2083 e o futuro da imaginação

Levei um dia para ler o singelo 2083, do espanhol Vicente Muñoz Puelles. É um livro que fala do futuro e passado dos livros, através do relacionamento de um jovem e seu pai. O pai trabalha em uma empresa que cria mundos virtuais com base em narrativas literárias, uma espécie de catálogo de livros onde os usuários podem escolher para quais tramas querem se teletransportar. Uma vez virtualmente no livro, o viajante assume aleatoriamente a condição de um determinado personagem. Por exemplo, você pode viajar para Os Sertões de Euclides da Cunha, se teletransportar para a guerra de Canudos, vivenciando em carne e osso os acontecimento narrados, seja com um soldado, um sertanista ou até mesmo Antônio Conselheiro. Lokão né? Esse é o futuro que eu quero pra minha vida.

Mas o 2083 no fundo me chamou a atenção por implicitamente tratar da questão da volatidade do livro como conceito e entidade física. Livros (impressos ou digitais) projetam mundos por meio da objetivação de pensamentos. A gente sabe que eles são um meio de tomar um mundo, real ou inventado, e comprimi-lo, codifica-lo e apresentá-lo.

Muito tem se falado sobre os livros como veículos de storytelling, e alguns projetistas estão buscando adequar a experiência de imersão da leitura com os dispositivos tecnológicos que possuímos hoje (a diagramação do 2083 conta com QR codes que incrementam a leitura em papel, por ex). Eu já escrevi sobre isso antes (“o que os bibliotecários precisam saber sobre os ebooks”), mas a melhor maneira de entender a transição da narrativa dos livros, do papel para o digital, explorando o potencial do segundo, é assistindo os vídeos abaixo:

Na trama do 2083, ano em que se passa a história, os livros físicos desaparecem para ceder espaço para essa nova modalidade de imersão narrativa. As pessoas desistem de ler livros simplesmente porque se tornaram desinteressantes. Se eu posso assistir uma representação ou encenação perfeitamente construída de uma realidade imaginada, de que serve o romance em papel, afinal? Ou seja, o estilo literário é apenas um tipo de janela para mundos interessantes, com pontos fortes e fraquezas, zonas de clareza e opacidade, que apesar de esforços contínuos, não consegue, ainda (nos idos de 2014), oferecer a experiência visceral de um vídeo-game ou um filme ou programa de televisão. Por outro lado, reconhecemos que modos não-literários de construção de mundos ainda não são perfeitos em dramatizar o pensamento ou implantar metáforas.

Existem também razões econômicas porque os livros provavelmente não vão desaparecer. Em uma era de conglomerados multinacionais de mídia verticalmente integrados, livros continuam sendo úteis como veículos baratos para a criação de mundos, que posteriormente desovam em outras mídias com maior margem de produtos de consumo. Uma empresa como a DC Comics sustenta sua divisão de quadrinhos quase meramente como um meio de pesquisa e desenvolvimento para seus filmes altamente rentáveis. Os produtores de filmes muitas vezes terceirizam a criatividade a partir de romances populares ou série de livros (Harry Potter, Guerra dos Tronos, Jogos Vorazes, etc).

Mas no final das contas, o livro (seja de poesia, drama ou prosa) se encaixa perfeitamente nos currículos e em programas de estudo em todos os níveis de ensino. E o romance ainda está no topo da pirâmide da narrativa e prestígio cultural. O livro ainda é uma forma com grande capacidade de capturar a imaginação de um público faminto por mundos. Essas são forças que, felizmente, serão difíceis de desconstruir.

O futuro do conceito do livro é, portanto, o futuro da capacidade do livro de facilitar o acesso dos leitores aos mundos. Contanto que os seres humanos tenham fome de mundos inteiramente evocados, que incluam figuração ou informações densamente compactadas ou interpretações de personagens cujas vidas interiores são ricamente acessíveis, algo muito parecido com o livro irá sobreviver.

Não contem com o fim do livro.

O 2083 é um livro bonitinho, voltado para o público infanto-juvenil. Recomendo muitíssimo. Ele é da editora Biruta e pode ser encontrado na Livraria Cultura e Saraiva.

6 pensamentos em “2083 e o futuro da imaginação”

  1. Já coloquei o livro na minha lista pra ler, Moreno. Obrigada pela indicação. E concordo com você, por mais que surjam novas modalidades de contar uma história, acho que o livro físico ainda vai perdurar por muitas décadas ou séculos ainda. Assim como o cinema não acabou com o livro, ou com o rádio, as novas mídias digitais não vão substituir o livro impresso.

  2. De certo modo esta história me remeteu ao enredo do filme “O Congresso Futurista”, sobre o qual li recentemente.

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