As time goes by

Fui convidada a participar de uma mesa de debates sobre o tema Desafios do Bibliotecário do Século XX vs Desafios do Bibliotecário do Século XXI: As Mudanças e Encontros Geracionais da Biblioteconomia, dentro do evento REPense: O Papel das Bibliotecas no Auxílio da Sociedade, organizado pelo InFoco, grupo de ex-alunos de Biblioteconomia da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP).

Como minha companheira de mesa era a jovem Mari Galvani, assumi que a tarefa de falar sobre o século passado seria minha. Vou reproduzir aqui mais ou menos o que foi minha apresentação, incluindo o que acabei não dizendo por falta de tempo ou esquecimento mesmo.

Comecei explicando o que sou: mulher de 58 anos e meio (como dizem as crianças), feminista, de esquerda, trabalhadora assalariada, filha e neta de trabalhadores, bisneta de trabalhadores rurais, parte deles imigrante. Embora tenha, por enquanto, emprego, salário razoável, casa própria e possa comprar livros e passar férias na Europa – uma privilegiada, portanto – continuo sendo uma mulher da classe trabalhadora e a única coisa que tenho na vida é a força de trabalho que vendo para o Estado. Meu futuro, como o de qualquer trabalhador brasileiro, é incerto. Muita gente por aí se esquece disso.

Esperança

Entrei na faculdade em 1979 e concluí o curso de Biblioteconomia em 1982, já trabalhando na biblioteca onde estou até hoje. Vivi como adulta, estudante e profissional, os últimos anos da ditadura civil-militar instaurada pelo golpe de 1964. Ainda havia perigo, general na presidência, censura, gente no exílio etc, mas também havia esperança. Sabíamos que aquele período nefasto estava chegando ao fim e acho que sabíamos o que deveríamos fazer.

Vi a luta pela anistia, o fim da censura, a campanha das diretas, a redemocratização, a criação do Partido dos Trabalhadores, as primeiras eleições diretas para presidência da república. Vi o país mudar para melhor, aos trancos e barrancos, mas para melhor.  E hoje, vejo todo o horror do passado voltar, inacreditavelmente por meio do voto popular. E vejo bibliotecários que juraram “tudo fazer para preservar o cunho liberal e humanista da profissão de bibliotecário, fundamentado na liberdade de investigação científica e na dignidade da pessoa humana” apoiarem um projeto político racista, machista e homofóbico, que defende a ditadura, a tortura e o extermínio dos adversários políticos, ataca a cultura, a liberdade de expressão, a pesquisa científica, a educação, o meio-ambiente, os índios … e deixa queimar a floresta amazônica.

Hoje, ter esperança está mais difícil, tanto no país quanto na profissão de bibliotecário. Ter esperança é um desafio bem contemporâneo.

Formação política

Em minha época de estudante, formação política não existia. Na graduação, a política deu as caras apenas nas disciplinas básicas da área de comunicações. Já naquela época, ouvi dos professores o quanto era importante aprendermos a ler os meios de comunicação de forma crítica. “Precisamos ensinar a população a entender o discurso da televisão”, diziam eles. Nas disciplinas específicas de biblioteconomia, entretanto, o assunto morreu.  Mesmo aqueles professores que falavam na função da biblioteca da sociedade tinham, no fundo, uma visão idealizada de biblioteca, desconectada do seu entorno político e social. Era como se a biblioteca flutuasse numa nuvem cor-de-rosa acima do mundo, dependendo, para seu sucesso ou fracasso, apenas da atuação dos bibliotecários.

E vejam que não estou pensando numa formação política muito profunda, não mesmo. Se conceitos como direitos humanos, liberdade de expressão, tolerância, manipulação, estado laico, ditadura, democracia, comunismo, fascismo, nazismo, esquerda, direita, revolução e golpe de estado estivessem presentes no cotidiano de estudantes e profissionais, já seria um bom começo. Talvez assim a gente encontrasse menos colegas apoiando projetos de poder que, no limite, colocam em risco as bases da profissão e ameaçam nosso mercado de trabalho. Talvez a gente não tivesse que engolir bibliotecários propagando alegremente “fake news”.

A formação política do bibliotecário não precisa se limitar às salas de aula das faculdades. A participação em sindicatos, associações de classe e movimentos de trabalhadores costuma ser um excelente aprendizado. Foi participando dos movimentos dos funcionários da USP que aprendi que pertenço à classe trabalhadora e sempre pertencerei, que “mexeu com um, mexeu com todos” e, sobretudo, que a luta continua.

Esse é um desafio de ontem, de hoje e  será de amanhã, se houver amanhã.

Diversidade

Uma das melhores novidades deste século é a discussão sobre diversidade nas bibliotecas. Em meus primeiros anos de profissão não se falava  disso – ou se falava tão pouco que a velha aqui não se lembra mais. Hoje já temos pós-graduandos negros questionando a bibliografia predominantemente branca e europeia dos cursos e procurando por autores africanos nas bibliotecas;  mulheres em busca de textos escritos por mulheres;  pessoas transgênero exigindo o direito de serem tratadas por seu nome social; bibliotecárias negras escrevendo livros sobre bibliotecár@s negr@as;  todo mundo questionando os preconceitos presentes nas tabelas de classificação e vocabulários controlados.

Algumas dessas demandas, como o acesso à informação por caminhos que um exército de metadados furiosos e uma muralha de regras consagradas teima em barrar, chegaram com muita força. Essa chegada é uma prova de que muitos caminhos já foram desbravados e, por maior que seja o retrocesso, não vamos voltar passivamente para a cozinha, para a senzala ou para o armário.

A diversidade é o desafio do momento.

Tecnologia

Quando comecei a trabalhar em biblioteca, na Idade da Ficha de Cartolina Branca, meu maior anseio em termos de tecnologia era uma máquina de escrever elétrica com corretivo. E olhem só, eu era uma bibliotecária tão privilegiada que dispunha de um projetor 16 mm e podia projetar eu mesma os filmes que catalogava.

A informática ainda era algo muito distante, mas que não assustava ninguém. Só os bibliotecários mais bobinhos pensavam que seriam “substituídos por um computador”. O futuro era nosso.

Mas o futuro foi chegando e arrastando, aos poucos, todas as nossas ilusões. Informatização significava, em inúmeros casos, não uma decisão técnica e administrativa, precedida de estudos das necessidades dos usuários (risos, risos), mas apenas uma conveniência política originária do andar de cima. Era o diretor que achava bonito “ter tudo no computador porque é mais muderno”, era alguém escolhendo o software X ou Y por interesses particulares, era o departamento de informática querendo criar tudo do zero por vaidade, para tudo acabar nas pobres das bibliotecárias usando o Micro-Isis mesmo, porque foi o que deu. E, por fim, quando chegou  o sistema proprietário estrangeiro que fazia de tudo e resolveria todos os problemas, aprendemos que software não faz porcaria nenhuma sozinho, o que faz tudo  ou nada acontecer  é vontade política ou falta dela.

Durante tudo o processo, que começou com a gente percebendo que a máquina elétrica corretiva não viria e que era melhor aprender um bagulho chamado word e outro chamado dbase num computador velho, vi muitos colegas se tornando obsoletos. Gente que foi bom profissional na juventude, mas que não deu conta de incorporar o avanço rápido da tecnologia e reaprender a trabalhar. Nós, os não tão velhos, tentamos dar as mãos aos que submergiam e puxá-los para cima, mas muitos não conseguiram.

Também vi serviços que um dia foram inovadores perderem completamente o sentido em poucos anos, com a chegada da internet. A coleção de slides que ajudei a criar, por muitos anos menina dos olhos dos professores de arte, morreu de obsolescência tecnológica sob nossos narizes. Não que eu não soubesse mais ou menos o que deveria ser feito para remodelar o serviço, mas simplesmente não havia recursos tecnológicos, financeiros ou humanos ao meu alcance.

Antigamente, no tempo dos catálogos de fichas, diziam que as dificuldades intransponíveis na busca em acervos de documentos eram culpa dos fichários, coisas velhas, poeirentas e complicadas. O computador resolveria tudo. Hoje, as dificuldades intransponíveis são atribuídas às bases de dados ruins, interfaces horrorosas, softwares ultrapassados etc. Então, não é exatamente assim. As ferramentas ruins realmente atrapalham, mas a maior culpa é da falta de hábito em acessar acervos organizados, tanto físicos quanto digitais, falta de leitura, problemas com raciocínio lógico, preguiça de ler e entender o que está diante dos olhos, desconhecimento do que seja pesquisa até entre doutorandos. Observem que me refiro a dificuldades intransponíveis, porque dificuldade todo mundo tem mesmo.

Alguns desafios parecem mesmo eternos. Já escrevi um pouco sobre isso aqui mesmo no BSF.

Comunicação

Comunicar-se com seu público já foi um dos maiores problemas dos bibliotecários. Em tempos pré-internet, divulgar acervo e serviços ou estabelecer um diálogo mínimo com os usuários era dureza. As bibliotecas sem dinheiro faziam trabalhosíssimos boletins datilografados e xerocados que ninguém lia, de tão feios que eram. Um dos nossos diretores, crítico e historiador de arte, pegou uma publicaçãozinha nossa, folheou-a meio sem jeito e soltou essa: “meninas, eu até gosto de arte povera, mas isto aqui já é demais”.

A situação atual é incomparavelmente melhor. Quem viveu nos tempos dos boletinzinhos arte povera mal acredita nos recursos que temos agora: Canva para produzir facilmente cartazes e folhetos bastante decentes, blogs, chats, ferramentas de marketing para fazer newsletter, mídias sociais para postar avisos com fotos de gatinhos… Enfim, um verdadeiro parque de diversões. Hoje a comunicação com o público pode ser rápida, interativa, direta e informal. Podemos finalmente desamarrar a cara sisuda que sempre tivemos e brincar com os usuários, basta saber usar a tecnologia que temos ao nosso alcance. É aí que mora o problema. Embora existam cada vez mais bibliotecas fazendo um trabalho excelente nas redes sociais, e até bibliotecários dando dicas simples de marketing pros coleguinhas, ainda há muitas bibliotecas que conseguem burocratizar até o Facebook e Twitter. Vocês já ouviram falar que, em algumas bibliotecas, todas as postagens nos perfis institucionais precisam ser previamente aprovadas pela chefia? Bem, isso existe, não é lenda urbana de bibliotecário.

Algumas coisas não mudam jamais.

Os audiovisuais

Minha primeira tarefa profissional foi organizar um acervo de filmes. Depois vieram as fotografias, slides, partituras e gravações de música. Os documentos audiovisuais já foram uma promessa de mercado de trabalho que se abriria para os bibliotecários. Passei os últimos quase 40 anos ouvindo professores dizerem que “biblioteconomia não se ocupa SÓ de livros” e bibliotecários chamarem filmes e fotografias de “materiais especiais”, tanto uns como outros tratando essas coleções com ferramentas criadas para tratar textos.

Não vi, de lá para cá, muitos avanços nessa área, pelo menos não no Brasil. Já apresentei aqui minhas preocupações com a perda desse mercado.
Se eu fosse otimista, diria que o desafio de hoje é recuperar os espaços perdidos ou, pelo menos, tentar não perder mais nada. Mas eu não sou.

Epílogo: o fim do SIBiUSP

Em 1981, quando foi criado o Sistema Integrado de Bibliotecas da USP  (SIBi) foi criado em 1981, eu já trabalhava na Universidade. Esse órgão, cuja criação tornou possível que as bibliotecas da USP, cada uma delas subordinada à sua faculdade, instituto, escola ou museu, conseguissem trabalhar em conjunto nas atividades comuns a todas, acaba de ser extinto.

A Agência USP de Gestão da Informação Acadêmica, que substitui o SIBi, é presidida por um docente sem formação em biblioteconomia. O projeto da Agência foi –  ou está sendo – definido sem a participação dos bibliotecários da Universidade. O que será essa Agência? Ninguém sabe. O que vai acontecer com as bibliotecas? Ninguém sabe. Vejam aqui um pouco dessa triste história, contada por uma bibliotecária velha que nunca imaginou que viveria para ver o fim do Sistema Integrado de Bibliotecas da USP.

The fundamental things apply
As time goes by

O veneno e suas lições

No dia 23 de fevereiro, quando teve início o aluno letivo na USP, os novos alunos da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, nossa querida FFLCH, encontraram sua biblioteca fechada pelos próprios funcionários, com apoio dos estudantes.

O protesto foi motivado por um caso bastante grave de contaminação por DDT e outros organoclorados encontrados numa grande doação de livros recebida em 2009 (?!). Os funcionários contestavam o tratamento dado ao caso pela direção da Faculdade e chefia da biblioteca, bem como as medidas recomendadas pelos especialistas consultados. Nesta matéria do UOL há links para os documentos da direção da Faculdade do Sindicato dos Trabalhadores da USP (Sintusp).

Resumindo a história sem me alongar em detalhes escabrosos, os funcionários que manipularam o material relataram sintomas como dor de cabeça, náuseas, sangramento do nariz, dor de garganta, ardência nos olhos, dificuldades respiratórias e problemas na pele.

Em cinco livros da coleção foi encontrado um pó branco que deixou os funcionários bastante preocupados. Isso depois da coleção ter sido higienizada, e aí fico imaginando a qualidade da “higienização” que deixou escapar essas 5 tartarugas. Um laudo do Instituto de Pesquisas Tecnológicas concluiu que os livros estavam contaminados por DDT, DDE e DDI,  bagulhos reconhecidamente perigosos e possivelmente cancerígenos.

A direção da Faculdade solicitou um parecer  “sobre as condições de trabalho envolvendo o contato e manuseio do acervo” a uma especialista em conservação de acervos. Apenas um único parecer, não posso deixar de notar. As recomendações foram consideradas adequadas pelo coordenador de preservação da Biblioteca Nacional que, entretanto, não achou necessário visitar o local. Curiosamente, embora a especialista recomende estabelecimento de “barreiras de contenção” e quarentena, o material estava cercado por um tapume – dentro da biblioteca – com abertura para circulação de ar “pois segundo orientação técnica a vedação completa poderia produzir danos ainda mais insanáveis à coleção”. Por mais tocante que pareça tanto amor e preocupação pelos livros, os funcionários da biblioteca não estavam se sentindo lá muito seguros. A Coordenação de Vigilância em Saúde (Covisa) do município inspecionou o local no dia 24 de fevereiro e também não achou graça na história, pois o tapume não  funciona como isolamento, determinando a retirada dos livros da biblioteca e  várias outras medidas para proteger a saúde dos seres humanos.

A Biblioteca Florestan Fernandes deve reabrir na segunda-feira, dia 2 de fevereiro, após um acordo firmado entre a direção e os trabalhadores, que inclui, surpreendentemente, um pedido de desculpas da Faculdade aos seus funcionários.

Esse pedido de desculpas é o segundo fato que me parece inédito em todos esses anos de brigas que testemunhei na Universidade de São Paulo. O primeiro é o fechamento de uma biblioteca em protesto contra uma ação da administração local. Foi um confronto direto com a chefia e com a diretoria da Faculdade, algo muito difícil de acontecer numa biblioteca da USP, creiam-me. Na verdade, não me lembro de outra ocasião em que isso tenha acontecido. Mesmo durante as greves de funcionários não são muitas as bibliotecas que fecham.

Temos aí uma bela lição para os administradores, que precisam ser mais prudentes  ao receber doações de livros antigos e mais sensíveis às reclamações dos funcionários, para dizer o mínimo. Poder, ao contrário de DDT, pode ser algo muito transitório. E uma lição mais importante ainda para bibliotecários e demais trabalhadores de bibliotecas que gostam de cultivar uma polida submissão à hierarquia, mesmo quando sua saúde pode estar em jogo. Organização e mobilização funcionam. E um pouco de coragem, ao contrário de DDT, não faz mal a ninguém.

Lamento apenas tenha sido necessário fechar uma biblioteca, acionar o Sindicato e chamar as autoridades sanitárias para resolver um problema que, embora difícil e complexo, é da alçada da nossa profissão. Tudo isso, se não me engano, poderia ter sido evitado no simples nível das ações bibliotecárias consequentes.

Vejam aí mais informações sobre o caso.

Matéria na Globo

Post no meu blog

Outro caso envolvendo contaminação por organoclorados.

foto: Propaganda de DDT. Crossett Library, Flickr.

USP, greve e bibliotecários

Neste momento preciso de minha vida profissional, sou uma bibliotecária em greve. Não é a primeira vez – na verdade deve ser a trigésima primeira greve da minha carreira – e duvido muito que seja a última.

Quem nunca fez greve na vida e morre de curiosidade para saber como é a coisa, ou simplesmente tem interesse acadêmico específico nos mecanismos que regem as greves na Universidade de São Paulo, pode encontrar informações acuradas dignas da bibliotecária que sou no meu blog,  Dia de Greve, Dia de Trabalho. Comecei esse blog na greve de 2010 da USP e não parei mais.  Mas não escrevo apenas sobre greve, até porque nossas greves, afortunadamente, não duram tanto assim.

Neste momento as três universidades estaduais paulistas estão em greve, basicamente por reajuste salarial,  mas não só por isso. Nunca é só por isso, mas geralmente é assim que começa: funcionários e professores reivindicam X de reajuste, recebem metade de X ou não recebem nada, como aconteceu conosco desta vez. Reajuste zero. Tudo sobe, o plano de saúde, a escola das crianças, o aluguel, a prestação da casa etc. Mas o salário permanece igual.

De acordo com o Conselho dos Reitores das Universidades Paulistas, que chamamos pela simpática sigla CRUESP, o reajuste não é possível porque não há dinheiro. A principal culpada pela dureza acadêmica é a assim chamada crise financeira da USP, cuja folha de pagamento estaria consumindo 105 por cento de sua receita. Portanto, a USP estaria  vivendo de suas reservas que, obviamente, teriam data certa para acabar: depois que acabar a água da represa da Cantareira, destruída pela sinistra incompetência do governo paulista, o mesmo que escolhe os reitores das universidades. A água dizem que vai acabar em agosto, as reservas da USP ainda duram mais um pouco.

A Folha de São Paulo, mais do que depressa, já vem com a eterna solução: cobrar mensalidades dos alunos, acabando de vez com qualquer chance de um jovem de família pobre entrar na preciosa Universidade de São Paulo, para todo sempre destinada a ser propriedade da elite.

A Folha, assim como uma assombrosa quantidade de seres humanos e veículos de comunicação, apresenta como verdade inquestionável a sangria de 105 por cento que ocorre segundo quem? Ora, segundo a Reitoria da mesma instituição na qual se dizia, até o ano passado, que “a USP tem dinheiro sobrando”, “dinheiro não é problema” e até mesmo “vocês precisam gastar mais dinheiro”, uma instituição cujo discurso dominante fazia o funcionário que não “gastava dinheiro” sentir-se incompetente, porque se as coisas não iam bem, certamente não era por falta de verba. O atual reitor culpa a gestão anterior que, de fato, não primava pela sobriedade, mas não podemos esquecer que é a mesma universidade. As pessoas que a dirigiam antes não morreram todas de repente e foram substituídas por alienígenas criados em vagens gigantes, certo?

Então, como saber se realmente a folha de pagamento está consumindo 105 por cento da verba e se a USP está à beira da catástrofe? Simplesmente não dá para saber, porque não temos acesso às contas da Universidade. E se não temos como contestar, também não vejo motivos para acreditarmos piamente.

Neste vídeo de um debate com representantes da Associação dos Docentes da USP sobre os números divulgados pela Reitoria, os professores Otaviano Helene e Ciro Teixeira Correia questionam as vozes oriundas do Olimpo com informações que jamais aparecem na grande imprensa. O vídeo é longo e não está editado, por isso vou destacar alguns trechos. De acordo com esses docentes rebeldes:

  •  tivemos perdas reais de poder aquisitivo de 7 por cento, contando apenas os efeitos da inflação (03:05);
  • os números do crescimento do ICMS não indicam a catástrofe financeira que está sendo anunciada (05:36);
  • O gráfico distribuído pela Reitoria que mostra a diminuição das reservas da USP contém um erro que faz a situação parecer pior do que é de fato (11:28).
  • se os gastos excessivos da gestão anterior forem contidos, a situação financeira da USP estará equilibrada em um ou dois anos, sem necessidade de arrochar salários (12:55).
  • o impacto do reajuste salarial sobre as contas da USP não é tão grande quanto dizem (13:50).
  • na proposta orçamentária para 2014 aprovada pelo Conselho Universitário da USP já estava previsto o reajuste dos professores e funcionários (23:17).
  • dados da reitoria sobre a “queima orçamentária” não consideram rendimentos de aplicação das reservas e nem as receitas próprias da Universidade (28:50).
  • despesas com obras em andamento – que ninguém sabe o que são e porque foram feitas – e “restos a pagar de 2013” presentes na previsão orçamentária para 2014 equivalem a quase duas folhas de pagamento (30:54).
  • O comprometimento da verba com a folha de pagamento não é o que está sendo dito (36:00).
  • Contribuição previdenciária é o que pode estar aumentando o comprometimento da verba, e não os reajustes salariais, mas os dados sobre isso não estão abertos para a comunidade (38:15).
  • O governo não repassa todos os recursos que são arrecadados com fonte ICMS: os juros de refinanciamento de pagamentos atrasados, por exemplo, não entram na conta; para as prefeituras o repasse é feito, mas não para as universidades (45:30).

Muito do que se diz nos meios de comunicação sobre a USP é engolido com facilidade pela população, graças à fama de elitista e arrogante que a instituição carrega, fama até certo ponto justificada. Em todas as nossas greves, quando somos invariavelmente atacados pelo discurso contrário à universidade pública que domina a imprensa, discutimos a necessidade de ações que mostrem para a população a real importância da Universidade e do conhecimento que ela produz. Mas isso nunca acontece. Parece que a questão só interessa à parcela da população uspiana que faz greve, e essa turma não manda nada. E os poucos que passam eventualmente a mandar, mudam rapidamente suas prioridades.

Bibliotecários poderiam ter um papel importante nessa briga, considerando nossa habilidade para buscar, analisar e transmitir informações, além do fato de ocuparmos posição privilegiada entre o universo do trabalhador “peão” e o mundo dos pesquisadores. Somos funcionários, vivemos com os pés no mundo real, sabemos o que é uma licitação e porque demora tanto para comprar um livro ou consertar uma janela, mas também circulamos com tranquilidade no espaço onde se produz o conhecimento acadêmico, sabemos de onde sai uma tese e temos um papel claro bem claro nesse processo. Além disso, somos muitos: cerca de 400, se não estou enganada.

Mas também não mandamos nada. Vivemos condicionados pela “mecânica de obediência vertical ao poder central”, expressão usada pelo professor Andrian Pablo Funjul na Folha de São Paulo que explica maravilhosamente as relações de poder na USP. Temos nossas chefias de biblioteca, que só não decidem tudo sozinhas se não quiserem, porque nada as impede, e o Departamento Técnico do Sistema de Bibliotecas, cujas prioridades podem ser decididas pela vontade de quem o chefia, sem que exista nenhum mecanismo institucional eficiente para evitar isso.

Bibliotecários não costumam atuar politicamente enquanto categoria dentro da USP, a não ser em questões bastante pontuais, como o movimento que fizemos há alguns anos para barrar a imposição de um software para o Banco de Dados Bibliográficos da USP.

Muitas bibliotecas da USP estão fechadas por causa da greve. Não dá para saber quantos bibliotecários estão em greve, porque algumas bibliotecas fecham porque os técnicos entram em greve. Tenho visto muitos bibliotecários participando das atividades de greve, mas ainda são poucos em relação à quantidade de bibliotecas que está fechada. Dizem alguns colegas que muitos estão trabalhando atrás das portas fechadas de suas bibliotecas e outros, provavelmente, foram para suas casas. É uma pena, porque um momento de greve seria uma excelente oportunidade para nos encontrarmos, discutirmos nossos problemas específicos e encontrar uma forma de atuarmos politicamente na Universidade. E fazer nossa voz ser ouvida, para variar um pouco. Mas, lamentavelmente, nem temos uma liderança capaz de articular o pessoal.

Mas esta greve ainda não terminou. Nem a USP. Nem as bibliotecas. Ainda temos algum tempo.

IX EREBD SE/CO – Programação

Eu não sei se a estratégia foi exatamente essa, mas achei fantástica a escalação dos sonhos do IX EREBD SE/CO. Colocaram uma lista de nomes potenciais lá, mas sem confirmação. Assim é muito mais fácil, afinal, eu poderia chamar pra uma conversinha lá em casa o Bill Gates, Steve Jobs, Richard Dawkins, Obama, Hugo Chavez, Gisele Bundchen, mas até que fosse oficialmente confirmada, não passaria de especulação.

Mas excelente que a maioria dos nomes propostos confirmou presença. Estou bem ansioso pra ver o Briquet, Luli Radfahrer, Milanesi, Johanna Smith, Fabiano Caruso, OFAJ, juntos no mesmo evento. Nessa listinha aí, se eu pudesse opinar, incluiria o Edson Nery, Alex Lennine e talvez algum bibliotecário gringo, Meredith Farkas talvez. E uma pena que o representante do Google Books não vai aparecer.

Parabéns à comisão organizadora, mais uma vez. Os problemas acontecem sempre, e a gente nunca aprende (!), mas é assim mesmo. Alguém tem que fazer e no final das contas é sempre bom. Encontro de estudantes é o que há.

Eu e Tiago Murakami vamos oferecer um mini-curso compartilhado, eu falando e mostrando na prática como o WordPress pode ser utilizado por bibliotecários, e o Tiago falando e mostrando na prática como o OJS/SEER pode ser utilizados por bibliotecários. Eu já convidei o Hebbertt Farias para aparecer por lá, já que ele foi um dos primeiros caras que trabalhou com o OJS no Brasil.

Inovação também no site feito todinho em Drupal e Twitter to EREBD.