender melhor ou ao menos de forma diferenciada o ‘produto’ conhecimento.]

Débora citou três habilidades essenciais para uma pessoa que tem a intenção de trabalhar com curadoria do conhecimento: 

  1. Capacidade de Empatia: é necessário que seja uma pessoa sensível, que consiga se colocar no lugar do outro e pensar pela perspectiva do outro (tanto para pessoas, quanto empresas) e que tenha capacidade analítica, entendendo qual é o nó a ser desatado;
  2. Abertura a multiplicidade de assuntos: a pessoa deve ser pouco afeita a especializações, ou melhor dizendo, um especialista em generalidades.
  3. Postura não preconceituosa: alguém que mantenha a guarda baixa, que seja pouco preconceituoso e tenha coração aberto de interesse para ouvir. Nem sempre o que será pesquisado é divertido.

De acordo com o entendimento dos sócios, não há uma profissão que é definida para ser um curador. A equipe é multidisciplinar e afeita a generalidades e Débora disse se interessar por pessoas que desistiram de faculdades, pois elas detém um pouco de conhecimento sobre cada área. Sobre a pegada que a pessoa precisaria ter, para Roberto é necessário ser gente fina pois “de nada adianta a pessoa ter o maior repertório do mundo se ela não está disposta a colaborar e entender a cultura da empresa”.

Durante a seção de perguntas, Ana mencionou que identifica a profissão de bibliotecário com a do curador e perguntou à Débora e ao Roberto se eles acreditavam que havia afinidade. Roberto falou que eles recebem vários currículos de bibliotecários e a Débora falou que existe sintonia entre o trabalho do bibliotecário e do curador, mas mais no processo inicial de pesquisa. Já para a área do mundo dos negócios e análise de mercado, este processo estaria mais distanciado e entendido como a parte que “o bibliotecário não entra”.

[Entendo que esta é uma visão dela, mas não posso deixar de reconhecer que existem sim vários bibliotecários que trabalham com e se especializam nas áreas de gestão do conhecimento e inteligência competitiva em negócios, trabalhando diretamente com e para o mercado. Não são todos. Não são muitos. Pero que los hay, los hay.]

Lições Aprendidas

Acho que o mais interessante desse encontro foi poder ouvir todas essas coisas, entender o que a Inesplorato faz de diferente e ver o que podemos incorporar ao nosso fazer diário. Ana citou algumas coisas que achou importante aprendermos e algumas características que o profissional da informação precisa refinar para ser um curador do conhecimento:

  • Empatia;
  • Pensar em produtos que “encham os olhos”;
  • Refletir sobre o que está sendo oferecido; [o curador tem o papel de dar uma “mastigada” no conteúdo?]
  • Propôr outras formas de pensar;
  • Capacidade de analisar o mercado/cenário atual;
  • Engajar e inspirar;

Para ela fica a questão: “hoje, o que te faria buscar um profissional da informação?”

Para mim, as palavras-chave foram duas, que inclusive podem responder a pergunta da Ana: relacionamento e engajamento.

Costumo dizer que biblioteconomia é o curso de humanas menos de humanas que conheço. Vindo de um background com jornalismo e biblioteconomia, entendo que essas duas áreas que trabalham diretamente com informação em seu fazer tem duas pretensões em comum: a de imparcialidade e objetividade. Esses dois profissionais tem perfil de pesquisadores, mas estão sempre focados em atingir um objetivo que sempre me pareceu um tanto quanto árido, em pesquisa.

A princípio entendo que esta não é a intenção de um pesquisador que é curador de informação ou de conhecimento (dois termos que também são bem distintos em nossa área e discutidos e delineados ad nauseam).

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Strychnos toxifera, planta de onde se extrai o curare. Ilustração do livro Plantas Medicinais de Köhler, de 1887.

Basicamente, acredito que a diferença entre curadores e bibliotecários seja a seguinte:

Bibliotecários entendem o termo curadoria a partir de sua origem do latim, curare, que significa cuidar, zelar, tratar.

Curadores do Conhecimento – independente de profissão que tenham – compreendem o termo a partir de sua origem no tupi-guarani, onde curare significa um veneno de ação paralisante, com efeito letárgico. Ou seja, o efeito deve ser o de catarse.

A informação organizada é importante e tem seu propósito, muitas vezes. Mas a motivação para a curadoria é diferente no sentido de desburocratizar e desacelerar esse processo de consumo de informação, que poderia não ser tão mecânico e prático mas prazeiroso, intenso.

Há diferença entre ter a certeza de receber um conjunto de informações exatas, corretas e assépticas e arriscar-se a receber informações que contenham beleza, verdade e significado pra você? Algo para pensarmos a respeito e talvez nos inspirarmos…