As time goes by

Fui convidada a participar de uma mesa de debates sobre o tema Desafios do Bibliotecário do Século XX vs Desafios do Bibliotecário do Século XXI: As Mudanças e Encontros Geracionais da Biblioteconomia, dentro do evento REPense: O Papel das Bibliotecas no Auxílio da Sociedade, organizado pelo InFoco, grupo de ex-alunos de Biblioteconomia da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP).

Como minha companheira de mesa era a jovem Mari Galvani, assumi que a tarefa de falar sobre o século passado seria minha. Vou reproduzir aqui mais ou menos o que foi minha apresentação, incluindo o que acabei não dizendo por falta de tempo ou esquecimento mesmo.

Comecei explicando o que sou: mulher de 58 anos e meio (como dizem as crianças), feminista, de esquerda, trabalhadora assalariada, filha e neta de trabalhadores, bisneta de trabalhadores rurais, parte deles imigrante. Embora tenha, por enquanto, emprego, salário razoável, casa própria e possa comprar livros e passar férias na Europa – uma privilegiada, portanto – continuo sendo uma mulher da classe trabalhadora e a única coisa que tenho na vida é a força de trabalho que vendo para o Estado. Meu futuro, como o de qualquer trabalhador brasileiro, é incerto. Muita gente por aí se esquece disso.

Esperança

Entrei na faculdade em 1979 e concluí o curso de Biblioteconomia em 1982, já trabalhando na biblioteca onde estou até hoje. Vivi como adulta, estudante e profissional, os últimos anos da ditadura civil-militar instaurada pelo golpe de 1964. Ainda havia perigo, general na presidência, censura, gente no exílio etc, mas também havia esperança. Sabíamos que aquele período nefasto estava chegando ao fim e acho que sabíamos o que deveríamos fazer.

Vi a luta pela anistia, o fim da censura, a campanha das diretas, a redemocratização, a criação do Partido dos Trabalhadores, as primeiras eleições diretas para presidência da república. Vi o país mudar para melhor, aos trancos e barrancos, mas para melhor.  E hoje, vejo todo o horror do passado voltar, inacreditavelmente por meio do voto popular. E vejo bibliotecários que juraram “tudo fazer para preservar o cunho liberal e humanista da profissão de bibliotecário, fundamentado na liberdade de investigação científica e na dignidade da pessoa humana” apoiarem um projeto político racista, machista e homofóbico, que defende a ditadura, a tortura e o extermínio dos adversários políticos, ataca a cultura, a liberdade de expressão, a pesquisa científica, a educação, o meio-ambiente, os índios … e deixa queimar a floresta amazônica.

Hoje, ter esperança está mais difícil, tanto no país quanto na profissão de bibliotecário. Ter esperança é um desafio bem contemporâneo.

Formação política

Em minha época de estudante, formação política não existia. Na graduação, a política deu as caras apenas nas disciplinas básicas da área de comunicações. Já naquela época, ouvi dos professores o quanto era importante aprendermos a ler os meios de comunicação de forma crítica. “Precisamos ensinar a população a entender o discurso da televisão”, diziam eles. Nas disciplinas específicas de biblioteconomia, entretanto, o assunto morreu.  Mesmo aqueles professores que falavam na função da biblioteca da sociedade tinham, no fundo, uma visão idealizada de biblioteca, desconectada do seu entorno político e social. Era como se a biblioteca flutuasse numa nuvem cor-de-rosa acima do mundo, dependendo, para seu sucesso ou fracasso, apenas da atuação dos bibliotecários.

E vejam que não estou pensando numa formação política muito profunda, não mesmo. Se conceitos como direitos humanos, liberdade de expressão, tolerância, manipulação, estado laico, ditadura, democracia, comunismo, fascismo, nazismo, esquerda, direita, revolução e golpe de estado estivessem presentes no cotidiano de estudantes e profissionais, já seria um bom começo. Talvez assim a gente encontrasse menos colegas apoiando projetos de poder que, no limite, colocam em risco as bases da profissão e ameaçam nosso mercado de trabalho. Talvez a gente não tivesse que engolir bibliotecários propagando alegremente “fake news”.

A formação política do bibliotecário não precisa se limitar às salas de aula das faculdades. A participação em sindicatos, associações de classe e movimentos de trabalhadores costuma ser um excelente aprendizado. Foi participando dos movimentos dos funcionários da USP que aprendi que pertenço à classe trabalhadora e sempre pertencerei, que “mexeu com um, mexeu com todos” e, sobretudo, que a luta continua.

Esse é um desafio de ontem, de hoje e  será de amanhã, se houver amanhã.

Diversidade

Uma das melhores novidades deste século é a discussão sobre diversidade nas bibliotecas. Em meus primeiros anos de profissão não se falava  disso – ou se falava tão pouco que a velha aqui não se lembra mais. Hoje já temos pós-graduandos negros questionando a bibliografia predominantemente branca e europeia dos cursos e procurando por autores africanos nas bibliotecas;  mulheres em busca de textos escritos por mulheres;  pessoas transgênero exigindo o direito de serem tratadas por seu nome social; bibliotecárias negras escrevendo livros sobre bibliotecár@s negr@as;  todo mundo questionando os preconceitos presentes nas tabelas de classificação e vocabulários controlados.

Algumas dessas demandas, como o acesso à informação por caminhos que um exército de metadados furiosos e uma muralha de regras consagradas teima em barrar, chegaram com muita força. Essa chegada é uma prova de que muitos caminhos já foram desbravados e, por maior que seja o retrocesso, não vamos voltar passivamente para a cozinha, para a senzala ou para o armário.

A diversidade é o desafio do momento.

Tecnologia

Quando comecei a trabalhar em biblioteca, na Idade da Ficha de Cartolina Branca, meu maior anseio em termos de tecnologia era uma máquina de escrever elétrica com corretivo. E olhem só, eu era uma bibliotecária tão privilegiada que dispunha de um projetor 16 mm e podia projetar eu mesma os filmes que catalogava.

A informática ainda era algo muito distante, mas que não assustava ninguém. Só os bibliotecários mais bobinhos pensavam que seriam “substituídos por um computador”. O futuro era nosso.

Mas o futuro foi chegando e arrastando, aos poucos, todas as nossas ilusões. Informatização significava, em inúmeros casos, não uma decisão técnica e administrativa, precedida de estudos das necessidades dos usuários (risos, risos), mas apenas uma conveniência política originária do andar de cima. Era o diretor que achava bonito “ter tudo no computador porque é mais muderno”, era alguém escolhendo o software X ou Y por interesses particulares, era o departamento de informática querendo criar tudo do zero por vaidade, para tudo acabar nas pobres das bibliotecárias usando o Micro-Isis mesmo, porque foi o que deu. E, por fim, quando chegou  o sistema proprietário estrangeiro que fazia de tudo e resolveria todos os problemas, aprendemos que software não faz porcaria nenhuma sozinho, o que faz tudo  ou nada acontecer  é vontade política ou falta dela.

Durante tudo o processo, que começou com a gente percebendo que a máquina elétrica corretiva não viria e que era melhor aprender um bagulho chamado word e outro chamado dbase num computador velho, vi muitos colegas se tornando obsoletos. Gente que foi bom profissional na juventude, mas que não deu conta de incorporar o avanço rápido da tecnologia e reaprender a trabalhar. Nós, os não tão velhos, tentamos dar as mãos aos que submergiam e puxá-los para cima, mas muitos não conseguiram.

Também vi serviços que um dia foram inovadores perderem completamente o sentido em poucos anos, com a chegada da internet. A coleção de slides que ajudei a criar, por muitos anos menina dos olhos dos professores de arte, morreu de obsolescência tecnológica sob nossos narizes. Não que eu não soubesse mais ou menos o que deveria ser feito para remodelar o serviço, mas simplesmente não havia recursos tecnológicos, financeiros ou humanos ao meu alcance.

Antigamente, no tempo dos catálogos de fichas, diziam que as dificuldades intransponíveis na busca em acervos de documentos eram culpa dos fichários, coisas velhas, poeirentas e complicadas. O computador resolveria tudo. Hoje, as dificuldades intransponíveis são atribuídas às bases de dados ruins, interfaces horrorosas, softwares ultrapassados etc. Então, não é exatamente assim. As ferramentas ruins realmente atrapalham, mas a maior culpa é da falta de hábito em acessar acervos organizados, tanto físicos quanto digitais, falta de leitura, problemas com raciocínio lógico, preguiça de ler e entender o que está diante dos olhos, desconhecimento do que seja pesquisa até entre doutorandos. Observem que me refiro a dificuldades intransponíveis, porque dificuldade todo mundo tem mesmo.

Alguns desafios parecem mesmo eternos. Já escrevi um pouco sobre isso aqui mesmo no BSF.

Comunicação

Comunicar-se com seu público já foi um dos maiores problemas dos bibliotecários. Em tempos pré-internet, divulgar acervo e serviços ou estabelecer um diálogo mínimo com os usuários era dureza. As bibliotecas sem dinheiro faziam trabalhosíssimos boletins datilografados e xerocados que ninguém lia, de tão feios que eram. Um dos nossos diretores, crítico e historiador de arte, pegou uma publicaçãozinha nossa, folheou-a meio sem jeito e soltou essa: “meninas, eu até gosto de arte povera, mas isto aqui já é demais”.

A situação atual é incomparavelmente melhor. Quem viveu nos tempos dos boletinzinhos arte povera mal acredita nos recursos que temos agora: Canva para produzir facilmente cartazes e folhetos bastante decentes, blogs, chats, ferramentas de marketing para fazer newsletter, mídias sociais para postar avisos com fotos de gatinhos… Enfim, um verdadeiro parque de diversões. Hoje a comunicação com o público pode ser rápida, interativa, direta e informal. Podemos finalmente desamarrar a cara sisuda que sempre tivemos e brincar com os usuários, basta saber usar a tecnologia que temos ao nosso alcance. É aí que mora o problema. Embora existam cada vez mais bibliotecas fazendo um trabalho excelente nas redes sociais, e até bibliotecários dando dicas simples de marketing pros coleguinhas, ainda há muitas bibliotecas que conseguem burocratizar até o Facebook e Twitter. Vocês já ouviram falar que, em algumas bibliotecas, todas as postagens nos perfis institucionais precisam ser previamente aprovadas pela chefia? Bem, isso existe, não é lenda urbana de bibliotecário.

Algumas coisas não mudam jamais.

Os audiovisuais

Minha primeira tarefa profissional foi organizar um acervo de filmes. Depois vieram as fotografias, slides, partituras e gravações de música. Os documentos audiovisuais já foram uma promessa de mercado de trabalho que se abriria para os bibliotecários. Passei os últimos quase 40 anos ouvindo professores dizerem que “biblioteconomia não se ocupa SÓ de livros” e bibliotecários chamarem filmes e fotografias de “materiais especiais”, tanto uns como outros tratando essas coleções com ferramentas criadas para tratar textos.

Não vi, de lá para cá, muitos avanços nessa área, pelo menos não no Brasil. Já apresentei aqui minhas preocupações com a perda desse mercado.
Se eu fosse otimista, diria que o desafio de hoje é recuperar os espaços perdidos ou, pelo menos, tentar não perder mais nada. Mas eu não sou.

Epílogo: o fim do SIBiUSP

Em 1981, quando foi criado o Sistema Integrado de Bibliotecas da USP  (SIBi) foi criado em 1981, eu já trabalhava na Universidade. Esse órgão, cuja criação tornou possível que as bibliotecas da USP, cada uma delas subordinada à sua faculdade, instituto, escola ou museu, conseguissem trabalhar em conjunto nas atividades comuns a todas, acaba de ser extinto.

A Agência USP de Gestão da Informação Acadêmica, que substitui o SIBi, é presidida por um docente sem formação em biblioteconomia. O projeto da Agência foi –  ou está sendo – definido sem a participação dos bibliotecários da Universidade. O que será essa Agência? Ninguém sabe. O que vai acontecer com as bibliotecas? Ninguém sabe. Vejam aqui um pouco dessa triste história, contada por uma bibliotecária velha que nunca imaginou que viveria para ver o fim do Sistema Integrado de Bibliotecas da USP.

The fundamental things apply
As time goes by