Altmetrics: por que se importar?

Na semana passada Moreno e Andréa falaram um pouco sobre as altmetrics: o que são, que possibilidades e desafios oferecem, o que nós bibliotecários temos a ver com isso. Quero acrescentar meus dois centavos nesta conversa, vamos lá?

A altmetrics ou altmetria foi o tema da minha dissertação de mestrado, que está disponível aqui para quem quiser ler e comentar (para ir direto ao ponto, podem ler só os capítulos 4-8). Minha maior motivação para escolher falar disso foi justamente a vontade de apresentar e contribuir para a discussão sobre a área aqui no Brasil.

Mas por que nós deveríamos nos importar com a altmetria? Como o Moreno bem disse, “o panorama sobre o tema ainda não é perfeitamente claro ou consensual”. Uma das coisas que constatei na minha pesquisa é que, por enquanto, ninguém sabe muito bem para que servem as métricas alternativas, ou o que exatamente elas medem. E muita gente no meio acadêmico ainda torce o nariz para as redes sociais – bater papo no Twitter, escrever blog, nada disso contribui para construir uma carreira acadêmica séria. E aí? Vale a pena conhecer, estudar, discutir e divulgar a altmetria? Eu acho que sim, e quero compartilhar com vocês algumas razões para isso.

Razões teóricas

Parte da proposta da altmetria é valorizar outros impactos além da citação, outros produtos além do artigo científico, outros públicos além do acadêmico. Sim, o volume de dados altmétricos gerados para um determinado artigo ainda é, no geral, muito baixo; mas o fato é que as pessoas estão, sim, interagindo com documentos científicos online. Quem são estas pessoas, quais são suas motivações? O fato de não sabermos ainda exatamente o que significa(m) a(s) altmetria(s) não deve ser motivo para descartá-la(s), pelo contrário – é um convite para explorar um campo ainda desconhecido.

Razões práticas

Muitos de nós, bibliotecários, estamos envolvidos na criação e manutenção de repositórios institucionais. Adotar ferramentas de compartilhamento e monitorar a interação dos usuários com seus produtos nas redes sociais pode ser importante para demonstrar diferentes usos e possíveis impactos dos produtos de pesquisa da sua instituição. Este artigo (em inglês) mostra como o uso da altmetria em RIs pode ser valioso para autores e administradores.

A altmetria também pode ser benéfica para o pesquisador individual – e isso vale tanto para os nossos usuários quanto para nós mesmos. Jason Priem e Heather Piwowar, fundadores do ImpactStory, dão 10 motivos para incluir dados altmétricos no seu currículo. Eu acrescento mais um à lista – motivação pessoal. Quem já trabalhou com pesquisa (ou escreveu um TCC) sabe como pode ser desanimador pensar que só a sua banca vai ler aquela coisa linda que você passou semanas/meses/anos escrevendo. Mas quem disse que tem que ser assim? Você pode colocar seu trabalho online em sites como o Figshare (que dá um DOI para cada item postado) e criar seu perfil no ImpactStory para acompanhar quem, onde e o que estão falando sobre o seu trabalho. Claro que nada disso dará muito resultado se você não contar pra ninguém. Divulgue seu trabalho nas redes, envolva-se com as pessoas que se interessam pelas coisas que te interessam, participe da conversa. Os resultados podem te surpreender…

Razões políticas

O surgimento da altmetria não é um acontecimento isolado: ela é parte da reação à crise do sistema de comunicação científica. Um de seus marcos iniciais, o texto Altmetrics: a manifesto, deixa claro um posicionamento crítico à hegemonia do fator de impacto na avaliação da produção científica. Esta crítica também está expressa na San Francisco Declaration on Research Assessment (Declaração de São Francisco sobre Avaliação da Pesquisa, conhecida pela sigla DORA), que traz entre suas recomendações o estímulo à utilização de uma variedade de métricas e indicadores na avaliação de impacto.

As métricas alternativas podem ser especialmente benéficas para países periféricos como o Brasil, ajudando a demonstrar de forma mais completa os impactos da pesquisa realizada por aqui. Mas esses benefícios não são automáticos. A Andréa já comentou sobre alguns dos desafios técnicos e econômicos que precisamos enfrentar nesta área, como o custo para utilização das ferramentas do Altmetric.com e a adoção do DOI e/ou outros identificadores que permitam o acompanhamento adequado dos produtos de pesquisa na web. O argentino Juan Pablo Alperin é bastante enfático ao afirmar que é preciso um esforço consciente e deliberado para aproximar a altmetria dos pesquisadores de países periféricos, evitando os erros que já cometemos em relação ao fator de impacto (ver Ask Not What Altmetrics Can Do for You, But What Altmetrics Can Do for Developing Countries; e Altmetrics could enable scholarship from developing countries to receive due recognition).

Precisamos de mais estudos sobre altmetria e suas possibilidades, e de ferramentas que atendam às nossas necessidades específicas – revelando a qualidade e o impacto das nossas pesquisas, para além das bases internacionais. Acredito que nós bibliotecários podemos contribuir muito para mudar este jogo. Mãos à obra!


P.S.: Tive a honra de ser entrevistada pelo SciCast Podcast, falando um pouco sobre Biblioteconomia, Ciência da Informação, e, claro, altmetria. Ouçam, comentem, critiquem 🙂

 

Altmetrics: pode ser?

Quando estudamos o surgimento dos periódicos, aquela história do Journal des sçavans, percebemos que as revistas científicas foram criadas para suprir a falta de canais de comunicação entre os pesquisadores, que já contavam com uma comunidade de pares para discutir e selecionar o que lhes parecia mais relevante em suas áreas. Atualmente, o cenário da comunicação científica é praticamente o oposto, dado o inesgotável número de revistas científicas e outros canais de comunicação acadêmica.

Porém, da mesma forma, a comunidade de pares continua sendo fundamental para discutir e selecionar o que merece ser lido. Ou melhor, nesses nossos tempos, o que merece ser curtido, seguido, postado, retuitado, compartilhado.

Os pesquisadores de hoje se comunicam através do Twitter, do Facebook, e de redes sociais acadêmicas que cumprem um papel cada vez mais importante para a construção da ciência. Para dar conta dessa tendência de citações online, fora dos padrões tradicionais de citação de artigos, surgira as altmetrics, sobre as quais o Moreno já falou um pouco aqui.

E seria tudo muito lindo para os pesquisadores e as revistas científicas, um novo caminho, uma alternativa à tirania do fator de impacto, não fosse por um pequeno detalhe: os nossos pesquisadores e as nossas revistas  científicas ainda não estão preparados para produzir esses tipos de métricas.

O Moreno já falou no post dele sobre as dificuldades dos pesquisadores em entender e gerar essas métricas, e como os bibliotecários podem ajudar toda uma geração (ou várias) de pesquisadores a mostrar o valor da sua produção sob a ótica das altmetrics.

E do outro lado estão as revistas científicas, de onde essas métricas deveriam ser extraídas. Se todos os nossos pesquisadores publicassem somente na Nature, PLOS One ou Elsevier, não haveria problema, já que essas publicações já conseguem integrar APIs de medição de atenção online e produzir métricas a nível de artigo, usando o Altmetric, uma das principais ferramentas que coletam dados para a produção dessas métricas.

Os resultados de uma recente pesquisa que apresentei no 4o. Encontro Brasileiro de Bibliometria e Cientometria sobre os  periódicos científicos brasileiros na área de Ciência da Informação, mostram que somente quatro publicações são rastreadas pelo Altmetric. E a quantidade de menções registradas em redes sociais e acadêmicas é ainda muito baixa.

Vão dizer: “Claro! Porque as nossas revistas não são citadas!”. Mas não é tão simples assim.

Para usar as ferramentas do Altmetric, é necessário pelo menos (1) pagar uma assinatura anual pelo serviço, que custa de 11.000 a 19.000 reais, e (2) prover um DOI ou outro identificador único para que o API retorne todos os dados de menção a um documento, coisa que poucas revistas científicas publicadas no Brasil tem, sendo a grande maioria da coleção SciELO.

Isso é só um exemplo dos desafios econômicos e técnicos que ainda teremos que enfrentar para ver resultados concretos da aplicação das altmetrics no Brasil.

Mas o Altmetric é somente uma das ferramentas que produzem métricas alternativas. E com seu crescimento já passou a oferecer acesso gratuito a algumas funcionalidades a pesquisadores e bibliotecários. A cada dia surgem novas opções de serviços de altmetrics, e certamente haverá iniciativas voltadas para os países periféricos, cuja ciência segue clamando por uma forma alternativa de provar o seu reconhecimento.

Vamos ver.