Biblioteconomia: entre a felicidade e a tristeza por graus de separação

A clássica teoria dos seis graus de separação nasceu de um estudo científico, que criou a teoria de que, no mundo, são necessários no máximo seis laços de amizade para que duas pessoas quaisquer estejam ligadas.

Em tempos de ubiquidade, internet das coisas, a noção do que pode ser interconectado mudou drasticamente a forma de enxergarmos fenômenos em rede. Mas a teoria vigora e a todo vapor, inclusive sendo aplicada na web com inúmeras possibilidades (inclusive entre áreas de conhecimento, planos e projetos, assuntos, sentimentos e por aí vai…).

Uma delas que me peguei pensando esse mês e que pode auxiliar nas crises existências na área não auxilia em nada é, a qual distância estamos da felicidade ou da tristeza na Biblioteconomia? Obstinado a encontrar uma possível resposta passei semanas com os mais doutos conhecedores do sentido da vida vasculhando a internet e descobri uma aplicação* que pode ajudar. Após conhecer seu complexo funcionamento e as condições exigidas (ter um coração puro, desviar-se do mal, blá, blá…) para quem faz as perguntas não exitei:

“Uma vez na Biblioteconomia, a que distância estamos da tristeza e da felicidade” ao que obtive a resposta:

BSF1

 

BSF2

 

Como podem perceber, a distância é a mesma. Trata-se de três degraus, é como dizer que você está a três passos para ser feliz ou triste na Biblioteconomia. Mas notem que para se chegar à felicidade é necessário passar pela CDD!

Só não direi que qualquer semelhança é mera coincidência porque isso é ciência. E é por isso que I Fuck… <3 Science!

(*) Solução baseada em artigos da Wikipédia. Para usos acadêmicos de análises de 6 graus de separação de artigos da wikipédia, acesse: Degrees of Wikipedia.

Jimmy Wales no Brasil

jimmy-wales

Jimmy Wales, o fundador do Wikipedia, está aqui no Brasil participando de uma série de eventos, e ontem eu, Tiago Murakami, Cauê Araújo e Gerlandy Leão fomos prestigiar.

Não dá pra nem pra assimilar direito, mas o cara é o promotor da maior enciclopédia do mundo, idéia que está diretamente relacionada com os preceitos da biblioteconomia, levantando a bandeira de todas as questões de acesso à informação, construção do conhecimento, participação colaborativa, democratização da informação, etc.

Tem alguns textos falando sobre o debate de ontem, vale mencionar:

O embate entre o mundo acadêmico formal e o processo de aprendizado na internet elevou o tom da discussão no debate. Gilson Schwartz, professor da USP (Universidade de São Paulo), questionou a validade das informações presentes da Wikipédia e da obtenção de dados pela rede.

“Será que esse processo é de aquisição de conhecimento mesmo ou é só a difusão de algo que não passa por um critério que ainda existe na universidade, que é passar por uma avaliação, pela crítica de seus pares?”, disse. “É a mesma coisa ler algo de um físico especializado ou de um ‘zé mané’ blogueiro?” A fala do professor sofreu vaias da platéia e os gritos de “Jimmy, Jimmy”.

Os desafios e oportunidades para produções colaborativas de conhecimentos livres no Brasil foi o tema de debate no Centro Cultural São Paulo, que contou também com a participação de Gilberto Dimenstein, Gilson Schwartz, Karen Worcman, Ladislau Dowbor, Lala Deheinzelin, Reinaldo Pamponet e Renato Rovai.

Eu fiz anotações de alguns pontos importantes. Não dá pra destrinchar todos, mas vejamos:

# acesso ao conhecimento deve ser encarado como um direito humano fundamental
# todos os valores estão sendo transportados para o que é intangível

Direitos autorais, pirataria

#direito autoral está caminhando na direção errada; certifique que a legislação atenda o direito das pessoas de compartilharem
# a base jurídica está no Séx. XIX
# professores autores se preocupam com seus livros, mas obrigam os alunos a tirar xerox
# livros grátis representam um consumo que não reduz o estoque
# o conhecimento é base do enriquecimento (Lawrence Lessig)
# o livro é reprodutível ao infinito (mais fácil de se concretizer no mundo digital)
# uma pessoa que consegue ler um livro inteiro na tela do computador, merece a cópia digital
# pirataria muitas vezes se trata de pessoas que querem ter acesso ao conhecimento. Isso não é legítimo?

Wikipedia

# por que o Wikipedia tem incidência baixa na produção acadêmica? (possíveis respostas: 1. não é respeitado; 2. é pouco estudada, apesar de ser um fenômeno da web)

Educação

# a academia diz que o que vale é revisão por pares, p2p
# será que a universidade e a educação não está perdendo sua relevância?
# formatos e modelos pedagógicos risíveis
# a educação tem como base formar quadros para preencher demandas existentes. Qual é o papel da educação?

Autonomia, sustentabilidade

# a tecnologia em si não necessariamente é um processo de construção do conhecimento
# explosão de aprendizagem informal, o que não reduz o valor do aprendizado formal
# a gente nunca teve a oportunidade de tantas pessoas mostrarem o que sabem

Modelo de negócio

# vender informação para pessoas é um modelo de negócios extremamente raro (exemplo, Wall Street Journal)
# o site, ou blog, ou twitter de uma biblioteca na internet não deve ser uma fonte de renda e sim um mecanismo promocional

Futuro

# democratização da informação não representa transformação social
# estamos na fase do pós-conceito…de refletir sobre aquilo que vai ser, repensando os pré-conceitos e os conceitos

Rolou um atrito entre a defesa dos cânones colaborativos acadêmicos, e o processo da Wikipedia ou de produção em blogs (Cláudia, a questão da relevância: é ou não é relevante, e quem vai julgar?).

Sobre colaboração acadêmica, a defesa foi sobre o método p2p, de que muitos dos conceitos utilizados pelas comunidades colaborativas na web, tem suas raízes na comunicação científico-acadêmica. E que na academia, o processo peer to peer, tem seu valor.

Daí eu me pergunto, como é o processo de publicação em uma revista como a Ciência da Informação por exemplo? Eu submeto meu artigo e ele é avaliado por uma comissão de pares, algo em torno de 5 pessoas. Isso é avaliação p2p? Isso é o suficiente para garantir que meu trabalho tem relevância para a área e garantir o status de ser publicado em um periódicos qualis A?

A outra questão importante, é sobre a irrelevância da wikipedia para a academia. Os professores repudiam wikipedia, repudiam o copiar-colar, mas o que quer dizer tudo isso? Será que a didática não deveria estimular melhores questionamento que não fossem completamente preenchidos por simples verbetes na wikipedia? E será que somente o conhecimento produzido em centros de excelência elitistas é relevante?

Muito do que foi discutido ontem me fez lembrar uma palestra do Ken Robinson no TED, onde ele diz que o modelo de educação global é o de formar professores universitários. Tá errado, tudo errado.

Update:


WikiBrasil – Mutirão de conhecimentos livres 1/4 from Web Radio TV CCSP on Vimeo.

jimmy wales brasil