Simplificar ou não?, eis a questão

Segunda-feira passada recebi pelo Twitter a notícia de que uma escritora mudaria a obra de Machado de Assis para facilitar a leitura.

Os comentários que li foram todos divididos. Curiosamente, quem se colocava fervorosamente contra a simplificação da obra eram pessoas que são da área de Letras, especificamente. Bibliófilos (pessoas de várias áreas) se colocavam à favor da alteração da obra. Argumentos de ambos lados com argumentações bastante apaixonadas. E muita gente, como eu, ficou bem dividida.

O primeiro questionamento que tive foi entre a diferenciação entre adaptação e simplificação, pois sim, são processos diferentes. Adaptação é uma modificação do enredo da história como um todo ou em partes e envolve criação. Na simplificação a história pode não mudar, mas o vocabulário muda – algumas pessoas defendem que não há mérito nem valor literário nenhum nessa troca de palavras. Algumas pessoas consideram a simplificação um atentado, um crime contra a nossa língua pátria. Não sei porque, isso me soa como um exagero, mas vá lá.

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Li também “se vocês são contra a simplificação, também são contra a tradução?”. Considero tradução como um trabalho de adaptação mesmo porque nem todo o vocábulo de um idioma para outro é plenamente traduzível. Às vezes são necessárias interpretações e isso é ligeiramente diferente, pois trata-se de dois códigos (idiomas) diferentes. No caso da simplificação, o idioma é o mesmo. Impossível discordar que haverá, inegavelmente, um empobrecimento de vocabulário com a simplificação da obra.

Mas ao mesmo tempo, ainda falamos como na época que “O alienista” foi lançado?

A linguagem é viva, o idioma muda, o contexto de tudo também. Sinto-me dividida pois entendo que com a simplificação o contexto da história como um todo invariavelmente será deturpado – pois sim, linguagem é parte do contexto histórico, cultural, social, etc. A obra simplificada continuará levando o nome do autor, como se não tivesse sido alterada. Isso também não me parece certo – mesmo póstumo, mesmo em domínio público, não se sabe se essa é a vontade do autor. Caso seja feita a simplificação, acredito que deva levar o nome de quem alterou a obra.

Bm4bRttCMAAHCLPPor outro lado, usam para se referir à simplificação palavras como: mutilação, ode à preguiça, desrespeito, entre outras nada ou pouco amistosas. Pessoalmente, desconfio de absolutos: absolutamente ruim ou bom. Prefiro entender perspectivas, olhares e quanto mais múltiplos, melhor se pode chegar a um consenso ou a um entendimento. Como bibliotecária, entendo como prioridade o acesso à leitura. Sou sempre favorável à pluralidade de fontes – mas tudo depende também do modo como isso é feito.

Sabemos que o problema de falta de leitura – ou pouca leitura – no país é estrutural e sabemos que não é colocando clássicos no vestibular que alguém vai se interessar por leitura. E talvez nem mesmo com uma boa simplificação porque simplesmente não podemos forçar ninguém a ler nada. A leitura deve ser propagada por meio da apreciação e do entusiasmo, jamais por obrigação – simplesmente por esse não ser o melhor modo. E entre ver uma pessoa se interessando por quadrinhos ao invés da leitura de um clássico, vou sempre apoiá-la na decisão do que for  mais interessante pra ela.  Prefiro alguém lendo quadrinhos do que não lendo absolutamente nada.

“Mas aí você vai estar nivelando por baixo ou optando pelo menos pior”. Excelência é uma pretensão reservada – e efetivamente alcançada – por poucos. Qualquer pessoa que diga que “entende Shakespeare” é um embuste, mesmo sendo um especialista. As pessoas – qualquer pessoa – devem ler, fruir e consumir o que melhor lhes aprouver, sem restrições, sem pautas. Como bibliotecária, é isso o que eu defendo. Anything goes. Isso não é diminuir nada, nem ninguém: uma obra não substituirá a outra em absoluto. Pelo contrário: é dar mais uma opção de leitura e fruição. Então, por que não?

Essa discussão se assemelha àquela do “ah, mas os livros são muito melhores que os filmes”. Precisamos parar com esse tipo de pensamento infrutífero e começar a questionar: as pessoas estão lendo livros? Estão vendo filmes? Se sim, por que? Como? Que tipos de comunidades estão sendo criadas em torno de determinada fruição? Etc. A discussão não devia ser levada para o sentido de “bom” ou “ruim”, mas sim levantar mais questionamentos sobre os hábitos de fruição e de engajamento das pessoas. Ou da falta deles – que é onde efetivamente deveríamos agir. Não?

Como bibliotecários, como vocês se sentem em relação a isso?

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