O apocalipse zumbitecário

Cansada, mas ainda não inteiramente derrotada, a bibliotecária envelhecente sorri ao terminar a leitura dos posts do Bibliotecários Sem Fronteiras que discutem o futuro da profissão. Parte dela, a que se orgulha dos colegas mais jovens e acha que ainda vale a pena estar numa trincheira com gente assim, luta contra a outra parte, a que se distancia cada vez mais do interesse pela profissão. Ela sabe que, no seu caso, o futuro é algo que deve acabar mais cedo e provavelmente mal.

Naquela noite, a bibliotecária envelhecente tem um sonho vívido e rico em detalhes.

Num mundo praticamente sem bibliotecas como hoje as conhecemos, no qual os livros que simplesmente apareciam em lugares inusitados, como centros cirúrgicos e elevadores, eram considerados krönir *, recolhidos rapidamente e vendidos a preços impossíveis para misteriosos colecionadores, os bibliotecários há muito tido como extintos começaram a voltar.

Não, não eram krönir biológicos. Apesar dos insistentes rumores sobre a existência desses seres quase humanos criados pela imaginação de homens e mulheres, os únicos bio-krönir efetivamente documentados eram tigres e outros grandes felinos extintos, um rinoceronte branco e alguns pássaros dodôs, todos ligeiramente diferentes de seus paralelos já extintos no que poucos lunáticos ainda insistiam em chamar de mundo real.

Não, esses bibliotecários em nada lembravam os tigres vermelhos de olhos de chama nem os dodôs com esporões letalmente venenosos. Pareciam antes zumbis pálidos, alguns exibindo sinais de decomposição e marcas dos ferimentos ou doenças que os haviam matado. Surgiam enfurecidos nas imediações das grandes piscinas de leitura que tomaram o lugar de algumas antigas bibliotecas, piscinas azuis onde o leitor podia sonhar as histórias que gostaria de ler e transmiti-las mentalmente em forma de texto, filme ou música para outros que as completavam, modificavam ou apenas usufruíam. Outros foram vistos rondando as casas onde supostamente viveriam colecionadores de livros krönir.

Não eram realmente muitos, mas começaram a despertar o interesse dos fãs de filmes de terror antigos e a preocupar as autoridades. Mas os zumbitecários – como logo começaram ser chamados – nada faziam de errado ou realmente perigoso. Não atacavam, não mordiam, não tentavam devorar cérebros, apenas gritavam o quanto eram importantes e não reconhecidos, lembravam a todos da importância da padronização. Coisas assim que ninguém mais compreendia. Alguns seguravam, com orgulho, pequenos cartazes afirmando que “O Google te oferece 100 mil opções, o bibliotecário te oferece a certa“. Alguns andavam abraçados às regras de catalogação com as quais supostamente teriam sido sepultados. Outros tentaram carregar tabelas de classificação, mas os braços de zumbi não aguentavam tanto peso e se quebravam.

De fato, os zumbitecários não pareciam saber que atitude tomar. Muito comportados para agirem como zumbis normais e mordedores, dividiram-se. Metade queria mudar o paradigma, metade preferia ir para um congresso que oferecesse um bom coffee-break. Uma discussão acalorada começou, mas alguns indivíduos com pose e voz de autoridade aproximaram-se do grupo e pediram silêncio. Obedientes, os zumbitecários se calaram e se dispersaram. Apenas desapareceram quietamente, ninguém soube como. Os últimos foram vistos sentadinhos em frente às piscinas onde não os deixaram entrar, e lá ficaram até se desintegrarem. Um pterodáctilo com asas de prata passou gritando: extinção é para sempre!

A bibliotecária envelhecente acorda com o despertador berrando incoerências e levanta, sacudindo do peito o peso do sonho estranho. No espelho do fundo do corredor, um velho bibliotecário sorri, cego.

* Objetos formados pela duplicação de objetos perdidos originários das “regiões mais antigas de Tlön”, “filhos fortuitos da distração e do esquecimento”. Do conto Tlön, Uqbar, Orbis Tertius, de Jorge Luís Borges.