Open Access Button: artigos científicos num clique

Obter acesso a artigos científicos pode ser um desafio, especialmente se você não pertence a uma instituição de ensino e pesquisa vinculada ao Portal de Periódicos da CAPES. Moreno já nos deu dicas valiosas para driblar o desafios – a principal, claro, é procurar a sua bibliotecária de fé, irmã camarada. Hoje, aproveitando que estamos em plena Semana Internacional do Acesso Aberto, apresento a vocês mais um aliado na luta contra as paywalls: o Open Access Button (Botão do Acesso Aberto).

O Open Access Button foi criado em 2013 por David Carroll e Joe McArthur, e teve seu lançamento oficial em 21 de outubro de 2014. O projeto é mantido por uma equipe de estudantes e jovens pesquisadores, com apoio da Medsin-UK e da Right to Research Coalition. O botão foi desenvolvido em parceria com a Cottage Labs, com financiamento de Open Society Foundations, Jisc, Mozilla Science, PLOS e 68 colaboradores individuais via crowdfunding.

Para usar o Botão é preciso se cadastrar no site. Toda informação gerada pelo uso do Botão é pública, por isso a necessidade do cadastro – mas você pode escolher um pseudônimo se preferir o anonimato. Não se assuste se aparecer uma mensagem de erro, isso aconteceu comigo também. Tente atualizar a página; se tudo deu certo, a aba laranja no canto superior direito da tela (onde está escrito “Download”), será substituída por uma aba menor com o ícone de uma engrenagem. Clicando aí, aparecem duas opções – “Your account” e “Logout”. Clique em “Your account” para ver a sua página pessoal, é lá que você encontra o bookmarlet (que funciona em qualquer navegador) e os links para baixar o Botão no Chrome, Firefox, ou Android (a versão para iOS ainda está em desenvolvimento). É só instalar a versão que preferir, e pronto.

Da próxima vez que você der de cara com uma paywall, aquela página exigindo o pagamento de uma taxa para ler/baixar um artigo, é só clicar no bookmarlet ou na extensão do Open Access Button em seu navegador. Na prática, o que o Botão faz é automatizar o processo que o Moreno descreveu.  Primeiro, ele busca por versões gratuitas do artigo desejado no Google Scholar e no CORE (um agregador de repositórios em acesso aberto). Se isto não funcionar, eles mandam um email para os autores do artigo solicitando uma cópia – que será salva e enviada a qualquer outra pessoa que precisar daquele material. Entre os planos futuros está a criação de páginas específicas para cada artigo, com informações adicionais, comentários de leitores, e até resumos simplificados para facilitar o entendimento da pesquisa. Outro objetivo do projeto é reunir histórias sobre como as barreiras à informação científica dificultam o avanço do conhecimento, gerando mais pressão em prol do acesso aberto.

Para saber mais, baixar e quem sabe colaborar (ajudando com o código, por exemplo, ou com as futuras traduções), é só visitar a página do Botão.

O desenvolvimento do Open Access Button é uma amostra da força dos estudantes e jovens pesquisadores no movimento pelo acesso livre à informação científica, em todo o mundo. Afinal, a responsabilidade de melhorar o sistema de comunicação científica também é nossa!

2083 e o futuro da imaginação

Levei um dia para ler o singelo 2083, do espanhol Vicente Muñoz Puelles. É um livro que fala do futuro e passado dos livros, através do relacionamento de um jovem e seu pai. O pai trabalha em uma empresa que cria mundos virtuais com base em narrativas literárias, uma espécie de catálogo de livros onde os usuários podem escolher para quais tramas querem se teletransportar. Uma vez virtualmente no livro, o viajante assume aleatoriamente a condição de um determinado personagem. Por exemplo, você pode viajar para Os Sertões de Euclides da Cunha, se teletransportar para a guerra de Canudos, vivenciando em carne e osso os acontecimento narrados, seja com um soldado, um sertanista ou até mesmo Antônio Conselheiro. Lokão né? Esse é o futuro que eu quero pra minha vida.

Mas o 2083 no fundo me chamou a atenção por implicitamente tratar da questão da volatidade do livro como conceito e entidade física. Livros (impressos ou digitais) projetam mundos por meio da objetivação de pensamentos. A gente sabe que eles são um meio de tomar um mundo, real ou inventado, e comprimi-lo, codifica-lo e apresentá-lo.

Muito tem se falado sobre os livros como veículos de storytelling, e alguns projetistas estão buscando adequar a experiência de imersão da leitura com os dispositivos tecnológicos que possuímos hoje (a diagramação do 2083 conta com QR codes que incrementam a leitura em papel, por ex). Eu já escrevi sobre isso antes (“o que os bibliotecários precisam saber sobre os ebooks”), mas a melhor maneira de entender a transição da narrativa dos livros, do papel para o digital, explorando o potencial do segundo, é assistindo os vídeos abaixo:

Na trama do 2083, ano em que se passa a história, os livros físicos desaparecem para ceder espaço para essa nova modalidade de imersão narrativa. As pessoas desistem de ler livros simplesmente porque se tornaram desinteressantes. Se eu posso assistir uma representação ou encenação perfeitamente construída de uma realidade imaginada, de que serve o romance em papel, afinal? Ou seja, o estilo literário é apenas um tipo de janela para mundos interessantes, com pontos fortes e fraquezas, zonas de clareza e opacidade, que apesar de esforços contínuos, não consegue, ainda (nos idos de 2014), oferecer a experiência visceral de um vídeo-game ou um filme ou programa de televisão. Por outro lado, reconhecemos que modos não-literários de construção de mundos ainda não são perfeitos em dramatizar o pensamento ou implantar metáforas.

Existem também razões econômicas porque os livros provavelmente não vão desaparecer. Em uma era de conglomerados multinacionais de mídia verticalmente integrados, livros continuam sendo úteis como veículos baratos para a criação de mundos, que posteriormente desovam em outras mídias com maior margem de produtos de consumo. Uma empresa como a DC Comics sustenta sua divisão de quadrinhos quase meramente como um meio de pesquisa e desenvolvimento para seus filmes altamente rentáveis. Os produtores de filmes muitas vezes terceirizam a criatividade a partir de romances populares ou série de livros (Harry Potter, Guerra dos Tronos, Jogos Vorazes, etc).

Mas no final das contas, o livro (seja de poesia, drama ou prosa) se encaixa perfeitamente nos currículos e em programas de estudo em todos os níveis de ensino. E o romance ainda está no topo da pirâmide da narrativa e prestígio cultural. O livro ainda é uma forma com grande capacidade de capturar a imaginação de um público faminto por mundos. Essas são forças que, felizmente, serão difíceis de desconstruir.

O futuro do conceito do livro é, portanto, o futuro da capacidade do livro de facilitar o acesso dos leitores aos mundos. Contanto que os seres humanos tenham fome de mundos inteiramente evocados, que incluam figuração ou informações densamente compactadas ou interpretações de personagens cujas vidas interiores são ricamente acessíveis, algo muito parecido com o livro irá sobreviver.

Não contem com o fim do livro.

O 2083 é um livro bonitinho, voltado para o público infanto-juvenil. Recomendo muitíssimo. Ele é da editora Biruta e pode ser encontrado na Livraria Cultura e Saraiva.

20 perguntas de entrevista de emprego para bibliotecários

Depois de seis meses de procura, eu finalmente fui contratada numa biblioteca pública como auxiliar, trabalhando em turnos de sobreaviso. Durante a busca por emprego, refiz o meu currículo dezenas de vezes, enviei para diversos lugares e sempre dava com a porta na cara. Até que finalmente fui chamada para uma entrevista! Catei na internet recursos que ajudassem a me preparar para a entrevista e procurei por perguntas específicas para bibliotecários. Como minha experiência profissional prévia não era em bibliotecas, meu desafio seria ainda maior, tentando provar como minhas qualificações e experiência anteriores seriam transferíveis para o ambiente e trabalho numa biblioteca.

Fui mal na entrevista. Assim que terminou, eu sabia que não tinha ido bem. Selecionei várias perguntas e ensaiei minhas respostas antes do dia, mas na hora do “vamo vê”, acabei me enrolando e não respondendo satisfatoriamente às perguntas que me fizeram. A maioria das perguntas eram comportamentais, daquelas que você tem que dizer o que fez (ou faria) em tal situação, ou dando exemplos de eventos que aconteceram na sua vida profissional que demonstrem a sua conduta dentro de situações específicas (as situações de conflito são particularmente complicadas de responder de uma forma que você não fique mal na fita). Não me chamaram de volta.

Felizmente, algumas semanas depois, outra biblioteca me chamou pra entrevista e dessa vez fui bem mais tranquila. Resolvi não ensaiar tanto como na primeira, resolvi seguir meu coração nas respostas. E funcionou! No dia seguinte ao da entrevista, recebi a ligação com a oferta de trabalho!

Hoje, compartilho com vocês algumas das perguntas que me fizeram e outras que encontrei durante minha pesquisa. De repente tem alguém aí do outro lado da tela que está disponível no mercado e tem que se preparar para uma entrevista de emprego.

1. Quais são suas fraquezas?

2. Quando você falhou no trabalho? Explique o que aconteceu e o resultado final.

3. Por que você quer trabalhar nessa biblioteca?

4. Qual é a sua filosofia em relação à biblioteconomia e trabalhar em bibliotecas públicas?

5. Onde você se vê em 5 anos?

6. Se você estivesse sozinho na biblioteca e um usuário estivesse bebendo bebida alcoólica (aqui no Canadá é proibido) enquanto usava o computador, o que você faria?

7. Você está no balcão de informação e duas crianças estão correndo pelas estantes. Alguns usuários já reclamaram do barulho. Você já alertou as crianças a não fazer isso, mas elas continuam. O que você faz?

8. Fale sobre um livro que você recomendaria para adultos e por quê?

9. Se tempo e dinheiro não fossem impedimento, que tipo de projeto você gostaria de fazer na biblioteca?

10. Como você lida diante de mudanças?

11. Como você lidaria com uma pessoa que estivesse fazendo algazarra na biblioteca?

12. Se você não concordasse com uma atitude do seu superior, o que você faria?

13. Dê um exemplo de erro de comunicação entre você e um usuário. O que você fez?

14. Você já entrou em conflito com algum chefe ou colega de trabalho? Como lidou com a situação?

15. Por que a gente deve te contratar?

16. Quais são as habilidades ou experiência que você tem e outros candidatos talvez não tenham?

17. “A referência está morta.” Você concorda ou discorda? Qual é o valor do serviço de referência nos dias de hoje?

18. Você está no balcão de informação atendendo um usuário. Outra pessoa entra na fila. O telefone toca. O que você faz?

19. Quais são seus três recursos mais importantes para uso em bibliotecas públicas?

20. O que você faria se não soubesse responder uma pergunta de um usuário?

Como você responderia a essas perguntas?

Imagem: Flazingo, sob licença Creative Commons

Como acompanhar a publicação de artigos científicos em sua área de pesquisa

A rotina diária de um pesquisador costuma incluir a verificação de emails e alertas da internet para acompanhar e escolher os artigos mais recentes publicados em seu campo de pesquisa. Esse fluxo de conteúdo foi por um tempo controlável, mas a medida que a publicação cresceu exponencialmente, deixar de monitorar estas ferramentas por um dia sequer faz com que todo o trabalho de acompanhamento das novidades científicas se torne um fardo. Cerca de seis mil artigos científicos são publicados a cada dia, e embora ninguém queira ser sobrecarregado com recomendações de leitura, deixar escapar os artigos importantes da área pode ser determinante para o avanço de uma pesquisa.

Então os pesquisadores se perguntam: o que fazer para não ser soterrado por uma avalanche de informações, e qual é a melhor maneira de se manter atualizado sobre as novidades da área?

Se aceitam minha sugestão, a dica número 1 é utilizar os alertas do Google Acadêmico. Uma vez logado com sua conta google, basta clicar sobre o ícone na barra superior para criar um alerta. Você designa uma palavra-chave ou conjunto de palavras, indica um email que receberá as notificações e pronto. Apenas tenha cuidado na formulação da palavra-chave: não seja muito genérico ou específico demais e procure reconhecer os termos e jargões utilizados pela área, mesmo que esteja lidando com um tópico relativamente novo. Decida também se você prefere buscar por palavras em inglês, a língua global da ciência, ou somente em português, caso restrinja sua revisão bibliográfica à artigos publicados em língua portuguesa. Em geral, o Google faz o rastreio por essas palavras-chave no título e resumo dos artigos, que são continuamente indexados em sua base. Os alertas podem ser criados ou desativados a qualquer momento.

[aqui a criação de um alerta para o tópico “vírus ebola”]

Outra função do google acadêmico é a possibilidade de acompanhar as publicações de um pesquisador, ou até mesmo todos os trabalhos secundários que citam esse autor em questão. Pra isso, você precisa pesquisador pelo nome do autor no campo de busca e verificar se ele já possui um perfil no google acadêmico.

[primeiro procure pelo autor. coloquei aqui um pesquisador aleatório, mark hunt. se encontrar o perfil no google scholar, basta clicar sobre seu nome]

A necessidade de existência de um perfil do Google Scholar, que é auto declarado pelo autor, é uma deficiência no GS. O Artur Avila, por exemplo, não possui um perfil, então eu não tenho como criar um alerta específico para os trabalhos em que ele entra como primeiro autor. Ruim também para autores que não tenham um volume de publicação de grande repercussão, mas que eventualmente publicaram trabalhos de grande relevância para a sua área.

[depois de entrar no perfil do autor, clique em “seguir” e escolha se prefere receber as publicações, as citações ou os dois]

A partir daí, toda vez que uma das opções escolhidas ocorrer, você recebe no email designado um link que leva ao local onde o artigo (ou citação) foi publicado.

Além do GS, vocês podem simplesmente criar alertas a partir de bases de dados multidisciplinares ou que focam em áreas específicas, como o PubMed, Compendex, Scopus, EBSCO, Sage, etc. Quase todas essas bases oferecem a possibilidade do usuário criar uma conta e estabelecer algum tipo de alerta, por email ou feed, busca por autor, assunto, citação ou acompanhar o lançamento das edições das revistas contidas na base. Nesse caso é importante que o usuário saiba de antemão a qual base se associar, para evitar pesquisar em um base de dados bibliográfica da área de saúde, quando sua pesquisa se trata exclusivamente de artes visuais, por exemplo.

Se a sua lista de periódicos a acompanhar for muito extensa, você pode utilizar agregadores de feeds de publicações, como o JournalTOCs ou Zetoc (disponível somente para instituições associadas). Alguns cientistas preferem verificar em comunidades online ou entre os usuários de serviços de gestão de referência, como o Faculty of 1000 Prime e Mendeley.

amazon

Muitos pesquisadores simplesmente seguem colegas em redes sociais para descobrir o que vale a pena ler. Nessa linha de gestão pessoal da informação o Twitter é o herói. Além da varredura natural da sua timeline, percorrendo o que os pesquisadores que você segue publicam e compartilham, existe a possibilidade de usar o Twitter como um agregador de feeds. Para isso, você pode criar uma conta nova e direcionar feeds para lá, como é o modelo do Fly Papers, um twitter bot que rastreia e publica artigos sobre o inseto drosophyla. Existe um tutorial que explica como ativar essa função.

Embora o método mais fácil e simples seja criar sistemas de alerta de artigos com base em palavras-chave, essa operação representa apenas a superfície do que é tecnologicamente possível. Novos sistemas de recomendação de literatura científica prometem não só filtrar a enxurrada de artigos, mas também aprender com os interesses dos usuários para oferecer sugestões personalizadas. Veja algumas opções:

ReadCube
Mendeley
Gerenciadores de referência com mecanismos de recomendação.

PubChase
Recomenda artigos com base nas bibliotecas de usuários com interesses semelhantes.

Sparrho
Pede ao usuário para formar o seu sistema de recomendações, aprovando ou rejeitando sugestões.

Faculty of 1000 Prime
Envia alertas sobre artigos biomédicos, usando as classificações de 5000 cientistas seniores.

Twitter
Twitterbots automatizados podem rastrear palavras-chave (ver twitter.com/phy_papers para obter instruções), ou os usuários podem seguir colegas.

Nowomics
usuários “seguem” palavras-chave biológicas, tais como genes específicos, proteínas ou processos.

Scizzle
Automatiza o processo de fazer várias pesquisas no PubMed com palavras-chave e filtros, e permite que os usuários salvem os artigos relevantes.

O problema de sistemas baseados em algoritmos é que você depende da máquina aprender e adaptar corretamente as recomendações, o que requer tempo e em algumas situações pode gerar confusão, a ferramenta notificando artigos irrelevantes e perdendo os mais importantes. No final das contas, sistemas automatizados de aprendizagem e recomendação nunca vão encontrar todos os artigos que um cientista deseja, mas esse processo tende a melhorar. Técnicas para captar significado do conteúdo se tornarão mais sofisticadas e vão ter um papel importante na orientação das escolhas de leitura dos cientistas.

via How to tame the flood of literature

Construção e reconstrução da Biblioteca Nacional

Nessa semana circulou em um jornal do Rio a notícia da descoberta de corações decorados nas telhas do prédio da Biblioteca Nacional, que prontamente deixou de ser uma notícia fofa.

A BN passa por uma longa reforma, e quem circula pelo centro do Rio já deve ter reparado os andaimes, tapumes grafitados e uma tela protetora gigante que imita a arquitetura original do prédio.


Lembrei que existe um álbum da construção do prédio em 1909, que por sorte, foi inteiramente digitalizado e encontra-se disponível no catálogo da BN Digital. Vejam só:

Bibliotecas nas propostas de governo dos candidatos à presidência nas eleições de 2014

Para conseguir as propostas de governo, acesse o site do TSE: http://www.tse.jus.br/eleicoes/eleicoes-2014/sistema-de-divulgacao-de-candidaturas

Aécio Neves

III CULTURA:

15. Robustecimento do Sistema Nacional de Bibliotecas, com vistas a implantar novas unidades e socorrer bibliotecas regionais de referência, detentoras de acervo de valor nacional, que serão beneficiadas com apoio federal, mesmo sem ter vínculo formal com o governo central.
16. Estímulo a empresas estatais e privadas para a adoção de instituições culturais de âmbito nacional – museus ou bibliotecas, assegurando a sua sustentabilidade.

IV. EDUCAÇÃO

8. Apoio à modernização dos equipamentos escolares, incluindo a instalação de bibliotecas e laboratórios, computadores e acesso à Internet, e adequação térmica dos ambientes para o tempo de verão, garantindo a todas as escolas brasileiras condições adequadas de infraestrutura, incluindo conexão WIFI acessível a todo estudante.

Dilma Rouseff

Não tem a palavra biblioteca na proposta de governo

Eduardo Jorge

Não tem a palavra biblioteca na proposta de governo

Pastor Everaldo

Não tem a palavra biblioteca na proposta de governo

Levy Fidelix

Não tem a palavra biblioteca na proposta de governo

Zé Maria

Não tem a palavra biblioteca na proposta de governo

Eymael

Não tem a palavra biblioteca na proposta de governo

Luciana Genro

Não tem a palavra biblioteca na proposta de governo

Marina Silva

Não tem a palavra biblioteca na proposta de governo

Por uma pedagogia da descoberta

A escola mata a descoberta. Ela entrega o conhecimento pronto em um currículo, definido de acordo com aquilo que é considerado por autoridades como conhecimento válido, todo o resto é excluído.

O que há nesse “resto”?  Toda  a experimentação, o conhecimento informal, aprendido nas vivências, os saberes tradicionais, transmitidos pelos mais velhos e a descoberta.

A serendipidade (o princípio da descoberta) só existe quando há liberdade de escolha por caminhos diferentes e aleatórios. A descoberta se dá, principalmente, quando não estamos procurando exatamente aquilo. Esse processo, que não pode ser controlado, é inexistente na grade escolar. Na escola somos todos considerados incompetentes para adquirir nosso próprio conhecimento. E nunca somos estimulados à fazê-lo.

A palavra serendipidade surgiu em referência a um antigo conto persa sobre os três príncipes de Serendip. Em suas aventuras eles viviam se deparando com situações inusitadas e fazendo descobertas ao acaso, encontrando respostas para questões que eles sequer haviam feito. Tinha um pouco de sorte envolvida, mas era a sagacidade dos meninos, um toque genial de mentes abertas para a descoberta, que realmente operava a magia.

Essa qualidade da descoberta não é de forma alguma privilégio de mentes superiores. É uma habilidade e um posicionamento, uma forma de ver o mundo, disponível para qualquer pessoa.

Bibliotecas são um excelente lugar para o exercício de serendipidade e nas escolas elas ficam isoladas das pessoas, que mal as frequentam nos intervalos das aulas. Temos alguma contação de história, mas livros previamente escolhidos. Mesmo quando eles não são previamente escolhidos, raramente é o acervo todo ofertado à escolha e, mesmo que fosse, ainda assim seria apenas uma atividade controlada, algum livro teria de ser “o escolhido”, os outros permanecerão inertes nas estantes.

Em geral é proibido (ou vigiado) andar entre as estantes a procura de livros que não se sabe ainda quais são. Isso é feito em nome da “ordem” que sempre vem de cima, e está sempre acima da vivência, pairando sobre ela, limitando suas possibilidades libertadoras.

Há um tipo de acesso à biblioteca, que é transversal, não linear, baseado quase que puramente na serendipidade. Ao conduzir uma leitura, indo de um texto à outro, colecionando trechos diferentes de cada livro sobre determinado assunto, eu estou praticando a descoberta. Aliás foi essa prática que desenvolveu a ciência como hoje a conhecemos e o acesso não linear a uma coleção de livros foi o embrião do hipertexto.

Essa forma de utilizar acervos surgiu lá na antiguidade e se tornou evidente na Biblioteca de Alexandria. Foi responsável pelo desenvolvimento da filologia, da geografia, da matemática, da astronomia, da medicina, da poesia, da filosofia, da história e de muitas outras ciências e saberes.

A serendipidade foi a maior consequência de se acumular livros em uma sala. Isso desenvolveu toda uma economia e ergonomia do saber: o surgimento da paginação, da referência, da citação, da glosa, do colofão, dos sumários, dos resumos, das bibliografias, dos catálogos, das resenhas… Todas essas formas de diálogo entre livros, escritores e leitores.

Uma biblioteca nunca é a mesma para duas pessoas praticando a descoberta. As escolhas, mais ou menos aleatórias, de livros formam caminhos, percursos diagonais, transversais, paralelos, pela coleção toda. O prazer de percorrê-los é como o prazer do desconhecido, é desbravar os universos não domesticados do saber. E é possível reiniciar muitas vezes o processo, sempre com resultados inusitados.

A autonomia de percorrer estantes, pegar livros, ler um trecho, procurar outro livro, compará-lo com um terceiro, pegar uma enciclopédia e, partindo de um verbete qualquer, buscar outras fontes, é o principio do amor pela pesquisa e do autodidatismo. São qualidades fundamentais para o pensamento livre e crítico.

Não provoca nenhum espanto a pouca valorização das bibliotecas e da leitura nos dias de hoje. É um reflexo do que a educação faz com a descoberta. Em tempos em que a homogeneidade de ideias, comportamentos e atividades e a obediência a regras, controles e currículos é o que está nas bases da educação, é bastante esperado que as capacidades revolucionárias e libertadoras das bibliotecas sejam caladas.

A busca por uma forma de educação livre passa pelo resgate da descoberta como veículo da potência humana. A serendipidade em substituição à rigidez curricular. É aí que está a importância esquecida das bibliotecas!

Em uma pedagogia da serendipidade, a descoberta é o centro do aprendizado e  a biblioteca é o coração da escola.

Mensagem da Amazon para leitores e autores, contra a editora Hachette: disputa sobre o preço de ebooks

Pouco antes da Segunda Guerra Mundial houve uma invenção radical que abalou os alicerces da publicação de livros. O livro de bolso. Nesta época ingressos de cinema custavam 10 ou 20 centavos de dólar, e os livros custavam U$ 2,50. O novo livro em formato brochura custava 25 centavos – era dez vezes mais barato. Os leitores adoraram o livro e milhões de cópias foram vendidas apenas no primeiro ano.

Por ser tão barato e com muito mais gente sendo capaz de comprar e ler livros, você deveria pensar que o “establishment” literário daquele período teria celebrado a invenção do livro de bolso, certo? Não. Em vez disso, recuaram. Eles acreditavam que os livros de bolso de baixo custo destruiriam a cultura literária e prejudicariam a indústria (para não mencionar suas próprias contas bancárias). Muitas livrarias se recusaram a armazená-los, e os primeiros editores de bolso tiveram que usar métodos não convencionais de distribuição – locais como bancas de jornal e farmácias. O famoso escritor George Orwell saiu publicamente e comentou sobre o novo formato de bolso, “se os editores tivessem juízo, se juntariam contra os livros de bolso e suprimia-os”. Sim, George Orwell estava sugerindo conspiração.

Bem … a história não se repete, mas ela rima.

Avançando para os dias de hoje, é a vez do e-book ser alvo de oposição da entidade literária. Amazon e Hachette – uma editora americana e grande parte de um conglomerado de mídia de 10 bilhões de dólares – estão no meio de uma disputa comercial sobre e-books. Queremos [Amazon] preços mais baixos pelos e-books. Hachette não. Muitos e-books estão sendo lançados por U$ 14,99 e até U$ 19,99. Isso é injustificadamente elevado para um e-book. Com um e-book, não há nenhuma impressão, não há re-impressão, não há necessidade de prever retornos, nenhuma devolução de produto, nenhuma perda de vendas devido a falta de estoque, sem custos de armazenagem, sem custos de transporte, e não há mercado secundário – e-books não podem ser revendidos como livros usados​​. E-books podem e devem ser menos caros.

Talvez canalizando a sugestão de décadas atrás de Orwell, Hachette já foi pega ilegalmente conspirando com seus concorrentes para aumentar os preços dos e-books. Até agora, as partes pagaram U$ 166 milhões em multas e restituição. Conjurar com os seus concorrentes para aumentar os preços não era apenas ilegal, como também foi muito desrespeitoso para os leitores de Hachette.

O fato é que muitos operadores estabelecidos na indústria tomaram a posição de que os preços mais baixos dos e-books vão “desvalorizar os livros” e ferir as “Artes e Letras”. Eles estão errados. Assim como os livros de bolso não destruíram a cultura do livro, apesar de serem dez vezes mais baratos, tampouco os e-books. Pelo contrário, as brochuras acabaram rejuvenescendo a indústria do livro, tornando-a mais forte. O mesmo vai acontecer com os e-books.

Muitos dentro desta indústria pensaram pequeno. Eles acham que os livros só competem contra os livros. Mas, na realidade, os livros competem com jogos para celular, televisão, filmes, Facebook, blogs, sites de notícias grátis e muito mais. Se queremos uma cultura de leitura saudável, temos que trabalhar duro para ter certeza que os livros sejam competitivos em relação a outros tipos de mídia, e uma grande parte disso é trabalhar duro para tornar os livros mais baratos.

Além disso, os e-books são muito elásticos em relação ao preço. Isso significa que, quando o preço cai, os clientes compram muito mais. Nós quantificamos a elasticidade de preços dos e-books a partir de medições repetidas em muitos títulos. Para cada cópia de um e-book vendido a U$ 14,99, ele venderia 1,74 cópias se o preço fosse U$ 9,99. Assim, por exemplo, se o cliente comprasse 100 mil cópias de um determinado e-book a U$ 14,99, os clientes iriam comprar 174 mil cópias desse mesmo e-book por U$ 9,99. A receita total de U$ 14,99 seria $1.499.000. A receita total a U$ 9,99 é de U$ 1.738.000. O importante a notar aqui é que o preço mais baixo é bom para todas as partes envolvidas: o cliente está pagando 33% a menos e o autor está recebendo um cheque de royalties 16% maior e será lido por um público 74% maior. As fatias do bolo são simplesmente maiores.

Mas quando uma coisa tem sido feito de certa forma por um longo tempo, resistir a mudança pode ser um instinto automático, e os poderosos interesses do status quo são difíceis de mover. Nunca foi do interesse de George Orwell suprimir os livros de bolso – ele estava errado sobre isso.

[o restante da carta é um pedido da Amazon ao público para que entrem em contato com a Hachette reivindicando a diminuição de preços e acabar com práticas nocivas à autores e leitores. Veja a mensagem na íntegra: A Message from the Amazon Books Team]

A liberdade do leitor

Finalmente criei coragem e vergonha na cara para escrever um pouco sobre o tema que mais me fascina, a escolha do leitor a respeito do que vai ler, ou seja, sua liberdade de escolha, e como podemos, ou não, influenciar nessas escolhas como bibliotecários, professores, livreiros, pais ou mesmo amigos.

Mas antes de escrever sobre um dos vários empecilhos para que os leitores tenham essa liberdade de ler o que quiserem no país, vou apresentar alguns textos que abordam a liberdade do leitor recolhidos em leituras aleatórias (ou seriam libertárias?!) que fiz sobre o tema no último mês.

Começo a jornada com um trecho do excelente ensaio “Como se deve ler um livro?”, escrito por uma das maiores escritoras do século XX, Virginia Woolf. O ensaio foi publicado recentemente no Brasil pela Cosac Naify no livro “O valor do riso”. [Vale a pena ler o livro todo, é muito bom!]

Quero enfatizar, antes de tudo, o ponto de interrogação no fim do meu título. Ainda que eu pudesse responder para uso próprio à pergunta, a resposta só se aplicaria a mim, não a você. De fato, o único conselho sobre leitura que uma pessoa pode dar a outra é não aceitar conselho algum, seguir os próprios instintos, usar o próprio bom senso e tirar suas próprias conclusões. Se nos pusermos de acordo quanto a isso, sinto-me então em condições de apresentar algumas ideias e lhes fazer sugestões, pois você assim não permitirá que elas restrinjam a característica mais importante que um leitor pode ter, sua independência. Afinal, que leis podem se podem formular sobre livros? A Batalha de Waterloo foi sem dúvida travada em certo dia; mas será Hamlet uma peça melhor do que Rei Lear? Ninguém o pode dizer, cada um deve decidir por si mesmo essa questão. Admitir autoridades em nossas bibliotecas, por mais embecadas e empelicadas que estejam, e deixar que elas nos digam como ler, o que ler e que valor atribuir ao que lemos, é destruir o espírito de liberdade que dá alento a esses santuários. Em qualquer outra parte podemos ser limitados por convenções e leis – mas lá não temos nenhuma.

 

Leiamos agora o que diz o velho Roger Chartier (A aventura do livro, 1998):

A queles que são considerados não-leitores lêem, mas lêem coisa diferente daquilo que o cânone escolar define como leitura legítima. O problema não é tanto o de considerar como não-leituras estas leituras selvagens que se ligam a objetos escritos de fraca legitimidade cultural, mas é o de tentar apoiar-se sobre essas práticas incontroladas e disseminadas para conduzir esses leitores, pela escola mas também sem dúvida por múltiplas outras vias, a encontrar outras leituras. É preciso utilizar aquilo que a norma escolar rejeita como um suporte para dar acesso à leitura na sua plenitude, isto é, ao encontro de textos densos e mais capazes de transformar a visão de mundo, as maneiras de sentir e de pensar.

 

Tenha um pouco mais de paciência leitor, as citações já estão acabando. Tanto é assim que as próximas citações todas são de uma única autora. Trata-se da Graça Ramos, detentora do blog  tri-legal “A pequena leitora: literatura infantojuvenil” que fica dentro do portal do jornal carioca O Globo. Um achado!
Na primeira citação apresento dois trechos com constatações que ela alcançou depois de ler a pesquisa de uma professora da UFRJ que analisou os hábitos de leitura de alunos de escolas do Rio de Janeiro e de Barcelona. O artigo pode ser lido aqui.

Nas duas cidades, garotas e garotos não têm quase nenhuma ingerência na escolha de títulos adotados pelo sistema de ensino e apresentam resistência ao que é determinado como leitura pela escola. “Os alunos não são escutados e raramente são atraídos pela forma como lêem autores clássicos”, afirma a estudiosa.

Como ter liberdade de leitura sem poder escolher o que ler? A leitura na escola, e respectivamente, nas bibliotecas escolares, deve mudar, isso está muito claro há muito tempo. Apesar da distribuição de livros pelos governos municipais, estaduais e federal, o quadro não muda, porque? Será que esses programas estão pensando na bibliodiversidade de leitura? Será que ninguém lê? Claro que não, conforme indica a pesquisa, os alunos estão lendo outras coisas.
E por falar nisso, a Graça Ramos escreveu o seguinte em outro artigo:

Penso ainda ser melhor a companhia/leitura de qualquer livro do que a ausência total do hábito de ler.

 

Pronto! Termino o caminho das citações com um depoimento pessoal da própria Graça:

Foi na biblioteca pública da SQS 308, em Brasília, que fiz algumas das melhores descobertas de minha vida de leitora. Respeitada em minhas escolhas, conheci autores os mais diferentes, pois o importante era o prazer de ler. Ainda acho que essa é a primeira premissa para formar leitores.

 

Muito bem, chega de enrolação, agora é minha vez. E já que a arapuca está armada, tenho que dizer que um dos empecilhos para a plena liberdade do leitor, principalmente do leitor com menos recursos financeiros, está na situação constrangedora de nossas bibliotecas, principalmente as públicas e as escolares de escolas públicas, mas não só nestas instituições.

E porque a situação é constrangedora?

Não quero generalizar a situação, mas pelo que conheço posso dizer que a situação em muitas bibliotecas públicas é essa, pois muitas não possuem efetivamente políticas de desenvolvimento de coleções que lhes ofereçam condições de proporcionar real liberdade ao leitor. Muitas vivem de doações, programas de distribuição de obras (com títulos escolhidos pelo doador e não pelo doado) e vários outros tipos de editais não permanentes, como o último edital da Fundação Biblioteca Nacional que na minha opinião, mais serviu para desovar livros encalhados do que para ampliar a diversidade e riqueza dos acervos das bibliotecas. Admito que colegas bibliotecários discordam de mim, e com razão, quando falo do edital da FBN, afinal, para quem não tem recurso para adquirir nada, quando tem a possibilidade de escolher algo, aquilo foi tudo de bom! Mas não posso deixar de me manifestar, mesmo depois de anos do acontecido.

Também não posso esquecer daquelas bibliotecas que possuem recursos, mas não suficientes para grandes compras e para proporcionar uma quantidade mínima de títulos que possibilitem essa liberdade.

E há também a dificuldade, que já enfrentei  de, com poucos recursos, ter de escolher entre clássicos e livros premiados e os best-sellers e livros de autoajuda. Nas duas últimas bibliotecas onde trabalhei as discussões para determinar a quantidade de obras a serem adquiridas de cada uma dessas categorias sempre gerou discussões sem fim, levando até a xingamentos explícitos em trabalhos acadêmicos!
Acredito que tenha aprendido algo relacionado à quinta lei de Ranganathan: para cada leitor o seu livro.

Essa discussão toda deve ser estimulada em nosso meio sempre, e com o tempo, pode ser possível chegar a parâmetros que atendam a todos os gostos.

E novamente, a Virginia Woolf pode ajudar (desculpa, mas não poderia deixar essa citação de fora; é a última mesmo!):

Para gozar de liberdade, se a platitude for desculpável, temos porém, é claro, de nos controlar. Não devemos desperdiçar nossas forças, com incompetência e inépcia, esguichando água por metade da casa a fim de molhar uma roseira apenas; devemos discipliná-las, com rigor e energia, no ponto certo. Essa pode ser uma das primeiras dificuldades com que nos defrontamos numa biblioteca. Qual será “o ponto certo”? Pode bem ser que lá não pareça haver senão acúmulo, senão amontoamento confuso. Poemas e romances, histórias e memórias, dicionários e publicações do governo; livros escritos em todas as línguas por homens e mulheres de todas as raças, idades e temperamentos acotovelam-se nas prateleiras. E do lado de fora o burro zurra, as mulheres tagarelam no poço, os potros galopam pelos campos. Por onde vamos começar? Como vamos pôr ordem nesse caos multitudinário e assim extrair do que lemos o prazer mais amplo e profundo?

 

Para finalizar essa questão, posso me usar como exemplo de leitor.
Gosto de ler os clássicos, quadrinhos, um ou outro best-seller (principalmente os de fantasia) e literatura brasileira e estrangeira contemporânea de autores premiados ou que recebem críticas positivas da famigerada, e em eterna crise, crítica literária brasileira. Também sou leitor de poesia, de literatura periférica paulistana e outras coisas meio estranhas….. Enfim, sou um multi-leitor, nem pior nem melhor que qualquer outro, diga-se, um pouco diferente de muitos leitores que preferem focar em poucos mundos, cada um à sua maneira.

E como leitor, o que sinto nas bibliotecas públicas da cidade onde moro quando a questão é bibliodiversidade e liberdade do leitor?
Infelizmente, não sinto essa liberdade tão citada, seja na Biblioteca de São Paulo, na Mário de Andrade, na Biblioteca do Centro Cultural São Paulou ou na Biblioteca Temática de Poesia Alceu Amoroso Lima.
Na Biblioteca de São Paulo a aquisição de acervo é mais ágil, mas como ela foca bastante em best-sellers, exceção seja feita aos livros ligados ao Prêmio São Paulo de Literatura, ela não agrada minha parte-leitor de livros não populares. Não localizo lá vários autores brasileiros premiados e bem criticados.
Nas outras bibliotecas citadas, em alguns momentos não encontro nem uma coisa ou nem outra, ou a demora é grande devido a toda a imensa burocracia enfrentada pelos colegas para fazer compras e aos constantes cortes e congelamentos de recursos que me canso esperar. Por outro lado, como são bibliotecas com grandes acervos, me divirto pegando clássicos e mais clássicos da literatura.
E mais, senti o mesmo em outras bibliotecas onde entrei: em Barueri-SP, no Rio de Janeiro (apesar de ótimas, o leitor chato aqui sentiu falta de mais variedade em Manguinhos e na Rocinha), em Brasília (na Biblioteca Demonstrativa – e judiada, na Biblioteca “Nacional” de Brasília em uma ramal de cidade satélite), Recife, Fortaleza e Florianópolis entre outras.

Infelizmente, nos últimos tempos tenho sentido essa liberdade nas grandes livrarias. Foi nelas que tive de comprar pelo menos 75% dos livros que tive vontade, desejo ou necessidade de ler!
Tenho alguma condição de fazer isso, apesar de ter prometido à minha conta bancária que não utilizarei recursos dela esse mês para aquisição de livros.
E quem não tem condições, como fica?!
Em tese, quem não tem condições é um leitor sem liberdade, meio que aprisionado em plena era dos e-book/e-readers!
Como muitos ainda não possuem boa internet ou bons smartphones, sequer tem condições de participar das comunidades (piratas) de livros digitalizados e distribuídos a quem contribui com 10 ou 20 reais mensais….

Enfim, é tempo de conquistarmos essa liberdade para nós mesmos e para os nossos leitores, familiares, amigos, cachorros e gatos. Precisamos LUTAR por recursos para bibliotecas, sejam elas públicas, comunitárias ou escolares. Precisamos participar de todos os Planos Municipais ou Estaduais do Livros. Precisamos pressionar governadores, deputados, senadores, prefeitos e vereadores!

Só assim o leitor brasileiro poderá ser livre!

Só assim poderei chegar em uma biblioteca e encontrar o livro “A Primavera da Pontuação” do Vitor Ramil. Obra que peguei na estante de uma livraria depois de ver um monte de pontos, virgulas, travessões, tremas e outros componentes da língua portuguesa na capa, ler a engraçada apresentação da Natércia Pontes, e mesmo como livro plastificado pegar e levá-lo sem nenhuma referência. Sem nenhuma referência anterior tive acesso a um dos livros mais divertidos que já li na vida e que só depois descobri que havia sido patrocinado pela Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo e publicada pela conceituada Cosac Naify. Liberdade total!

Só assim poderei chegar em uma outra biblioteca e encontrar o livro “A vida do livreiro A. J. Fikry” da Gabrielle Zevin. Best-seller internacional cuja capa com várias janelinhas coloridas me chamou a atenção e que, por acaso, ao pegar vi que se tratava de uma história ligada ao mundo do livro, mas contada de forma suave e divertida, sem a erudição de um Alberto Manguel, lançada pela Paralela, o selo de livros “pop” da Companhia das Letras. [Em tempo, o livro é muito bom]. Liberdade total!

Quero essa liberdade total nas bibliotecas, e quero logo!